Inovação

Viagens ao espaço deixam turismo com a cabeça na Lua

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Tijolos 3D, habitats insufláveis, hotéis galácticos. Turismo espacial envolve vários negócios que vão muito além das naves. Indústria vale 550 milhões

O pequeno passo de Armstrong na Lua ainda não está ao alcance de todos, mas essa realidade está a mudar. O turismo ultrapassou as fronteiras terrestres e as carteiras mais recheadas já permitem tirar uma selfie com a Terra em fundo ou dormir na estação espacial. Faltam hotéis espaciais e preços low cost. “A Lua está tão perto que é parte da Terra – é como se fosse um continente, o único que podemos ver daqui”, lembra Bernard Foing, do grupo de exploração lunar da ESA, que participou na SUTUS, a primeira conferência sobre as novas fronteiras do turismo.

Foi Dennis Tito, multimilionário americano, quem inaugurou o turismo espacial ao pagar, em 2001, uns 20 milhões de dólares para embarcar numa viagem de oito dias na nave russa Soyuz que o levou à Estação Espacial Internacional. Sete outros, incluindo Mark Shuttleworth, Greg Olsen e Chales Simonyi seguiram-lhe o rasto.

Sem ‘turistas’ desde 2009, podia parecer que o entusiasmo tinha esmorecido, mas a verdade é que há cada vez mais investidores privados nesta corrida. Richard Branson, da Virgin Galactic, Elon Musk, da Space X, ou Jeff Bezos, da Blue Origin, são alguns dos que prometem aproximar o Espaço – e Branson, que fechou agora uma parceria de 20 milhões com a Boeing, deve ser pioneiro.

A NASA não ignora o enorme interesse que o Espaço gera e também já tem programada a primeira viagem turística: por 80 milhões, poderá embarcar em 2020, garantiu Sam Scimemi, diretor da Estação Espacial Internacional da NASA, na SUTUS. Ao preço, acrescem 32 mil dólares por noite por cada turista.

Há 900 pessoas em lista de espera para a viagem de sete horas só para ver a Terra de 110 km de altitude, a bordo de uma nave da Virgin. O português Mário Ferreira, dono da Douro Azul, está na fila desde 2004. Ana Bru, espanhola que comercializa em exclusivo estas viagens em Espanha, também espera pelo dia da descolagem que, segundo o CEO da Virgin Galactic, George T. Whitesides, poderá acontecer na próxima primavera. O pacote custa 250 mil euros. Também os bilhetes para o New Shepard, rocket da Blue Origin de Bezos, devem começar a sair no ano que vem, a custar “centenas de milhares de dólares”, segundo o CEO, Bob Smith.

Foto: Virgin Galactic

Foto: Virgin Galactic

O exemplo da aviação

“É difícil dizer quando é que o turismo espacial será generalizado. Tudo o que é novo é caro, mas quando ganhar escala vai tornar-se acessível a pessoas normais. É a evolução natural. As viagens espaciais estão a abrir-se ao mundo, não é só ao turismo e ao transporte, mas também à indústria produtiva, farmacêutica, mineira, que podem vir a desenvolver negócios no Espaço”, explica Nancy Vermeulen, astrofísica sueca. “Em uma década, será normal ter uma base na Lua e empresas mineiras com negócios lá e escritórios na Terra.” Nancy abriu uma academia para formar pessoas que querem conhecer melhor o Espaço, mas o sonho de ser astronauta não morreu. “É claro que quero ser uma turista espacial; fazendo o que faço, espero poder vir a ter uma oportunidade”, diz ao Dinheiro Vivo.

O volume de lançamentos espaciais está a aumentar 3% ao ano (dados da Blue Origin), mas os analistas admitem que irá acelerar para 50% a 80%. “Os custos vão cair rapidamente com a nova geração de aviões espaciais”, destaca a Market Study Report numa análise ao mercado que em 2018 avaliava em 550 milhões de dólares, e que prevê que triplique em 2025. O crescimento de empresas privadas “vai diminuir o custo do lançamento de satélites e das missões espaciais, revela a consultora.

“O Espaço será democratizado rapidamente”, assegura também Ana Bru. A empresária, que em 1998 levou para o mundo dos operadores turísticos espanhóis o novo conceito de viagens de luxo, admite que o Espaço é o último reduto “da experiência de exclusividade, de algo único” – o que justifica o interesse.

86% dos turistas pagam mais se tiverem uma boa experiência, lembra Carlos de La Lastra, diretor da Escola de hospitality Les Roches, em Marbella. “As primeiras expedições turísticas ao espaço e às profundezas do oceano não vão ser cómodas ou ter grande conforto, mas serão o primeiro passo de viagens de exploração únicas. As novas fronteiras do turismo também vão obrigar a um novo profissional e gestor turístico”, antecipa.

Um mundo de negócios

Se há empresas a desenvolver naves para levar turistas e pacotes mais simples, de viagens sem direito a paragem, também há planos para criar alojamento espacial. É o caso da Bigelow Aerospace, que está a desenvolver habitats espaciais insufláveis que podem acomodar até quatro pessoas por tempo indeterminado e criar áreas de cultivo, cozinha e trabalho.Há outras empresas como a Orion Span que prepara “o primeiro hotel de luxo-acessível do espaço”, onde uma estadia de 12 dias poderá custar 10 milhões de dólares. A expectativa é que a ‘Estação Aurora’ seja lançada em 2021 para começar a receber clientes em 2022.

Fotografia: Orion Span

Fotografia: Orion Span

NA ESA há planos para uma aldeia lunar, onde as cavernas vulcânicas da Lua são vistas com interesse para a construção de cidades, até com hotéis, destaca Bernard Foing que realça a importância do gelo encontrado no satélite natural da Terra: “Com o sistema certo de reciclagem” será precioso.

Também há empresas a especializar-se na impressão 3D de abrigos para a Lua e até Marte: a Harris trabalha com a NASA há 60 anos e tem agora projetos para tijolos 3D que vai testar com apoio da Space Florida.

Rostos do Turismo espacial

Nancy Vermeulen A sueca que queria ser astronauta e forma turistas espaciais

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Era uma vez uma miúda que queria ser astronauta. O sonho de Nancy Vermeulen começou no Planetário de Antuérpia e deveria acabar no espaço, mas, falhadas duas tentativas para ser astronauta, o sonho mudou. Formada em Física, piloto de aviação comercial, Nancy falhou, em 1992, a seleção para se tornar astronauta da ESA. Em 2008 voltou a tentar, mas não chegou ao fim do processo. Seguiu por outras vias. “Desenvolvi um programa completo de treino que prepara qualquer pessoa para uma viagem espacial.” Era o primeiro programa europeu não-governamental de treino espacial. O primeiro contacto surgiu em 2008 e, em 2011, formou um astronauta privado da Virgin Galactic. Em 2018, deu um novo passo com a criação da Space Training Academy, que oferece desde conhecimentos básicos sobre Física a voos em simulador de gravidade zero para preparar qualquer pessoa para sair da Terra. “Queremos ser o centro de treino de astronautas número um na Europa.” O programa completo custa 15 mil euros. Só o treino de voo são 4 mil.

Ana Bru A empreendedora que vende viagens ao espaço por 250 mil dólares

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Desde 2008 que Ana Bru tem garantido um lugar a bordo da nave da Virgin Galactic como turista espacial. Será a primeira mulher espanhola a ver a Terra a 110 quilómetros de altitude. E o marido irá com ela. “Em 2007, quando Richard Branson me revelou que a minha agência era a eleita para comercializar viagens intergalácticas em Espanha eu disse que queria experimentar”, conta a empreendedora, que já tinha sido pioneira, em Espanha, na venda de pacotes de luxo. “Eu só posso vender aquilo que conheço e, por isso, fiz todos os cursos que precisava de fazer para conhecer as forças centrífugas, etc.” Há mais de 10 anos que Bru vende o sonho do espaço. Custa 250 mil dólares e dá acesso a uma viagem de três horas. Para cada viagem, o passageiro tem de ir por sua conta até ao porto espacial de Novo México. Aí, recebe uma formação obrigatória de quatro dias. Em cada nave cabem seis passageiros e dois tripulantes. Ana Bru tem já 900 pessoas em lista de espera para viajarem na segunda e na terceira nave. Ainda não tem data para partir.

Ángel Jané O técnico de painéis solares que já tem bilhete de ida para Marte

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“Há um gene explorador que nos obriga a correr riscos”, diz Ángel Jané. O catalão de 44 anos é um dos cem voluntários que, a partir de 2031, vão partir para Marte, sem bilhete de regresso. “Será um dos maiores projetos da Humanidade. Se ir à Lua foi grandioso para a nossa geração, ir a Marte será o próximo grande salto. Quando me perguntam ‘porquê ir para Marte’ respondo ‘porquê não ir? Viver na Terra, em Marte ou noutro planeta é uma questão de pensar que estás a fazer por ti e pelo resto da humanidade. Os dinossauros foram extintos porque não havia missão espacial.” O calendário da missão Mars One está bem definido e começa já em 2022 com o envio de uma missão não tripulada. Se tudo correr bem, em 2024 enviam-se os primeiros satélites de comunicação e em 2026 e 2029 os Rovers que vão preparar a chegada dos humanos, com a criação de suportes de vida, produção de água e de uma atmosfera respirável. Ángel parte em 2031. Para chegar ao Planeta Vermelho são precisos sete meses de viagem. Desde 2017 que se conhecem os cem nomes que vão integrar esta experiência, que recebeu mais de 2000 voluntários.

*Em Marbelha, a convite da Les Roches

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