Transavia: "Portugal foi dos primeiros mercados a recuperar. No verão de 2022 vamos ter mais 26% de capacidade"

A companhia do grupo Air France-KLM diz que a falta de slots é um desafio em Portugal, mas garante que está atenta às oportunidades. Uma base aérea em Portugal não está nos planos a curto prazo.

A operação da Transavia, companhia aérea low-cost do grupo Air France-KLM, para o mercado português foi das primeiras a recuperar neste verão. Nicolas Hénin, diretor comercial, assume que a ausência de slots é um desafio. Não quer comentar diretamente a situação da TAP - devido à reestruturação pode ter de libertar slots - mas garante que vão estar atentos às oportunidades porque querem continuar a crescer.

Como é que caracteriza a operação portuguesa da Transavia?
Portugal é um mercado fundamental para nós. Já o era antes da crise e foi um dos primeiros mercados a recuperar da pandemia em termos de tráfego e de load factor [ocupação].

O mercado português?
O mercado português. Conseguimos oferecer quase tantos lugares em julho de 2021 como em julho de 2019. Foi um dos primeiros mercados a recuperar. Apostamos em alguns mercados essenciais na Europa neste verão: Grécia, Espanha e sobretudo Portugal. No mercado português, tivemos 93% de load factor em setembro. Estamos com ocupação quase máxima nos voos. É fundamental para nós porque Portugal é um mercado que combina tipos de tráfego complementares: lazer, visitar amigos e família - por causa da grande comunidade em França - e um pouco do segmento de negócios. Esse é um dos principais motivos porque é um dos primeiros mercados a recuperar. As famílias querem voltar a reunir-se e vimos isso imediatamente assim que foi possível disponibilizar capacidade.

O que esperam deste trimestre?
A nossa capacidade é superior à que tínhamos antes da pandemia no último trimestre. Queremos apostar na recuperação para Portugal, manter aí a nossa posição competitiva e melhorar no próximo verão, quando pretendemos crescer mais.

O que quer dizer com isso?
No verão de 2022, vamos ter mais 26% de capacidade do que no verão de 2019, entre França e Portugal.

Para que aeroportos?
Para todos. Para o Porto vamos acrescentar voos diários; vamos ter entre cinco a seis voos diários entre Paris e o Porto no próximo verão. Vamos ter mais voos diretos para Faro e vamos ter cinco voos diários para Lisboa. Todos os destinos vão crescer. Vamos lançar uma nova rota para Ponta Delgada e também aumentaremos a nossa capacidade para o Funchal, acrescentando voos diretos entre Paris e o Funchal. Em todos os locais em que possamos crescer, cresceremos.

Porque é que decidiram lançar a rota para Ponta Delgada?
Era algo que estávamos a analisar já há algum tempo. Gostamos, por vezes, de descobrir novos mercados e fazê-lo um antes [dos outros].

O mercado francês quer também turismo de natureza?
Sim, é por isso que já estávamos a analisar antes [da pandemia] porque estamos convencidos que é um dos destinos emergentes de lazer que vão crescer no futuro.

Por causa da pandemia?
Mesmo antes. Tivemos alguma hesitação porque tem um tráfego aéreo pequeno; e antes de lançar uma rota é preciso avaliar o risco de colocar um avião para estes destinos e sermos capazes de estimular o tráfego. Mas acho que depois da pandemia este tipo de destinos vão ser perfeitos.

Há mais planos para o mercado português? Uma base aérea?
Até agora, o nosso crescimento tem estado focado no mercado francês e todas as nossas bases estão em França, também porque estamos um bocadinho atrasados face à concorrência. Fomos lançados em 2007, por isso temos muito que recuperar. França foi a área central de desenvolvimento para nós. Há ainda muito que podemos fazer. Neste momento, esse é o foco.

Querem expandir em França e depois ponderar o estrangeiro?
Sim, é esse o plano. E há uma dificuldade adicional em Portugal para ser específico: há constrangimentos ao nível dos slots. As oportunidades não eram muitas antes [da pandemia]; talvez isso mude no futuro. Claro que vamos olhar para qualquer possibilidade a médio prazo. Não no próximo ano, nem possivelmente no seguinte, mas a médio prazo... Em termos de destino, é dos maiores para nós. Portugal seria um forte candidato se ponderarmos abrir uma base no estrangeiro.

Mas não em breve.
Não nos próximos dois anos.

A TAP recebeu uma Ajuda de Estado. Como vê a situação da empresa? A situação da TAP pode ter algum efeito para a Transavia?
É difícil dizer qual o impacto no futuro. Fomos capazes de retomar a nossa operação muito rápido para Portugal neste verão e em resultado disso, quando olhamos para o verão completo - entre abril e outubro - a Transavia France foi o principal operador em termos de capacidade entre Portugal e França. Fomos capazes de alcançar esta posição talvez mais rápido porque fomos capazes de realocar capacidade muito rapidamente. Como vai evoluir no futuro não sei, mas poderá haver algumas oportunidades no futuro ou talvez não. Mas vamos ser muito oportunistas porque Portugal é um mercado fundamental para nós.

Vão estar atentos para perceber se vai haver slots em Lisboa?
Claro. Em Lisboa, mas também no Porto. Estamos sempre em busca de desenvolvimentos lá. Fizemos isso no passado e fomos bem-sucedidos em tê-los e vamos tentar o mesmo no futuro.

Mas como vê a situação da TAP?
Não quero comentar sobre isso.

Esperam atingir os níveis de 2019 em 2023/2024?
Em termos de capacidade, no próximo ano. A capacidade vai ser mais elevada em 2022 do que em 2019. Será cerca de 15% mais elevada na nossa rede. A rentabilidade vai depender na qualidade da procura em 2022.

Relativamente ao aeroporto de Lisboa. Qual é a vossa opinião?
Tem sido um bocadinho desafiante este verão em Lisboa porque o aeroporto estava congestionado. Trabalhámos muito com eles mas tivemos isso em diferentes locais da Europa, porque a velocidade da recuperação, quer em procura quer em tráfego, nem sempre correspondia pela velocidade de recuperação dos aeroportos. Se o tráfego aumentar mais, comparando com os níveis pré-pandémicos, vamos precisar de ter essa correspondência com os aeroportos. Mas estamos ansiosos por ver os desenvolvimentos do Montijo ou de outros locais porque poderia ser uma forma de crescermos e expandir-mos em Portugal. Se há esse atraso, há, e estamos a monitorizar a situação. O importante é que o desenvolvimento das infraestruturas no aeroporto de Lisboa esteja em conformidade com o aumento de tráfego que temos, mesmo no próximo ano. Continuamos a debater a questão com o aeroporto.

O que é que a Transavia aprendeu com a pandemia? E o que isso vai significar para a empresa?

Em primeiro lugar, melhoramos em termos de agilidade ao desenhar por exemplo a nossa rede e tirar partido das oportunidades. Tivemos de redesenhar a nossa rede quase todas as semanas porque um país estava aberto, o outro fechado, e tínhamos de tomar decisões e calendarizar os voos todas as semanas. Agora temos essa agilidade e, de uma perspetiva de negócio, isso também nos ajudou a posicionarmos a capacidade onde a procura é mais elevada. Ainda não estamos 100% num ambiente estável mesmo na Europa e não sabemos como vai ser o futuro. Sentimos que estamos seguros mas não sabemos se irá surgir uma nova variante e não o podemos garantir no futuro próximo. Aprendemos com o que fizemos nos últimos 18 meses e ajudou-nos caso tenhamos de tomar este tipo de decisões no futuro - deslocar capacidade de um ponto para o outro e colocar a nossa capacidade onde está a procura.

O governo português, tal como outros governos europeus, têm vindo a dizer que as viagens de curta distância deveriam ser feitas por comboio. Qual é a vossa posição?

Há duas coisas diferentes. Uma é o que vão ser as regras. Em França, quando há uma alternativa de comboio, que demore menos de duas horas e meia, não se pode voar ponto a ponto. Por exemplo, a Air France teve de descontinuar a rota Paris para Bordéus. Depois, teremos a forma como evoluiu a procura dos clientes. Os clientes vão tomar as suas próprias decisões e o que vemos é que já temos o impacto no mercado francês interno, onde em alguns sítios as pessoas mudaram para o comboio em vez de avião. Por isso, os clientes farão as suas escolhas e vamos adaptarmo-nos. O que vamos procurar é ser complementar aos comboios; onde os comboios não forem relevantes, os aviões poderão ser e as pessoas vão continuar a querer viajar e vamos voar.

A Transavia vai ter mais aviões no próximo verão. Que tipo de aviões? Qual é o plano de expansão?

Temos apenas um tipo de avião e queremos manter assim porque para uma companhia low-cost significa muita eficiência em termos económicos. É fundamental manter um tipo de avião e por isso para nós é Boeing 737 800. E é isso que vamos acrescentar à frota. Temos atualmente 50 e vamos ter mais 11 até abril [de 2022] para termos uma frota de 61 aviões. No verão de 2019, operámos 38 aviões, por isso, passar de 38 para 61 é um crescimento significativo e é dessa forma que vamos ser capazes de crescer para Portugal em 26%, mas também para Espanha, quase duplicando a nossa capacidade, e para a Grécia. Por isso, crescendo na nossa rede, mas crescendo para os nossos principais mercados e onde já vimos a retoma da procura neste verão.

Há vários low-cost na Europa. Acredita que vai haver consolidação?

Poderá acontecer. Quando há uma disrupção económica forte muitas vezes alguns saem destas crises mais fortes, com muita liquidez, e alguns saem das crises com mais dificuldades. Por isso, é o período de tempo em que se vê movimentações nos negócios. Há companhias pequenas mais isoladas. É difícil prever porque depende nomeadamente da velocidade da recuperação, etc. Mas já vimos algumas tentativas, que falharam.

A jornalista viajou a convite da Transavia

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