Inflação e subida das taxas de juro são riscos para as empresas

Rodrigo Simões Almeida é o líder em Portugal do grupo Marsh McLennan, que tem três empresas no país. A Marsh, Mercer e Guy Carpenter empregam em conjunto 683 trabalhadores, a maioria na Mercer (582), empresa que tem dois centros de serviços partilhados no nosso país.

O CEO da Marsh e Mercer em Portugal acredita numa retoma rápida da economia, apesar do contexto de incerteza. "Qual a evolução da pandemia? Qual o desfecho da situação política? Existem diversas variáveis que condicionarão uma retoma, mas do que assisti estes últimos anos, com um desafio enorme que nos assolou de surpresa e quase de um dia para o outro, em que demonstrámos na generalidade a nossa resiliência, só posso estar confiante", sublinha.

Era líder da Marsh e passou a liderar também a Mercer no ano passado. Há alguma mudança estratégica em curso?
A mudança estratégica, no sentido de termos uma abordagem mais integrada ao mercado, já estava a ser implementada antes da minha nomeação. Efetivamente, o Grupo Marsh McLennan tem reforçado a lógica de One Enterprise, com quatro marcas distintas (Marsh, Mercer, Guy Carpenter e Oliver Wyman), que colaboram ativamente na procura de uma proposta de valor comum, que permita servir ainda melhor os nossos clientes. No meu caso, passei a liderar a Mercer a partir de abril de 2021, juntando à liderança da Marsh que já assumia desde 2015. Logicamente que a escolha de um líder comum para ambas as empresas vem dar ainda mais ênfase ao caminho que está a ser seguido internacionalmente. Estou muito confiante na qualidade das nossas equipas, e certo que o caminho da colaboração vai contribuir para entendermos melhor os desafios dos nossos clientes e, desta forma, encontrar, sempre que seja adequado, uma proposta de valor integrada muito forte que permita reforçar o nosso crescimento.

Das várias áreas de negócio do grupo Marsh McLennan em Portugal, quais são as que estão a evoluir mais favoravelmente?
Felizmente, podemos destacar, nesta altura, uma evolução muito favorável em todas as áreas de negócio, se bem que com ritmos de crescimento diferentes. A especialização e a diferenciação têm sido grandes ferramentas a todos os níveis. Quando pensamos nas preocupações dos nossos clientes, riscos e pessoas estão claramente no centro, sendo que a pandemia veio acelerar ainda mais. Tem sido notável a resposta que as nossas equipas têm dado à pandemia, demonstrando grande resiliência, confiança e capacidade de crescimento, pelo que é quase injusto destacar áreas de maior crescimento. Talvez faça mais sentido falar nas novas tendências, como por exemplo risco cibernético, riscos de pessoas, bem-estar, saúde mental, trabalho flexível ou desafios ESG.

Há novos investimentos previstos pela Marsh e Mercer este ano em Portugal?
O nosso negócio é um negócio de pessoas e por esse motivo, continuaremos a investir no crescimento das nossas equipas. Num mundo em constante mudança, temos de investir muito na capacitação das nossas pessoas para estarem preparadas para os desafios de cada momento. Nos últimos dois anos vivemos uma pandemia e amanhã teremos novas batalhas para vencer, tais como a, ainda necessária, adaptação ao mundo do trabalho flexível. Temos apoiado muito os nossos clientes nesta área e sabemos que vai ser um tema nos próximos tempos. Tal como dizia anteriormente, todas as nossas áreas de negócio, felizmente, são elegíveis para investimento. Posso destacar algumas pela crescente necessidade que sentimos no mercado, tais como a consultoria para a transformação das empresas, benefícios flexíveis, investimentos institucionais, ESG, risk advisory e fusões e aquisições.

Vão contratar ou dispensar colaboradores em 2022?
Ao longo dos últimos anos temos vindo a crescer significativamente o nosso headcount, o que nos deixa muito orgulhosos. Hoje somos quase 700 colaboradores em Portugal e contamos ser mais no final do ano. Além do crescimento de equipa, é ainda mais crítico apostar na retenção dos nossos talentos. Sem dúvida que a nossa equipa é o nosso bem mais precioso e queremos continuar a manter os níveis elevados de engagement, que tem sido a principal razão para o sucesso do nosso negócio.

Quem são os vossos clientes? Sobretudo grandes empresas?
A nossa oferta de serviços é muito abrangente e estamos preparados para responder às necessidades dos clientes independentemente da sua dimensão. Até porque também dispomos de soluções para clientes individuais. Somos uma equipa multidisciplinar, preparada para dar uma resposta ao desafio identificado, seja este mais ou menos complexo. Quando dizemos que olhamos para cada projeto como único, pode parecer um cliché, mas é assim que temos de fazer em consultoria, porque não há organizações ou pessoas iguais. Claro que temos soluções que tipicamente são utilizadas pelas grandes empresas, no entanto, temos a capacidade de desenhar soluções que se adequam a cada realidade. Assim, trabalhamos com clientes de todos os setores de atividade e de todas as dimensões. Todos são importantes para nós.

Pela sua experiência, como é Portugal visto neste momento enquanto destino de investimento?
Portugal continua a ser um destino muito apetecível para o investimento estrangeiro e, muito por causa das suas pessoas e talento, apesar de assistirmos a muitas restrições nesta área. Além do investimento direto no capital de empresas nacionais, várias empresas escolheram Portugal para criar os seus centros de serviços partilhados. Conheço bem esta realidade até porque temos dois centros na Mercer, um na área de avaliações atuariais e de monitorização de performance e outro dedicado à administração de benefícios. Se olhar para a nossa realidade, estamos inseridos num mercado muito competitivo e que se deve fundamentalmente à qualidade do talento existente. Por outro lado, o investimento estrangeiro no capital das empresas nacionais tem sido recorrente, em parte devido à menor capitalização do nosso tecido empresarial. É um tema que devemos pensar seriamente para o futuro do nosso país.

Em que áreas e que tipo de empresas Portugal está em melhores condições para atrair?
Se olharmos para o mercado de M&A, vemos algumas diferenças de ano para ano, devido ao impacto de grandes transações, mas os setores que têm sido mais atrativos são as infraestruturas, energia, tecnologia, turismo e serviços. É curioso como até no mercado de corretagem temos assistido à entrada de alguns players internacionais no nosso mercado. De qualquer modo, julgo que existem oportunidades transversais na economia que, associadas às excelentes condições que temos no país, nomeadamente no que se refere à segurança, levam-me a pensar que a tendência de investimento estrangeiro vai-se manter. Esperemos que esse investimento possa contribuir para mitigar o problema de menor capitalização que mencionei anteriormente.

Como perspetiva a evolução da economia portuguesa neste ano?
Sou uma pessoa otimista e por isso quero acreditar que iremos conseguir retomar a nossa economia rapidamente. Já há sinais positivos, mas claro está depende de contextos incertos. Qual a evolução da pandemia? Qual o desfecho da situação política? Existem diversas variáveis que condicionarão uma retoma, mas do que assisti estes últimos anos, com um desafio enorme que nos assolou de surpresa e quase de um dia para o outro, em que demonstrámos na generalidade a nossa resiliência, só posso estar confiante.

Quais os principais riscos que antevê para os quais as empresas devem estar preparadas?
Foi divulgado, esta semana pelo World Economic Forum, o Global Risks Report 2022, no qual o grupo Marsh McLennan é um dos parceiros na sua elaboração. E os riscos ambientais dominam as preocupações a nível global. Os principais riscos a longo prazo estão relacionados com o clima e as principais preocupações a curto prazo incluem clivagens sociais, crises de subsistência, deterioração da saúde mental e falhas de cibersegurança. Espera-se também que a recuperação económica mundial será volátil e desigual ao longo dos próximos três anos. No que se refere às ameaças cibernéticas, que continuam a crescer rapidamente, torna-se claro que é crucial ter planos de gestão de riscos cibernéticos credíveis e sofisticados. Para responder a estes riscos, as empresas devem colocar nas suas agendas uma análise à sua resiliência organizacional, um passo crucial para a mitigação dos riscos. Como pudemos constatar com esta pandemia, as empresas mais resilientes foram as que conseguiram responder melhor a esta crise. Não posso deixar de referir o impacto inflacionista nas nossas empresas que já tem provocado algumas dificuldades, a que se deverá acrescer o aumento das taxas de juro. A nossa economia já não está habituada a esse cenário pelo que está na altura de o anteciparmos.

Estamos em vésperas de eleições. Teme que venha aí um período de instabilidade política em Portugal?
A eventual instabilidade política em qualquer país é sempre uma preocupação, identificada no Global Risk Report, devido às consequências que pode provocar. Sinceramente, e estando tão próximo de eleições, não estou em posição de fazer grandes comentários ao que poderá acontecer, mas confio que não será esse o cenário final. Espero sinceramente que, independentemente do resultado das eleições, seja possível a rápida nomeação de um governo que transmita estabilidade, de modo a permitir um reforço do nosso caminho para a recuperação da economia pós-pandemia.

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