entrevista

João Franco: “O porto de Sines vale, no mínimo, 2,5% do PIB”

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Numa altura em que as exportações nacionais caem de forma generalizada, o porto de Sines cresce a dois dígitos. E não prevê abrandar.

O maior porto do país foi o único a crescer no arranque deste ano, mantendo a tendência de recordes consecutivos na movimentação de mercadorias. E o alargamento do Canal do Panamá, concluído em junho, deixa antever novos anos de crescimento. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, João Franco, presidente da Administração do Porto de Sines, faz o balanço do primeiro semestre e aponta as perspetivas para o resto do ano.

O Porto de Sines representa mais de metade da carga movimentada nos portos nacionais e no primeiro semestre, cresceu 10,5%. O que justifica este crescimento?

Somos, em termos nacionais, um porto diferente dos outros. O nosso objetivo é concorrer no mercado internacional. Enquanto grande hub internacional, beneficiamos da nossa localização, mas, sobretudo, da eficiência do porto. E isso é resultado de equipamentos de qualidade, pessoal treinado, tecnologia do melhor que há. Tudo isto conjugado explica o sucesso, que esperamos continuar a ter durante muitos anos. Não há razões para pensar que não continuaremos a crescer, pelo contrário.

Porto de Sines movimentou mais de 24 milhões de toneladas no primeiro semestre. Fotografia: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Porto de Sines movimentou mais de 24 milhões de toneladas no primeiro semestre. Fotografia: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Que mercados mais contribuem para esse crescimento?

O grande fluxo é, em primeiro lugar, da Europa. Depois vêm a América do Norte e Central, o Extremo Oriente, África e América do Sul.

E as trocas com esses mercados têm sido reforçadas?

Com a Europa há um incremento no relacionamento comercial, com os EUA e a China também. Com a América do Sul há aí um enorme potencial. Quer porque está num nível muito baixo e, portanto, há um potencial de crescimento muito grande, quer porque muitos países da América do Sul, em particular os da costa do Pacífico, estão a desenvolver-se muito bem. Isso traz oportunidades aos empresários portugueses, para desenvolver os negócios.

João Franco, presidente da Administração do Porto de Sines. Fotografia: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

João Franco, presidente da Administração do Porto de Sines. Fotografia: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

Qual o contributo do porto de Sines para a economia portuguesa?

Há um estudo de um banco, feito há vários anos, que apontava para que os portos nacionais, no seu conjunto, valessem cerca de 5% do PIB. Para não estarmos a basear-nos em dados de há vários anos, e para termos uma ideia mais fundamentada do valor do porto de Sines, pedimos, recentemente, um estudo à Universidade Nova, em conjunto com a AICEP, para determinar o nosso peso no PIB. Esperamos ter esses dados até final do ano. Em todo o caso, tomando como referência os valores de há alguns anos, e sabendo que representamos mais de 53% da movimentação total de cargas a nível nacional, é credível que o porto de Sines valha, no mínimo, 2,5% do PIB.

Alargamento do Canal do Panamá vai trazer mais 200 navios por ano ao porto de Sines. Maior impacto começa a sentir-se em 2017

Quais são as previsões de crescimento para este ano? E que impacto terá o alargamento do Canal do Panamá sobre esse crescimento?

A nossa previsão para 2016 já conteve alguma ponderação desse fator do alargamento do Canal do Panamá. Mas ainda tem muito pouco impacto, porque, na altura em que se fez o orçamento, não havia sequer uma previsão da data de inauguração, que veio a ocorrer em 26 de junho. O tempo que leva aos armadores ajustarem as suas rotas e os seus movimentos de mercadorias vai ser ainda demorado. Mas contamos com um aumento anual de cerca de 200 navios.

O alargamento vai ter reflexo no tempo de reorganização dos circuitos comerciais e isso vai ser feito ao longo de 2016 e 2017, portanto, haverá alterações muito significativas ao longo dos próximos anos. Não quer dizer que todos os navios venham do Panamá. Alguns virão, porque, até agora, o canal estava condicionado a levar navios de dimensão até 4500 TEU [unidade equivalente a um contentor de 20 pés]. Com o alargamento, poderá permitir a passagem de navios até 13 mil TEU. Mas, por força disso, e porque funcionamos como hub, ao chegarem a Sines navios maiores, também haverá outros navios, para outros destinos, a arribar a Sines para movimentar mercadorias para outros destinos.

Que novos mercados esperam?

“A economia nacional não tem um impacto significativo em Sines”, diz João Franco.

Todos. Nós somos um porto internacional. Aliás, há uma ideia que é interessante reter. A economia nacional não tem um impacto significativo em Sines. Pode subir ou descer que não afeta a nossa atividade significativamente. Já qualquer alteração na economia mundial afeta-nos. Porque, de facto, somos um porto inserido no mercado internacional. Os nossos concorrentes são Valência, Tanger Med, Las Palmas, não são os portos nacionais. Enquanto nós concorremos no mercado internacional e funcionamos como hub, os outros destinam-se a abastecer e a permitir exportações das regiões que servem.

Tendo em conta essa dependência da economia mundial, está otimista para os próximos tempos?

Globalmente, sim. Vivemos numa época de alguma incerteza e é sempre prudente ter alguma modéstia, por isso é que digo que não antevejo dificuldades para os próximos anos. Mas temos de ser prudentes. Pode acontecer algum fenómeno que neste momento não se prevê e temos de estar preparados para isso: trabalhar em todos os mercados possíveis, ser muito eficientes, muito competitivos, lutar para ganhar quota de mercado, fundamentalmente a nível internacional, e, com isso, garantir, tanto quanto possível, a continuação do nosso desenvolvimento, quer por via de tecnologia, da qualificação de pessoal, de melhores equipamentos, permanentemente atualizados. O mercado exige isso. Se não continuamos a crescer, baixamos. Não se pode adotar a tese comodista de “estamos tão bem assim, vamos procurar manter isto”. Não pode ser. Temos de tentar sempre mais, porque, se não for assim, corremos o risco de levar um grandessíssimo trambolhão.

O porto de Sines assegura mais de metade do total de mercadorias movimentadas nos portos nacionais. Fotografia: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

O porto de Sines assegura mais de metade do total de mercadorias movimentadas nos portos nacionais. Fotografia: Nuno Pinto Fernandes / Global Imagens

A Administração do Porto de Sines juntou-se à associação internacional de cruzeiros para promover este segmento no porto de Portimão. Quais as expectativas?

Ficámos com a responsabilidade, em 2014, de gerir, para além do porto de Sines, os portos de Faro e de Portimão, que está mais vocacionado para o segmento de cruzeiros. Isso tem algumas implicações com o mercado internacional, porque, também neste segmento, os navios estão a aumentar de dimensão. E como, ao contrário de Sines, em Portimão há rio, e portanto há areias, é necessário fazer dragagens. Estamos preparados para fazer isso já em 2017.

Há também a questão de encontrar uma solução de segurança que permita acolher navios maiores. Tudo isso implica estudos de várias naturezas, que estão praticamente ultimados. Mas, como são investimentos muito voluptuosos, na casa dos 10 [a] 35 milhões de euros, de acordo com as hipóteses possíveis, estamos a fundamentar ideias, a recolher as últimas informações junto de especialistas e a fazer os estudos de impacto ambiental necessários para, depois, submeter à decisão do acionista, que é o Estado. De qualquer forma, alguma coisa vai ser feita seguramente.

Quando?

Não será este ano, mas penso que, entre 2017 e 2018, haverá alterações significativas.

E que impacto terá na região?

Terá um significado relevante para a região. Restaurantes, circuitos turísticos, autocarros, táxis, monumentos, museus, há uma série de focos de interesse que os especialistas apontam como fatores de desenvolvimento. E é isso que nos compete fazer como empresa pública que somos: ajudar a economia a crescer. A propósito da economia, há uma coisa que não posso deixar de dizer. Nós pagamos aos nossos fornecedores a 20 dias. É um indicador importante. Tendo meios, as empresas devem ajudar a economia e uma das maneiras de ajudar é pagar o mais rapidamente possível a fornecedores.

Acha que esse é um problema em Portugal?

Acho. Temos dois problemas que algumas empresas podem ajudar a resolver. Um é este. Outro aspeto importante é ajudar ao máximo a que os nossos concessionários façam investimentos que gerem emprego.

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