"Vamos voltar a crescer neste ano e mantemos a meta dos 1500 milhões exportados em 2030"

João Rui Ferreira, da APCOR, diz que setor mantém meta de 1500 milhões exportados em 2030. A pandemia interrompeu a dinâmica da cortiça que, em 10 anos, aumentou em 50% as exportações. Em marcha está já a nova campanha, um investimento de 3,2 milhões em 7 países

A terminar o terceiro e último mandato na Associação Portuguesa da Cortiça (APCOR), João Rui Ferreira fala do passado, de uma década de aceleração tecnológica e profissionalização do setor, e do futuro, para garantir que Portugal mantém a liderança mundial na cortiça.

Quais foram os efeitos da pandemia no setor?
Do ponto de vista da atividade, foi um ano quase de plenitude. As empresas tiveram muita resiliência e a capacidade de nunca parar. Do ponto de vista comercial, vivemos momentos de grande incerteza e o impacto nas exportações foi de uma perda de cerca de 4,5%, para 1,013 milhões de euros, o que, para um setor que vinha a crescer 4,5% ao ano na última década não é bom. Ainda assim, pensamos que é possível recuperar já em 2021. O primeiro trimestre ainda é de estabilidade - houve um aumento de 0,17% para 274 milhões de euros -, mas a verdade é que, em 2020, tivemos um primeiro trimestre muito bom. Acredito que vamos crescer já a partir do segundo trimestre.

Voltar aos 4,5%?
É sempre difícil neste contexto de tanta incerteza antecipar o que vamos ter pela frente. Apesar disso, as notícias do mundo do vinho são já de recuperação.

As exportações de cortiça cresceram 50% na última década. Qual é a meta para 2030?
Apesar deste ano tumultuoso, temos o objetivo de chegar a 1500 milhões em 2030, a meta que tínhamos traçado no final da década passada. Nestes percursos há sempre pedras no caminho. Depois da fase inicial de recuperação da crise económica de 2008-2009, tivemos uma fase de completa afirmação e reforço da imagem da cortiça no mundo. Foi uma década de grande mudança até do ponto de vista do ambiente das nossas empresas. Foi o tempo da tecnologia, da profissionalização do setor, da busca pelo conhecimento em áreas que até aqui não estavam tão presentes nas nossas empresas. E foi, definitivamente, o tempo da afirmação da rolha da cortiça como opção mais sustentável, mais credível e com melhor desempenho para o mundo vitivinícola.

Houve uma grande transformação?
Os últimos dois ou três anos foram de uma aceleração tecnológica como nunca se viveu na nossa fileira, com uma necessidade de investimentos avultados, nem sempre compatíveis com aquilo que é a dimensão das nossas empresas. E a APCOR procurou criar esse estímulo, designadamente com o CorkInov, que tinha a ambição de dar às empresas ferramentas de diagnóstico sobre o seu posicionamento face à indústria 4.0 e a novos modelos de produção, e depois definir planos de ação e de melhoria. Estamos em plena implementação destas questões, mas creio que foi um programa que criou condições de perceção para as questões da automação de processos, da digitalização e de tudo o que tem a ver com o aumento da competitividade.

Se a década passada foi a do conhecimento e profissionalização, o que será a atual?
Vai ser a década da consolidação deste momento de viragem, da afirmação tecnológica e da afirmação da cortiça enquanto paradigma de uma fileira sustentável e que vai continuar a ter Portugal na liderança mundial em valores que, para o país, são motivo de orgulho, com caráter distintivo. Portugal dificilmente poderá ambicionar ser um líder mundial do ponto de vista do valor económico global, mas devemos ser líderes mundiais em fileiras sustentáveis que tenham este fator diferenciador. Uma fileira que tem liderança em mercados tão importantes como os EUA; somos o segundo maior exportador para o mercado americano, e provavelmente o de maior valor acrescentado a nível mundial. Esta tem que ser a década de afirmação destas credenciais.

O futuro será risonho?
Acredito que sim, até porque há um contexto mundial altamente favorável à cortiça, que, à luz do Green Deal europeu e do Plano Nacional de Energia e Clima, terá claramente que fazer parte do modelo económico do futuro, seja ao nível da economia circular ou da transformação energética. E acredito que o futuro será ainda mais brilhante do que foi o passado, porque há um mundo todo para descobrir em aplicações que nem nós hoje imaginamos.

Olhar para lá das rolhas? Elas ainda representam 70% das exportações...
Sim, mas sem nunca perder esta liderança no mercado mundial de vedantes - dos 19 mil milhões de garrafas de vinho que se engarrafam anualmente no mundo, cerca de 70% optam por uma rolha de cortiça - porque é ela que vai gerar riqueza e capital para investir na busca das outras aplicações. Mas há claramente na combinação da cortiça com outros materiais, no novo modelo de bioeconomia, uma oportunidade única que temos de saber aproveitar.

E há matéria-prima para tudo?
Para consolidar Portugal como líder mundial da fileira da cortiça tivemos que importar matéria-prima de Espanha e de outras regiões. Com o que ambicionamos continuar a crescer vamos ter que olhar para a floresta com mais intensidade e preocupação. E entendemos que há espaço para o fazer. E a própria indústria já entendeu que tem de olhar para a floresta como algo em que deve atuar. Mas falta adaptar as políticas, afiná-las à realidade do montado, que tem timings e calendários muito diferentes da restante floresta. Por exemplo, algo que me parece fundamental é criar mecanismos para que os serviços do ecossistema tenham valor económico e que se faça chegar esse valor aos produtores florestais. Por outro lado, é preciso olhar para as novas técnicas de plantação. Não gosto de falar de montados irrigados, mas há projetos que mostram que conseguimos encurtar em 15 anos o primeiro ciclo de produção e isso pode ser um fator muito diferenciador, não alterando, depois, a partir da primeira extração, nada daquilo que é o ecossistema como o conhecemos até hoje. E isso pode ter aqui um impacto importante no estímulo para o produtor.

De que serviços do ecossistemas falamos?
Estamos a falar desde a retenção de emissões de CO2, que é talvez o mais percepcionado pelas pessoas. Cada tonelada de cortiça produzida tem uma gigantesca retenção de emissões. Depois há as questões da biodiversidade, as questões sociais, de fixação das populações, etc. Estamos a falar de um ecossistema que muito dele está localizado em regiões do país que muitas vezes têm dificuldade em fixar as pessoas. Esta dinamização que ambicionamos para o interior, a coesão territorial, a coesão social que ambicionamos para o país, podemos ter aqui um controbuto muito imporante desta fileira.

Qual é a ambição que têm?
Estimamos que com 50 mil hectares deste novo tipo de plantações, no horizonte de uma década, podemos aumentar a produção de cortiça em cerca de 30%. Mas não podemos focar-nos apenas nesta vertente e esquecer os outros 720 mil hectares de montado, porque esse está instalado, muito dele está em produção e é preciso mantê-lo e dinamizá-lo. Eu olho para este ecossistema como um património do planeta e da humanidade e nós temos a responsabilidade, enquanto fileira, de o deixar mais forte.

Como vê o Plano de Recuperação e Resiliência?
Está muito centrado em medidas de combate aos incêndios. Sinto que faltou no PRR, na área da bioeconomia sustentável, uma medida clara de apoio à fileira da cortiça. E faltou, sobretudo, uma componente forte de apoio ao reforço da presença internacional das nossas empresas. A resposta que temos tido é que essa vertente estará vertida no novo quadro comunitário.

Quando arranca o novo plano de promoção internacional?
Está agora a começar e termina em 2022. Vamos investir 3,2 milhões de euros em sete mercados - EUA, Alemanha, França, Itália, Reino Unido, China e Brasil -, muito centrados nos valores da sustentabilidade, da qualidade dos nossos produtos e do valor acrescentado que a cortiça pode dar aos nossos clientes. Desde 1999 que a APCOR faz campanhas internacionais, descentralizadas e adaptadas à realidade de cada um dos mercados. É óbvio que o indicador que é mais visível são as exportações e para termos uma ideia, nesta última década, em que crescemos cerca de 300 milhões nas exportações, o investimento em comunicação terá rondado 30 a 35 milhões de euros. Mas fizemos uma aposta fortíssima em tudo o que são plataformas digitais, criando visibilidade para a cortiça, e temos trazido a Portugal muitos jornalistas e líderes de opinião, em áreas variadas, desde a indústria do vinho às áreas da sustentabilidade e ambientais, pessoas que vão ser depois amplificadores desta mensagem, contando a história de um ecossistema que é único a nível mundial, que só existe nesta zona do planeta, e que dão a conhecer às pessoas que ao escolherem cortiça estão a ter um impacto maior do que a sua dimensão local. Temos orçamentos que não nos permitem grandes campanhas de publicidade, a nossa promoção é mais ao nível da educação, da partilha de conhecimento, de criar embaixadores da cortiça pelo mundo.

E medem as preferências dos consumidores, também, não é?
Sim, e os dados são avassaladores. Estamos a falar de preferências que oscilam entre os 85 e os 97% em diferentes mercados. Uma das ações mais emblemáticas que fazemos é a Cork Academy, na China, onde já fizemos mais de 60 ações, em 29 cidades, e em que envolvemos mais de 1200 participantes, aos quais procuramos dar uma visão holística do vinho e da rolha de cortiça. Porque nem sempre se conhece tudo o que está por trás de uma rolha e nós temos aqui um valor que vai muito para lá daquilo que é a funcionalidade do produto. Há aqui um capital por trás dos produtos que tem que ser contado e explicado, as características únicas da cortiça, num ecossistema distintivo dos outros e por isso é um dos 36 hotspots mundiais a nível da biodiversidade e que o coloca em níveis de reconhecimento único. E até hoje a única via para preservar este ecossistema e para o deixar melhor do que o que recebemos é ter uma indústria forte. É um material único, de uma árvore que tem características muito particulares, que dá muito e pede muito pouco em troca. É uma arvore que vive em condições muito pobres mas que gera uma riqueza muito grande.

É o símbolo nacional, não é?
Sim, foi uma decisão tomada há 10 anos, numa votação unânime na Assembleia da República, uma manifestação política que tem, também, o carinho dos portugueses. Eu sinto isso. De uma maneira geral há um orgulho do trabalho que temos feito e isto deve-nos dar motivação, mas também sentido de responsabilidade. Nós tínhamos um projeto muito interessante que estava a acontecer, até sermos confrontados com a pandemia, que era receber visitas turísticas aproveitando a ligação e a proximidade que temos com o Porto e com toda a fileira do vinho em Portugal. Recebíamos milhares de visitas todos os anos, criamos um espaço próprio na associação para receber esses turistas que queriam saber mais sobre a cortiça, numa lógica de turismo industrial, infelizmente isso teve que ser suspenso, mas é algo que queremos retomar logo que possível. Há uma questão clara, cada visita que existe ao nosso setor é um embaixador que fica para o futuro. E é por isso que estamos já com a cabeça em 2023, para podermos, logo que termine esta campanha, arrancar com outra. Acho que é um excelente exemplo de como conseguimos maximizar o investimento público e privado neste tipo de ações.

Como evoluiu o número de empresas na última década?
Não tem havido alterações profundas, desde 2010 há uma certa estabilidade e todas têm acompanhado o ritmo de crescimento do setor. Mas é um setor muito atomizado, com uma grande preponderância de pequenas e micro empresas. Para o investimento que hoje é necessário fazer, em tecnologia e na presença internacional, os ganhos de escala eram importantes. Tem sido falado que, com o Banco de Fomento, uma parte do PRR vai para a capitalização das empresas, julgo que devia também valorizar ou premiar quem conseguisse fazer este tipo de ação.

E o emprego tem-se mantido estável ou a digitalização tem levado ao desaparecimento de postos de trabalho?
Tem estado estável, temos cerca de 8300 trabalhadores. Há é uma mudança do tipo de profissões que vamos necessitando para as nossas empresas e penso que tem havido até uma requalificação das pessoas para se adaptarem a funções novas dentro das mesmas unidades. E isto é muito importante. Mas obviamente o que ambicionamos é conseguir manter emprego com a evolução tecnológica. Isto vai obrigar a que haja uma adaptação também dos nossos recursos para estarem familiarizados com outras ferramentas e com outras tecnologias. Vamos ter que conjugar o conhecimento da cortiça com novas tecnologias, estar disponíveis para a automação, para olhar para tudo isto com uma lógica completamente diferente.

Falou há pouco em novas utilizações. A cortiça já hoje é usada nos transportes, nos materiais de construção, na moda. O que se pode seguir?
Há vários que podem ser o caminho. Todas estas fileiras e outras que podemos trazer para a equação estão à procura de materiais ambientalmente mais responsáveis, que possam reduzir a pegada ecológica dos produtos, onde os elementos naturais que possam ser reciclados numa lógica de economia circular estão a ser muito procurados e portanto as oportunidades estão muito aí, aliando as características da cortiça, como um excelente material isolante, quer do ponto de vista térmico, quer do ponto de vista acústico, leve, que vai fazer com que se reduza o peso das peças em que vai ser incorporada a cortiça, abre-nos aqui oportunidades importantes. Na área dos transportes, por exemplo, isso é muito evidente. Na área da construção também. Acho que é um eixo em que temos feito alguma coisa, mas gostava de conseguir fazer mais. Precisamos de, fora de Portugal, colocar a cortiça na lista de opções de materiais que os diferentes setores têm quando procuram alternativas. Fazer chegar a cortiça como opção à biblioteca de materiais destes centros é fundamental. Provavelmente, as próximas campanhas de promoção têm que integrar também uma articulação com os centros de engenharia.

Perfil

João Rui Ferreira: Um apaixonado por música ao serviço da cortiça

Licenciado em Engenharia Química pela Universidade de Aveiro e pós-graduado em Gestão pela Porto Business School e pelo INSEAD, João Rui Ferreira tem 43 anos e é presidente da APCOR desde 2012. Termina agora o seu terceiro e último mandato, mas não abre o jogo sobre quem será o seu sucessor. Nascido e criado na cortiça - é CEO da WSF Cork, empresa familiar criada pelos seus avós em 1974 -, João Rui é um apaixonado por desporto e música. Ao primeiro não dá a atenção que gostaria, por "falta de tempo", algo que espera "corrigir em breve". Já a música é uma presença constante. Toca piano, em casa, e sempre que pode não perde um espetáculo, a que já vai levando os dois filhos.

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