Bernardo Correia: "Temos planos de crescimento muito agressivos em Portugal"

Trabalhou em Londres, na Google, onde formou uma equipa de apoio à transição digital da indústria de Hollywood, mas lidera agora a empresa em Portugal quando o mundo digital está a crescer, com a pandemia, e a regulação está a apertar.

A pandemia teve efeito na digitalização das empresas?
A transformação digital acelerou, em três ou quatro meses, aquilo que se esperava em três ou quatro anos. Mudaram-se hábitos de consumo e de oferta. Em agosto, o YouTube, que pertence à Google, chegou aos seis milhões de utilizadores em Portugal, o que é inédito, se pensarmos que a taxa de penetração da internet cá é de 78%. Há um salto enorme na quantidade de consumo de meios digitais e na oferta de produtos e serviços. Mas precisamos que essa transformação digital não seja superficial, seja permanente e que isso tenha impacto na forma como as empresas estruturam toda a sua cadeia de valor.

A pandemia provocou essas mudanças. E que outras?
A taxa de utilização da ferramenta de videoconferências - o Google Meet, disparou 30 vezes; o Google Classroom, para educação e que a maior parte das escolas pelo mundo utiliza, disparou para números estratosféricos em termos de taxa de utilização. As ferramentas de informação foram uma tábua de salvação para a maior parte de pessoas e empresas. O que é que teria acontecido se esta pandemia tivesse acontecido há 10 ou 20 anos?

Os números que revelou são para Portugal? Ou são globais?
Globais. Portugal segue a tendência internacional em quase tudo. Com algumas exceções, uma delas é o comércio online. A maior parte das empresas cá está atrasada na oferta de serviços de comércio eletrónico. É mais um problema da oferta que da procura. Os portugueses acabam por comprar mais em sites estrangeiros, mas a verdade é que havia pouca oferta desse tipo de serviços. Agora as empresas apanharam uma terapia de choque, porque o consumidor passou a pesquisar por comércio eletrónico. No mundo inteiro disparou duas vezes - o dobro do que era antes - e em Portugal disparou quatro vezes. Assistimos às empresas portuguesas a tentar correr atrás do consumidor.

Correram e estão a conseguir?
Na maior parte dos casos estão. Há casos de aceleração digital exemplares. O caso das famosas máscaras da Mo, únicas no mundo. Não só conceberam o produto e tê-lo à venda em 27 países, via comércio online, em que mais de 60% das vendas são feitas para fora de Portugal. Isto é uma das coisas que mais falta faz em Portugal: empresas com flexibilidade de pensar internacional, que utilizem o comércio eletrónico como forma de expansão dos negócios, para encontrar mercados e que saibam utilizar o processo para encontrar vantagens competitivas.

Que setor ainda não acordou?
Vimos que no retalho houve dificuldade de adaptação. Não é segredo para ninguém. Na indústria de viagens, o setor mais afetado, empresas como a Indie Campers, tem negócio pela Europa fora, com o esforço de passar o negócio para 100% digital.

Porque é que a Google não aposta na venda de produtos em Portugal, como o telemóvel Pixel, colunas inteligentes, câmaras?
Gostava muito de ter mais produtos Google em Portugal, mas estamos a fazer o caminho. Lançámos o assistente do Google, recentemente, e foi um marco importante ter um assistente virtual a falar português de Portugal. Foi um esforço de desenvolvimento e de engenharia considerável. A partir daí vão surgir mais surpresas.

Este ano ou só em 2021?
Não tenho nada para anunciar. Mas, mesmo sem ser hardware, há outros produtos que, se calhar, vamos priorizar para Portugal. Até final do ano, início do próximo...

O Android Pay, por exemplo?
É possível. Não posso confirmar. Mas é uma das que olhamos.

Hoje a loja da Google tem o Chromecast e pouco mais...
Tem o Google Wifi. Mas, em termos de hardware, estamos a olhar para isso com calma. O Google Pixel também não está à venda em Espanha, nem em Itália.

Mas é uma questão de dimensão do mercado?
É uma questão de estratégia internacional. Temos concorrentes enormes e a empresa prefere apostar em ganhar alguma posição em mercados competitivos internacionalmente e, depois, fazer esse esforço de desenvolvimento para o resto dos países. O hardware é um negócio muito novo para nós. Não é o nosso core business.

E o assistente virtual nas colunas ainda não fala português...
Não temos colunas em português de Portugal. Temos já o português do Brasil. Isso está a funcionar.

Só quando vender aqui?
Quando estiverem à venda cá será em português de Portugal.

A Google quer eliminar as cookies de terceiros no Chrome. São usados para o marketing digital das empresas e afetam os negócios. Como está o processo e como conciliar privacidade com necessidade das empresas terem dados de tráfego?
É engraçado pegar na "privacidade", porque é isso que está aqui em questão. Acreditamos que a privacidade é um direito humano fundamental. E temos responsabilidade, enquanto líderes da indústria, de pôr a privacidade dos consumidores em primeiro lugar. E, por isso, criámos um grupo de trabalho aberto, transparente, para todo o mundo, em que recolhemos opiniões e anunciámos que vamos fazer essa transição mais para a frente - não é agora - e tentar eliminar os cookies. Isto é também uma resposta aos desafios colocados pelo GDPR e pela regulação de privacidade, que está mais apertada.

Mas vai penalizar o marketing digital de muitas empresas. Como se vai fazer esse balanço?
Não vamos lançar nada que quebre o modelo de negócio da internet, porque é preciso que as pessoas entendam que a internet é paga pelos anúncios. Estamos apostados em criar um sistema novo que substitui as cookies, mas que respeite privacidade e permita um ambiente de publicidade digital a funcionar tão eficientemente como hoje. É difícil? É. Mas acreditamos que é possível. Vamos gastar tempo nisto.

E quando estará pronto?
Demos dois anos.

Quase 140 países, Portugal incluído, concordam com a criação da taxa Google. De que forma pode afetar o vosso negócio?
É global. Nós pagamos todos os impostos que temos de pagar, seja em qualquer jurisdição ou país.

Quanto é que pagaram de impostos em Portugal, no ano passado?
Pagámos o que tínhamos a pagar. Como empresa, a nível internacional - e é importante as pessoas entenderem - pagamos qualquer coisa como 23% de imposto sobre os lucros. É maior que o IRC... a média que se paga em Portugal, é de 21%.

Fica a ideia de que as grandes tecnológicas não pagam impostos...
Porque o sistema de taxação internacional está a ser construído assim. Não é um problema das empresas de tecnologia, mas das multinacionais. E nós, Google, fomos dos primeiros a levantar a mão e dizer "é preciso reformar, em sede de OCDE, todo o sistema de taxação internacional". O sistema tem de ser reformado. Agora, não vamos ser nós a reformá-lo. Mas podemos ser os primeiros a dizer "era importante que isto mudasse". O nosso CEO global já disse isso várias vezes. Apoiamos essa reforma. Mas é preciso que os governos se entendem. A partir do momento em que os governos mudarem as regras nós, obviamente, cumprimos as regras.

A reforma incluiria a taxa Google?
Eu não sei se querem chamar taxa Google ou não, acho que é um... se calhar temos aí um problema de marketing com essa taxa. O problema não é a taxa Google; o problema é que o lucro das multinacionais é taxado a nível internacional. E qualquer multinacional europeia, que tenha um negócio nos EUA, por exemplo, não é muito diferente a maneira como é taxada. Seja os produtos de luxo, franceses ou carros alemães, seja o que for. O sistema de taxação internacional é um bocado igual para todos. Portanto, o que é preciso é reformar o sistema como um todo. Nesse dia, quando o sistema estiver reformado, e nós, mais uma vez, apoiamos fortemente a reforma, então pagaremos o nosso imposto de uma maneira diferente.

O negócio da Google em Portugal é tributado em Portugal?
O negócio tem uma parte de taxação local e uma parte de taxação na Irlanda, que é onde se faz a faturação dos produtos vendidos em Portugal.

90% do mercado de publicidade é dominado por Google e Facebook. A Google fica com uma parte do bolo dos anúncios exibidos na comunicação social. A Digital News Iniciative é uma compensação?
Não, de todo. Havia falta de inovação no ecossistema de notícias. Neste projeto DNI temos uma relação simbiótica com as notícias. Notícias são conteúdo e a internet depende de conteúdo. E nós temos todo o interesse do mundo em que a indústria de notícias se digitalize e passe a pôr mais conteúdo na internet. É óbvio. O DNI tem a função de promover a inovação dentro do ecossistema de notícias. Por exemplo, aqui no grupo da Global Media, o DNI financiou o estúdio de vídeo do Jornal de Notícias. E financiou o estúdio de rádio do Observador; financiou o Nonio, com mais de um milhão de euros. Estamos a falar de projetos de inovação que não seriam possíveis sem este apoio do Google. E não ficámos por aí. Na pandemia, que afetou gravemente as receitas publicitária de todos os media em Portugal, o Google chegou-se à frente e fizemos um fundo de emergência para o jornalismo e distribuímos fundos aqui, em Portugal, de mais de 600 mil euros, por vários órgãos de informação local. Sentimos aqui uma grande responsabilidade de auxiliar a inovação no ecossistema de notícias. E queremos continuar a fazê-lo, claro.

Vai continuar a contratar em Portugal?
Tudo o que lhe posso dizer é que temos planos muito agressivos aqui em Portugal, em termos de crescimento. Continuamos a achar que Portugal é um país muito interessante para investir. Abrimos um escritório novo, em Lisboa, Portugal é um país com potencial enorme. Não só é um bom país para investir, pequeno mas dinâmico, mas tem capacidade de atrair talento internacional e efetuar trabalho para o resto da Europa ou do mundo. Nesse sentido, é importante o ecossistema das startups e montar operações internacionais aqui. Os planos são continuar a crescer e a apoiar Portugal.

Perfil: Entre o gigante da Google e os media

Com uma longa carreira internacional, voltou a Portugal em maio de 2016. Bernardo Correia é o country manager da Google e tem como responsabilidade o desenvolvimento do negócio junto das empresas portuguesas, agências e anunciantes.

Licenciado em Economia pela Universidade Nova de Lisboa, com experiência em Marketing e especialista no digital, Bernardo Correia juntou-se à Google no Reino Unido em 2008 para liderar o relacionamento da companhia com a indústria de bens de consumo.

Recentemente conduziu as relações da empresa com a indústria de media e entretenimento a nível global, tendo trabalhado com a Fox, Disney, Comcast, Warner Brothers, Sony, Universal Music, Activision, King.com, entre outras.

Recomendadas

Outros Conteúdos GMG

Patrocinado

Apoio de