Um super em cada esquina: abriram quatro por semana em 2020

Pandemia não travou expansão da rede das cadeias. Até ao outono, foram inauguradas cerca de 200 lojas no país - e para o ano, ao que tudo indica, o ritmo não deverá abrandar.

Nem a pandemia parou a fúria de aberturas no retalho: até setembro foram 197 lojas, com os supermercados a liderar a expansão. Abriram 134 supers, uma média de quatro por semana nos primeiros nove meses. Que põe o investimento acima de 474 milhões em lojas novas em 2020. Até setembro, havia 4117 espaços de grandes cadeias no país.

Os dados do Sales Index, da Marktest Consulting, são até setembro, mas não houve abrandamento desde então. "Temos registo de mais um conjunto muito relevante de novos espaços e remodelações, com grande investimento", adianta Gonçalo Lobo Xavier, diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). O dinamismo é mais expressivo no retalho alimentar, onde "a grande maioria dos investimentos e projetos de expansão previstos para 2020 não sofreram cortes radicais, apenas um reajuste da planificação da abertura das lojas. Não se parou o plano de crescimento previsto" e em alguns casos "até superou a expectativa". Até setembro, havia 2999 supermercados, mais 4,7% do que há um ano.

No retalho especializado - desde o início da pandemia, em março, "sempre em perda e sofrimento - o ano não foi tão animado, tendo aberto portas 63 lojas e elevando para 1118 o número de espaços das grandes cadeias. "Há segmentos em que se manteve, com coragem e resiliência, o plano de crescimento previsto. A área da moda foi das que, provavelmente, mais sofreram com o confinamento e a mudança de hábitos dos portugueses, mas há subsegmentos, como os sapatos desportivos, que mantiveram planos de expansão. Na eletrónica também se mantém, apenas com reajustes nos timings", diz Gonçalo Lobo Xavier. O retalho emprega 130 mil pessoas, mas "não há ainda indicação do valor líquido de criação de postos de trabalho com as aberturas. O que posso assegurar é que não despedimos e isso é importante."

Há vários anos que a ordem tem sido expandir e este não foi diferente. Nem mesmo a adesão dos consumidores ao online - com um terço a fazer compras neste canal - abrandou a aposta nas lojas físicas. "O plano de expansão estava programado e em curso antes da pandemia e muitos desses investimentos, depois de iniciados, têm dificuldades e limitações em relação a uma eventual paralisação ou suspensão", justifica Pedro Pimentel, diretor-geral da Centromarca. Novas lojas que visavam, sobretudo, ocupar zonas onde as insígnias estavam menos presentes e, com isso, aproximar-se dos consumidores. "Se isso já tinha razão de ser, ganhou força com a covid e com o consumidor a querer sentir a loja como um lugar confortável e de risco mínimo, optando por fazer suas compras num único local e com a proximidade a ganhar ainda maior valor", refere. O retalho alimentar, de resto, "mostrou-se como um dos setores mais resilientes: os dados da SIBS mostram que mais de metade das compras em lojas físicas aconteceram em farmácias e espaços do retalho alimentar", diz Pimentel.

Sempre a abrir

Continente, Coviran, Aldi, Lidl, Mercadona e Pingo Doce estão entre as cadeias que mais aceleraram aberturas. A Sonae MC, que detém Well"s, SportZone e Continente, abriu 65 lojas, incluindo nove supermercados de proximidade Bom Dia, dois Modelo e cerca de dez Meu Super, "o que permitiu acrescentar mais de 18 mil m2 à área total de venda da rede", adianta fonte oficial da Sonae MC. Um esforço de expansão que implicou um investimento de 45 milhões e criou 740 postos de trabalho. "Até fim do ano, a Sonae MC prevê abrir seis Continente e sete Meu Super - 350 empregos."

"Neste ano abrimos 15 lojas, o que representa cerca de 100 novos postos de trabalho, num investimento a rondar 2 milhões", adianta Acácio Santana, diretor-geral da Coviran Portugal, cooperativa que conta com 290 lojas no país e três plataformas logísticas em Sintra, Vila do Conde e Algoz. "Acompanhando a época do Natal, temos previsto abrir até final do ano, mais três lojas."

O Aldi manteve os planos, "com a abertura de lojas em cidades onde ainda não estava, contribuindo para a criação de emprego", garante Ricardo Santos, diretor-geral de marketing & comunicação da cadeia alemã. Até setembro, foram oito supers, estando previstas ainda duas aberturas, elevando para 83 o total. "Iniciámos a construção do centro logístico na Moita, com um investimento de 60 milhões e criação de 300 empregos diretos e indiretos."

O mesmo fez a Mercadona, com a pandemia a fazer deslizar algumas datas de abertura das dez lojas pensadas para 2020. A última abriu dia 16 em Campanhã, Porto, tendo este sido o ano em que a cadeia espanhola chegou a Viana do Castelo. "O plano de expansão representou um investimento de 140 milhões e levou à criação de mais de 600 postos de trabalho", diz fonte oficial.

Treze são as lojas Pingo Doce que a Jerónimo Martins conta abrir neste ano - foram nove até setembro foram nove - e o grupo que detém também o Recheio conta investir 71 milhões, em linha com anos anteriores. Ou seja, 28% dos 450 milhões que o grupo, presente também na Polónia e Colômbia, tem previsto investir em 2020.

Com 24 intervenções previstas em lojas no ano fiscal 2020-2021 (até fevereiro), o Lidl conta investir até 180 milhões. Quatro são novos supers: Bairro Azul, Barreiro e Santa Maria da Feira já abriram, e a quarta está prevista para Braga. "Há outras calendarizadas, mas é difícil perceber se acontecerão neste ou no próximo ano, mas pelo menos teremos quatro novas", garantiu Alexander Frech, CEO do Lidl, em novembro.

O espírito expansionista tomou igualmente conta dos Mosqueteiros: iam investir 68 milhões, abrir perto de 20 lojas e criar 500 empregos a juntar aos já 14 mil colaboradores. Os Intermarché absorveram a maior fatia. "Queremos mais 11 de norte a sul e mantemos os planos de renovação", absorvendo 36 milhões de investimento, adiantava em agosto o CEO, Laurent Boutbien.

Para o DIA, este foi o ano de implementar o plano de transformação do grupo dono do Minipreço, que "incluiu o fecho de lojas deficitárias e a aposta nas de maior rentabilidade com reflexo em todo o ano. Há um ano, tínhamos uma rede de 576 lojas em Portugal e hoje são 567, um esforço de redimensionamento que permitiu concentrar recursos nas mais rentáveis e reformar 125 lojas até junho", diz Helena Guedes, diretora comercial da DIA Portugal.

Ritmo é para manter

Com o rendimento das famílias a encolher, as restrições impostas pela pandemia e o crescimento do online, irá manter-se o ritmo? "Não temos indicação de travão aos planos de expansão, mas há muita incerteza, até pela mobilidade das pessoas, segurança, normalização do turismo. A incerteza do primeiro trimestre irá determinar correção de rotas e execução de planos no papel", admite Gonçalo Lobo Xavier.

"A redução do poder de compra irá impactar estratégia e planos das diferentes insígnias mas nesta fase o trabalho à distância e a evolução da covid podem condicionar com mais força essas estratégias", reconhece Pedro Pimentel. "Lojas de grande dimensão em zonas de serviços, por exemplo, poderão perder preponderância, enquanto os espaços em zonas habitacionais ou fora de aglomerados urbanos tendem a ganhar", acredita o responsável.

Até ao momento, na Sonae MC não há mudanças de rumo. "No cenário adverso e de incerteza, temos adotado uma postura cautelosa em todas as despesas de capital, contudo não prevemos ainda alterações materiais ao plano de médio e longo prazo." Em particular, nos formatos de proximidade. "As metas de expansão para 2019-2021 são de 50 a 60 novos Continente Bom Dia; 4 a 8 Modelo; e cerca de 150 novas lojas de negócios complementares de crescimento", lembra a empresa.

No Aldi a ordem é expandir, com um olho nos impactos da covid. "Temos previstas 25 novas lojas com novidades para os clientes e emprego nas comunidades. Ultrapassaremos no próximo ano as 100 lojas. No entanto, temos de acompanhar a evolução da pandemia e da conjuntura por ela provocada e caso se revele necessário vamos adaptar o plano de expansão", diz Ricardo Santos. "Um dos nossos objetivos, mesmo com covid, é triplicar as lojas até 2025", diz o responsável. Vão ainda "introduzir um conceito de loja diferenciador, reforçando a presença nos centros urbanos e com um sortido adaptado à procura diária desses polos".

Acácio Santana admite que a Coviran olha 2021 com algum otimismo, já que há associados "que querem abrir segundas e terceiras lojas. A concretização dependerá, porém, da situação conjuntural".

Há ainda oito a dez novos Mercadona planeados. "Conseguimos manter o plano em 2020 e pretendemos cumprir o de 2021. Estamos conscientes das exigências e dificuldades que a covid trouxe mas também confiantes de que, em breve, conseguiremos recuperar alguma normalidade."

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