Entrevista de Vida

Kevin Spacey: “É muito fácil vivermos a nossa vida da maneira que queremos”

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Quando lhe pergunto que inesperada mudança de carreira fará a seguir, o ator brinca, “Vegas, baby, Vegas.”

Kevin Spacey atuou na Broadway nos anos 80, fez sucesso em Hollywood nos 90 e depois surpreendeu toda a gente ao mudar-se para Londres e tornar-se diretor do teatro Old Vic. Em 2013 voltou aos ecrãs, produzindo e protagonizando a série da Netflix “House of Cards.” Quando lhe pergunto que inesperada mudança de carreira fará a seguir, brinca, “Vegas, baby, Vegas.”

Deixou recentemente o seu cargo como diretor do Old Vic. Concretizou o que pretendia?

A coisa mais importante foi a sucessão. No livro de Jim Collins “Good to Great”, o autor analisa CEO bem-sucedidos e examina o que acontece depois de eles se irem embora. Há muitos exemplos de pessoas brilhantes, audazes, obcecadas com as relações públicas, e que só se preocupavam com as suas empresas enquanto lá estavam. Mas também há outros CEO mais discretos, que se rodearam de assistentes capazes e construíram empresas que prosperaram com o CEO seguinte e os que vieram depois.

O Old Vic foi outrora um dos teatros com melhores produções, mas depois de 1976 o National Theater mudou-se para outras instalações e o Old Vic tornou-se um espaço que podia ser alugado. Embora tivesse havido várias tentativas para voltar a ter uma companhia de teatro, nenhuma foi bem-sucedida. Eu estava a lutar contra uma ausência do mapa que durara 30 anos e queria garantir que construiríamos uma companhia boa e sólida que pudesse continuar depois da minha saída. O facto de Matthew Warchus ter acabado de assinar por seis temporadas demonstra que cumprimos essa promessa.

Porque aceitou esse trabalho?

Durante 10 ou 12 anos tinha-me concentrado em construir a minha carreira, e as coisas tinham corrido melhor do que eu podia esperar. Não queria passar mais 10 anos a perseguir o mesmo sonho. Já fizera o que tinha determinado e queria ser desafiado a um nível diferente. E então, vejam só, o Old Vic caiu-me no colo.

A ideia de voltar ao teatro e dirigir uma companhia foi tão estimulante que nunca me pareceu estar a afastar-me de algo, mas antes a aproximar-me, muito embora nessa altura imensa gente pensasse que eu me tinha passado. O que me dá satisfação é que talvez agora já não pareça tão louco. Sinto sinceramente que, se não tivesse ido para Londres, se não tivesse feito uma ou duas peças todos os anos, se não tivesse trabalhado com Trevor Nunn, Matthew Warchus e Howard Davies, nunca estaria preparado para um papel como o de Frank Underwood em “House of Cards”. A década que passei no Old Vic fez-me um ator melhor.

Estamos sempre a desafiar-nos uns aos outros. Mas os egos não entram na sala. O que interessa é fazermos o melhor programa possível.

E também um melhor líder?

Sempre soube que quando se assume um papel, a representar ou a dirigir, é nossa responsabilidade termos todos os dias o espírito e energia adequados para criar algo com um grupo de pessoas. Tive a sorte de ter mentores que foram grandes exemplos, não por me mandarem sentar e darem-me lições, mas pela forma como se comportavam. É um tipo de liderança diferente, a de dirigir um teatro e o seu pessoal, uma companhia, produções, angariação de fundos, projetos educativos e comunitários. Fui aprendendo com o tempo. Fiz perguntas a líderes que admiro. Estudei o início de outras companhias na Grã-Bretanha, para saber com o que contar.

Kevin Spacey ao lado do quadro da sua personagem em House of Cards. Fotografia: REUTERS/Kevin Lamarque

Kevin Spacey ao lado do quadro da sua personagem em House of Cards. Fotografia: REUTERS/Kevin Lamarque

Ao mesmo tempo que dirigia o Old Vic, também foi ator em produções importantes. Como consegue ser eficaz em ambos os papéis?

Acabei por perceber que não podia dar oito espetáculos por semana ao mesmo tempo que dirigia o teatro. Quando fiz recentemente um one-man show, fiz seis por semana, nunca dois no mesmo dia, e foi uma boa agenda. Tive de aprender do que era capaz.

Antes de “House of Cards”, preocupava-o a sua reentrada em Hollywood?

Quando comecei a trabalhar no Old Vic, jurei não aceitar qualquer outro trabalho que me exigisse estar afastado mais de oito semanas, por isso, quando saí, pensei que precisaria de cinco ou seis anos para recuperar a minha presença nos filmes. Quando surgiu o “House of Cards”, aceitei porque estava a chegar ao fim de um compromisso de dez anos e achei importante que a empresa e o staff se habituassem à ideia de que eu não estaria ali para sempre.

Tencionava estar na linha da frente da revolução que a Netflix representa em termos da distribuição de televisão?

Tanto eu como o meu parceiro de negócios, Dana Brunetti, estávamos convencidos de que, a certa altura, uma dessas companhias que fizeram uma batelada de dinheiro como distribuidoras entraria no negócio dos conteúdos originais. Por isso, não me surpreendeu quando a Netflix se decidiu por esse grande empreendimento. Mas fiquei surpreendido por fazer parte logo do primeiro projeto deles.

“House of Cards” é feito de uma maneira muito cooperativa. Como é que isso funciona na prática?

Existe uma equipa criativa e todos tomamos as decisões. Isso não quer dizer que não haja discussões ou desacordos. Estamos sempre a desafiar-nos uns aos outros. Mas os egos não entram na sala. O que interessa é fazermos o melhor programa possível. Não há, “O que é bom para mim?”, mas sim, “O que é bom para nós?”

Fotografia: REUTERS/Mario Anzuoni

Fotografia: REUTERS/Mario Anzuoni

Enquanto ator, como é que escolhe e se prepara para os seus papéis?

Em todos os trabalhos temos de ter algo a perder, algo a ganhar, algo a aprender. Mas o material é sempre diferente. A maneira como contamos a história, seja uma peça de teatro, um programa de televisão ou um filme, é diferente. As sensibilidades, treino, experiência e formas de trabalho do realizador e dos atores são diferentes. É um pouco como no desporto, é um jogo diferente de cada vez que se entra em campo. Sim, temos o nosso corpo, a nossa voz, capacidades, preparação e técnicas individuais. Mas temos atores que são o oposto de nós e diretores a incentivar-nos a ir numa direção diferente. E o ato de sermos observados também muda as coisas. Então, temos de estar abertos. Eu faço uma enorme quantidade de perguntas — sobre coisas práticas, caráter, estilo, tom. Por vezes é perigoso sentirmo-nos demasiado preparados, aperfeiçoados e a dominar a cena, porque podemos estragar tudo.

Como é que os colaboradores conseguem que dê o seu melhor?

Adoro ser desafiado. Adoro quando um realizador sugere algo em que eu não tinha pensado, ou diz, “Não consegui acreditar numa palavra do que disseste, por isso vamos tentar de novo”. É um processo que um realizador brilhante permitirá a um ator. Por exemplo, posso ter estado a representar de determinada maneira nos ensaios e finalmente, no quarto preview, o diretor diz, “Sabes, naquele momento, acho que devias fazer desta maneira”. E tu pensas, “Ando há seis semanas a fazer assim”. Mas nessa altura já conhecemos melhor a personagem e estamos finalmente prontos para essa sugestão. Não é só dirigir bem, é saber quando intervir.

O seu parceiro de negócios, Dana Brunetti, começou como seu assistente executivo. Quando é que percebeu que ele estava preparado para assumir uma posição tão importante?

Percebi rapidamente o seu grande potencial. Era inteligente. Era rápido. Apresentava argumentos claros. Tinha um gosto muito interessante. E compreendia mundos que eu não compreendia. Por exemplo, quando comecei a produzir, sentia-me frustrado porque advogados e agentes me diziam que não podia aceitar guiões de pessoas que encontrava em cafés; tinham medo que eu fosse processado.

Então, havia todo aquele manancial de talento que não podia aproveitar. Apresentei o problema ao Dana e, algumas semanas mais tarde ele veio ter comigo e disse, “A Internet”. Isto foi em 2001, e eu perguntei, “Estás a falar de quê?” Mas ele criou o Triggerstreet.com, um site comunitário onde as pessoas podiam fazer upload dos seus guiões, que acabámos por transformar num pequeno concurso de filmes. Na altura não o sabíamos, mas estávamos a criar uma das primeiras redes sociais. O Dana não facilitou a participação das pessoas, mas foi fantástico porque os nossos membros eram leais, ativos e sérios. Foi uma ideia muito inteligente, avançada e interessante. Então, quando decidi ir para Londres e dirigir um teatro durante uma década, ficou muito claro quem devia gerir a empresa cinematográfica. O Dana gosta de dizer que eu não só o atirei ao mar para ver se ele sabia nadar, também o atirei do cimo de um prédio para ver se podia voar. Mas agora rimo-nos disso. Não foi fácil, mas isto colocou-o em posição de fazer o seu próprio caminho, de construir a sua própria reputação, e o que ele fez foi extraordinário.

Hoje em dia os criadores de conteúdos de qualidade têm mais poder em Hollywood?

Não, é sempre um grande esforço. Se tivermos feito alguma coisa de sucesso, as pessoas estão mais dispostas a sentarem-se connosco numa sala, mas é sempre uma negociação e uma luta. Os estúdios, apesar de todas as intenções e propósitos, saíram do negócio dos filmes independentes, e acho que foi por isso que a televisão se tornou um terreno tão fértil para os argumentos baseados nas personagens.

Trabalha muitas vezes com atores jovens. Que lhes ensina?

É incrível ajudar jovens a descobrir a sua autoestima e a sua própria voz, e a aprender capacidades de colaboração. Mas é divertido: muitas vezes, quando lhes contamos algo que nos foi transmitido, uma lição que aprendemos há muito tempo, enquanto falamos estamos a pensar, “Oh, meu Deus, eu precisava de ouvir isto. É realmente importante e não o tenho feito”. Dei recentemente uma “master class” com 20 atores emergentes ao longo de dois dias, cerca de três horas e meia por dia, e isto deve ter acontecido um dúzia de vezes. Olho para aqueles miúdos e vejo-me a mim mesmo. Sei pelo que estão a passar. Compreendo-lhes o desejo e a ambição, e todas as dúvidas que têm. Aconteça o que acontecer na minha vida, por mais sucesso que tenha, nunca quero perder o contacto com isso.

É uma figura muito pública que quer ter uma vida privada. Como o consegue?

É muito fácil vivermos a nossa vida da maneira que queremos. Sempre fui assim.

Parece gostar de surpreender as pessoas com as suas mudanças de carreira. Quando “House of Cards” acabar, que vem a seguir?

Vegas, baby, Vegas.

Cantar?

Talvez. O que é excitante é que na minha área não se sabe o que vem a seguir até que as coisas se nos apresentem ou decidamos criá-las. A única coisa que sei é que não quero fazer algo que já tenha feito antes. Penso que há todo um mundo novo que se abre em termos de como o entretenimento é visto, e espero fazer parte disso.

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