Adolfo Mesquita Nunes

Vão abrir 47 hotéis, mas metade da oferta está por ocupar

Investidores estão seguros do potencial de crescimento
Investidores estão seguros do potencial de crescimento

O turismo superou todas as expectativas e a hotelaria respondeu com investimento. Ao todo, quase meia centena de novas unidades hoteleiras vão abrir portas este ano. O governo e os responsáveis das regiões de turismo do país são unânimes: mais importante do que construir novo, é requalificar o que já existe. Mas os investidores estão seguros do potencial de crescimento.

Por todo o país, serão inaugurados 47 hotéis este ano, estando já anunciado um projeto para o próximo ano, segundo um levantamento feito pela revista Pulituris Hotelaria. Nenhuma região escapa. Lisboa, que tem uma das taxas de ocupação mais altas, é a campeã das inaugurações: este ano, vai ter 18 novos hotéis, com um total de 1557 quartos. Já o Alentejo, que tem a taxa de ocupação mais baixa, vai inaugurar em 2015 cinco hotéis, que totalizam 322 quartos. Em todo o país, haverá mais de 3400 quartos e o investimento já anunciado atinge quase 300 milhões de euros.

O impacto que o turismo teve na retoma económica é evidente. Em 2014, ainda sem contar com dezembro, as receitas turísticas atingiram os 9,6 mil milhões de euros e o ministro da Economia já garantiu que, dos cem mil empregos criados em 2014, 30% foram criados no sector do turismo. Mas as taxas de ocupação ficam abaixo de metade da oferta total já existente. Justifica-se este investimento em novas unidades?

“A atratividade de um destino turístico constrói-se também com a dinâmica gerada pela livre concorrência, e são os turistas a decidir o que querem ou do que gostam”, diz Adolfo Mesquita Nunes ao Dinheiro Vivo, ressalvando que “não cabe ao Estado impor quotas ou limites à abertura de novos hotéis”. Coisa diferente, acrescenta o secretário de Estado do Turismo, “é a aposta, no que a fundos comunitários diz respeito, na requalificação da nossa oferta”.

É precisamente essa a posição de João Cotrim de Figueiredo, que relembra que “numa altura em que a ocupação hoteleira em Portugal ainda ronda metade da capacidade instalada, o Turismo de Portugal tem dado prioridade à qualificação e diversificação da oferta e não ao seu aumento”. Ainda assim, o presidente do Turismo de Portugal salienta que “perante o crescimento do sector – e das taxas de ocupação – certas regiões e tipologias de empreendimento podem absorver eventuais aumentos de capacidade sem pressionar os preços”. Cabe às entidades privadas identificar essas exceções e tomar as suas decisões de investimento, afirma.

A verdade é que, apesar de a hotelaria ter registado 15,1 milhões de hóspedes e 44 milhões de dormidas entre janeiro e novembro do ano passado, gerando proveitos totais de 2,1 mil milhões de euros e batendo todos os recordes do sector, a taxa de ocupação média, por cama, durante este período, foi de 47,3%. Ou seja, mais de metade das camas de todo o país continuam por ocupar. Mesmo na Madeira, que apresenta a maior taxa de ocupação hoteleira, de 64,2%, não há procura suficiente para a oferta existente.

Perante estes números, Francisco Moser não tem dúvidas. “Existem hotéis a mais e o aumento da procura não será correspondente ao aumento previsto da oferta, pelo que o preço médio e a qualidade tenderão a deteriorar-se”, diz o membro da direção do Turismo de Lisboa e diretor da Altis Hotels. Por isso, “seria muito mais interessante que esta febre empreendedora fosse direcionada para a melhoria e requalificação do parque hoteleiro existente, criando a dinâmica inversa, isto é, aumentando os preços e a perceção de qualidade do destino”, defende.

Pedro Machado, presidente do Turismo do Centro, concorda. “Olho de forma positiva para o aparecimento de novas unidades, que refletem novas preocupações do mercado, nomeadamente nos segmentos de nicho, mas não considero que seja a solução”, diz. E exemplifica: “A única unidade hoteleira do Caramulo vai suspender a sua atividade porque não consegue ter uma taxa de ocupação média suficiente. Se pensarmos em unidades como essa, o facto de se anunciarem aberturas de novos hotéis não vem, nem de perto nem de longe, ao encontro daquilo que é o sentimento das empresas”, critica.

No Algarve, o sentimento é o mesmo. Desidério Silva, presidente do Turismo do Algarve, também reconhece que a prioridade da região é a “melhoria e requalificação” da oferta existente e que, em regiões que têm uma taxa de ocupação a rondar os 30%, “não faz sentido, teoricamente, este investimento”. Mas salienta um aspeto positivo. “Se estes 48 hotéis forem de tal maneira de boa qualidade, isso obriga a que os que existem façam uma retrospetiva e avaliação da sua condição, isto é, pode ser uma motivação para a tal requalificação.”

“O potencial de crescimento é elevado”

Se as autoridades do turismo veem um desafio, os investidores veem uma oportunidade. José Theotonio, CFO do grupo Pestana, salienta, aliás, que “a relação entre taxa de ocupação e investimento não pode ser direta e até pode ser uma falácia”. Isto porque “existe a sazonalidade e o cliente seleciona destinos e tipos de alojamento e, se não tiver disponibilidade no que quer, não vai necessariamente decidir-se por outro destino ou tipo de alojamento”.

O grupo Vila Galé vai investir 15 milhões de euros para abrir 185 quartos na região com menor ocupação, em Évora, mas “acredita que o Alentejo continua a ter um potencial de crescimento elevado”, diz Gonçalo Rebelo Almeida, administrador do grupo. Por outro lado, “Évora é a região do Alentejo com maior procura, tendo uma ocupação superior a 50%”. A seu favor, o grupo tem ainda “uma base de dados de clientes fiéis da marca”. Por isso, a Vila Galé quer “reforçar a promoção do destino, aumentando o número de turistas de negócios e lazer”.

Também o grupo SANA está confiante nas vantagens que Portugal oferece. “É um país com muito potencial devido ao clima, gastronomia, cultura, segurança, estabilidade política e hospitalidade”, considera Carlos Silva Neves, administrador do grupo, que salienta Lisboa como “uma cidade que reúne todos estes fatores atrativos”. Ainda no primeiro trimestre, o grupo vai abrir as portas do Evolution, precisamente na capital. A aposta “surge para satisfazer um público que tem novas necessidades”, já que “a hotelaria já não se cinge à oferta de alojamento e pequeno-almoço”. A hotelaria oferece agora “serviços e proporciona experiências que complementam a oferta de alojamento”.

Carlos Silva Neves acredita que, este ano, a tendência será para que “o número de turistas em Portugal aumente e que se assista a um contínuo crescimento no número de dormidas”.

Nichos são a aposta

E quem ainda não tem uma carteira de clientes fiéis? Confia nos segmentos de nicho. É o caso do Horse & Land Resort, que só começa a funcionar no próximo ano, mas que apresenta o maior investimento da lista de novidades. São 130 milhões de euros, distribuídos por cinco fases de construção. O desafio: é no Alentejo. As vantagens: é no litoral, em Odemira, “uma zona ainda por explorar”, e pega num conceito diferente, apostando no turismo de habitação, no desporto equestre e no segmento sénior, explica Duarte Barrote, diretor da Carapetinho, empresa promotora do projeto.

“Não vamos receber as pessoas que procuram o Algarve, que vêm por estadas curtas, mas aqueles que vêm de férias durante temporadas mais largas”, diz o responsável, que acredita “que o facto de este ser um conceito diferente é suficiente para atrair a procura”. Além disso, as casas disponíveis no empreendimento serão vendidas a um preço bastante competitivo, cerca de 30% abaixo do valor das casas do Algarve.

A primeira fase conta com 72 moradias turísticas, num total de 200 camas, e deverá estar pronta em 2016. Esta será outra das vantagens do projeto. “As fases são totalmente independentes umas das outras. Podemos ir evoluindo à medida que o projeto vai tendo, ou não, aceitação. Se tiver, avançamos para a segunda fase e assim sucessivamente. Se não, ficamos pela primeira fase.” Para já, Duarte Barrote está confiante. As primeiras moradias serão vendidas a operadores turísticos e o empresário garante que têm tido procura “quer de operadores turísticos nacionais quer de internacionais”.

Portugal é “muito atrativo” para os investidores

O Intercontinental Hotels Group é o grupo hoteleiro com maior número de quartos em todo o mundo e não tem nenhuma inauguração marcada para Portugal durante este ano, mas compreende o apetite dos investidores. “Portugal passou por momentos muito difíceis, mas acreditamos que deu os passos que era necessário dar. Estamos a par do crescimento hoteleiro que há no país e sentimos que esta é uma boa área para crescer”, diz Hylko Versteeg, diretor de desenvolvimento do grupo para Portugal e Espanha.

Por isso, e “ainda que possa demorar um ou dois anos” até que a cadeia internacional volte a investir em Portugal, Hylko Versteeg não tem dúvidas de que o país “é muito atrativo em termos de investimento”. E adianta que, embora não vá inaugurar novos hotéis este ano, o grupo está já a trabalhar num projeto, que poderá ser anunciado em breve.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
António Costa, primeiro-ministro. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens )

Conheça a composição do novo Governo de António Costa

António Costa, primeiro-ministro. ( Pedro Granadeiro / Global Imagens )

Conheça a composição do novo Governo de António Costa

luzes, lâmpadas, iluminação

Preço da luz desce 18 cêntimos por mês no mercado regulado em 2020

Outros conteúdos GMG
Vão abrir 47 hotéis, mas metade da oferta está por ocupar