Bankinter

“O Bankinter terá 40% do negócio nas empresas em 2018”

Lisboa, 19/05/2016 - Decorreu hoje na Torre Oriente das Torres do Colombo (sede do Bankinter) uma entrevista a Carlos Brandão, presidente do Bankinter Portugal

(Orlando Almeida / Global Imagens)
Lisboa, 19/05/2016 - Decorreu hoje na Torre Oriente das Torres do Colombo (sede do Bankinter) uma entrevista a Carlos Brandão, presidente do Bankinter Portugal (Orlando Almeida / Global Imagens)

Carlos Brandão esteve oito anos no Barclays Portugal e é há pouco mais de um mês o presidente do novo Bankinter Portugal. A sua primeira entrevista.

O que sente um gestor quando tem que fechar um banco como o Barclays, com tantos anos e uma presença tão forte em Portugal?

Não há dúvida de que sentimos sempre alguma nostalgia, porque foram muitos anos de trabalho com ex-colegas, uma relação com uma forma de fazer banca, uma forma diferente de fazer banca. Pessoalmente, conheço o modelo espanhol de fazer banca e conheço o modelo inglês e acredito na complementaridade dos vários modelos. É apenas a nostalgia de quem deixa de trabalhar com um conjunto de pessoas com quem teve a oportunidade de privar e de trabalhar durante anos.

Esteve quantos anos no Barclays?

Oito anos. Mas, acredito que seja apenas a nostalgia pelas pessoas, porque quando estamos numa organização e começamos a ver que esta organização não nos permite fazer as duas coisas que fazem parte da tarefa dos gestores — investir no negócio e nas pessoas — acredito que não tenhamos assim tanta saudade d o passado.

Profissionalmente, não sente uma espécie de frustração?

Não, de forma alguma. O grande mérito de todo este percurso de gestão que tivemos no Barclays foi dar cumprimento às exigências dos próprio acionistas, a orientação que tínhamos de Inglaterra, que era sanear o banco, e torná-lo vendável. Fizemos vários planos de reduções, quer de agências, quer de pessoas, num passado relativamente próximo, e fizemo-lo com grande sucesso. Por isso, esse esforço de saneamento, de fazer a inversão da curva, em termos de resultados do próprio banco, foi conseguido. Não creio que tenhamos de ter qualquer tipo de frustração, bem pelo contrário.

Temos uma estratégia affluent, que queremos prosseguir, de clientes private, e o que nós chamamos de clientes premier.

Em algum momento dessa fase pensou que o Barclays poderia voltar atrás?

A decisão era irredutível.

Quanto tempo antes do anúncio que era assim?

Desde o início, desde 2014 que sabíamos que a decisão era irredutível. Pela inter-relação que tínhamos com Inglaterra, facilmente deu para ver que só havia um caminho e havia que escolher o melhor caminho.

Esteve diretamente ligado à venda do Barclays Portugal?

Estive.

Como é que se chegou ao Bankinter?

Este tipo de processos passa sempre pela criação de vários cadernos de apresentação do banco, uns mais sintéticos e outros mais complexos. Passam pelo contacto com muitos investidores institucionais, ou seja, há várias listas de potenciais compradores. Naturalmente, pela proximidade geográfica, a banca espanhola de referência foi consultada, alguns fundos de private equity que já tinha manifestado a intenção de poder investir em Portugal. O próprio timing em si não foi inocente, porque quando decidimos fazer o lançamento e o início efetivo do processo de venda também teve que ver com aquilo que se estava a passar no mercado em Portugal.

Em que momento foi lançada a venda?

Em março de 2015, momento em que sabíamos que haveria uma conclusão, durante o primeiro semestre, do Novo Banco. Existindo interesse por instituições no mercado português, alguma poderiam sair frustradas, entre aspas, por não ter qualquer tipo de aquisição, e, assim, uma entidade mais pequenina, com outro tipo de características, poderia ser apetecível.

Aproveitaram a boleia?

Entendemos que era o timing correto, não tanto por ia à boleia, mas porque o nosso último ano de reorganização tinha data de conclusão em março de 2015. Foi nesta altura que decidimos que o banco estava devidamente preparado para se dar início a um processo de venda. Naturalmente, tendo em conta o que se passava no mercado em Portugal.

E, então, como se chegou ao Bankinter?

No início, tivemos uma lista global de 21 entidades, que tiveram algum interesse em ver o que era o banco, depois passámos para uma shortlist de cinco entidades, e, finalmente, uma shortlist de três entidades, a quem fizemos um processo de due diligence. No final, entendemos que o Bankinter era aquele que fazia sentido.

Quem eram essas três entidades?

Além do Bankinter, o Banco Santander e o Banco Popular.

Porquê o Bankinter? Foi uma questão financeira?

Não. nestes processos temos que combinar um conjunto de fatores, não apenas o financeiro. O Bankinter foi aquele que nos permitiu chegar primeiro a três grandes objetivos. O primeiro, naturalmente, era o financeiro, porque tínhamos que trazer valor ao acionista. O segundo, tem a ver com o negócio, que era entidade que nos permitiria ter maior complementaridade do negócio em Portugal. E o terceiro tinha a ver com as pessoas. Ou seja, sendo uma entidade que não tinha uma licença para operar em Portugal, à partida, iria ter que utilizar toda a nossa capacidade instalada. E a nível social, era o que maior interesse.

Lisboa, 19/05/2016 - Decorreu hoje na Torre Oriente das Torres do Colombo (sede do Bankinter) uma entrevista a Carlos Brandão, presidente do Bankinter Portugal (Orlando Almeida / Global Imagens)

Têm quase 1000 trabalhadores.

930.

Mantêm o objetivo de não cortar no pessoal e nas agências?

Exato. E temos 84 agência e não temos intenção de aumentar, ou de reduzir.

Fazem sentido estas 84 agências, considerando que todo o sector está a pensar numa crescente digitalização e cada vez menos os clientes vão aos balcões?

Fazem, porque a nossa estratégia é, essencialmente, crescer a base de partida do banco, de 173 mil clientes. Já anunciámos que, em 2016, queremos crescer mais 15 mil clientes. Claro que o futuro irá ditar se esta base de 84 agências é a ideal ou se, por ventura, a poderemos adequar.

Qual é o cliente alvo do Bankinter?

Essencialmente, clientes de rendimento médio alto. Temos uma estratégia affluent, que queremos prosseguir, de clientes private, e o que nós chamamos de clientes premier. Estes são, claramente, o nosso core de atividade. Também queremos clientes particulares, podem não ter o nível de rendimento ou de riqueza de um cliente premier, mas também queremos captar clientes particulares.

Qualquer pessoa pode ser cliente do Bankinter?

Qualquer pessoa tem oportunidade de ser cliente do Bankinter. A forma de servir esta pessoa é que poderá ser diferente, em função daquilo que poderá ser o proveito para o banco. Poderá ter um gestor dedicado, maior ou com menor especialização, ou poderá até fazer parte, por exemplo, de uma espécie de agência digital, uma forma mais barata de servir estes clientes. Um cliente de banca privada, ou um cliente premier tem mais necessidades de assessoramento, no lado do passivo, de produtos financeiros, fundos de investimentos, notas estruturadas. Os clientes particulares têm mais necessidades do ponto de vista de crédito. E a nossa intenção é criar o equilíbrio entre estas duas partes. Não queremos só conceder crédito.

Lisboa, 19/05/2016 - Decorreu hoje na Torre Oriente das Torres do Colombo (sede do Bankinter) uma entrevista a Carlos Brandão, presidente do Bankinter Portugal (Orlando Almeida / Global Imagens)

Os clientes de mass market interessam para a concessão de crédito?

Um cliente premier deve valer à partida 50 mil euros de depósitos no banco, de stock de partida de depósitos junto do banco. Abaixo dos 50 mil euros há uma panóplia tão grande de clientes e com grande interesse.

Mas qual é o posicionamento junto daquelas pessoas que vivem do salário?

Não é o nosso core de atividade.

Quem são os vossos concorrentes neste segmento premier e affluent?

Dos big five, quatro deles da banca privada estão muito ativos neste segmento. Além disso, temos sucursais de bancos estrangeiros em Portugal, que também estão extremamente ativos.

E o que vos distingue da concorrência?

Com uma plataforma completamente aberta no que diz respeito a qualquer produto passivo, nós praticamente conseguimos chegar, taylor made, a qualquer necessidade do cliente.

Os concorrentes também.

Os concorrentes também, mas aí é uma questão de serviço, de sermos mais ou menos especialistas, de incutirmos mais ou menos confiança aos nossos clientes. Em relação ao tema da confiança, é extremamente importante, por exemplo, o facto de sermos um sucursal em Portugal, o rating que temos em Portugal, claramente acima de investment grade, o que é um factor extremamente positivo para os nossos clientes. É com base nestas apostas que queremos ser vistos. Queremos ser um banco inovador, queremos soluções inovadoras taylor made para os nossos clientes, queremos que nos vejam no mercado como alguém que os vai acompanhar ao longo do ciclo de vida. Todos os clientes têm necessidades diferentes, e acima de tudo também queremos ser competitivos.

Como?

Ao nível da remuneração, ao nível dos serviços, e estando muito próximo dos nossos clientes.

Conseguem oferecer remunerações para este segmento de clientes acima do mercado?

Alinhados com a média do mercado, e em determinadas situações, se for necessário competir, naturalmente, estaremos disponíveis para o poder fazer.

Clientes portugueses ou estrangeiros?

Essencialmente clientes portugueses, mas também clientes estrangeiros.

Em relação ao crédito, o vosso objetivo é conceder mais 700 milhões em 2016. Que tipo de crédito? PME e hipotecário?

Não estaremos nas operações muito grandes, atendendo à nossa dimensão do balanço, mas estamos muito focados nas grandes empresas, tanto que temos dois centros de grandes empresas, um no Porto e outro em Lisboa. Do nosso objetivo de 700 milhões de euros, cerca de 500 milhões de euros queremos fazê-lo a empresas. Hoje em dia, temos um balanço — o balanço de partida do Barclays — muito concentrado no crédito a particulares, e dentro do crédito a particulares, muito concentrado no crédito a habitação. Queremos aumentar e melhorar o equilíbrio de balanço entre empresas e particulares.

Qual será o equilíbrio desejável entre empresas e particulares?

Neste momento, temos uma carteira de 4,7 mil milhões de euros, dos quais 3,7 mil milhões de euros são de crédito habitação. Um peso de 80%

Qual é o objetivo?

60%-40%, os 60% para particulares e os 40% para o negócio de empresas. Isso requer algum tempo.

Quando é que isso será possível?

Acreditamos que em 2018 seremos capazes de o fazer.

A concorrência entre os bancos nos bons riscos é enorme e, depois, existe todo um conjunto gigante de outras empresas que ninguém quer. Qual será posicionamento do Bankinter?

Um dos aspetos que nos caracteriza, e que nos vai continuar a caracterizar no futuro é a nossa disciplina de riscos. Hoje em dia, e se olharmos as características do mercado em Portugal, com a euribor negativa, que é um efeito para toda a Europa, com o nível de regulamentação maior, com as exigências de capital cada vez maiores, é extremamente difícil a geração de resultados, se tivermos algum tipo de problema. E com margens à volta de 1,5 % e 2% que temos no negócio das empresas, imagine perder uma operação de um milhão de euros. Isso significa ter de fazer 100 milhões de euros com remuneração zero só para compensar a perda. Isto significa que nos queremos posicionar nos bons riscos. Se tivermos que ser extremamente competitivos nestes bons riscos, vamos sê-lo, utilizando a solvência do nosso balanço, o rating da marca Bankinter, para poder trazer confiança ao banco.

Como é que o Bankinter se posiciona em termos de crédito malparado em relação à média do sector?

Temos, atualmente, um rácio de non performing loans de cerca de 4,9%,

Que compara com uma média no sector de…

Anda à volta de 10% a 12%, em Portugal.

Para crescer não será necessário ser mais flexível?

No negócio das empresas, com as margens que referi, não queremos aumentar, por causa do esforço exponencial em caso de perdas. Mas se olharmos para os particulares, é diferente, e aí temos um binómio entre risco e rentabilidade que poderemos explorar. Ou seja, no negócio particular podemos ir a outros perfis de risco.

Até 2018, esperamos investir cerca de mais 15 milhões de euros.

O crédito à habitação continua a ser um bom negócio? Dizem ter o spread mais baixo do mercado.

O nosso mínimo é de 1,25%. Um spread de 1,25% é para os melhores riscos. Obviamente, que o spread de contratações é bastante superior a 1,25% e ainda se mantém como um negócio extremamente interessante.

Qual é a média, neste momento, do spread do crédito à habitação no Bankinter?

Muito alinhado com a média de mercado, à volta de 2,2%.

Apostam mais na taxa variável ou na taxa fixa?

Neste momento, temos uma oferta muito grande na taxa variável, mas uma das hipóteses é dar aos nossos clientes é uma taxa fixa.

Os sinais dados pelo BCE são de manter as taxas de juro em mínimos históricos. Por quanto tempo mais é que viveremos assim?

Achamos que os preços vão ter de aumentar, obrigatoriamente, mas também não acreditamos que num horizonte temporal inferior a 12 meses se verifique algum tipo de alteração relevante.

No crédito habitação, quais são os objetivos?

150 milhões de euros, em 2016, o que significa que temos que ter contratações médias mensais à volta de 15 milhões de euros. Estamos em linha.

Qual o balanço deste primeiro mês de atividade do Bankinter?

Estamos muito contentes com os resultados, ao nível das nossas três grandes rubricas. Continuamos a crescer recursos no banco, estamos a captar clientes. Posso dizer que captámos cerca de 2200 clientes novos durante este período, o que significa que, face ao objetivo de 15 mil clientes para o ano inteiro, estamos bastante bem.

Mais de 10% num mês.

Sim, num mês e pouco. Ao nível do crédito habitação, queremos ter níveis de produção de cerca de 15 milhões de euros por mês e estamos completamente alinhados, com um ligeiro crescimento. Estamos bastante otimistas.

E nas empresas?

O negócio das empresas é mais difícil, porque tem sempre várias etapas. A visita das empresas, a apresentação da proposta de valor, a autorização interna em termos de limites de crédito desta proposta de valor, de consulta e de novos contactos com as empresas, depois a decisão das empresas e o processo de contratação. Este processo dura sensivelmente entre 60 a 90 dias, até se tornar efetivo.

Tinham algum objetivo?

O objetivo inicial do primeiro mês seria muito de criar pipeline e, nesta altura, já temos autorização a empresas de valor superior a 70 milhões de euros.

Falou de ter conquistado mais 2200 clientes, mas em termos líquidos, qual é o saldo? Alguns clientes foram saindo com o fim do Barclays.

Positivo em cerca de 2000 clientes. Ou seja, não estamos a perder clientes.

Só esses 200?

Cerca de 200 clientes, sim.

Fizeram um investimento muito visível no arranque de atividade do Bankinter. Quanto foi o investimento inicial?

Este investimento é contínuo. Se numa primeira fase, investimos muito para criar notoriedade da marca e das várias ofertas, como é o caso do crédito a habitação, há outros investimentos que vamos ter de continuar a fazer, como é o caso da integração de sistemas, de tirarmos ou cortarmos com a dependência do Barclays a Inglaterra e de passarmos a ter total autonomia de funcionamento do banco em Portugal.

Ainda não existe essa autonomia?

Temos a autonomia de funcionamento mas, por exemplo, do ponto de vista tecnológico, ainda temos alguns processos que vão durar até ao final do ano. Os investimentos incorpóreos que fizemos até à data, em termos de imagem e de dar a conhecer o banco em Portugal, rondaram os dois milhões de euros.

E corpóreos? Não sei se compraram instalações.

Não, isso fez tudo parte do negócio, em que houve a transferência direta de todos os ativos que estavam sob a marca Barclays para a marca Bankinter.

Além destes dois milhões de instalação da marca em Portugal, que outros investimentos estão previstos?

Até 2018, esperamos investir cerca de mais 15 milhões de euros.

Em quê?

Em tecnologia direta, face a uma estratégia digital que o banco tem, em ações para poder melhorar as nossas plataformas de negócio na internet, em pessoas, em formação e melhorias de sistema.

A vossa estratégia de crescimento é orgânica?

Sim.

Está, assim, completamente posta de parte a aquisição do Novo Banco.

Não faz sentido, até porque não faz parte do ADN do Bankinter.

Esta é a segunda aquisição do Bankinter em 50 anos de vida.

Houve uma pequena aquisição de um pequeno banco no Luxemburgo , mas com dimensão, esta é, verdadeiramente, a primeira aquisição do Bankinter.

Porque não fazem aquisições?

Enquanto estratégia, preferimos consolidar o processo de aquisição em Portugal, criar todas as sinergias possíveis de funcionamento entre Portugal e Espanha. E isto, fazemos com total concentração de esforços e de pensamentos naquilo que são os objetivos internos de crescimento. Não queremos desviar a nossa atenção.

O Bankinter é cotado em Espanha, estado em 8º no ranking de todos os bancos. O seu principal acionista é Jaime Botin [irmão de Emilio Botín, entretanto falecido], que tem 22,78%. Existe alguma relação entre o Bankinter e o Santander em Espanha?

Não, de forma alguma. Sempre foi uma parte da família que geriu os seus negócios de forma autónoma e vai manter-se dessa forma.

Faz sentido admitir o Bankinter Portugal à cotação na bolsa de Lisboa?

Para já não.

Porquê?

Isto passa muito por uma decisão estratégica do funcionamento do banco. Neste momento, não vemos grandes vantagens.

O mercado português é pequeno, maduro e muito concorrencial. O que o torna interessante para o Bankinter? Portugal é a extensão natural de Espanha?

E não só. Considerando um banco que terá uma quota de mercado ligeiramente superior a 1%, isso significa que the sky is the limit. Temos todo um espaço de crescimento para fazer. Além disso, a nossa perspetiva para a evolução do mercado em Portugal, em termos macro económicos, é claramente positiva. Prevemos crescimento económico para os próximos tempos. Acreditamos que os indicadores de crédito mal parado e de crédito em incumprimento já chegaram a um ponto de estabilidade e que vamos começar a assistir a uma redução. Aliás, em ciclo direto com o que acontece atualmente na economia. Portanto, com regras de eficiência — o Bankinter é o banco com maiores rácios de eficiência em Espanha –, e com sinergias acreditamos que, com base nesta evolução positiva da economia em Portugal, se consegue fazer banca com resultados interessantes.

O Bankinter está em que lugar do ranking português?

Estamos dentro da classe entre o Montepio, ex-Banif e a Caixa de Crédito Agrícola, enquanto consolidado.

Em termos de quota de mercado, estão acima ou abaixo do Montepio?

Em termos de quota de mercado estamos ligeiramente abaixo.

E qual é objetivo?

Queremos duplicar a nossa quota de mercado, que, atualmente, é de cerca de 1,2%, globalmente. E queremos, acima de tudo, mais do que duplicar a nossa quota de produção de crédito.

Em quanto tempo?

Em cerca de três anos. Queremos passar de um nível de produção das empresas de 1% de produção para cerca de 4%, em 2018, e passar para cerca de 7%, no mercado de particulares.

A banca em Portugal está a passar por uma fase de grande turbulência. O Novo Banco está à venda, fala-se de que o BCP também poderá sofrer alguma reestruturação acionista, o BPI está sob uma OPA. A consolidação faz falta em Portugal?

Acho que vai ter de acontecer, não movimentos de consolidação massivos — não acredito neles –, mas alguns movimentos de consolidação vão ter de acontecer.

E porquê?

Por aquilo que temos vivido, pelo que se passa com o Novo Banco. As estruturas acionistas, algumas delas, com algum tipo de interesses que podem ser divergentes dentro do mercado em Portugal. Acredito que existam fenómenos de consolidação, mas apenas pontuais.

Onde os pivots dessa consolidação serão, sobretudo, estrangeiros?

Acredito que sejam, sobretudo, estrangeiros.

Porque não há dinheiro em Portugal?

Somos uma economia muito pequena, e uma das coisas de que se fala muito tem a ver com a qualidade dos ativos que existe na banca, como um todo. Esta necessidade de consolidação também passa muito por necessidades de capital e de qualidade dos ativos que existem nos balanços do banco. Acredito que a banca estrangeira é a que está melhor posicionada.

O agente consolidador em Portugal é Espanha?

Não necessariamente, mas Espanha será um deles.

Concorda com a tese de que é o BCE que está a conduzir esta estratégia de consolidação no sector bancário em vários países, também em Portugal?

O que o BCE quer são bancos cada vez mais solventes e mais capitalizados. Não acredito que seja uma estratégia deliberada, porque tem um respeito tão grande, quer por bancos pequenos, quer por bancos de maior dimensão. O que se quer, essencialmente, é um sistema financeiro forte, bem capitalizado e que possa servir os seus clientes.

Existe um risco de “espanholização” da banca portuguesa?

Vejo o negócio bancário como um negócio global. A nossa economia tem imenso a ganhar se tiver um sistema forte, saudável e em condições de poder apoiar o crescimento da economia. Se estes capitais vierem de Espanha e forem aplicados de forma responsável, como o que queremos fazer, são bem vindos.

O tecido empresarial português é, sobretudo, constituído por PME e microempresas. Será que essas empresas, com níveis de risco mais elevado, não ficariam em desvantagem perante bancos controlados por entidades estrangeiras?

Acho que não, porque há que diferenciar dois aspetos. Uma questão são os shareholders, os acionistas, outra questão é a gestão, e é a gestão dos bancos, independentemente da sua estrutura de capital, que tem de ter o conhecimento da economia para poder apoiar as empresas em Portugal.

A CGD deve manter-se pública?

Sim, deve manter-se pública.

É necessário mais um banco nacional, para além da CGD, como braço da economia portuguesa?

Se estivermos a falar de um banco, como já se comenta, para poder concentrar ativos maus, ou ativos não produtivos da banca, no nosso caso específico não entendemos essa necessidade.

No vosso caso e, pelos vistos, no caso de muitos outros, que já disseram o mesmo. A ideia de criar um banco mau pode estar relacionada com a resolução de casos concretos, como o do Novo Banco?

Poder, pode. Mas, para responder diretamente à questão, tinha que ter muito mais informação do que aquela que possuo sobre a qualidade dos ativos da banca, que não são apenas ativos morosos, ou de crédito em incumprimento, mas também de outro tipo de ativos, não afetos à exploração. Não tenho essa informação.

A estabilidade política é um fator muito importante para os negócios, os da banca também. Estão reunidas as condições para que se comece a investir em Portugal?

Acho que sim.

Mas o investimento está a demorar a descolar. Relaciona-se com muitos empresários. Qual a sua perceção?

O investimento, na nossa opinião, tem uma relação direta com as restantes rubricas de crescimento da economia. Não podemos esquecer que, até há bem pouco tempo, tivemos crescimento negativo, o que significa que os próprios índices de confiança dos vários sectores estavam a níveis bastante mais baixos do que aquilo que estão agora. Tudo tem o seu tempo, por isso acredito que os níveis de investimento em Portugal vão crescer. O exemplo do Bankinter é claro. Estamos a investir no mercado em Portugal porque acreditamos na perspetiva positiva da evolução da economia. Não creio que o tema político seja uma barreira para o investimento.

Ainda assim as previsões de crescimento estão constantemente a ser questionadas e revistas em baixa.

Mas em valores não muito expressivos.

O regulador do mercado, o garante da estabilidade do sistema financeiro, tem sido alvo de fortes críticas e tem sido atacado na sua ética e idoneidade. O governador do Banco de Portugal mantém as condições para continuar?

O que eu lhe posso dizer é que a relação entre o Bankinter e o regulador sempre se pautou por grande profissionalismo, quer de um lado, quer do outro. Não temos nada a apontar. O que tem dito o principal supervisor europeu é que tem manifestado essa confiança no Banco de Portugal. Por isso, acredito que sim, que tem condições.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Emmanuel Macron, Pedro Sanchez, Angela Merkel, Donald Tusk, Jair Bolsonaro e Mauricio no G20 de Osaka, Japão, 29 de junho de 2019. Fotografia: REUTERS/Jorge Silva

Vírus da guerra comercial já contamina acordo entre Europa e Mercosul

Fotografia: Armando Babani/ EPA.

Sindicato do pessoal de voo lamenta “não atuação do Governo” na Ryanair

O presidente da China, Xi Jinping, fez uma visita de Estado a Portugal no final de 2018. Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens

Angola e China arrastam exportações portuguesas. Alemanha e Itália ainda não

Outros conteúdos GMG
“O Bankinter terá 40% do negócio nas empresas em 2018”