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Célia Reis. “Mulheres são um stock de inteligência por aproveitar”

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Célia Reis. “Mulheres são um stock de inteligência por aproveitar”

CEO da Altran Portugal assume que não é fácil recrutar em TI e que há pressão salarial. Mas lança um desafio: “Precisamos de meninas nas tecnologias”

Foi na Kasa da Praia, na Foz do Porto, onde decorreu a última grande sessão de recrutamento de cem jovens recém-diplomados nas áreas de engenharia e tecnologia, para a multinacional francesa Altran. Foi uma “suntech”, com atividades, entrevistas e dinâmicas de grupo, para reforçar a equipa de 1800 colaboradores em Portugal, distribuídos pelos centros da empresa no Porto, Lisboa e Fundão, e liderados por Célia Reis.

É fácil recrutar em tecnologias de informação (TI) em Portugal?
À data de hoje estava a mentir se fosse dizer que é fácil porque não é [risos]. Mas não é por não termos excelentes profissionais, que temos. Temos dois fenómenos em paralelo: o de recuperação tecnológica e de transformação digital, e só essa componente aumenta a necessidade de técnicos; a outra vertente é que Portugal conseguiu conquistar e está a consolidar a sua posição enquanto plataforma de deslocalização para acolher centros de desenvolvimento de software, mas não só, centros de alta tecnologia para apoiar a instalação desses centros e, nesse contexto, coloca uma pressão adicional sobre o mercado.

Conseguem cativar tanto engenheiros como engenheiras?
Tentamos manter a paridade tanto quanto possível. É algo que procuramos melhorar e motivar. Temos ainda poucas meninas na área técnica e na área das engenharias, o que é uma pena, porque a engenharia, nomeadamente na nossa área, do software, permite a todos, nomeadamente às senhoras, ter uma disponibilidade e uma flexibilidade de trabalho, porque se pode trabalhar a partir de casa, facilita quando estamos a falar de crianças e de dar apoio à família e, de facto, procuramos motivar as jovens junto de iniciativas que fazemos no secundário a escolherem engenharia e a seguirem esta carreira. As mulheres são um stock de inteligência que não está a ser aproveitado. Precisamos de meninas nas tecnologias.

Tem conseguido encontrar em Portugal os profissionais que procura?
Tenho, com muito esforço. Este é o desafio e o que queremos é colaborar para desenvolver soluções. Há empresas que não encontrando oferta acabam por dar formação específica. Temos colaborado com universidades e politécnicos no sentido de ajustar aquilo que são os conteúdos formativos, ao nível dos TeSP – formações que não são equivalentes a um curso superior mas dá uma base. É constituído por dois anos e permite desde logo integrar um profissional no mercado de trabalho, e depois ele pode progredir e concluir a sua licenciatura. Valorizamos muito estas competências. Temos bons exemplos já com o IP da Guarda e o IP de Castelo Branco. Desenvolvemos conteúdos específicos para a área dos TeSP, que já estão a lecionar há três anos, e todos os elementos que têm concluído com sucesso estas formações têm sido integrados a 100% no mercado de trabalho. É uma área que tem sido um bocadinho menosprezada pelas empresas em Portugal. Temos estado a produzir academias também, para reconverter competências que não são necessariamente de TI, mas que conseguimos, através de formações intensivas, algumas desenvolvidas por nós outras em parceria com a Academia do Código, e todas estas frentes acabam por ajudar a aumentar o volume de profissionais de mercado.

O que procuram?
Os perfis que são diretamente ajustados às nossas atividades são os engenheiros informáticos, de telecomunicações, eletrónica, aeronáutica. Contudo, temos estado a recuperar tudo o que são perfis de engenharia, matemática, biomédica. Vou resumir: todas as formações que têm uma boa base de matemática, que nos dá o raciocínio lógico. Existem também as “soft skills” e temos integrado nos nossos projetos pessoas oriundas de teatro, letras, nada que ver com a área de ciências, que passam pela Academia de Código.

Recrutam para as unidades em Portugal e também para fora do país?
Temos estado a recrutar para as nossas unidades em Portugal. Contudo, os projetos que desenvolvemos aqui são destinados não só ao mercado nacional mas também internacional.

Sente haver pressão salarial nos primeiros recrutamentos?
Há, o que é normal. É a lei da oferta e da procura. Quando a oferta está inferior à procura, que é onde estamos neste momento, os salários naturalmente sobem. O problema não são os salários, o problema é a capacidade de produção das pessoas e a maturidade das pessoas para serem enquadradas neste tipo de projetos.

O salário é o principal atrativo para recrutar?
Espero que nunca seja!… O dinheiro é importante, mas eu diria que a empresa está em más condições quando o salário é o único instrumento de atração que pode apresentar, porque quer dizer que não há nenhuma adesão complementar com a empresa. Apostamos fortemente na motivação, na formação, tentamos privilegiar que exista um bom equilíbrio entre a vida pessoal e profissional, procuramos que as pessoas sintam que podem evoluir em termos de carreira e em termos de conhecimento dentro da nossa empresa.

Pagam mais de 1000 euros a um engenheiro que chega pela primeira vez?
Não há ninguém na empresa que não ganhe mil euros! O desafio não é os mil, os 1200 ou os 1300. Antes, as empresas tinham mais tempo para ajustar os jovens ao ritmo de produção, hoje esse tempo está a encurtar porque todo o modelo tem de se encaixar. No nosso sector o que é chave é o custo de produção e esse não é o salário das pessoas, é o esforço e os métodos, e o conseguir fazer bem à primeira. É todo um conjunto de fatores. Por exemplo, num júnior é aceitável ter uma velocidade de produção mais baixa, faz mais erros e isso no final do dia aumenta o custo de produção. Quer dizer que as equipas têm de ser bem equilibradas e o investimento em formação e a garantia de que os jovens que estão a entrar aceleram na sua integração e estão mais bem adaptados às exigências do mundo de trabalho, essa é a pressão. Daí ser importante nós nos integrarmos com as universidades para que alguma da preparação que antes era feita já em situação de empresa, agora entre no programa universitário.

Porque optam por um modelo de recrutamento diferente? O CV já passou à história?
Diria que sim [risos]. De uma forma muito transparente… porquê? Não é só da perspetiva da empresa, é também da perspetiva do candidato. A interação e as “soft skills”, hoje, tornaram-se muito relevantes. As “soft skills”, o comportamento, a personalidade e as características inatas da pessoa não se medem num CV [curriculum vitae], medem-se em entrevistas, em situações de prática, de testes, de desafios concretos. Daí o CV estar moribundo. É uma folha de papel. Por muito bem que a consiga escrever, não consigo transmitir lá a forma como reajo face a um desafio, a uma tensão. A empresa também tem de se dar a conhecer de outra forma, não é só o anúncio do que é o projeto. Os jovens querem saber mais… o que vão fazer hoje, amanhã, no próximo ano… razão pela qual estamos a organizar estes eventos num ecossistema que quer passar a mensagem de uma empresa próxima das pessoas e com um programa que inclui um conteúdo, em que apresentamos vários projetos de R&D [Research and Development]. São projetos de inovação da nossa autoria e que acabamos por criar pilotos, protótipos de ideias que queremos propor aos nossos clientes. Isso mostra como é que vamos precisar das pessoas e, no meio de tudo isto, as pessoas conhecem-nos melhor.

Reconhece mais-valias num candidato português em comparação com um estrangeiro?
Deixe-me dizer de outra forma: a nossa preparação técnica é muito boa.

Das universidades portuguesas?
Sim. Somos muito, muito bons. Se há coisa de que nos podemos orgulhar é da forma como formamos as nossas pessoas. Depois, a personalidade do candidato português é de resiliência, aguentamos muito bem os desafios. No mundo tecnológico em que a resposta nem sempre é evidente e a pessoa tem de pensar fora da caixa, não é o desenrasca, porque quando estamos a fazer projetos para indústrias certificadas o desenrasca não existe, mas o pensar fora da caixa, que é a parte positiva do desenrasca [risos], essa sim, é muito importante e temos qualidades inatas muito fortes para pensar fora da caixa e encontrar alternativas. Agora, sobretudo em projetos internacionais, a riqueza das equipas é pela sua diversidade.

Quem são os principais clientes da Altran em Portugal?
Não posso dar nomes de clientes por questões de confidencialidade, mas vou-lhe falar de sectores. Como é que nos distribuímos em termos de mercado local e em exportações? Temos 65% de atividade no mercado local e 35% é a equipa que trabalha a partir de Portugal mas o cliente não está baseado em Portugal. No mercado local, as indústrias em que temos mais presença é telecomunicações, administração pública e um bocadinho do sector financeiro. Em termos internacionais, somos muito, muito fortes na indústria automóvel, aeronáutica e também um bocadinho na área de “life sciences” e “financial services”, saúde na perspetiva do software desenvolvido, muitos projetos para interligar o dispositivo móvel com o dispositivo médico, a mesma coisa para os carros. São coisas maravilhosas que os meninos, em particular, adoram.

Neste momento, Portugal é atrativo para o investimento em TI?
Sim e vamos alargar. Não é só TI, ponha tecnologia de uma forma geral. Quando uma empresa está à procura de uma plataforma para criar um centro tecnológico precisa de competências, qualidade, que nós temos, segurança e estabilidade, que nós temos, e precisa de respeito pela propriedade intelectual, que nós culturalmente temos. Depois, as infraestruturas de Portugal são fantásticas, temos 4G em todo o lado e isso faz que, de facto, sejamos um ecossistema,…estamos dentro da Europa, somos um país da NATO, temos uma fluência de línguas fantástica. São características que hoje nos transformam num destino privilegiado para captar investimento dentro da Europa.

Qual o próximo investimento da Altran em Portugal?
Temos estado a crescer muito. Temos mais de 1800 consultores a trabalhar em Portugal. Se compararmos com os números dos últimos anos, temos crescido a um ritmo de mais de 300 pessoas por ano, em termos de criação líquida de postos de trabalho. Se fizer contas ao investimento que temos estado a fazer em Portugal, é fácil fazer as contas. Temos conseguido mostrar ao nosso grupo que, enquanto plataforma de deslocalização – porque são projetos que são vendidos pelos nossos colegas fora de Portugal e depois são executados a partir de Portugal -, os clientes estão satisfeitos. Estamos a uma ou duas horas de distância de avião do centro da Europa, portanto, as pessoas percebem que há um esforço não só em termos de conteúdo intelectual mas que também há um compromisso com a qualidade e com os prazo acordados, há um ecossistema muito profissional com respeito de todas as normas de segurança que nos é exigida para este tipo de projetos. O nosso futuro é uma boa trajetória do que tem sido o passado.

PERFIL

Pioneira no e-learning em Portugal
Engenheira informática pela Universidade de Lisboa, e com um MBA, Célia Reis, 50 anos – “não tenho vergonha da idade, pelo contrário, as senhoras têm de ter orgulho da idade” -, nasceu em Lisboa, é casada e tem dois filhos. Chegou a CEO da Altran Portugal depois de ter passado pela Xerox, pelo departamento de informática do BCP, pela AG Portugal e pela Global N SA, entretanto adquirida pela Altran. Nas suas notas biográficas lê-se que ao longo da sua carreira introduziu em Portugal várias soluções de vanguarda, tendo liderado alguns dos primeiros projetos de inteligência de informação, como o e-learning, por exemplo. Nos tempos livres, adora cozinhar, jogar padel, viajar e ver cinema.

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