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Volkswagen quer baterias dos carros elétricos a dar energia em casa

Maik Stephan, diretor executivo do grupo Volkswagen para a mobilidade elétrica, fotografado esta tarde num Hotel em Cascais durante uma entrevista ao Dinheiro Vivo. ( Gustavo Bom / Global Imagens )
Maik Stephan, diretor executivo do grupo Volkswagen para a mobilidade elétrica, fotografado esta tarde num Hotel em Cascais durante uma entrevista ao Dinheiro Vivo. ( Gustavo Bom / Global Imagens )

Produção e utilização de carros elétricos será neutra em emissões de dióxido de carbono, revela responsável da VW em entrevista ao Dinheiro Vivo.

A Volkswagen quer afastar-se cada vez mais do escândalo da fraude das emissões graças ao mega plano de eletrificação e digitalização de uma das maiores empresas alemãs. Maik Stephan é o principal responsável por esta estratégia e contou ao Dinheiro Vivo quais são as próximas etapas.

Produção de carros elétricos sem emissões de dióxido de carbono nas fábricas, reutilização das baterias para consumo doméstico e ainda o lançamento de serviços de mobilidade são as apostas que se podem esperar nos próximos anos.

O grupo VW quer investir cerca de 44 mil milhões de euros em carros elétricos até 2025. De forma os consumidores vão notar esta aposta?

Vamos investir os 44 mil milhões em eletrificação, digitalização e novas tecnologias. Este montante vai servir para servir carros totalmente elétricos, híbridos e plug-ins (com carregador elétrico) e na preparação das nossas fábricas. O nosso grupo está a transformar-se e vamos mudar completamente o propósito e a nossa estrutura. O carro elétrico é o futuro, por isso é que há três anos o nosso foco centrou-se em duas plataformas: MEB, para veículos de grande produção; e PPE, para automóveis de segmento superior, como nas marcas Porsche e Audi. Este processo está a decorrer e os primeiros carros vão chegar ao mercado já em 2020, com o modelo ID. Temos uma estratégia rumo à eletrificação: decidimos, até agora, que até 2025 vamos ter 100 modelos elétricos e esperamos que representem pelo menos um quinto da frota nesse ano. Em 2030, contamos que 40% das nossas vendas sejam de carros elétricos. Fazemos isto por uma razão: temos o compromisso de cumprir as metas climáticas em 2050, ou seja, nesse ano, a nossa frota será neutra em CO2, não só na utilização e produção mas como em tudo o que fazemos.

Quando é que o grupo vai produzir o último carro de combustão interna?

Considerando a duração média de um automóvel e a nossa meta de neutralidade carbónica para 2050, isto significa que vamos produzir o nosso último automóvel de combustão interna cerca de 10 anos antes, em 2040.

Isso quer dizer que já estão a preparar a última geração do automóvel de combustão?

É certo que o nosso grupo vai continuar a vender carros convencionais por várias décadas, o que implica investimento, preocupações e esforço para otimizar estes automóveis. Vamos fazer tudo o que for necessário para cumprir as normas de emissões e investir muito em tecnologias para cumprir as metas de emissões de CO2 em cada continente.

Quando é que a VW vai vender mais carros elétricos do que de combustão interna?

Já em 2030, cerca de 40% das vendas serão de carros elétricos.

Já estão a converter fábricas para produção de carros elétricos?

Há 18 fábricas que vão poder produzir carros elétricos em todo o mundo: 13 delas na Europa, 4 na China e uma nos Estados Unidos. Pretendemos produzir 330 mil automóveis elétricos por ano só na fábrica alemã de Zwickau [a 300 quilómetros de Berlim].

A Autoeuropa está incluída nas 13 fábricas europeias a serem transformadas?

As primeiras cinco fábricas europeias são Zwickau, Dresden, Emden, Hanover e Mlada Boleslav [na República Checa e a única fora da Alemanha].

Não vão fechar fábricas, apenas convertê-las?

Isso mesmo. A nossa aposta é reconverter fábricas.

Como vão garantir que os novos automóveis são mesmo neutros em emissões?

Na fábrica, apenas utilizamos fontes de energia renováveis. Dispensámos o carvão. Quando isso não for possível, o primeiro passo será plantar árvores para compensar as emissões. Mas já temos mais ideias para evitar as emissões, que ainda não podemos divulgar. Depois da fábrica, o cliente pode escolher, por exemplo, se carrega o carro apenas através de fontes renováveis. Criámos uma empresa, a Elli, que comercializa eletricidade produzida apenas por energias renováveis. O proprietário pode comprar-nos o carro, adquirir um posto de carregamento e garantir um contrato através desta empresa.

Como vão reciclar as baterias?

As baterias são uma área nova para todas as fabricantes de carros. Estamos a tentar entender esta tecnologia, por isso é que no ano passado criámos um centro de competência sobre esta matéria. Estamos a testar como podemos reciclar as baterias. Antes disso, podemos dar-lhes uma segunda vida, como ponto de armazenamento de energia em cassa. Isto serve, por exemplo, para quem tiver painéis solares em casa, que pode usar a energia do painel solar durante o dia e, de noite, abastecer-se através das baterias que antes estavam no carro.

E depois dessa segunda vida?

Estamos em contacto com vários fornecedores para apostar no desmantelamento de baterias e reutilizar todos os materiais. Grande parte dos componentes pode servir para produzir novas baterias.

Como vão vender os carros elétricos? O preço inclui a bateria?

Para já, vendemos apenas o carro completo. O preço final será bastante razoável mas ainda não está decidido. Irá estar no mesmo patamar de um modelo Golf equiparado com motor a gasóleo.

O ID pode ser o novo Carocha, ou seja, um modelo muito popular?

Irá ser, no longo prazo. Será a primeira vaga de novos elétricos e contamos produzir um total de 15 milhões de carros nesta plataforma.

A produção de carros elétricos implica que há peças que não serão necessárias, ao mesmo tempo que outras serão introduzidas. O que vão fazer com os operários que precisam de produzir os novos componentes?

Serão necessárias novas competências para os nossos operários porque não serão necessárias peças como o motor ou a transmissão. Serão precisos menos trabalhadores com os conhecimentos atuais e mais funcionários para o digital e engenharia elétrica. Acordámos com a comissão de trabalhadores do grupo que a transformação da força de trabalho será feita de forma justa, pelo que não serão necessários despedimentos. Mas algumas pessoas não serão substituídas e estamos a criar novos postos de trabalho no digital. Por isso é que criámos o centro de competências digital em Lisboa.

Muitos operários têm 25 ou 30 anos. Vão continuar na fábrica ou serão reconvertidos?

Produzir carros elétricos é mais fácil do que automóveis de combustão interna. Mas em vez de cortarmos no número de trabalhadores, podemos ser mais eficientes. Com o mesmo número de operários poderemos produzir mais carros.

Mas o vosso grupo já não serve apenas para vender carros. Têm serviços de mobilidade.

No final deste ano, vamos começar o We Share, um serviço de partilha de 1500 carros elétricos em Berlim. E vamos expandir para outras cidades na Europa, a seu tempo.

Que outros serviços de mobilidade têm?

Temos o Moia, um serviço de transporte a pedido a partir de uma aplicação móvel e que é uma mistura entre o táxi e o transporte público. O Moia vai do ponto A ao ponto B numa cidade e as pessoas vão entrando no carro conforme as necessidades. Começámos em Hannover com um modelo de nove lugares em Hannover e também já estamos em Hamburgo.

Quais são as semelhanças com a Uber?

O Moia não serve para apenas uma pessoa: é para vários utilizadores, que tenham a mesma rota. Podemos ter seis ou oito pessoas dentro do carro por um preço muito mais baixo pelo mesmo percurso e com um motoristas certificado.

A Daimler e a BMW agora são parceiras nos serviços de mobilidade urbana. A VW continua melhor sozinha do que com parceiros?

Também temos algumas parcerias e até temos investido em algumas startups. Dentro do mercado, somos suficientemente grandes para fazermos tudo sozinhos.

A Seat apresentou no MWC um pequeno carro para serviços de partilha. Podemos esperar isto de outras marcas do grupo VW?

É bom no nosso grupo haver várias marcas, com diferentes posicionamentos. A Seat destina-se aos consumidores mais novos e está a explorar novas formas de mobilidade; a Audi está posicionada no segmento superior; a Skoda é a marca mais racional.

As cidades estão preparadas para a invasão de milhões de carros elétricos?

Ainda não. Mas estamos a trabalhar nessa matéria, em parceria com os políticos e os governos?

É uma preocupação?

Sem dúvida. Do lado do consumidor, a infraestrutura de carregamento não está disponível como deveria estar, sobretudo dentro das cidades. Temos discutido isso junto dos municípios. Por exemplo, podemos apostar em parcerias com os supermercados. Quando a rede estiver devidamente no terreno, não há razão para não se conduzir um carro elétrico, porque será possível carregar o automóvel em qualquer lado.

Em janeiro, o ministro do Ambiente português disse que daqui a quatro anos os automóveis a gasóleo vão deixar de ter valor de mercado. Concorda?

Não. Pelo menos na nossa empresa, os carros a gasóleo cumprem as emissões e não há razão para não conduzir um carro deste género.

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