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Transportes de Lisboa perderam 59,7 milhões de passageiros

Fotografia: Leonardo Negrão / Global Imagens
Fotografia: Leonardo Negrão / Global Imagens

Redução da oferta da Carris já afastou 42,4 milhões de passageiros desde 2010. OMetro está a recuperar passageiros, mas as queixas ainda são muitas.

Informar os passageiros dos tempos de espera até ao próximo autocarro ou à chegada do metro até parecia ser uma boa ideia. No atual estado de coisas, a medida é, na realidade, uma verdadeira fonte de angústia e desespero. Não raro os ecrãs disponíveis nas paragens de autocarro e estações de metro mostram que o próximo autocarro passa dentro de 17 minutos, 28, 42 minutos. No metro repete-se o drama. Os tempos de espera podem ultrapassar os 15 e por vezes os 20 minutos. E não poucas vezes, os mesmos ecrãs passam em repeat a informação que existem perturbações na circulação e que o tempo de espera pode ser superior ao normal.

Os problemas arrastam-se há meses na proporção direta da falta de paciência dos lisboetas, que enfrentam atualmente uma redução da oferta entre os 25% e os 30% de transportes públicos face a 2010. E os mais afetados são os utilizadores da Carris, reconhece a empresa Transportes de Lisboa – que agrega Carris, Metropolitano de Lisboa e Grupo Transtejo – sem quantificar.

Carris contrata 75 novos trabalhadores

É normal que assim seja, a supressão de carreiras, começou em 2011 no âmbito do Plano Estratégico dos Transportes e Infraestruturas lançado para satisfazer as exigências da troika, foi acompanhada pela imposição de reduzir efetivos. Uma medida que foi cumprida e tarda em ser revertida: Só a Carris perdeu face a 2010 um total de 735 efetivos, tendo hoje menos 26,5% de trabalhadores, quando os sucessivos Orçamentos do Estado desde 2011 exigiam uma redução de 15%. No Metro de Lisboa, que tem hoje menos 305 pessoas, a redução foi de 18,2%.

Tanto a Transportes de Lisboa como o ministério do Ambiente, que tutela os transportes públicos, falam na necessidade de reforçar quadros. “A situação do quadro de pessoal das empresas estava esticada ao limite, em grande parte devido ao processo de subconcessão, que estava previsto”, diz fonte do ministério do Ambiente, lembrando que “O OE2016 prevê condições de exceção, particularmente aplicável a estas empresas, que têm uma componente operacional muito forte”. Os processos de contratação já estão em curso, mas os números mostram que ainda há um longo caminho a percorrer: na Carris foram contratados 75 trabalhadores “e já foi despoletado o procedimento de autorização a contratação de mais colaboradores”, diz fonte oficial da empresa. Já no Metro está em curso o processo que permitirá a entrada de 30 trabalhadores. Mais atrasado está o processo de contratação na Transtejo/Soflusa, uma vez que ainda aguarda a aprovação do regime de exceção que permita reforçar quadros.

As dificuldades operacionais vividas pelas empresas são tantas que não chega contratar mais funcionários. Os trabalhadores queixam-se da falta de verbas para financiar a compra de material para a manutenção de carruagens e metro e barcos, o que estará nas causas de muitos dos atrasos. O ministério do Ambiente assegura que, em função das limitações legais e financeiras, “a situação será ultrapassada, repondo os processos de manutenção programada pelas empresas, o que está a acontecer ao ritmo possível”.

Apesar das queixas de trabalhadores e utentes, o presidente da Transportes de Lisboa desvalorizou ontem, em declarações à Lusa, as permanentes avarias verificadas nas estações. Tiago Farias diz que a situação está “muito melhor” e garantiu que, dos 100 elevadores que existem em toda à rede, “há zero avariados ou um”.

“Das 245 escadas e tapetes rolantes, hoje nove não estão a funcionar, duas das quais no Rato”, disse o administrador, explicando que são escadas com dezenas de anos e com “arranjos muito complexos, [por exemplo] porque a peça que avariou já não existe e está a ser feita por medida”, disse ainda.

A insatisfação dos lisboetas face à qualidade do serviço de transportes públicos tem-se traduzido numa redução significativa do número de utilizadores. Só a Carris perdeu desde 2010 quase 42,5 milhões de passageiros, registando uma quebra acentuada na procura. O Metro de Lisboa parece ter conseguido travar as perdas nos últimos 18 meses – havendo a contabilizar o efeito da abertura da estação da Reboleira em Abril deste ano -, mas o crescimento da venda de bilhetes não foi suficiente para evitar que a empresa tenha perdido 14,9 milhões de utilizadores desde 2010.

O que ficou por responder nas questões colocadas pelo Dinheiro Vivo é se as restrições da oferta, cortes de pessoal e falta de manutenções programadas se reflete numa melhoria dos resultados financeiros da empresa. A Transportes de Lisboa remete para Outubro a divulgação dos resultados de 2015, mas os últimos números conhecidos, relativos ao 3.º trimestre do ano passado mostram que apenas a Metro de Lisboa e a Transtejo conseguiram uma ligeira recuperação, ainda que se mantenham no vermelho, com perdas de 53 milhões e 10,8 milhões de euros respetivamente. Já a Carris viu os prejuízos agravarem-se em 39% de 26,9 para 37,3 milhões de euros.

A recuperação, com mais 9,3% de passageiros entre janeiro e agosto, é um dos argumentos invocados pelo presidente da Transportes de Lisboa, Tiago Farias, para justificar “o risco de pontualmente” falhar a operação. Os outros argumentos, disse em entrevista à Lusa, são o crescimento da rede e as “reduções em termos de capacidade de orçamento”.

Ninguém se compromete com a normalização das operações. Nem mesmo a Câmara de Lisboa (CML) que a partir de 1 de janeiro de 2017 assumirá a gestão da Carris – as restantes empresas manterão a tutela do ministério do Ambiente. A transferência está acordada, mas o Dinheiro Vivo sabe que ainda decorre negociações entre a autarquia e o Executivo sobre os termos em que a CML assumirá a gestão.
Contactada, fonte da autarquia não confirma a existência de negociações, mas assegura que “com a gestão camarária será possível ter uma maior e melhor oferta no espaço de tempo mais curto possível”.

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