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César Araújo. “Salários até aos 750 euros não deviam pagar impostos”

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Presidente da Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção considera que a Europa maltrata o sector e opõe-se à “globalização selvagem”

As exportações têm estado algo irregulares neste ano. Porquê?
O mundo vive um dos momentos mais instáveis e de grande preocupação. O brexit, na Europa, a guerra comercial entre os Estados Unidos e a China são tudo questões que transmitem uma grande instabilidade. Ainda agora, a própria falência da Thomas Cook afeta o pensamento do consumidor, tornando-o mais tímido nas aquisições que faz.

A falência de um operador turístico leva o consumidor a comprar menos roupa?
A instabilidade gera preocupação com o futuro, será que vou ter rendimentos, será que vou perder o meu emprego? As pessoas têm esse maior cuidado.

E como é que a indústria do vestuário portuguesa se situa no meio dessa guerra entre gigantes?
Vendemos cem milhões de euros ao ano para os EUA, não tem significado ainda. Portugal tem capacidade para exportar mais. E todos os produtos que saem de Portugal para os EUA pagam taxas que variam entre os 17% e os 32%. Mais do que as taxas alfandegárias, preocupa-me que possa haver uma redução do dólar, que faria que os nossos produtos deixassem de ser competitivos.

Mas a administração americana já mostrou vontade de querer taxar mais alguns produtos europeus…
Quero acreditar que não vai acontecer. E, quanto à China, é um grande mercado, mas é um dos países mais protecionistas do mundo. A China quer é vender os seus produtos e os EUA o que estão a dizer é que importam, mas a China também tem de comprar. Haver reciprocidade. Aí a Europa não está a fazer nada, antes pelo contrário, está a contribuir para uma instabilidade ainda maior.

Porquê?
Porque permite que países como o Bangladesh, o Paquistão, o Vietname e o Sri Lanka coloquem as suas mercadorias na Europa a custo zero. É um tsunami, é impossível competir com países que não cumprem as mesmas regras, nem sociais nem ambientais. A sustentabilidade está na ordem do dia para as nossas empresas, mas esses países não cumprem minimamente esses requisitos.

Devem ser tomadas medidas?
Não sou a favor do protecionismo, sou a favor da reciprocidade nas relações comerciais. Há setores protegidos na Europa, mas o vestuário é maltratado. Temos de fazer chegar a nossa voz ao Parlamento Europeu, é preciso olhar para a indústria e não abrir as portas sem regras.

A culpa não é da própria indústria europeia, que deslocalizou muita da sua produção para alguns destes países?
O problema da Europa foi a falta de uma voz, de uma associação. Se houvesse uma indústria de vestuário forte na Europa esta globalização selvagem, sem regras, não acontecia. Portugal manteve uma indústria forte, de excelência, porque temos uma matriz familiar.

Mas também sofremos os efeitos da transferência de encomendas da Inditex para países como Marrocos e Turquia, não sofremos?
Somos um país importante para a Inditex e é um privilégio para Portugal ter como cliente o maior retalhista do mundo. Mas é normal que, com o seu crescimento, a Inditex precise de encontrar outros pontos de abastecimento.

Há ou não uma crise fruto disso? As próprias empresas portuguesas têm-se deslocalizado para esses países, não é verdade?
Há vertentes de negócio que temos de respeitar, faz tudo parte da economia de mercado. A verdade é que, hoje em dia, há uma série de certificações que são exigidas pelos nossos clientes, quer a nível social quer ambiental, que uma grande parte do nosso tecido industrial não está preparada para ter. E muitas vezes perde-se o cliente por isso. O que temos feito na ANIVEC é criar condições para que as empresas estejam preparadas para obter essas certificações.

A deslocalização de encomendas da Inditex levou já ao fecho de empresas. A situação pode agravar-se?
A situação está pacífica. Nós é que temos de fazer um caminho diferente. Temos de diversificar a nossa base de fornecimento, temos de ter mais clientes e mais mercados, o que vai permitir que tenhamos um ecossistema industrial mais eficiente e inovador. Sem esquecer que a Inditex é um cliente de excelência para Portugal. Veja-se a grande distribuição portuguesa, quem é que compra produtos portugueses? 95% de tudo o que é vendido em Portugal tem origem no Bangladesh e nesses países. A questão é que se calhar uma T-shirt feita cá custa dez euros e uma feita lá custa sete euros. Então reduzam-se os impostos à indústria europeia. Como é que se pode competir com um país com um salário efetivo inferior a cem euros?

Não antecipa, então, mais falências?
Temos uma base de quatro mil empresas e de 120 mil postos de trabalho. É normal que possa haver encerramentos, que a ANIVEC tem o cuidado de acompanhar e de tentar que os trabalhadores sejam rapidamente encaminhados para outras empresas que precisam dessa mão-de-obra.

Faltam trabalhadores no vestuário?
A falta de mão-de-obra é transversal e claro que põe em causa a sustentabilidade de muitas indústrias no futuro. O mundo mudou e a forma como hoje fazemos roupa exige que haja mais inovação, mais desenvolvimento de produto. Para isso, precisamos de outro tipo de trabalhadores. Uma das coisas que a ANIVEC procurou fazer, nestes últimos quatro anos, foi abrir-se aos jovens, mostrar que eles são bem-vindos. Precisamos deles para que Portugal se mostre ao mundo como um país moderno, inovador, e com uma indústria de excelência.

E os salários, são modernos e atrativos?
É o custo do trabalho e a produtividade versus os salários que temos de discutir. As empresas têm de ser lucrativas ou não serão sustentáveis. Repare, Portugal tem o maior custo elétrico da Europa, tem uma carga fiscal brutal e a água com uma das faturas mais caras. Nós sabemos que a água vai ser o petróleo do futuro e, por isso, já estamos a caminhar, juntamente com os nossos colegas da têxtil, para criarmos uma indústria mais amiga do ambiente e com menor uso da água. Mas tem de haver uma consciência do trabalhador de que temos de produzir mais e melhor.

A produtividade é responsabilidade exclusiva dos trabalhadores?
Não é só, mas também. Nós trabalhamos com capital humano intensivo e isto é uma orquestra. Temos de estar todos em plena sintonia, temos de ter responsabilidade. E a verdade é que nós temos um grave problema de absentismo em Portugal. Chegamos a ter 10% a 20% das pessoas a faltar.

Dizia há pouco que não podemos falar em salários mas em custos do trabalho. Os impostos sobre o trabalho deviam baixar?
Logicamente. Eu defendo que até aos 750 euros os trabalhadores não deviam pagar impostos. Mas precisamos, também, de uma lei laboral mais flexível, permitindo trabalhar mais nos picos de grande produção e compensar depois.

A indústria portuguesa tem-se afirmado como uma das mais tecnológicas do mundo. É mesmo assim?
Temos duas realidades, as altamente inovadoras e as que só trabalham para subcontratação. E que são de muito pequena dimensão e não têm grande capacidade de resposta a grandes encomendas.

E têm futuro?
Têm. A questão coloca-se novamente no custo do trabalho. Se aumentar elas acabam por deixar de ser eficientes por essa via. Um dos maiores problemas com que se defrontam são as certificações e nós temos procurado trabalhar com as câmaras municipais, procurando dar-lhes condições para ultrapassarem essa limitação. Mas há realidades diversas. A própria legislação de caracterização das PME estimula as empresas a manterem-se pequenas. Há muitas empresas de 300 e 400 trabalhadores que estão a reduzir a sua força de trabalho para subcontratarem terceiros porque, pelo facto de terem mais de 250 trabalhadores, são excluídas do acesso aos fundos europeus. É uma legislação que prejudica fortemente o emprego.

E ao nível da economia circular, o que está a ser feito?
Estamos mais avançados do que muitos países e as cinco empresas que nesta semana se reuniram em Paris para dar a conhecer a nova campanha de promoção internacional da moda são exemplos disso. Temos de fazer produtos ecológicos, reciclados, reutilizados, reaproveitando as matérias-primas, mas isso tem um custo. E o consumidor tem de perceber que esse preço tem de ser pago. Mas a própria sociedade vai ter de alterar a sua forma de consumir, com a consciência de que se reduzimos a quantidade produzida, reduzimos a quantidade de pessoas necessárias.

Vamos ter indústrias mais pequenas?
Não. Vamos ter menos indústrias. É tudo uma questão de adaptação. A própria robotização está a reduzir postos de trabalho. Mas há quem esteja a automatizar e quem esteja a fazer o caminho inverso. No futuro, provavelmente, vamos comunicar que é um produto Made in Portugal, mas também que é um produto Made by People. Serão indústrias de nicho que se vão diferenciar por esse bem saber fazer.

A nova campanha centra-se precisamente no bem saber fazer. Portugal quer ser conhecido como um executor de excelência para outros? E as marcas próprias?
Quisemos aproveitar a Semana da Moda de Paris para mostrar que a moda sem indústria não funciona. Fomos mostrar as nossas fábricas e eles ficaram apaixonados por elas. E fomos dizer que estamos aqui para apoiar as marcas, independentemente da sua nacionalidade. A Europa é o nosso mercado doméstico. Somos um pequeno país de dez milhões de habitantes que tem a sorte de estar inserido nesta comunidade de 500 milhões, onde só Portugal e a Itália têm uma indústria de vestuário de excelência. Mas se me pergunta se Portugal está a fazer o seu caminho enquanto país de marcas, digo-lhe já que não. Porque são precisos estímulos e Portugal não os dá. Apoiamos as startups, mas as empresas com mais de 250 trabalhadores estão excluídas de qualquer apoio.

PERFIL

“Pontes” para a recandidatura
Filho e neto de alfaiate, César Araújo e o irmão, Marco, aplicaram os princípios da alfaiataria tradicional portuguesa à indústria, criando uma das mais modernas empresas de confeção de vestuário em Portugal. Com três fábricas e dois centros logísticos, a Calvelex dá emprego a 700 pessoas e produz mais de um milhão de peças ao ano, que exporta na totalidade para a Europa e os EUA. Há quatro anos, César Araújo assumiu a tarefa de fazer renascer a insolvente ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confeção. Quatro anos depois, prepara-se para se recandidatar. Diz quem o conhece bem que é “honesto e leal” e, sobretudo, alguém que “estabelece pontes” com estruturas diversas, da moda, do calçado e da joalharia nacionais.

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