Um ano depois da primeira licença só 16% dos utilizadores usa 5G

Há mais de quatro mil antenas 5G no país. Cobertura territorial é elevada, acima da média europeia, mas maioria das zonas do interior do país ainda está excluída. Meo, NOS e Vodafone desenvolvem oferta, enquanto não há sinal do 5G da Digi e Nowo.

Um ano depois de a Autoridade Nacional de Comunicações (Anacom) ter emitido a primeira licença 5G - um marco tecnológico que se assinala este sábado - os consumidores nacionais já encontram a nova rede móvel em grande parte do território português. No entanto, apesar de 60% dos telemóveis vendidos no país suportarem 5G, atualmente só 16,4% usa a nova rede para aceder à internet móvel.

A NOS foi o primeiro operador de telecomunicações a obter autorização do regulador para explorar comercialmente o 5G, a 26 de novembro de 2021, um mês depois de o país ter sido o penúltimo da União Europeia (UE) a terminar o leilão de frequências. Em jeito de balanço, o administrador da NOS Manuel Ramalho Eanes afirma ao Dinheiro Vivo (DV) que "a avaliação é claramente positiva".

"Hoje, apenas um ano após a atribuição das licenças, mais de 85% da população portuguesa já tem acesso à rede 5G da NOS", diz, realçando que a telecom já investiu 350 milhões de euros na nova rede móvel, nos últimos dois anos. A NOS não diz quanto da base de clientes usa 5G, mas revela que "tem mais de 3 200 antenas [184 para o 5G] instaladas" e, neste momento, "três em cada quatro smartphones vendidos pela NOS já são 5G".

Há a expectativa de que o 5G chegue aos consumidores, mas a grande corrida para a nova vaga tecnológica é junto das empresas - espera-se que criem novos serviços assentes na elevada capacidade da nova rede. A Anacom não tem dados sobre os chamados verticais 5G, mas já lançou uma campanha que obriga os operadores a instalar antenas 5G a hospitais, universidades, portos ou empresas que o requeiram. No caso da NOS há "mais de 250 projetos em curso, em empresas e instituições das mais diversas áreas, desde a saúde ou o retalho".

"Fizemos uma aposta clara no país e na aceleração da disponibilização do 5G", acrescenta Manuel Ramalho Eanes, lembrando que a NOS foi o operador que mais investiu no leilão de frequências (165,091 milhões de euros). "A prioridade", refere o gestor, "é que todos os portugueses possam usufruir das potencialidades disruptivas do 5G no seu dia a dia".

Plano a "decorrer dentro do esperado"

A Vodafone Portugal foi o segundo operador a receber uma licença 5G e também a segunda telecom que mais investiu no leilão (133,2 milhões de euros). Desafiada a revelar o que a empresa já alcançou com o 5G, fonte oficial conta que, "neste primeiro ano de operação, e a esta data, cerca de 14% da base de clientes da Vodafone Portugal já usa a rede 5G, percentagem que tem vindo a aumentar progressivamente nos últimos meses".

Ainda que questionada sobre o nível de cobertura da rede, sobre o número de antenas e sobre o número de empresas que desenvolvem projetos com o 5G da Vodafone, a mesma fonte limita-se a garantir que a empresa "está comprometida com os objetivos e metas estabelecidos". Acrescenta também que "tem estado empenhada em desenvolver, em parceria, provas de conceito de soluções 5G no tecido empresarial que abrem caminho para acelerar a digitalização do país"

Do lado da Vodafone é, ainda, sublinhado que o plano ao abrigo das obrigações definidas pela Anacom está "a decorrer dentro do esperado". "No entanto, o setor atravessa constrangimentos comuns, nomeadamente o impacto da inflação, sobretudo custos de energia (de que a Vodafone é grande consumidora) e dos combustíveis, além dos distúrbios das cadeias logísticas que aumentam os preços e os prazos de entrega dos equipamentos. Esta situação tem impacto acrescido num momento em que a empresa está a desenvolver múltiplos planos de modernização da rede e a implementar o referido plano de obrigações de cobertura 5G", acrescenta.

Nowo, Digi e Dense Air sem 5G à vista

Dos três operadores históricos, a Meo, da Altice Portugal, foi a última empresa a receber uma licença 5G. E também comparando com NOS e Vodafone foi a que investiu menos no leilão de frequências (125 milhões de euros). Ao DV, o chief technology officer da Altice Portugal, João Teixeira, assegura que "a taxa de cobertura da população portuguesa com 5G da Meo é de 85%". Acrescenta que o operador já tem 218 estações de base para o 5G e que o "número de clientes com terminais 5G, situa-se na ordem das centenas de milhar".

"Apesar do atual período de contração económica - que está em contraciclo com a fase de novos investimentos - o balanço do roll out do 5G é positivo", afirma.

Neste sentido, João Teixeira considera que a Altice Portugal é o "operador mais bem posicionado, a nível de infraestruturas e das competências operacionais e de engenharia, para liderar a transformação digital do país e para contribuir para a maior competitividade à economia".

NOS, Vodafone e Altice continuam, a esta data, a fornecer 5G aos utilizadores de forma gratuita. Recentemente, as três telecom fizeram saber que o período de experimentação sem custos da nova rede móvel fora prolongado até 15 de janeiro de 2023. Os três operadores entendem que se trata de uma oportunidade para possibilitar a experiência do 5G a um maior número de clientes.

Nowo, Digi e Dense Air foram outros operadores a obter licenças 5G. Todavia, até agora, não há quaisquer indicações sobre as ofertas 5G destes operadores. A Nowo está num processo de aquisição por parte da Vodafone Portugal. Quanto à Digi, que antes do leilão não tinha operação no país, chegou a ser noticiado que as ofertas surgiriam na segunda metade deste ano, mas os analistas só preveem serviços deste operador em 2023. Rede 5G da Digi está a ser construída com apoio da Cellnex. Já a polémica Dense Air, que já detinha uma licença para parte do espetro do 5G antes do leilão e que se apresentou ao setor como um operador grossista para densificação de rede em zonas rurais, continua sem revelar quaisquer atividades no país.

Anacom sem "evidências" sobre incumprimento de obrigações

O desenvolvimento do 5G em Portugal ainda vai muito no início. Ao fazer o balanço do primeiro ano junto dos operadores históricos nota-se um otimismo quanto à implementação da nova rede, apesar da chamada de atenção para os desafios do contexto económico. Tal contrasta com outros momentos em que admitiam querer um prolongamento do calendário de obrigações (casos da Vodafone e da NOS). As metas do 5G são para cumprir até 2025, com marcos intercalares em 2023 e 2024

Considerando a existência de diferentes prazos para o cumprimento das obrigações, fonte oficial da Anacom reitera ao DV que não há "quaisquer evidências de que não venham a ser cumpridas [as metas]".

Sem especificar se esperava que, neste momento, o desenvolvimento do 5G estivesse mais avançado, a mesma fonte reforça: "Estão reunidas as condições para que os vários objetivos se concretizem". E lembra que as metas "vão consolidar-se e desenvolver-se ao longo de anos, ou mesmo décadas, e serão complementadas e impactadas por outras medidas e decisões regulatórias e por desenvolvimentos próprios de um setor em constante mudança, pelo que a avaliação do sucesso do leilão será sempre dinâmica e de longo prazo".

Quanto aos novos operadores - como a Nowo e Digi - o regulador revela alguma benevolência. "Não seria expectável que o início da atividade comercial fosse imediato. De facto, a preparação de uma entrada nestes mercados envolve, por exemplo, a construção de uma rede própria, a preparação de raiz de uma nova atividade comercial e, eventualmente, a negociação de acordos de roaming nacional que permitam suprir a inexistência de uma rede com cobertura nacional", afirma fonte oficial da Anacom. Sobre este último ponto, não revela se já há acordos de roaming nacional entre um novo player e um operador histórico.

Dados do terceiro trimestre do regulador sobre a implementação do 5G indicavam que o número de estações de base 5G instaladas no país era 4 317, distribuídas por 271 concelhos (88% dos concelhos no país) e por 1 191 freguesias (só 39% das freguesias no país). O número de estações 5G subiu 48% entre julho e setembro, mas 74% das freguesias com menor população continuavam sem 5G. Além disso, os dados do regulador mostram que os operadores estão a instalar antenas, sobretudo, em zonas urbanas.

De acordo com os últimos dados do Observatório Europeu do 5G, a média da UE de cobertura de rede 5G é 72%.

"Os consumidores nacionais já beneficiam de ofertas com acesso a redes 5G desde o final de 2021, sendo que atualmente 16,4% de todos os acessos à internet móvel são 5G", conclui a mesma fonte. Um dado que é interessante de relacionar com outro fornecido pela consultora IDC: os smartphones 5G representaram 59,4% das vendas entre julho e setembro.

Os operadores de telecomunicações com licenças 5G têm de garantir até 2025 uma cobertura de 95% da população total do país e a uma cobertura de 90% da população de cada uma das freguesias consideradas de baixa densidade, de cada uma das freguesias das regiões autónomas da Madeira e dos Açores e de cada uma das freguesias que integram municípios com freguesias de baixa densidade. Somam-se, ainda, obrigações para levar o 5G a centros de saúde e hospitais públicos, universidades, aeroportos, parques empresariais, além de autoestradas, metropolitanos, linhas ferroviárias, portos e instalações militares.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de