"Atividade nos portos nacionais caiu 6% até março. Em abril já melhorou"

De janeiro a março, o movimento caiu, mas o presidente da Associação de Portos de Portugal e de Sines e Algarve, fala em recuperação em abril

A atividade portuária não para. Com todos os planos de contingência no terreno, José Luís Cacho, Presidente dos Portos de Sines e do Algarve e Presidente da Associação de Portos de Portugal (APS), assegura que todos os portos estão a funcionar em pleno, ainda que no primeiro trimestre tenha desacelerado a atividade. Mas em abril já há sinais de melhoria. A ver vamos se vieram para ficar.

Na pandemia, de que forma os portos podem ser um motor que atenue a paralisação

económica?

Todos os portos estão a funcionar a 100%. Os produtos essenciais - e no caso de Sines são muitos produtos energéticos, como combustíveis e gás natural -, estão a ter até bons desempenhos comparativamente ao ano passado. Nota-se um ligeiro decrescimento no total dos Portos nacionais por volta dos 6% relativamente a período homólogo de 2019 (de janeiro a final de março), mas curiosamente, e isto é um dado novo, no inicio de abril notou-se uma ligeira recuperação relativamente ao ano passado. Não sabemos, até porque ainda é um período muito curto de análise, se vai continuar ou não durante todo mês, mas é um sinal positivo.

Especificamente, o movimento de contentores caiu?

No seu todo dos portos nacionais houve uma ligeira quebra relativamente ao ano passado, entre os 4% e 5% a 6%, se olharmos desde o início do ano, mas, curiosamente, sentiu-se alguma recuperação já em março e no inicio de abril até se notou uma ligeira melhoria face ao período homologo do ano passado.

Estamos a conseguir aguentar o impacto da crise e ter um desempenho normal.

Como prevê que fechará o mês?

Neste cenário que vivemos não gosto de avançar com números.

Os economistas estimam uma recessão em Portugal em 2020. Segundo o ISEG pode ir de 4% a 8%. Ora, em 2019 os portos do continente já movimentaram menos 6,2% de carga face a 2018. A tendência poderá manter-se até final de 2020?

Em períodos de crise, como foi a de 2008, os portos cresceram sempre acima da economia, na ordem dos 5% de ano para ano. Hoje não deveremos associar o movimento dos portos ao crescimento da economia do país onde estão sedeados os portos, porque, de facto, o movimento é cada vez mais global. O comércio mundial tem continuado a crescer e isso, naturalmente, tem efeitos na evolução do transporte marítimos Daí ser difícil antever o que vai acontecer até final do ano. Também há outros fatores como o transshipment, negócio que faz aumentar o movimento e não está diretamente relacionado com a nossa economia.

Os portos assumem um papel determinante nas importações e exportações. Que medidas de contingência têm tomado para continuar a laborar?

Começamos logo no início de fevereiro a preparar este processo e a perceber o que aí vinha, aliás fomos das primeiras entidades a ter um plano de contingência coordenado com a autoridade de saúde, estabelecendo as medidas necessárias dentro dos portos, e fomos atualizando. Fizemos um cumprimento rigoroso das medidas das autoridades de saúde para terminais, áreas portuárias, concessionários, etc, caso a caso, e tem estado a correr bem.

Algumas empresas exportadoras têm manifestado descontentamento pelo facto de as alfândegas terem também funcionários em teletrabalho e que isso estará a aumentar a lentidão nos serviços, atrasando exportações. Tem conhecimento desta situação em Sines?

Em Sines não tive qualquer reclamação nesse sentido da parte das empresas exportadoras. Nos outros portos não tenho conhecimento de nenhuma situação.

A Autoeuropa é uma das maiores exportadoras. Voltará à produção dia 20 deste mês. Será importante para os portos, neste caso Setúbal?

A Autoeuropa tem um peso importante nas nossas exportações, é importante quer pelo trabalho direto quer pelas empresas que indiretamente fabricam componentes para a Autoeuropa e tem um peso muito grande na nossa economia. Excelentes notícias.

Face à pandemia, poderá haver atrasos no plano de investimento de expansão da PSA e no concurso para o terminal novo?

Todos os investimentos, quer da parte pública quer privada, estão a decorrer dentro da normalidade. Na administração portuária, as principais obras, como o prolongamento do molhe, está a correr normalmente. Na parte ferroviária dentro do porto, também a obra está a correr dentro da normalidade. Relativamente à PSA, a informação que tenho é que está tudo a decorrer normalmente e não tem havido qualquer atraso.

E relativamente ao novo terminal Vasco da Gama?

Relativamente ao processo do terminal Vasco da Gama, e é do conhecimento público, por opção nossa e do governo, achou-se por bem que se fizesse uma prorrogação do prazo para a apresentação das propostas, dado que neste contexto internacional tínhamos um conjunto de iniciativas previstas e que tivemos de adiar. Assim, prorrogámos o prazo para o próximo ano, para 6 de Abril de 2021, também que tem em conta até a pedido de alguns concorrentes, para terem a possibilidade de avalia o projeto. Este é um processo que exige muito trabalho e para se concorrer é preciso tempo, no mínimo seis meses de preparação.

Os estivadores enviaram carta aberta a Marcelo Rebelo de Sousa e a António Costa sobre a inoperacionalidade (neste caso relacionada com Porto de Lisboa), antevendo que poderá haver despedimento dos estivadores. Na sua opinião fazem sentido estes receios e denuncias?

Eu vivi um processo parecido no porto de Aveiro, há cerca de seis anos, e o que está a acontecer hoje em Lisboa aconteceu nessa altura em Aveiro. O que posso dizer é que temos de ter um pensamento positivo. Hoje vejo que em Aveiro o porto continua a crescer e trabalham o dobro das pessoas do que antes. Tenho confiança de que o que vier a seguir para o porto de Lisboa será muito positivo e temos de acreditar que, no futuro, vão aparecer mais postos de trabalho e vão aparecer mais oportunidades para trabalhadores e par as empresas que trabalham no porto de Lisboa.

E nos outros portos?

Em Sines e outros, tudo a correr normalmente. No caso de Lisboa, apesar do momento difícil, penso que vão chegar a uma entendimento.

Algum porto recorreu ao lay off?

Não tenho conhecimento de nenhum caso, nem há motivo para isso.

Em termos de plano de contingência, qual foi e medida mais difícil de implementar e que mais mexeu com o dia-a-dia da atividade?

O fundamental tem a ver com o contacto humano e os portos são fronteiras marítimas e recebem navios e dão acesso a pessoas de terra aos navios, recebem tripulações estrangeiras. Se os navios estão contaminados ou não há sempre essa duvida e esse é o fator principal.

Temos todos os nossos trabalhadores, da administração, aos pilotos às pessoas das lanchas e às que trabalham nos terminais e estivadores, que têm de ir aos navios, todas têm de facto um plano de contingência e um conjunto de ações que todos têm de desenvolver. Até hoje não tivemos qualquer problema. Da parte de terra, não tivemos nenhum caso de pessoa infetada, mas temos algumas pessoas de quarentena que tiveram em contacto com pessoas que estavam infetadas. Até temos implementado algumas medidas extra além das que estão nos planos de contingência, algumas por nossa iniciativa, no caso de Sines, e em conjunto com a Câmara Municipal.

Para si, enquanto líder, qual é o maior desafio de gerir um porto em tempo de crise, como a que vivemos hoje?

Estamos a funcionar a 100%, temos mais trabalho agora, mas também nos sentimos recompensados deste esforço, que estendo a todos os trabalhadores e entidades das comunidades portuárias, e que tem contribuído para que o sistema funcione normalmente e assegure a atividade. É um esforço coletivo, meu, do Porto, das autoridades, das empresas privadas que trabalham no porto. É com satisfação que podemos dizer que estamos a atingir os objetivos e que é um esforço coletivo que está a dar resultados.

 

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