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Celso Martinho: “Startups em Portugal estão a entrar numa fase crítica”

Celso Martinho, fundador e CEO da Bright Pixel, incubadora e laboratório que organiza o Pixels Camp. Fotografia: Fotografia: PAULO SPRANGER/Global Imagens
Celso Martinho, fundador e CEO da Bright Pixel, incubadora e laboratório que organiza o Pixels Camp. Fotografia: Fotografia: PAULO SPRANGER/Global Imagens

Líder da Bright Pixel defende o coinvestimento como receita para que as novas empresas tecnológicas vinguem no mercado internacional

Portugal precisa de parceiros internacionais para conseguir investir nas suas startups. Celso Martinho defende o coinvestimento como receita para que as novas empresas tecnológicas vinguem no mercado internacional e consigam financiar-se sem depender, em exclusivo, dos investidores portugueses institucionais. A posição é defendida pelo CEO da Bright Pixel, incubadora e laboratório de empresas do grupo Sonae.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo, Celso Martinho adiantou ainda que a blockchain (internet descentralizada) será uma das grandes apostas da Bright Pixel para os próximos anos e que os investimentos do grupo Sonae serão feitos em áreas como retalho, media e telecomunicações.

Qual o balanço que faz de Portugal um ano após a Web Summit e da Bright Pixel?

Começando pela Bright Pixel, acho que o balanço é muito positivo. O nosso primeiro ano de atividade passou muito por validar o conceito que nos propusemos a construir. Fizemos os ajustes necessários para que o modelo funcionasse. A validação está feita e o modelo é virtuoso: o conceito de intercalar as três fases (laboratório, incubação, investimento) cria-nos melhores oportunidades de investimento e permite-nos mitigar muito risco associado ao empreendedorismo, além de conseguirmos criar uma série de sinergias com o mercado real e a indústria, que era um dos nossos principais objetivos. Estamos muito felizes e temos casos que materializam esta função. Temos startups que já saíram da Bright Pixel bem financiadas depois de passarem pelo nosso processo. Isso deixa-nos muito orgulhosos.

Em relação ao país, foi muito bom que a Web Summit tivesse vindo a Portugal e que cá esteja connosco para mais dois anos. Foi o culminar de um trabalho muito grande que se fez nos últimos anos e por muitas pessoas, no sentido de pôr o nosso país no mapa e de criar a notoriedade de que nós precisávamos para conseguir transformar o nosso talento em empreendedores e atrair empresas e empreendedores do estrangeiro. Mas estamos a entrar numa fase absolutamente crítica, de perceber se tudo isto é sustentável e se conseguimos criar valor real na economia.

De que forma poderemos avaliar essa sustentabilidade?

Há duas formas de avaliar o sucesso, de forma romântica (qualitativa) ou cruel (quantitativa). Na visão romântica, os resultados estão à vista: Lisboa, em particular, e cada vez mais Portugal, como um todo, estão no mapa do empreendedorismo na Europa. Não exagero se disser que nos podemos comparar com Londres, Berlim e Paris. Ninguém hoje se pode queixar de falta de apoios, investimento, recursos, mentoria. Todos os instrumentos estão montados e muitos deles têm muita qualidade. Em termos de infraestrutura, quem quiser ser empreendedor neste país e montar a sua empresa não tem legitimidade nenhuma para se queixar de falta de instrumentos. Esse trabalho está feito.

Mas não faltam ainda algumas coisas?

Temos de começar pelas bases: quando criei o Sapo, há 20 anos, não havia startups. Só empresas e empresários; o meu curso de empreendedorismo foi-me dado por um dono de uma fábrica de bolachas em Aveiro. As coisas mudaram muito, sobretudo nos últimos 10 anos. Se esse trabalho não tivesse sido feito, hoje não estávamos aqui a conversar sobre isto. Tenho muito respeito pelas pessoas que arregaçaram as mangas e que conseguiram construir esta base. Estamos no topo da curva de Gartner, em que há muito hype e parte do processo vai passar por separar o trigo do joio. Há muitas coisas que vão dar errado, não tenhamos dúvidas.

Somos um país de talento mas não somos um país grande. Já não há engenheiros suficientes para o número de vagas que estas precisam. Isto é positivo e que não existia há 10 anos em Portugal.

Essa separação já começou?

Timidamente. Uma métrica de sucesso que é usada nos países mais desenvolvidos são os chamados serial entrepreneurs, que já tentaram, falharam, voltaram a tentar e foram bem-sucedidos. Já começamos a ter este tipo de empreendedores em Portugal. É ainda muito tímido. Por outro lado, apesar de pequenas nuances, começamos a ter alguns unicórnios portugueses. A OutSystems, a Feedzai, a Talkdesk, Uniplaces são empresas que já criam emprego a sério em Portugal. Basta ver a guerra que existe pelo recrutamento tecnológico em Lisboa neste momento. Somos um país de talento mas não somos um país grande. Já não há engenheiros suficientes para o número de vagas que estas precisam. Isto é positivo e que não existia há 10 anos em Portugal.

Disse que não faltam instrumentos para as startups. Mas não há uma sensação de falta de capital em Portugal?

Portugal tem muitas virtudes e muita capacidade mas não tem o capital necessário, a não ser a nível institucional ou governamental, para fazer rondas de investimento para lá da série A. Isso não me preocupa assim muito: parte do trabalho que temos de fazer é atrair os investidores e coinvestidores que, juntamente, com instrumentos portugueses, possam fazer essas rondas.

Leia aqui: Bright Pixel tem oito milhões de euros para investir em startups

É preciso mais coinvestimento?

Infelizmente, nós não temos investidores, sobretudo privados, com capacidade para fazer uma série A ou B de financiamento.

E qual é o papel da Bright Pixel?

Estamos muito alavancados na construção de fundos e na capacidade que o nosso investidor, a Sonae, anda a colocar no empreendedorismo, não só em early stage como em fases mais avançadas. Temos investido através do nosso orçamento: no primeiro ano, só financiámos em early stage, como a Probe.ly e Eatasty. Agora, estamos a operacionalizar o nosso primeiro fundo, com oito milhões de euros, a três anos, que começou a operar em setembro. Isto traz-nos para outro patamar: além de participar em novos investimentos, vamos conseguir participar em rondas mais avançadas.

O investimento é feito em startups incubadas ou não na Bright Pixel?

Podemos investir em projetos em várias fases de maturidade, dentro ou fora da nossa incubação interna. Tanto a nível financeiro como de serviços. Trabalhamos com cada vez mais empresas, mesmo fora do grupo Sonae.

Falo com startups e empreendedores e não os vejo a queixarem-se de falta de enquadramento para a sua atividade.

Em que tipo de startups vão investir?

A forma como selecionamos as startups onde queremos investir é uma matriz em que começamos a olhar para os verticais/indústrias e estamos muito alinhados com a Sonae. Olhamos tipicamente para retalho, telecomunicações, cibersegurança e media. Possivelmente, também fintech. Estamos a ultimar essa questão estratégica. Se o projeto usar uma tecnologia que pode ser aplicada a um vasto conjunto de indústrias/mercados, poderemos estar interessados em investir pela tecnologia e não só apenas pelo vertical, sobretudo em early stage. A tecnologia pode servir muitos propósitos. Há muito interesse no machine learning, inteligência artificial, blockchain (Internet descentralizada). Na blockchain, não estamos só a falar na questão monetária. É uma blockchain 2.0, em que conseguimos ver aplicações no retalho, telecomunicações e mesmo em media, que não faziam sentido há cinco anos, quando só se falava em bitcoin e na descentralização do dinheiro. Agora, há uma descentralização em muitas áreas. Estamos a fazer aquisição de competências internas.

 

Qual a avaliação que faz da estratégia Startup Portugal?

Não gosto de falar da estratégia de qualquer governo, que deve ter o papel de criar condições fiscais, regulatórias e outras para que a magia aconteça e depois sair do caminho quando as condições forem formadas. Nessa altura, o governo deve ser invisível e o trabalho deve vir dos privados e dos empreendedores. Isso está a ser feito, tanto quanto consigo avaliar. Falo com startups e empreendedores e não os vejo a queixarem-se de falta de enquadramento para a sua atividade.

Mas os empreendedores queixam-se de alguma coisa no ecossistema? O que falta para estarmos num patamar acima?

Quando vejo um empreendedor que não se queixa, é porque algo se passa de errado. Nós ainda não temos a capacidade de investir que Berlim, Londres e Paris têm. O empreendedorismo de base tecnológica, que é o que mais se faz em Portugal, exige muito investimento, quando chegamos à fase de crescimento, por causa do enquadramento legal. Se não for assim, vai morrer ou ser irrelevante. Portugal ainda não está capacitado para conseguir numa empresa na fase crítica, em que deixa de ter 10/20 pessoas para uma estrutura de 100/200 pessoas e ter um negócio global. Continua a faltar atrair coinvestidores suficientes. Muitos deles terão de ser estrangeiros, sejam institucionais ou particulares para termos músculo para ir às rondas que interessam e fazer mexer o ponteiro da economia. O resto já temos: networking, mentoria, pessoas, internet e bom tempo. Temos de transformar isto em negócios e emprego.

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