Turismo

Mário Ferreira. “O nosso foco é estar na Antártida e vir para o Mediterrâneo”

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O dono da Douro Azul aposta na hotelaria, no Porto, e nos cruzeiros transatlânticos. O turismo ainda pode crescer muito.

Mário Ferreira é o dono da Douro Azul. Um empresário do Norte, mas que já está presente em rios como o Sena ou o Nilo e que quer levar a sua marca até ao Amazonas, quando o clima político brasileiro amainar, e planeia também chegar à Antártida com os seus navios de cruzeiro. Como empresário do turismo, que também já investe em hotelaria, não tem intenções de investir na zona de Lisboa, por considerar que é um mercado sobrelotado e inflacionado nos preços.

O turismo tem crescido de forma exponencial. Em 2016, tivemos 21,3 milhões de hóspedes e a estratégia do Turismo para 2027 quer 80 milhões de turistas a dormir em Portugal. O crescimento é infinito?
Essas estimativas assentam em múltiplos de hotéis e camas existentes, mais os que se espera que venham a existir. Estamos a falar de um país que tem todas as características de um destino turístico, e que não tinha no passado. Nestas coisas a memória é curta. Há três anos, o setor hoteleiro estava todo em crise, por questões de ocupação e de preço médio,…só agora é que a ocupação começa a melhorar e, fruto disso, o preço também. Temos uma melhoria significativa e acentuada de ocupação e no preço, mesmo estando a aparecer novas construções e empreendimentos. As coisas estão controladas.…

Portugal ainda tem muita margem para crescer comparativamente a outros destinos turísticos europeus?
Ainda tem muita margem para crescer, quando comparamos com Espanha, Sul de França, Grécia, Turquia e até com a Croácia, um país muito mais pequeno do que o nosso e que teve um crescimento repentino e muito mais acentuado do que nós. Existe margem, agora não é só ter camas e aeroportos, é preciso ter um conjunto de outras valências que já começam a mostrar alguma debilidade, entre as quais e a mais preocupante, neste momento, é a mão-de-obra. A mão-de-obra para hotelaria e restauração está muito escassa e isso é bastante preocupante.

Qual poderia ser a solução?
Não se vai inventar nada. A solução vai ser aquela que já foi no passado. Já tivemos este pico turístico, não com os números de hoje, mas que para a época eram o pico, e tivemos de abrir as portas à emigração e tivemos, na altura, cabo-verdianos, muitos brasileiros, ucranianos a entrar e que deram um impulso ao país. Na ocasião a economia crescia à volta de 5% ao ano.

O turismo já consegue manter alguma estabilidade ao longo do ano?
A sazonalidade no turismo está a esbater-se, fruto, neste caso concreto, da dificuldade de utilização daqueles países que eram o destino dos povos do Norte da Europa, como o Egito, a Turquia, a Tunísia, e com as dificuldades que neste momento esses países apresentam para ser utilizados entre outubro e março – agora até têm dificuldades em todas as alturas do ano. O clima mais ameno que vão encontrando os norte-europeus é em Portugal e Espanha. Por isso, estamos todos a ser beneficiados com isso e, fruto dessa procura fora dos picos principais, a sazonalidade está a esbater-se. Existe outro fenómeno também: a sazonalidade mais acentuada tem que ver com o turista de resort, mais de praia. Em relação aos outros, o paradigma assenta mais no turismo de cidade e no turismo cultural e histórico, modalidades em que os turistas podem vir em qualquer altura do ano, preferindo até evitar julho e agosto. Esses estão dispostos a visitar estes destinos todo o ano, porque o que os move é a parte cultural, gastronómica e paisagística. No caso do Douro, o mês mais difícil para vendermos é agosto, ao contrário… do ciclo.

Porque é que se lembrou de apostar na Antártida?
Já estamos a trabalhar nos cruzeiros de expedições há muitos anos. Começámos pela Amazónia e nessa altura a ideia era fazer metade do ano na Amazónia e outra metade na Antártida. Neste momento, o nosso foco é estar na Antártida e depois vir para o Mediterrâneo, o Báltico e o Ártico, porque é aquilo que o mercado mais procura e nós ajustámos. Este é o que vai começar. A primeira viagem será em novembro do próximo ano e será uma viagem emblemática, porque será Lisboa-Rio de Janeiro. Passa por Funchal, Canárias, Cabo Verde, a ilha de Fernando de Noronha, Recife, a costa brasileira e Rio de Janeiro. Não temos grandes travessias de mar, mas vamos parando ao longo do percurso.

Isso é um cruzeiro de classe A…
Sim, sempre para classe média-alta.

Se alguém quiser fazer um cruzeiro desses…
Vamos anunciar em breve os preços e os itinerários.

Como é que estão a correr os cruzeiros no Amazonas?
Não temos ainda, adiámos pela instabilidade sentida neste momento. As coisas têm de acalmar um bocado, em particular no Brasil.

Tem que ver com a situação política?
A situação política faz que outro tipo de instabilidades se vá gerando em sítios mais longínquos, onde tem pouco acesso o governo. É o caso do interior da Amazónia.

Lisboa é um mercado em que lhe interessa investir?
Não. Investir em Lisboa, neste momento, nem pensar. Os preços estão completamente inflacionados. À mínima quebra de negócio no futuro, os preços que se praticam hoje em termos imobiliários não seriam suportados. Quem já está nesse mercado da capital está muito bem, como é óbvio, entrar agora é que não. É deixar andar e ver o que se vai passar no futuro.

Como analisa a decisão de o Porto replicar a taxa turística de Lisboa?
Replicar e dobrar. A questão da taxa não é o problema, não é por dois euros que os clientes vão deixar de vir. O importante é ver como esse dinheiro se aplica, é distribuído e investido, porque se for para estar a cobrar dois euros aos turistas para que depois a política de investimento não seja assertiva, não faz muito sentido. Mas acho que se vai encontrar maneira de utilizar bem esses meios no turismo.

O Algarve tem um terço das camas e Lisboa tem 20%. Que margem de crescimento há no Norte e no Porto?
São formas de turismo diferentes. O Algarve tem muitas camas, porque tem grandes edifícios e resorts. É mais concentrado e cidades muito massificadas, mas também ainda tem espaço noutros lados para poder fazer coisas. Quando falamos de Porto e Norte de Portugal, estamos a falar de território mais extenso, com mais diferenças em termos geográficos, morfológicos, de atração e de paisagem. O Minho tem características muito próprias, o Douro vinhateiro tem um perfil especial, Trás-os-Montes tem outras valências e o Porto cidade também. Há essa facilidade e essa bênção de poder mostrar um produto base mais diversificado, podendo atrair públicos mais diversos e em diferentes alturas do ano.

Há espaço para mais hotéis também a Norte?
Não digo só Porto. Na região, em si, há uma necessidade certa. O que é preciso perceber, e acho que o Rui Moreira está bastante atento a esse fenómeno, é que na gestão de uma cidade não podemos ter uma rua em que de repente só há hotéis

O hotel que vai abrir na Avenida dos Aliados é de seis estrelas?
É de cinco para cima, não existe classificação de seis, só por isso. Não podemos é ter hotéis porta sim, porta sim, como não podem ser cafés nem McDonald’s. O equilíbrio é importante para não descaracterizar as cidades. Requer uma gestão atenta para que não se criem fenómenos depois menos interessantes.

No caso de Gaia, suspendeu a construção de um hotel, o Wine Lodge?
Suspendi o da escarpa. Neste momento estamos com uma atividade muito grande, com navios e hotéis a construir, e o comboio a chegar ao Tua. Estamos com muita atividade. Estávamos a dispensar atenção e recursos, para não falar já nos milhões de euros que estão investidos na propriedade, mas isso ficará, porque não se perde, é um ativo bastante bom. Ao contrário do que foi dito, eu li num jornal que o projeto tinha sido chumbado por volumetria exagerada. Não tem nada que ver, simplesmente não conseguimos chegar a um consenso sobre aquilo que é a agradabilidade arquitetónica do projeto perante algumas autoridades. Porque a capacidade que nos foi proposta em termos de volumetria até achamos que está correta, agora o modelo não. O facto de essa volumetria estar dispersa no terreno é que não nos agrada, porque não viabiliza a operação que queremos dar como hotel.

Os obstáculos que encontrou foram por parte da câmara ou do governo?
São sempre do mesmo local, das indefinições da parte da Direção Regional da Cultura, porque se eles dissessem: tem de ser feito assim, a gente via e ou dava ou não dava. O problema é que um dia é de uma maneira, outro dia é de outra.

Não perdeu uma oportunidade de dominar o Douro?
Essa nunca foi a nossa intenção. Estamos a falar de um negócio que tinha cinco milhões de vendas em cruzeiros diários e decidimos vender a um preço acessível aos nossos concorrentes locais. E eles ficaram satisfeitos. Éramos o maior operador, distribuímos os navios e fizemos que o negócio deles ficasse mais fortalecido. Ao fim ao cabo diluímos cinco milhões de operação por três operadores

Quais são os principais clientes em termos de origens?
EUA, Inglaterra Alemanha, Áustria, Suíça, Canadá e Austrália, por esta ordem.

A expansão do alojamento local [AL] não traz nada de bom ao mercado do arrendamento?
O AL foi e continuará a ser a salvação da reabilitação urbana. É um mito essa ideia de que a cidade do Porto está a ficar vazia de pessoas por causa dos hotéis. Porque vamos pela cidade e passamos para a rua de trás e está tudo ao monte, ainda existem milhares de edifícios devolutos. Foi a salvação do Porto, e também de Lisboa, usar a reabilitação para esse fim turístico. Isso traz outros problemas, é verdade. E é aí que o Rui Moreira está a tentar ver como é que consegue resolver. Não lhe invejo esse desafio. O problema é ver como se conseguem manter rendas acessíveis para a classe média que quer manter-se nos centros das cidades. Tudo se pode fazer com regulamentos e bom senso. É importante continuar a existir reabilitação para esse tipo de turismo e pessoas que preferem ficar em pequenos apartamentos em vez de hotéis.

Mas há problemas de convivência entre inquilinos do arrendamento e os turistas do AL…
Não acho positivo que num prédio de sete apartamentos, seis estejam alugados a turistas, e um desgraçado que lá esteja há 15 anos comece a levar com os turistas para cima e para baixo e a fazer barulho a meio da noite. Isso não concordo. Foi pena que não tenha existido um regulamento em termos de condomínios. No caso dos edifícios mais antigos, as famílias deviam poder opor-se. Ou seja, devia existir a concordância de quem está num prédio residencial. Quem comprou apartamento num prédio residencial, em princípio não o fez para ter pessoas para cima e para baixo a toda a hora e pagar ao condomínio todos esses custos. Essas regras não estão claras e é pena que o governo não as tenha clarificado. Uma coisa é ter um prédio que reabilita e está todo ele preparado para o AL, outro caso é quando as pessoas querem ter o seu descanso e vivem num desassossego completo.

Em que pé é que está o conflito com a Ana Gomes, a propósito da compra do navio Atlântida?
Não tenho qualquer conflito com a senhora. Não posso é ficar satisfeito que a senhora fale de coisas que não sabe e que minta. Em setembro vai haver uma audição para ver se lhe levantam a imunidade diplomática. Se for levantada, ela terá oportunidade de poder explicar e de se poder retratar perante as mentiras que proferiu, mas não é nada do outro mundo. É só uma questão de deixar as coisas claras e, se não o fizesse, até iria parecer que concordava com a senhora.

Parece uma questão de defesa da honra…
Exatamente, é só isso. Como já estamos habituados, daquela senhora não se pode esperar muito. Porque ela com a maior naturalidade vai perante as câmaras dizer que se enganou e não viu bem. Ela está habituada a fazer isso e toda a gente acha que é normal. Neste país aceita-se isso.

O caso, em resumo, foi simplesmente um bom negócio? Comprou barato e vendeu com lucro.
Nem sequer foi um bom negócio. Parece que tenho de me explicar. Aquilo que ela disse são parvoíces sem sentido. O navio foi comprado num concurso público internacional, auditado por um magistrado do Ministério Público, perfeitamente normal. O negócio não foi como ela disse. O navio foi comprado relativamente barato e podia ter sido adquirido por ela ou por outra pessoa. Não houve ninguém que dissesse que também o queria comprar e que reclamasse por ser vendido mais barato. Vendemo-lo, passados uns tempos, porque ele não servia para mim. Eu transformei-o, investi uns milhões de euros e, obviamente, depois de ter investido, o navio já tinha outro tipo de valor. Quando eu o comprei, era ferro-velho, porque não tinha certificados. Era o mesmo que ir a um stand comprar um carro sem poder andar com ele na rua. Quando estava tudo direitinho, aí sim, já se conseguiu colocar o navio no mercado, mas não com a facilidade que a senhora pensa.

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