Coronavírus

Turismo em crise já pensa no day after

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Fotografia: Liam Mckay/Unsplash

Autoridades do turismo não escondem a preocupação com o futuro incerto, mas preparam já o caminho para quando a tempestade passar e a procura voltar.

O arranque de 2020 foi animador para o turismo, com janeiro e fevereiro a arrancar com mais hóspedes e dormidas. Mas a pandemia que começou em dezembro na China, alastrou à Europa em fevereiro e aterrou em força em Portugal neste mês alterou os espíritos, deixando um rasto de receio e imprevisibilidade. “Estávamos num momento incrível. Janeiro continuou a pôr-nos no topo das preferências, estávamos a crescer bem acima da média nacional e, de repente, em 15 dias o cenário inverteu-se totalmente”, diz ao DV o presidente do Turismo do Porto e Norte, Luís Pedro Martins. Os dados preliminares do INE mostram que o setor acolheu mais de 1,6 milhões de hóspedes e 3,9 milhões de dormidas em fevereiro, aumentando 16,0% e 15,3%, respetivamente.

A Páscoa, tipicamente um balão de oxigénio, é uma época cinzenta. A entrada de turistas espanhóis, um dos mercados mais importantes, está vetada. As companhias aéreas têm a maior parte da frota em terra, acumulando milhões em prejuízos, com a Associação Internacional de Transportes Aéreos a estimar já perdas superiores a 70 mil milhões nas receitas com passageiros para as companhias europeias em 2020. Muitos hotéis estão de portas fechadas e os últimos números apontados pela AHP (que representa a hotelaria) indicavam que os prejuízos podiam ascender até 800 milhões entre março e junho, se o setor enfrentasse uma quebra de 50% no número de hóspedes face a 2019. Estimativa feita antes de a situação se agravar e de serem implementadas medidas de restrição de movimentos.

“Esta pandemia é o maior desafio de que há memória”, diz o líder do Turismo do Centro. Até as celebrações católicas estão canceladas, deixando o Santuário de Fátima vazio. “O fecho parcial de fronteiras acaba por ser o fecho total para o turismo. Era uma medida que se impunha e exigiu coragem, mas com Espanha como principal mercado emissor de turistas para o centro, logo depois do mercado nacional, os efeitos são dramáticos”, acrescenta Pedro Machado.

Chegando a primavera e a Páscoa, o Algarve enchia-se de turistas. Não neste ano. “Estamos perante uma situação que evolui rapidamente e em que o efeito da pandemia não se resume à redução na procura turística hoje, mas põe em causa a sobrevivência de empresas e empregos numa região que vive do turismo”, sublinha o presidente da Região de Turismo do Algarve. João Fernandes acredita que a evolução da pandemia vai ser determinante para perceber como vai decorrer o verão e não esconde que a região está já a trabalhar “na construção de ações promocionais, com vista à maior eficácia possível” com o Turismo de Portugal.

Especialmente dependente dos eventos nos primeiros meses do ano, a região de Lisboa também sofre. Assumindo que as campanhas são “normalmente a resposta mais imediata”, Vítor Costa, presidente da ERT-RL, assume que o verão “dependerá de quanto durar a crise. O turismo pode recuperar depressa porque viajar é hoje uma necessidade básica e, depois de uma crise, essa necessidade é maior. Mas a situação económica nos mercados emissores é um fator essencial”.

O presidente do Turismo do Porto e Norte sublinha que TP e Secretaria de Estado, assim como entidades regionais de turismo e agências de promoção externa, estão a trabalhar em duas dimensões. “A mais importante prende-se com tudo o que se possa fazer para mitigar o impacto da crise. Mas estamos já a trabalhar no day after. Vamos reforçar campanhas de promoção do destino, estruturar novos produtos, alinhar estratégias com municípios e privados para no momento em que as circunstâncias o permitam relançar a região no mercado.”

O turismo na Madeira considera que seria “irreal” antecipar o impacto da pandemia na região, mas a Secretaria Regional de Turismo admite que “será gigantesco”. “O governo regional sabe que tem de haver intervenção pública no tecido empresarial, sob pena de algumas empresas não aguentarem. Há que salvaguardar empregos e empresas para poderem funcionar assim que retomarmos o normal.”

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