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A melhor fintech da Europa. “Os reguladores desincentivam a inovação nos bancos”

Pedro Fonseca, CEO da CrowdProcess. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens
Pedro Fonseca, CEO da CrowdProcess. Fotografia: Leonardo Negrão/Global Imagens

CrowdProcess foi eleita melhor startup financeira na Europa e prepara-se para expandir o James, o software de análise de risco de crédito

Muito do crédito malparado que existe em Portugal seria evitável com melhores plataformas de análise de risco como o James, que deu o prémio de melhor fintech da Europa a uma startup financeira portuguesa, a CrowdProcess. Fundada em 2011, a empresa incubada na Startup Lisboa e liderada por Pedro Fonseca, prepara-se para a expansão mundial depois do prémio conquistado no Money 20/20, em Copenhaga, Dinamarca.

São a melhor fintech da Europa. Como se tem refletido este prémio na CrowdProcess?
Tem sido uma semana surreal. Sempre fomos avessos a muita publicidade, porque não estamos destinados ao consumidor, mas sim à área financeira. Não aparecemos tipicamente nas Web Summit desta vida. A nossa base de clientes é ligada à banca, que costuma ter pessoas muito reservadas e, de repente, ter este nível de atenção já é muito diferente do que estamos habituados. De repente, temos o email bombardeado com mensagens de bancos de várias partes da Europa, e potenciais parceiros. É bastante mais do que conseguimos responder com uma empresa deste tamanho.

E como vão responder aos pedidos?
Vamos fazer duas contratações agora e passar de uma situação em que andávamos, como qualquer outra startup, a procurar clientes, para um cenário em que estamos a filtrá-los.

Qual é o principal critério para filtrar clientes?
Depende de quem conseguimos ajudar mais. Há bancos que têm muito bons sistemas de risco, em que podemos ajudá-los um pouco; noutros, a diferença é dramática, por isso é que temos de perceber um bocadinho o que fazer no sistema de um banco.

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E qual é o estado do sistema nos bancos portugueses?
É parecido com a Europa do sul. Nos bancos nórdicos, ingleses e alemães já começaram a usar machine learning, data science, e já têm profissionais de outras áreas na análise de risco. Não é o cenário mais interessante para nós. Depois, há todos os outros bancos, em que geralmente há profissionais muito competentes dentro do departamento de risco – Portugal tem bons matemáticos nesta área – mas as ferramentas que estão lá são de 1998, por falta de atualização de software.

Por falta de investimento ou de interesse?
Este mercado não é muito interessante para as grandes empresas. Em Portugal, Espanha e Itália, os bancos têm o mesmo sistema há muito tempo e funcionam de forma muito conservadora. O algoritmo não é dos melhores, a pessoa que está à frente do departamento de risco esteve a usar uma ferramenta que não é a melhor de uma forma não muito boa.

E isto explica alguns dos problemas da banca portuguesa?
Alguns. Há dois tipos de problemas. Políticos, mais ligados aos reguladores, que desincentivam a inovação nos bancos, que vem associada a muita burocracia. São problemas sistemáticos e que não vai ser uma startup a resolvê-los. Também há problemas tecnológicos. Há muitos algoritmos que foram muito bem montados dentro dos bancos, na altura, com os limites das ferramentas. Consigo separar tão bem um crédito mau de um crédito bom tanto quanto a ferramenta me permite. As pessoas que usam as melhores ferramentas são as que têm melhores resultados.

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O fator humano tem de estar sempre envolvido.
O nosso software chama-se James por um motivo. Porque é o assistente do analista de risco. Só por si, faz tanto quanto uma pessoa de machine learning podia fazer ao entrar num banco, que é muito pouco. Com o James, consegue ajudar o analista a fazer coisas espetaculares.

Trabalham com bancos portugueses de grande ou média dimensão?
Começámos em Portugal com uma parceria com a PwC, ou seja, acabámos por trabalhar com quase todos os bancos.

Disseste há pouco que não costumam participar em eventos como o Web Summit. Já tinham participado num evento da dimensão do Money 20/20?
Foi a primeira vez que apresentámos o James em grande escala. Só tínhamos estado em eventos com investidores da área financeira, com cerca de 200 pessoas. De repente, em Copenhaga, estávamos numa sala com 3 mil pessoas. É uma escala muito maior.

CrowdProcess conquistou prémio de 15 mil euros em Copenhaga. Fotografia: DR

CrowdProcess conquistou prémio de 15 mil euros em Copenhaga. Fotografia: DR

Porque não tinham participado antes em grandes eventos?
Foi uma questão estratégica. Convém uma startup conseguir que o produto resolva muito bem o problema a poucas pessoas antes de tentar escalar à grande. Estivemos a afinar muito bem o nosso produto para não correr antes de começar a andar. Estivemos três anos a preparar este momento. Trabalhamos com o James há ano e meio, em parceria com poucos bancos, para afinar todos os pormenores, para que possamos agora trabalhar com grandes bancos. Não quisemos fazer um produto apenas baseado na realidade portuguesa. Queríamos perceber as semelhanças com outros bancos.

Portugal está preparado para as fintech?
Temos o potencial para estarmos bastante à frente, com startups como a Feedzai, mas que acabam por virar-se para o mercado externo porque Portugal tem pouco apetite para a inovação. Não é que as próprias pessoas sejam conservadoras, mas o regulador português espera para ver o que os outros fazem, há menos vontade de fazer coisas novas porque há um incentivo para se ser conservador. Portugal vai brilhar a nível tecnológico nas fintech, resta saber se a banca portuguesa via beneficiar tanto desta inovação como a estrangeira.

Quais poderão ser os efeitos das fusões entre bancos portugueses?
São capazes de ser uma vantagem, porque criam maior pressão. Enquanto há 10 anos era possível um banco não otimizar tudo para sobreviver e fazer bastante dinheiro, agora, as margens estão mais apertadas para os bancos. Isso faz com que tenham de usar ferramentas para evitar risco de crédito como o James e que combatam a fraude a todo o custo. Também vão ter de aceitar novos sistemas de pagamento. Há abertura e pressão para se fazer mudanças a sério.

Portugal vai brilhar a nível tecnológico nas fintech, resta saber se a banca portuguesa via beneficiar tanto desta inovação como a estrangeira.

O regulador está sensível a isso?
Gostaria de acreditar que sim. Há pessoas dentro do regulador que têm a visão da inovação e que não esperem pelos outros para que isso aconteça, mas a máquina burocrática é pesada.

É mais pesada do que noutros países da Europa?
Tem a ver com a latitude. Quanto mais a sul, mais dói.

Portugal continua a ser o vosso maior mercado?
Já está par a par com o estrangeiro, que está a crescer.

Vão contratar mais pessoas?
Sim, nos próximos meses. Queremos fazer contratações estratégicas, que vão ser essenciais para responder rapidamente aos pedidos dos bancos.

Vamos manter-nos sempre uma empresa de tecnologia. As pessoas não vão chegar ao aeroporto e ver cartazes nossos a vender o James.

E vão manter-se na Startup Lisboa?
Temos dois escritórios, em Lisboa e Nova Iorque. Temos 7 pessoas e em Lisboa temos espaço até 20 pessoas. Não queremos contratar em número. Têm de ser pessoas absolutamente excecionais. Temos feito entrevistas com pessoas que estão em algumas das instituições mais prestigiadas do mundo.

E o que vai acontecer ao James?
Vamos entrar numa fase de globalização, em que vamos trabalhar com parceiros, consultoras e empresas em países em que estamos interessados, para novas geografias. Queremos criar a nossa rede global de distribuição. Vamos manter-nos sempre uma empresa de tecnologia. As pessoas não vão chegar ao aeroporto e ver cartazes nossos a vender o James.

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