cerâmica

Vista Alegre. Entre o trabalho manual e a indústria 4.0

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A procura dos mercados internacionais obriga as fábricas à modernização mas sem perder o cunho tradicional. A reportagem do Dinheiro Vivo

Quando Rafael Bordallo Pinheiro encheu de cerâmica das Caldas da Rainha o pavilhão português na Exposição Internacional de Paris, em 1889, estava a dar o primeiro passo na internacionalização de uma marca.

A medalha de ouro recebida no ano de inauguração da Torre Eiffel é o primeiro selo de aprovação das peças naturalistas e das caricaturas que, 128 anos depois, são cada vez mais procuradas pelos mercados internacionais. França, mantendo vivo este primeiro contacto com as exportações, mas também a Coreia do Sul, o México e a Índia. Na Vista Alegre as exportações já representam perto de 65% do total da faturação e o objetivo é chegar ao 75% em 2020.

Dos nove mil metros quadrados que resultam da junção de três fábricas, nas Caldas da Rainha, saem todos os dias 4100 peças, fruto de várias horas de trabalho manual. “É preciso fazer a modelação à mão com base nos desenhos dos artistas, preparar os moldes para as peças, a partir de modelos novos ou dos moldes originais de Bordallo Pinheiro”, explica Vítor Formiga, responsável pela secção de modelação e que trabalha na fábrica há mais de 40 anos. Uma peça normal demora, em média, três dias a fazer.

Depois, é preciso cozer, arranjar as imperfeições, esculpir, pintar os vidrados. Os verdes, os rosas, os amarelos torrados só ganham vida depois da segunda passagem pelo forno – enquanto estão a ser pintados pela mão firme dos funcionários, o vermelho é branco e o azul outra cor improvável. E o espaço não chega para as encomendas.

“Temos em curso um plano de expansão que prevê mais três mil metros quadrados para melhorar o layout, que é insuficiente para as encomendas e para ir ao encontro do que o cliente pede”, diz Tiago Mendes, diretor fabril. “Em fevereiro tivemos 920 encomendas”.

O investimento rondará os 7,7 milhões de euros, com base numa candidatura ao Portugal 2020, diz Nuno Barra, administrador do grupo, que admite as “dores de crescimento” da Bordallo: quase metade da produção da fábrica já é para os mercados internacionais. O objetivo é produzir 100 mil peças por ano em 2019 e ter mais 50 trabalhadores – atualmente são 206.

“Temos vindo a recrutar jovens saídos da universidade”, diz Nuno Barra. “Há necessidade de ir formando pessoas, é a única forma de manter as características da produção, sobretudo em fábricas de trabalho mais manual”.

Aprender a soprar
O recrutamento é uma dificuldade, não só na Bordallo mas em todas as fábricas do grupo, do vidro da Atlantis à porcelana da Vista Alegre. Na Atlantis, que o ano passado mudou de nome para Vista Alegre para facilitar a internacionalização, o vidro e o cristal continuam a ser trabalhados por mestres vidreiros, a alta temperatura. Uma profissão tradicionalmente masculina mas que já teve um toque feminino: uma funcionária islandesa, que quis praticar na Atlantis os dotes de vidreira.

A fábrica da Atlantis conta com 350 funcionários e, na fase de produção do vidro e cristal, os funcionários trabalham por turnos, cada um com o seu papel e uma hierarquia bem definida. O vidro incandescente passa de estação em estação, sem atropelos nos gestos coreografados e imperturbáveis de quem passa várias horas a segurar, soprar, rodar e cortar vidro debaixo de temperaturas elevadas.

As peças seguem depois para a zona fria, onde são esculpidas ou pintadas à mão e até desenhadas a ouro. O ex-libris da Atlantis “é o cristal e produtos exclusivos como as garrafas de conhaque. Vamos entrar também no mercado das embalagens para perfumes”, explica Sérgio Lourenço, diretor fabril da Atlantis. No caso do cristal, França representa cerca de metade do volume de negócios.

Cerâmica 4.0
Até na inovadora Ria Stone, totalmente automatizada e vocacionada para produzir grés para o Ikea (praticamente 90% da atividade é para exportação), é difícil recrutar. “Os funcionários preferem empresas onde não tenham de trabalhar por turnos e temos dificuldade em concorrer com as grandes multinacionais que existem na zona”, admite Marco Correia, diretor fabril da Ria Stone.

Se na Bordallo ou na Atlantis – e até na Vista Alegre – o quotidiano de um funcionário passa por horas de trabalho manual, imprimindo em cada peça um pormenor delicado e um cunho pessoal, na Ria Stone impera a mecanização.

A indústria 4.0 já chegou aqui, com software especializado a controlar todas as máquinas, a loiça a ser feita em moldes automáticos, as cores misturadas sem mão humana e pintura a ser uniformemente aplicada através de gigantes jatos de spray. “A peça só é manuseada na fase final, para o controlo de qualidade e embalagem”, explica Marco Correia. A Ria Stone está a negociar o alargamento do período de contrato com o Ikea, mas também já está a investir cerca de 15 milhões de euros na expansão, para produzir mais 18 milhões de peças por ano.

Parcerias de materiais
As parcerias entre fábricas começam também a dar frutos. O cristal da Atlantis junta-se à porcelana da própria Vista Alegre, para a criação de peças voltadas para o mercado internacional. Das mãos dos funcionários saem edições limitadas e criadas em parceria com grupos internacionais.

A fábrica da Vista Alegre em Ílhavo tem 650 funcionários, e conjuga a mecanização com o trabalho manual. Dali saem cerca de 50 mil peças por dia, com mais de 12 mil referências diferentes, que chegam às lojas espalhadas por todo o país e aos mercados internacionais. Junto à fábrica, de 25 mil metros quadrados, nasceu um hotel e um museu.

Veja a reportagem. A casa que dá vida ao Zé Povinho

Paulo Pires. “Há contactos para prolongar o contacto com o Ikea”

A Vista Alegre está focada em crescer nos mercados internacionais, garante Paulo Pires, administrador do grupo. Para atingir esse objetivo, vai investir na Bordallo Pinheiro, Atlantis e Vista Alegre e está a renegociar o contrato da Ria Stone com o Ikea.

Qual a estratégia do grupo?
O que pretendemos é ganhar mais nos mercados externos, através da notoriedade da marca. O mercado nacional é um mercado restrito, onde já temos grande quota. Uniformizámos a marca Atlantis para Vista Alegre o ano passado como parte da estratégia de internacionalização, para termos uma marca com mais poder e força.
Quanto do negócio querem captar lá fora?
Neste momento já temos cerca de 64% do total de vendas para exportação e queremos chegar aos 70% a 75% do volume total de negócios até 2020.
Que investimentos estão previstos para as fábricas?
Temos vários projetos nas cinco unidades de cerâmica, no cristal e vidro. Os maiores investimentos são na Bordallo Pinheiro, para aumentar a capacidade operacional, melhorando o fluxo e a eficiência em termos de produtividade, mas mantendo sempre o ADN Bordallo Pinheiro. Na Atlantis temos um projeto de investimento em equipamentos para fabricar cristal de forma mais produtiva e automatizada, o que nos permite entrar em produtos técnicos. Por exemplo, nas embalagens de cristal para produtos de luxo, como o conhaque, e mesmo no setor da perfumaria. Depois na própria unidade da porcelana, na Vista Alegre, também estamos a estudar processos tecnológicos mais avançados.

Como está a correr a Ria Stone?
Ainda estamos numa fase muito embrionária de contactos, mas abrimos as discussões com o Ikea para o aumento da capacidade e prolongamento do contrato. O contrato é de sete anos e iniciámos a produção e expedição em maio de 2014. Este contrato vai até 2021, e o que está em cima da mesa, mas ainda numa fase muito prematura, é prolongá-lo por mais cinco anos, até 2026.

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