Francisco Veloso. “Esta é uma das situações em que faz sentido ter défice”

Economista defende mutualização europeia da dívida paga através de uma taxa sobre as gigantes tecnológicas e um imposto temporário sobre a riqueza.

O diretor da Imperial College Business School, em Londres, acredita que a pandemia permitiu acelerar a transição digital em pelo menos uma década para alguma franja da população e que há negócios que terão de se adaptar para uma forma híbrida de funcionamento presencial e à distância. Francisco Veloso defende um controlo apertado para evitar um novo confinamento ou descontrolo da doença.

Como classifica a atual crise?

Estamos certamente numa das piores do último século. Não vale a pena tentarmos achar que não vai ser bastante duro e difícil. Se o problema fosse apenas o que aconteceu já durante estas últimas semanas, se calhar, o regresso e a recuperação poderiam ser relativamente rápidos, mas o vírus não desapareceu, portanto, vai haver um contínuo de limitação do ponto de vista da atividade económica durante muitos meses. É uma situação singular do ponto de vista da saúde, como é evidente - temos muitas pessoas e muitas famílias diretamente afetadas por esta situação.

Será uma crise muito mais devastadora do que foi aquela de 2011/2014?

Vai ser, por várias razões: pela magnitude, desde logo, mas também porque é simultaneamente em todo o mundo. É preciso ver, quando pensamos na crise de 2008, que houve alguns desfasamentos e não teve impacto, por exemplo, na Ásia e na China em particular. É esta magnitude que faz que não haja partes do mundo que estejam a puxar pelas outras. Isto apanhou toda a gente de surpresa e isso é que é também, em algumas dimensões, uma tragédia pessoal, ou seja, famílias que tinham o rendimento mais ou menos estabilizado, ainda que baixo, e que de repente desapareceu.

E a incerteza também é muito maior. Estamos em terreno desconhecido?

Completamente desconhecido. Não tivemos na nossa história esta situação em que a economia acabe toda parada e em simultâneo. Agora vamos tentar que ela volte a arrancar, mas não sabemos bem com que magnitude, com que limitações, o que é que vai acontecer daqui a dois meses. Voltamos a ter de parar outra vez tudo? As pessoas não consomem, não investem porque têm medo que daqui a três meses fiquem sem emprego ou que a empresa desapareça ou que voltem a estar em lockdown. Os agentes económicos individuais não consomem, as empresas não investem e quando pensamos no que é o crescimento económico, todas as variáveis estão a levar pancada. Mesmo que se consiga o desconfinamento, há muitas limitações do ponto de vista da operação por causa das questões do distanciamento social.

Até onde um país como Portugal, uma economia pequena e aberta, aguenta um impacto destes?

É muito importante para Portugal o desconfinamento e a confiança que se vier a gerar agora. E o cuidado também. Espero que as pessoas estejam cientes que o vírus continua aí e que comportamentos de risco têm impactos reais. Se conseguirmos manter o vírus em declínio, criando um contexto de que Portugal é um sítio seguro, por exemplo, de que o Algarve é um sítio seguro, algum turismo que possa acontecer é de proximidade, de Espanha para Portugal ou algum turismo inglês.

E defende o rastreamento das pessoas?

O Estado tem de levar de forma muito séria esta conjugação entre teste e identificação dos contactos das pessoas. O volume do trabalho para que essa missão tenha sucesso não pode ser subestimado. Vai requerer uma enorme mobilização de recursos. Não sinto que aquilo que está previsto, quer em Portugal quer no Reino Unido, seja suficiente para fazer isso com grande robustez. É preciso controlar com testes serológicos, colaboração entre público e privado. É crítico para o controlo da epidemia fora do regime de confinamento.

As respostas à pandemia têm sido diferentes. Portugal tem conseguido responder a esta urgência não só sanitária, mas também económica?

Em traços gerais parece-me que sim. Houve países, como Inglaterra, que decidiram apoiar as pessoas e em Portugal houve mais uma decisão de apoiar as empresas. Eu talvez tivesse privilegiado as pessoas diretamente por uma questão de simplicidade. Quando pensamos sobre aquelas questões hipotéticas “para que serve o défice?”, “em que situações é que faz sentido termos défice?” Não há dúvida que esta é uma das situações em que faz sentido ter défice. Se tivéssemos de caracterizar uma situação como aquela em que se justifica recorrer a défice para apoiar o tecido económico e as famílias, esta é claramente uma delas.

E a União Europeia? Parece-lhe que tem estado à altura, com as respostas mais adequadas. Ou tem demorado muito a atuar?

Há várias fases. Há uma resposta imediata no sentido de criar liquidez, condições para que os países se possam endividar e resolver o problema no curto prazo. Tem-se encontrado um conjunto de instrumentos para dar essa resposta. A pergunta que ainda está em cima da mesa é, de facto, o que é que vai ser feito do ponto de vista da recuperação. E estamos bastante longe daquilo que é necessário.

Por exemplo, lançar os chamados coronabonds?

Estamos perante uma situação única e tem todas as características para justificar uma solução europeia e isso eventualmente poderia e deveria implicar o lançamento de títulos de dívida que fosse mutualizada a nível europeu. É uma crise singular, ao contrário do que aconteceu há dez anos. É um choque externo que pode ser quantificado e que vai acabar. Podemos colocar um envelope à volta disto e dizer que vai custar não sei quantos triliões de euros. Ninguém ganha se nós tivermos partes da economia europeia em forte declínio devido a esta situação.

Mas há quem diga que demoraria dois anos a ser criado o instrumento.

Sabemos que os mercados internalizam o futuro. Se houvesse uma decisão política nesse sentido, os mercados começavam a internalizar essa situação. Vamos demorar vários anos a recuperar na totalidade. Acho que há uma oportunidade para haver uma resposta europeia que tenha uma dimensão de mutualização.

Dívida que tem de ser paga.

Para pagar esse instrumento - vamos chamar-lhe coronabonds - vale a pena pensar em soluções diferentes. Fala-se numa taxa sobre as empresas digitais não localizadas para ajudar a pagar. Acho que essas soluções fazem sentido, porque se há uma área que tem beneficiado muito com o confinamento são esses setores. Será sempre um conjunto de soluções, incluindo os pagamentos em vários anos pelos Estados-membros, mas acho que vale a pena equacionarmos várias formas de atacar essa dívida. Não sou a favor de uma taxa sobre a riqueza de uma forma contínua, mas defendo, numa lógica de alguma solidariedade, soluções mais limitadas no tempo para encontrar formas de mitigar estas necessidades. Temos de olhar para a mutualização deste choque e encontrar formas complementares de pagamento.

Quais serão os setores em Portugal que maiores dificuldades terão para recuperar ao nível a que estavam antes da crise?

Toda a parte de retalho vai ter uma grande dificuldade por causa das questões de confiança. Tudo o que é consumo vai ter uma dificuldade muito grande de recuperação. Tem de haver uma aposta bastante importante ao nível de investimento e das matérias mais transacionáveis que nós já temos e que vamos continuar a ter. Tudo o que é consumo e o turismo vão ser áreas em que será difícil de ter uma recuperação rápida em função destas dificuldades.

Poderemos ter alguma alteração de fundo na estrutura da economia? Ou até no mercado de trabalho?

O primeiro impacto tem que ver com a utilização das ferramentas digitais. Seria difícil pensar num programa público ou privado que acelerasse a transformação digital mais do que esta pandemia. Há uma franja da população que demoraria uma década a fazer a transição e a sentir-se confortável, que neste momento o faz todos os dias e vai continuar a fazer. Uma parte significativa do que é o apoio ao cliente pode ser feita através de videoconferência em vez de as pessoas se dirigirem ao banco ou à repartição de Finanças. E a alteração dos modelos de negócios.

E qual é o papel do Estado?

Se há situação em que faz sentido procurar dívida para dar resposta face a um choque exógeno, é esta. Faz sentido que haja a utilização de dívida para investimento e para compensar a descapitalização e a falta de consumo e de investimento privado. Do ponto de vista da atividade económica pode ter algumas situações importantes. Vamos ter um programa deliberado de identificação das pessoas que estiveram em contacto com o vírus, ver as outras que estiveram em contacto com elas, em quarentena e em acompanhamento. Isso vai precisar de milhares de pessoas que vão ter de ser contratadas pelo Estado e há um papel do Estado para colmatar alguma perda, por exemplo, de emprego ao nível do turismo - ou seja, trabalho que é relativamente flexível e que poderia ser reintegrado neste contexto.

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