Éloi Laurent. "Chave para reinventar a economia europeia é fomentar o bem-estar"

Professor de economia em Stanford e Harvard afirma que indicadores como o PIB não medem a qualidade de vida das populações e devem ser abandonados.

Escreveu o prefácio da edição portuguesa "De olhos postos no amanhã" em confinamento durante o mês de abril. Dedica uma parte à realidade portuguesa, defendendo que o crescimento económico dos últimos anos não deve ser encarado como estando tudo bem. Livro fica à venda no dia 02 de junho.

No prefácio à edição portuguesa, defende que o “milagre português” é, em parte, “uma miragem”. É uma declaração arrojada.

Concordo que é uma declaração arrojada , mas é esse o objetivo do meu livro: ajudar as pessoas a abrirem os olhos sobre o que realmente interessa. Se nos tornarmos obcecados com o crescimento e a disciplina das finanças públicas, tal como acontece atualmente na UE, acabaremos cegos ao que nos torna humanos: a cooperação social, o primado da justiça, a necessidade de um habitat saudável, a Biosfera. E que o bem-estar foi sacrificado no altar dos indicadores económicos.

Mas dado os constrangimentos dos tratados europeus há alternativa?

Não. Não existe alternativa na UE tal como está atualmente, mas nem sempre foi assim e existem muitas alternativas se decidirmos alterar a nossa visão do mundo. Consideremos o défice e a dívida pública, que se tornou o cerne da contenção nos Estados membros. Os líderes europeus podem decidir já amanhã, com um gesto, excluir os investimentos necessários para a transição ecológica do défice público, dando a esta transição um impulso decisivo para prevenir crises futuras. Quando mudamos a nossa visão, o mundo altera-se perante os nossos olhos, literalmente. Foi o que aconteceu quando decidimos colocar as vidas sobre os lucros quando a covid-19 atingiu a Europa.

Mas considera que a população portuguesa está hoje pior/melhor do que há 10 anos?

Não vivo em Portugal e não tenho a pretensão de falar pelos portugueses. Mas defendo uma abordagem plural do que consideramos uma “boa vida”, que tem em conta todas as dimensões do bem-estar humano, incluindo as condições ambientais, porque se estão a tornar criticamente importantes no século XXI. Se considerarmos apenas o risco climático penso que, infelizmente, é evidente que está a afetar os portugueses há mais de uma década, no que diz respeito à falta de água ou aos grandes incêndios. A nossa preocupação é que não afete a qualidade de vida dos portugueses daqui a dez anos e, para isso, temos de mudar a nossa abordagem na tomada de decisões económicas.

Considera que esta crise sanitária pode ser uma oportunidade para repensar políticas económicas?

Julgo que a pandemia covid-19 já mudou muitas coisas, a começar pelo facto de metade da humanidade ter revelado que o seu objetivo fundamental é a saúde e não o crescimento económico. Mas temos de o fazer de forma sistemática e democrática. A minha proposta central é valorizar o bem-estar humano, a começar pela saúde, nas nossas instituições e políticas a todos os níveis do governo. Na União Europeia, em Portugal, nas regiões e nas cidades, nas empresas e nas comunidades, sempre que tomamos uma decisão económica - isto é, uma decisão de alocar recursos a determinadas despesas - temos de o fazer sob a orientação de indicadores de bem-estar humano hoje e no futuro. Esta é a chave para reinventar a economia europeia nos próximos meses e anos: a regra de ouro deve ser fomentar o bem-estar humano hoje e amanhã.

E qual é o maior desafio de uma economia pequena e muito aberta como a portuguesa?

Portugal tem provado que ser pequeno e relativamente mais vulnerável à globalização não significa ser menos protegido ou menos livre nas suas decisões do que os países maiores, pelo contrário. A comparação com a França é muito clara: a França tem uma população 6,5 vezes maior do que Portugal, temos neste momento 21 vezes mais mortes por covid-19, o rácio de número de casos/fatalidades é três vezes maior no meu país, o número de mortes por 10 mil habitantes é três vezes maior. Em França, a democracia está congelada há quase três meses e a confiança política está em queda livre, nada de próximo aconteceu em Portugal. Julgo que a situação atual de Portugal confirma a tese do livro em que o bem mais precioso que um país pode ter nestes tempos conturbados é a coesão social. Isto é o que significa ser um grande país.

Esta crise sanitária mostrou muitas fragilidades e todos os Governo estão a tentar responder com liquidez às empresas, apoio aos empregos e ao rendimento. Como avalia estas respostas?

Agora que o pior parece estar ultrapassado, ouvimos o mesmo pedido em todo o mundo: vamos voltar ao que tínhamos antes, vamos voltar às coisas sérias. Bem, acho que o mais grave é a saúde, a desigualdade e o ambiente, não o crescimento, o lucro e a disciplina orçamental. Temos de compreender que a economia está incorporada na Biosfera e que a atividade económica é um subconjunto de cooperação social que, por si só, depende da vitalidade dos ecossistemas. Se voltarmos ao business as usual, o que significa aumentar as nossas economias destruindo o resto da Natureza, então a "recuperação" durará alguns meses antes do próximo desastre provocado pelo Homem. Temos de reinventar a economia, e isso começa por valorizar o mais importante - os seres humanos.

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