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Francisco Lacerda: “Num posto, a pessoa, em média, trabalhava 35 minutos/dia”

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Os CTT encerraram 53 estações desde janeiro e a sua substituição por postos de atendimento vai continuar. Acordos de rescisão ascendem a 360.

Francisco Lacerda, 58 anos, lidera os CTT numa altura de transformação do grupo e do mercado postal. Em entrevista ao programa A Vidado Dinheiro, do Dinheiro Vivo e da TSF, o presidente executivo dos CTT explica o encerramento de estações – 53 desde o início do ano – e a sua substituição por pontos de atendimento. E comenta os resultados dos CTT nos primeiros nove meses de 2018, divulgados recentemente. Ao leme de um grupo em mudança, o gestor traz na bagagem a passagem por vários cargos de gestão em diversas empresas. Foi presidente executivo do Banco Mello, administrador do Millennium BCP e presidente da Cotec. E foi o último presidente da Cimpor antes de ser vendida a capital brasileiro.

Os CTT tiveram lucro nos primeiros 9 meses do ano mas é uma queda de quase 50% face ao mesmo período de 2017 e mantém a tendência de descida dos últimos trimestres. Como é que pretende alterar esta tendência ou o processo de reestruturação é em si mesmo suficiente?

Os resultados têm de ser vistos numa perspetiva normal nestas fases de transição, que é separar o que é recorrente do que não é recorrente. No caso dos resultados de todos os trimestres deste incorporam o conjunto de indemnizações que pagamos às pessoas com quem chegamos a acordo de saída e esses montantes, que nos 9 meses são pouco mais de 19 milhões de euros, não são recorrentes na medida em que não se repetem, as pessoas saem e deixamos de ter esse encargo salarial. Se retirar isso, o que se vê é que as tendências estão bastantes positivas e isso é visto quando se olha para a evolução do EBITDA recorrente, que é o indicador que melhor permite ver esse aspeto. Trimestre sobre trimestre este ano o que estamos a ver é as receitas a crescer cada vez um pouco mais e os custos a alinhar com o ano anterior neste trimestre.

A reestruturação é em si mesma será suficiente para reverter esta tendência de desaceleração?

A atividade dos CTT é complexa na medida em que são várias atividades dentro de uma só empresa e com muita transformação nas atividades, portanto várias coisas têm de correr na direção desejada para que os resultados vão fazendo o caminho esperado. O que estamos a verificar este ano é que isso está a acontecer. Do lado do correio as receitas estão a manter-se estáveis, os custos estão a reduzir na atividade de correio, e boa medida por causa da redução de custos com pessoas mas não só, temos também feito um trabalho grande no quadro do plano de transformação em outro tipos de custos e depois os veículos de crescimento da atividade de expresso e encomendas, as atividades do banco estão a evoluir positivamente. É resultante disto tudo que nos dá confiança de que a tendência deste trimestre é boa.

O que é que isto significa em termos de dividendos e de remuneração para os acionistas? Vai entregar dividendos este ano?

O que dissemos, e obviamente os dividendos é um dos temas delicados que não pode ser respondido fora do sítio próprio, mas o que dissemos em março é que a política de dividendos voltava ser a partir dessa data distribuir uma percentagem do resultado líquido do exercício. Que percentagem, não está ainda decidido nem anunciado mas será seguramente abaixo do resultado líquido que viermos a gerar deste exercício.

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Apesar de as receitas com o correio tradicional estarem a aumentar a verdade é que houve uma queda maior que o previsto, quase 7% no tráfego. Preocupa-o esta queda acentuado?

Claro que preocupa no sentido em que esse é o principal desafio que temos. Desde 2001 que o correio cai todos os anos em Portugal, uns anos mais, outros anos menos. 2017 foi um ano em que acelerou em relação ao triénio anterior e este ano vai acelerado em relação a 2017 e isto verifica-se em toda a Europa e mundo ocidental onde o correio tinha e tem uma expressão significativa mas em diminuição pelas razões ligadas à digitalização. Essa é a essência da necessidade da transformação, é exatamente haver menos cartas a serem enviadas e a nossa função é distribuí-las, portanto se não são enviadas há menos cartas a distribuir. Estamos a falar de uma redução para metade em pouco mais de 10 anos, o que é obviamente significativo. Quando falamos em 7% pode parecer pouco mas quando acumula ao longo de muito anos… hoje distribuímos menos de metade do que distribuíamos em 2001/2002 e esta necessidade obriga a ajustar toda a nossa forma de trabalhar, a encontrar diversificação de atividades, e daí a aposta no Expresso e Encomendas, que é uma oportunidade de negócio que é lançada pela mesma razão que as cartas diminuem, ou seja pela digitalização, porque tem muito a ver com o comércio eletrónico crescimento significativo dessa atividade onde somos líderes de mercado e continuamos a trabalhar para crescer a nossa comparticipação. Também a decisão de lançar o banco que constrói sobre capacidades do CTT não só em termos de confiança e de presença mas também de experiência em serviços financeiros, porque há muitos anos que os CTT têm atividades em serviços financeiros mas num banco completo só agora.

Queria aprofundar a questão da reestruturação da empresa. Quantas estações de correio que encerraram este ano?

O que temos estado a fazer é progressivamente e à medida que a procura vai diminuindo nas estações de correio – e aqui não estamos a falar do envio de cartas, estamos a falar do números de idas de pessoas por ano a uma estação de correio – e o que é facto é que desde 2001, que foi o ano do pico, que regular e sistematicamente o número de estações tem diminuído. Mas o que tem acontecido, especialmente de há 4 anos para cá, é que o número de postos e correio que também presta o serviço postal vai aumentando num número superior ao que as estações de correio vão sendo desativadas. O total de pontos de acesso são mais de 70, mais do que eram em 2014, e este é um aspeto relevante porque os pontos CTT, como chamamos ao conjunto, podem ser estações dos CTT ou podem ser postos de correio em parceria com juntas de freguesia, papelarias, agentes de seguros e outras atividades locais e nesses postos de correio são prestadas todas atividades do serviço postal, seja serviço público ou não, é também o serviço de vales que está ligado ao pagamento das reformas e também os pagamentos de faturas da luz e outras semelhantes, o que garantimos sempre, pela forma como gerimos esta transição, é que quando não há uma estação de correio há um posto na vizinhança, portanto quando há esta transformação de uma estação em posto as pessoas não tem uma deslocação muito diferente daquela que tinham. E os erviço continua a ser feito por pessoas que são treinadas e acompanhadas por nós dentro do nosso quadro logístico geral, com responsabilidades e obrigações iguais às das estações de correio e muitas vezes até com vantagens para os consumidores uma vez que até têm horários mais alargados e por outro lado o que vemos é que embora haja uma certa resistência a esta mudança antes de acontecer, depois de acontecer as populações estão satisfeitas queria também acrescentar uma vantagem adicional: nalguns locais com menos atividade económica em geral, o facto de haver um conjunto de receitas adicionais para uma atividade outra que não nós ajuda também essa atividade a ter uma atividade mais completa e com isso suportar melhor os encargos que tem com o estabelecimento.

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Feito esse enquadramento, quer dar-nos os dados relativos a este ano de encerramentos de estações de correios e de novos postos de acesso?

O que temos este ano é o total de pontos de acesso até à data que cresceu um pouco mais de 20, sendo a combinação de uma redução de um pouco menos de 50 de estações e um aumento de 70 nos postos de correio.

Esse processo vai continuar? O que é que vai acontecer nos próximos tempos?

Não temos um objetivo quantitativo. Analisamos caso a caso e à medida que vai justificando vamos fazendo. Em todo o caso, o cenário base em que estamos a trabalhar é que este assunto, nesta fase, esteja terminado este ciclo até ao fim do anos seguramente.

Os CTT estão impedidos de encerrar estações de correio em Trás-os-Montes, o Tribunal Administrativo de Mirandela aceitou uma providência cautelar em que está em causa a contratualização a terceiros de postos de atendimento. Como é que vê esta decisão?

Para ser rigoroso, fomos notificados de duas providências cautelares, sabemos que há mais outras pelos meios de comunicação mas formalmente recebemos estas duas. Uma providência cautelar é algo que um tribunal que quando aceita aceita ir analisar, ponderar e tomar uma decisão, não quer dizer que tenha já tomado a decisão. Estamos nessa fase, portanto quando as notícias dizem que aceitou, até agora aceitou olhar para o assunto e tomar uma decisão.

Está confiante que a decisão será favorável aos CTT?

Estamos a cumprir a lei e que a decisão será favorável. O que fazemos é que mesmo não estando impedidos, enquanto o tribunal está a analisar achamos que não devemos continuar por uma questão de respeito, mas estamos confiantes que no fim será resolvido a contento.

Os CTT vão apenas ficar onde estiver o Banco CTT? É uma condição?

Não, de todo. São lógicas diferentes porque escolhemos a implantação do Banco CTT com um conjunto de lojas – hoje o banco está em 212 locais, 210 em estações CTT, dois, um em Lisboa outro no Porto, são exclusivos do banco – que foram escolhidas por serem aquelas onde identificávamos maior potencial de negócio financeiro e tem-se revelado certo porque o desenvolvimento do banco tem evoluído bastante bem e portanto revelou-se que os critérios para identificar essas lojas estavam certos pela prática. No conjunto das lojas, que são muito mais que isso (são 550 lojas) o critério não é atividade financeira, é a atividade em geral que tem questões de índole financeira mas as principais são o recebimento das pensões e tem todas as questões relacionadas com o correio e aí, enquanto os clientes foram em número suficiente para justificar estarmos abertos com uma presença direta, estaremos, independentemente de ter ou não ter banco. O que estamos a fazer e que está ainda em piloto, e vamos rapidamente alargar isso, é que estamos a começar a usar as lojas onde não temos presença da posição banco para permitir a abertura de conta e com isso alargar o acesso ao Banco CTT, através de técnicas digitais obviamente, mas fisicamente as pessoas podem em algumas lojas CTT, mas brevemente na totalidade das lojas, também abrir contas e fazer a sua atividade – não levantamentos e depósitos porque isso só onde houver a atividade banco. Talvez possa acrescentar aqui dois exemplos para ajudar a perceber: uma das lojas que recentemente fechamos numa determinada localidade, e abrimos um posto muito perto, a pessoa em média trabalhava 35 minutos por dia. O horário de trabalho dos CTT é 8h por dia e em média trabalhava 35 minutos. Porquê? Porque não há pessoas suficientes a requisitar os serviços dos CTT nessa localidade. E outro esclarecimento: as lojas serem nossas ou de terceiros é completamente separado do movimento dos carteiros. Os carteiros distribuem as cartas qualquer que seja a nossa presença com loja, posto ou outra. São dois mecanismos independentes e que funcionam porque obviamente que os carteiros passam em todas as ruas do país regularmente, independentemente de qual é a nossa presença de front office para o público.

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Está prevista a saída de 800 trabalhadores. Mantém a meta?

Não alteramos nada desses número que anunciamos há 1 ano mas é preciso pôr as coisas em perspetiva. Os CTT têm 12 mil pessoas a trabalhar e por ano saem, por razões naturais, cento e qualquer coisa. No processo de rescisões por mútuo acordo que arrancámos por esta altura do ano passado, até à data chegamos a acordo com 360 pessoas e não houve nenhum trauma ou impactos negativos, por outro lado temos mais de 1000 pessoas contratadas a prazo em funções temporárias aqui e ali. Disto tudo, os números que em valor absoluto parecem muito significativos, mas nesta perspetiva da relatividade em 3 anos, até 2020, é um tema que se gere como temos gerido até agora, obviamente sem despedimentos. Não fazemos despedimentos coletivos e não planeamos fazer essas coisas.

A associação nacional de municípios admite reclamar o fim da concessão por causa dos encerramentos de estações. A ANACOM também já manifestou estar preocupada. Teme perder a concessão do serviço universal?

Nós cumprimos as regras que estão em vigor para o serviço postal universal que no fundo é aquilo de que estamos a falar na concessão. Nesta concessão o Estado não paga qualquer verba aos CTT por sermos os concessionários – não é assim em todas as atividades mas é assim no serviço postal – e nesta concessão temos obrigações de densidade de presença e de critérios de qualidade de entrega do correio. Cumprimos os critérios de densidade e cumprimos os critérios de qualidade de serviço, com um ou outro indicador que não cumprimos o ano passado mas no critério global cumprimos. E por último, para tipificar a concessão, atividades reservadas que só o concessionário possa fazer, representam 3% das nossas receitas. Todos os outros 97% não são concessionados, estamos em concorrência e temos concorrentes no mercado mesmo no correio. Somos o concessionário do serviço público, temos muita honra nisso, mas no quadro desta concessão há 18 anos, para um período de 20, o nosso cenário base é para ganharmos o que quer que seja que venha a sair para o período seguinte. Daqui até lá e como é que evolui não consigo dizer muito porque o assunto ainda não está a ser conversado ativamente.

Pode haver aqui uma revisão do contrato…

Uma revisão até ao fim do contrato tem as consequências normais: tem de se manter o equilíbrio… a partir desse momento, obviamente que as partes são livres mas nós temos atributos positivos fortes para concorrer a um eventual mecanismo que o governo da altura venha a entender desenvolver. Em relação ao comentário da associação de municípios o que reafirmo é que cumprimos os critérios de densidade.

Em relação aos critérios de qualidade, os CTT já contestaram na justiça os novos indicadores que lhe foram impostos por serem em maior número – são agora 24 em vez de 11 e mais exigentes. Esta guerra com o regulador é decisiva para a estratégia da empresa?

Não lhe chamaria guerra, é mais uma divergência sobre uma decisão concreta e isso faz parte do mundo normal dos negócios. Consideramos que o agravamento dos indicadores de qualidade de serviço, pelo número de indicadores ser muito mais, mas ainda mais por o nível de exigência ter sido aumentado e principalmente por um conjunto de indicadores que vão a um nível de cumprimento de 99%, que são um conjunto grande. É uma alteração substancial ao contrato, que desequilibra os termos em que a concessão estava a ser feita nos 18 anos dos 20 que dura a concessão e que vai no sentido contrário aquilo que vemos nos países europeus e portanto entendemos que na defesa dos interesses dos CTT e na defesa da sustentabilidade do serviço público devíamos tomar esta iniciativa de pôr em questão a decisão da ANACOM. A sustentabilidade do serviço público é um objetivo que todos temos.

Não teme que esta questão da qualidade mas também esta estratégia do encerramento, que tantos anticorpos está a criar, acabem por prejudicar a marca dos CTT?

A resposta que posso dar é ligada aos estudos que vamos recebendo de fontes externas e o que vemos é que os CTT continuam a ser nomeados, consistentemente, como marca de confiança, superbrand. E os nossos estudos internos em que fazemos inquéritos a clientes não mostram essa quebra. Há uma resistência inicial, uma dificuldade de passar a comunicação de que as pessoas não vão ser abandonadas… eu não gosto de ver pessoas com recursos escassos e em meios mais remotos a sentir uma angústia porque se calhar vão ser abandonadas. Nós não abandonamos e eu esforço-me por dizer isto o número de vezes que for preciso, mas de facto há ali uma fase em que há essa angústia mas mal a solução é encontrada e posta em prática a angústia desaparece e não sinto que haja uma resistência a partir daí.

O Banco CTT liderou por larga margem o ranking de queixas ao Banco de Portugal no crédito ao consumo e lidera ainda as queixas nos depósitos à ordem. Já estão a ser resolvidos esses problemas que foram divulgados este ano?

O objetivo da qualidade é um objetivo desde a primeira hora. Num dos indicadores que referiu houve aí uma questão estatística. Falou no crédito ao consumo e nesse caso estamos a falar de 4 ou 5 reclamações, das quais 3 ou 4 eram porque o crédito não tinha sido concedido e isso nunca vamos conseguir ter o acordo do cliente quando lhe dizemos que não lhe damos o crédito que queria. Quando um banco está em início de atividade estes números fazem estas coisas menos normais do ponto de vista estatístico mas não são significativos.

Portanto não há problemas, já foram resolvidos…

É um problema que não existe, no outro é diferente. No outro, na fase de arranque do banco, até rodar os processos e sermos rápidos a atuar a qualidade não era exatamente aquela que queríamos e estamos continuamente a trabalhar e o que posso dizer é que o Banco CTT no início deste ano foi o primeiro e todos os critérios ligados a qualidade num estudo da Universidade Nova. o que penso é que há de facto indicadores específicos que têm de ser melhorados e não estou a minimizar o assunto, estou a ligar isso a uma fase inicial onde os processos estão a ser rodados e onde as anomalias estatísticas têm uma relevância que não têm quando os números vão alargando. Estamos quase a chegar a 400 mil cientes, portanto é porque muita gente está satisfeita.

Já houve este ano uma compra por parte dos CTT a uma empresa de concessão de crédito automóvel. O grupo vai continuar a fazer aquisições?

O que dissemos sempre é que a estratégia do banco era posicional para particulares e aí cresceria nas contas à ordem, nos depósitos, nos cartões e que também queria crescer no crédito e lançámos o crédito à habitação e antes já tínhamos lançado o crédito ao consumo. Mas numa conjuntura de taxas de juro baixas quanto mais depressa conseguirmos equilibrar o balanço em termos de o crédito ter valores mais perto do total de depósitos mais rentabilidade conseguimos tirar, portanto estaríamos interessados encontrar empresas ou carteiras de créditos que permitissem dar saltos nessa vertente. Foi nesse quadro que a 321 se encaixou e consideramos que ao passar de um rácio de transformação de depósitos em crédito de cerca de 20% para cerca de 60% com a integração da 321 que este primeiro objetivo está alcançado e nesse sentido ficaríamos por aí. Noutras atividades ligadas ao Expresso e Encomendas ainda temos temas que estamos a analisar.

Portanto um novo reforço de capital do banco não se põe para já?

O que dissemos quando anunciamos a 321 é que até 2020 haveria um reforço de capital equivalente ao montante necessário para comprar a 321 mais 20 milhões de euros, portanto neste sentido põe-se mas além deste valores não estão previstos.

Os CTT não têm tido uma vida fácil na bolsa. Acredita que o pior já passou?

Como CEO de uma empresa cotada não posso fazer comentários sobre cotações de ações. Não posso responder de uma forma muito direta.

Há um problema de especulação à volta das ações dos CTT. defende uma regulação mais apertada na bolsa?

Não sei exatamente qual é o problema de especulação a que está a referir mas não defendo uma regulação mais apertada. O que vimos foi uma correção muito substancial das ações faz agora um ano com aquilo que na gíria se chama o profit warning feito no fim de outubro do ano passado com os resultados do terceiro trimestre, e daí para cá à medida que vamos apresentando o desempenho do plano a que nos propusémos e das nossas atividades penso que a cotação das ações tem sido em linha com aquilo que vemos noutras empresas.

Não vê qualquer problema de especulação à volta das ações dos CTT?

Não sei exatamente a que é que se está a referir mas especulação em ações faz parte da essência da atividade. Há quem tenha perspetivas positivas, negativas, há quem short as ações…

Estamos a falar de short selling.

Houve uma fase onde havia uma aposta com mais significado, e até era a ação que mais tinha, em que o preço ainda iria descer mais. O que temos visto de há uns meses para cá é que esses volumes tem estado a diminuir e isso também só por si deve querer indiciar algum sinal. As empresas do setor postal, e há várias cotadas pela Europa, estão em anos de grande transformação e esses levantam dificuldades aqui e ali. Se for ver o que se passou com as empresas cotadas na Europa nos últimos 12 meses vai encontrar situações muito parecidas com os CTT.

Liderou a Cimpor até ser vendida a empresas brasileiras. Agora passou para mãos turcas. Como vê esta operação?

O que passou para mãos turcas foi a Cimpor Portugal, com mais Cabo Verde mas Cabo verde na atividade da Cimpor é apenas um ponto comercial. Portanto não foi tudo aquilo que era multinacional Cimpor, presente em 12 países, principal multinacional nacional como era até à OPA da Interciment ter vencido há uns anos. A venda da Cimpor Portugal a outro operador estrangeiro, a partir do momento em que as coisas mudam de mãos a lógica é diferente.

Já é relevante?

Está-me a perguntar se é irrelevante para o país?

Tendo em conta que já tinha sido vendida a empresas brasileiras…

A multinacional Cimpor com cabeça em Portugal acabou há uns anos, agora atividade em Portugal daquilo que era a multinacional Interciment com cabeça no Brasil passou a ser para a multinacional OYAK com cabeça na Turquia. É só a confirmação de que a partir do momento em que acontece uma transação onde a cabeça muda de país depois o resto fica completamente fora de controlo.

Quais são as prioridades de investimento dos CTT? Quanto vão investir?

Os CTT vão investir 40 milhões de euros nos próximos dois anos na modernização da operação postal e logística. O Plano de Modernização e Investimento é um investimento ímpar, que arranca no início do próximo ano e prepara os CTT para o futuro. Estamos a modernizar uma infraestrutura que foi desenhada há 30 anos, para responder às novas exigências do setor postal, continuar a potenciar a qualidade e melhorar as condições de trabalho, reforçar o papel dos carteiros como elo de ligação às comunidades locais. Vamos investir em máquinas de separação de correio, na melhoria dos centros de distribuição e dos equipamentos de trabalho, para adequar a rede a um novo perfil de tráfego, respondendo à queda do volume de correio e ao crescimento da área de encomendas. Este é um investimento que prepara os CTT para o futuro, assegurando a sustentabilidade da empresa e reforçando a qualidade do serviço.

Porquê avançar com um programa de startups? Os CTT vão tornar-se num investidor neste tipo de empresas?

Os CTT têm já há alguns anos uma política de ligação às startups e novas empresas, procurando projetos que se enquadrem no negócio do setor postal. Lançámos recentemente a nova marca deste programa de interação, o CTT StartuProgram, uma iniciativa que está alinhada com a estratégia de inovação dos CTT mas também com as tendências atuais do mercado. Deste o início da nossa aposta na ligação ao ecossistema que já identificámos cerca de 100 empresa como tendo potencial para trabalhar com os CTT. 20 destas empresas estão em avaliação detalhada, cinco em piloto técnico, uma em piloto comercial e uma adquirida. Além disso, sete empresas estão em já parceria comercial com os CTT. Neste campo gostaria de destacar a parceria com a UOU Mobility para o VEDUR, veículo 100% elétrico para mobilidade urbana, um excelente exemplo de colaboração. Iniciámos o piloto em Leiria e já adquirimos mais 12 destes veículos, que conhecemos internamente como Ovo, para a distribuição de correio em quatro cidades, incluindo Lisboa e Porto. Esta parceria é interessante não só pelas características do veículo mas também porque está em linha com a nossa política de sustentabilidade. Os CTT têm atualmente a maior frota elétrica do país, um portefólio ecológico ou carbonicamente neutro e, entre 2010 e 2017, as poupanças acumuladas na fatura energética dos CTT atingiram os 15 milhões de euros.

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REUTERS/Stephen Lam/File Photo

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