The Founder Institute

Adeo Ressi: “Sinto-me culpado ao usar o Facebook”

Adeo Ressi , investidor de Silicon Valley e fundador do The Founder Institute. Fotografia: Leonardo Negrão / Global Imagens
Adeo Ressi , investidor de Silicon Valley e fundador do The Founder Institute. Fotografia: Leonardo Negrão / Global Imagens

Considerado o "fazedor que produz fazedores", este norte-americano fala também sobre o papel dos ICO no ecossistema empreendedor.

Adeo Ressi é considerado o “fazedor que produz fazedores”, segundo o The New York Times. Vindo de Silicon Valley, este norte-americano fundou, em 2009, o The Founder Institute, uma organização que ensina, aos jovens, todo o processo do empreendedorismo, desde a ideia até ao protótipo. O empresário, um dos principais exportadores do conceito de Silicon Valley, esteve na semana passada em Lisboa por causa da parceria entre o The Founder Institute e a Bright Pixel, o laboratório de startups em Portugal.

Além do ecossistema de empreendedorismo, esta entrevista serviu para falar sobre os problemas que tecnológicas como o Facebook e a Uber estão a enfrentar em todo o mundo, o papel das ofertas iniciais de moeda (ICO, na sigla original) nas startups e ainda fez-se uma breve avaliação sobre o mercado português.

Por que é que continua a ser necessário exportar o conceito de Silicon Valley?

Acreditamos que o empreendedorismo está a tornar o mundo num lugar melhor. Por isso, o mais forte hub de empreendedorismo continua a ser Silicon Valley e assim será nos próximos anos. Há várias razões para isso: grande concentração de capital de risco e business angels; mundialmente, representa cerca de metade do investimento por profissionais, em dólares; recentemente, assistimos ao nascimento dos ICO, que é mais distribuído mundialmente. O empreendedorismo traz muita esperança e prosperidade para diferentes regiões, em países desenvolvidos ou em desenvolvimento, onde os potenciais fazedores vão atrás daquilo com que sonham e transformam isso numa empresa onde as pessoas partilham a mesma visão. Exportamos um conceito de alto valor tecnológico para todo o mundo.

Apesar desses benefícios, têm sido publicados livros e reportagens sobre o lado negro de Silicon Valley. Este lado existe mesmo?

Há um lado negro em Silicon Valley, de certeza, mas é endémico a toda a indústria tecnológica. Um dos primeiros problemas é que não proporciona oportunidades iguais. As mulheres estão em minoria, não vemos representantes da comunidade LGBTQ. Isto acontece em todo o lado. Em todas as cidades temos o programa “Female Founder Fellowship“, que já formou 450 mulheres desde 2009 e em que 40% dos negócios são liderados por mulheres. Além disso, há uma grande concentração de negócios que servem para fazer dinheiro, mas que não servem para tornar o mundo melhor. Há muitos investidores em Silicon Valley que puxam muito mais pela lógica dos custos com os consumidores em vez de olhar para os benefícios causados aos consumidores. A ideia é que as empresas foquem-se simplesmente no negócio e que se esqueçam as verdadeiras inovações proporcionadas. Isso tem consequências negativas em empresas como o Facebook, que são plataformas viciantes, onde a visão inicial seria juntar os amigos; mas perdeu-se e transformou-se num local inseguro para as gerações mais novas. Estou numa missão mundial para mostrar que há grandes problemas sociais que enfrentamos. Se acordamos a tempo, poderemos resolver os problemas olhando mais para os benefícios para os consumidores do que os custos. A moeda do sucesso é a crença. Se sair e perceber que vou fazer o bem pelo mundo, então conseguirei convencer um grupo de pessoas e um grupo de investidores e clientes. A moeda do sucesso é partilhar crenças entre pessoas, investidores e utilizadores. São necessários negócios em que as pessoas precisam de acreditar.

A Uber e o Facebook, que têm sido atacadas, já aprenderam essa lição?

Quando há problemas de recursos humanos na Uber, isso prejudica a visão de que não precisamos mais do nosso carro e que podemos ir do ponto A ao ponto B de forma bastante conveniente. A mesma coisa está a acontecer no Facebook: não há dúvida de que é a forma mais fácil de gerir os amigos e comunicar de forma fácil. O problema é quando a plataforma é usada por patifes com más ideias e promove o vício, a insegurança e o narcisismo. Começamos a pôr em causa se esta plataforma tem benefícios ou não para a sociedade. Rapidamente, as pessoas começam a sair de lá.

As pessoas passam cada vez menos tempo no Facebook

Sinto-me culpado ao usar o Facebook, em várias formas. Não gosto das técnicas que estão a ser usadas comigo. Sou sensato para perceber e parar de utilizar, mas também sei que há muitas pessoas que não são sensatas à nossa volta para perceber o que se passa e que, entretanto, ficaram viciadas. Não posso tolerar isso de forma moral e consciente.

Mark Zuckerberg está a tomar as atitudes certas para resolver isto?

Mark Zuckerberg tem de pedir desculpa, para começar. Tem de admitir que fez algo de errado, que causou danos e colocar um plano em ação para resolver isso. As negações dos problemas que têm vindo de membros da estrutura não são a resposta. As pessoas cometem erros a toda a hora, alguns mais conscientes do que outros. O primeiro passo para resolver isso é admitir o problema e creio que o Facebook ainda não admitiu os problemas a nível publicitário e com o user engagement e que vai tomar todas as ações necessárias.

Mark Zuckerberg seria capaz de fazer isso ou deve sair do Facebook, como fez Travis Kalanick com a Uber?

Não acho que isso seja necessário. É preciso é que alguém venha pedir desculpa para começar a resolver o problema, como tem acontecido com a Uber.

Os ICO vieram para ficar ou são apenas uma moda?

Os ICO vieram para ficar, são uma forma viável de investimento, mas grande parte deles tem problemas de uma ou várias formas. Atualmente, estão numa zona cinzenta e ainda não se sabe muito bem como vão impactar no mercado.

E qual será o impacto dos ICO para o capital de risco?

O capital de risco moderno está morto e basta olharmos para a sua utilidade hoje em dia. Os principais acordos de ações preferenciais estão partidos e os acordos iniciais que levaram à entrada dos fundos de capital de risco não deveriam levar à elaboração de quatro, cinco, seis ou sete safe notes [títulos convertíveis]. A entrada clássica dos fundos de capital de risco é através da série A. Só que o número destas operações não mudou nos últimos 10 anos. Ao olharmos de perto, percebemos que o número de empresas que deveriam ter série A aumentou 10 vezes, mas que o número de séries A estabilizou. O que aconteceu foi que muitas empresas inexperientes estão a sair do terreno, porque não fizeram muito bem o seu trabalho e não prepararam a geração seguinte. Estão a mover-se para etapas mais iniciais do investimento – com mais risco mas mais retorno – ou para etapas mais avançadas do investimento – com menos risco e um bom retorno. Temos uma nova classe de investidores de série A, muitos deles inexperientes. É preciso construir e aprender. O risco sistemático que estes investidores estão a correr é enorme.

O que mais o entusiasma num fazedor?

A perspetiva de que mais de 50% das empresas que começarem nos próximos anos vão focar-se em resolver problemas reais e criar oportunidades em vez de estarem preocupados com o retorno financeiro. Quero ver mais empresas a trabalhar para o espaço, doenças oncológicas, transportes, habitação e alimentação. Depois, se conseguirmos estes 50% de startups a trabalharem desta forma, então o mundo vai melhorar bastante num curto espaço de tempo.

Como soube do ecossistema português?

Sigo Portugal há vários anos e vemos que houve um grande crescimento em comparação com outros ecossistemas na Europa. Berlim e Londres, por exemplo, foram sempre ecossistemas muito fortes. Lisboa e Portugal chegaram tarde ao jogo mas apanharam, em várias formas, o lugar onde Berlim e Londres encontravam-se há alguns anos.

De 0 a 10, como colocar Portugal?

Silicon Valley é o 10 – até podia ser o 11 (risos) -, Londres é o 8, Berlim é 7. Lisboa/Portugal estão no 5, mas há dois ou três anos eram um 1 ou 2. Sei que vários fundos de investimento têm olhado para Portugal e têm ganho maturidade a começar a fazer algum investimento. O país tem muito a ganhar se alguns dos melhores investidores de Silicon Valley e embaixadores vierem cá e passarem algum tempo. Alemanha, Reino Unido e França têm o facto de existirem alguns fundos de investimento que têm ajudado nos últimos 5, 10 e 20 anos. Se obtiverem esse nível de experiência, Portugal pode ficar a ganhar.

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