Manuel Pinheiro. "Há quem queira investir no Vinho Verde mas a falta de licenças limita-o"

A UE só permite alargar a área vitícola nacional em 1% em cada ano, mas muitas dessas licenças "caducam e nunca chegam a ser usadas", lamenta o ainda líder da CVRVV, que garante que há "grandes empresas" à procura de propriedades na região.

É na Região dos Vinhos Verdes que se produz o vinho português mais exportado, a seguir ao Vinho do Porto. Manuel Pinheiro, que preside à Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) desde o início do milénio, está de saída ao fim de sete mandatos. Neste período, as exportações passaram de 17 milhões para mais de 74 milhões de euros. Garante que o vinho "é um setor competitivo e não um sugador de subsídios" e que a região tem espaço para "ir muito mais longe". Reinventados os brancos, é preciso fazer o mesmo caminho nos tintos, defende.

Foram 25 anos na CVRVV, 22 dos quais como presidente, e que coincidem com o período em que o vinho português se afirmou no mundo. As exportaçõees totais do setor cresceram 65%, mas as de Vinho Verde mais do que quadruplicaram. A que se deve este sucesso?
A um conjunto de fatores. Primeiro, a uma reconversão enorme da vinha: 50% da área de vinha - são cerca de 8000 hectares - foram reconvertidos ao abrigo do programa Vitis. Depois, a uma inovação na tecnologia: estamos a lançar novos vinhos brancos; lançámos rosados e espumantes que não existiam. E, em terceiro, a uma concertação interprofissional, que é a parte que nos cabe a nós, de agrupar a região num só discurso e numa só forma de ir pelo mundo fora apresentar os seus vinhos.

Apesar desse sucesso, o preço médio de exportação pouco evoluiu: passou de 2,24 euros por litro em 2000 para 2,38 euros em 2020. Este valor remunera a cadeia produtiva de forma justa?
Nós, Comissão de Viticultura, nunca vendemos uma garrafa desde que fomos fundados em 1926. Mas gostávamos bem que elas fossem vendidas com maior valor. É evidente que há aqui dois esforços: o primeiro, é o esforço de produzir com menos custos, de que se fala pouco, mas está a ser feito. Hoje temos uma produção média de seis toneladas por hectare, mas temos muitos produtores com 10 toneladas por hectare. Além disso, o crescimento do valor no ponto de venda depende de sermos capazes de segmentar o Vinho Verde, em termos de estratégia de promoção.

E como é que isso se faz?
Mais uma vez, em concertação interprofissional. Estamos em reuniões com os produtores para ver se conseguimos um acordo para passarmos a promover dois Vinhos Verdes: o chamado clássico, o Vinho Verde jovem e fresco, de grande volume e que tem um preço mais competitivo, e os vinhos de casta, os Alvarinhos Loureiros, de menor volume e maior qualidade, e que têm um preço mais alto. De qualquer modo, a evolução dos volumes foi muito importante e a evolução dos preços está dentro do que é a média do vinho português. Claramente queremos fazer mais do que isso e há um ou dois mercados onde já o fazemos, como o Japão ou o mercado norte-americano. Se calhar, no mercado alemão estamos ainda um pouco aquém dos objetivos. É um caminho.

Como evoluiu a região no entretanto? O abandono das propriedades é uma preocupação?
É um facto. Há 20 anos tínhamos quase 100 mil produtores, hoje temos 16 mil. Mas a produzir mais do que os 100 mil. Neste momento, há uma procura enorme de empresas de fora para comprarem propriedades na região. Tivemos aqui a chegada do Esporão, da Herdade das Servas, da Casa Ermelinda Freitas e temos várias outras grandes empresas de vinho do Porto e de outras regiões à procura de comprar propriedades nos Verdes. Portanto, existe uma apetência pelo investimento. A grande limitação é que não há licenças de plantação. Já fizemos ver isso ao Ministério da Agricultura e ao Instituto da Vinha e do Vinho. A União Europeia permite que se distribuam, por ano, licenças de plantação correspondentes a 1% da área, portanto, nós aqui deveríamos ter uma área que é mais do que suficiente.

E não é porquê?
Muitas dessas licenças caducam e nunca chegam a ser usadas. É preciso dar licenças de plantação - pelo menos nesta região, podem as outras entender de forma diferente -, porque há investidores interessados, porque é preciso matéria-prima e porque nós precisamos de projetos motivadores. Nós hoje temos gente que quer investir no Vinho Verde e não pode, porque a legislação o limita.

Isso significa que a viticultura já é hoje rentável por si só?
Uma região só é demarcada para fazer chegar riqueza à produção. Ao contrário de uma indústria, que se deslocaliza, uma região demarcada não se pode deslocalizar. A viticultura moderna, de grande escala, é rentável nos Vinhos Verdes. A viticultura de escala menor precisa ainda de ser melhor paga. Nós encomendámos, há cerca de dois meses, um estudo a uma empresa de consultores sobre os custos de produção de uva na nossa região, para vários segmentos.

Quando estará pronto?
Vai ser apresentado no fim do primeiro semestre - já não no meu mandato - e o objetivo é que sirva de base para a seguir se discutir, no âmbito do interprofissional, qual é o preço justo a pagar por um quilo de uva. Obviamente, não pode estar abaixo do preço de custo, senão põe em causa a sobrevivência....Falamos muito em sustentabilidade ambiental, mas é preciso falar também de sustentabilidade social. Se pagarmos as uvas abaixo do preço de custo, obviamente é insustentável e as populações abandonam a atividade.

O estabelecimento de preços mínimos é proibido, como é que isso vai funcionar?
É certo que não podemos fazer acordos de preço, mas se existir o consenso técnico, dentro da região, de que o preço de custo da produção é xis, quem pagar abaixo desse custo deve encher a cara de vergonha.

É uma questão ética mais do que legal?
Sim, mas que é relevante. Estou convencido que a partir do momento em que seja claro qual é o preço de custo muito dificilmente alguém terá o desplante de vir a público dizer que paga abaixo desse valor.

A sua saída da CVRVV apanhou o setor de surpresa. Porquê agora?
Os 25 anos marcam psicologicamente um momento e que coincide também com a alteração da Lei Quadro das Regiões Demarcadas, que vai reorganizar o funcionamento das regiões. Pareceu-me que este era o momento de fechar este ciclo. Tenho um sentimento muito profundo de missão cumprida, acho que cumpri os objetivos que em propuseram quando vim para cá, e tenho um sentimento de gratidão para com esta região que me deu uma possibilidade fantástica de trabalhar. Mas as pessoas não se podem perpetuar nos cargos e pareceu-me que os 25 anos, acrescidos da mudança de lei, era o momento certo para fechar este ciclo.

Que legado deixa?
Agora está-se a fazer naturalmente o debate sobre as opções futuras quanto a projetos e quanto a pessoas. Acho que a região é competitiva e eu também partilho o sonho de que quem vier para cá a leve muito mais longe e vai ser com gosto que vou ver isso. Quem chegar encontra uma Comissão bem organizada, economicamente robusta... ...

Que não foi o que encontrou quando cá chegou...
Sim, nos primeiros meses os salários foram uma dor de cabeça. Mas quem vier encontra uma região muito competitiva. É certo que tem novas vinhas e novos vinhos, mas o que mais entusiasma é que tem uma nova geração de técnicos na viticultura, na enologia e no marketing, tudo gente na casa dos 40 ou abaixo disso, que é muitíssimo boa. Tenho imensa confiança que quem vier vai poder agarrar a região e levá-la muito mais longe.

E qual foi o maior desafio nestes 25 anos?
Foram dois, mas que resultam um bocadinho no mesmo. O primeiro, foi colocar o interprofissional a funcionar. Para que uma região demarcada funcione, produtores e comerciantes têm que estar em diálogo permanente e é preciso levar à prática as decisões desse diálogo. Segundo, foi o Acordo Alvarinho, que foi no fundo o mesmo. Foi colocar os dois setores a debater, mas com elementos apaixonantes: conseguimos fazer um acordo e publicar uma lei contra a vontade da Assembleia da República, o que me fica como uma medalha de boa disposição.

O que ficou por fazer?
No meu íntimo há muita coisa que fica por fazer, mas não partilho porque acho que quem vier a seguir é que deve mencionar os seus objetivos. Tem que haver sempre muita coisa por fazer quando um trabalho nos entusiasma e este entusiasmou-me do primeiro ao último momento. Deixo só uma ideia que é consensual na região: precisamos de reinventar o vinho tinto.

Há lugar para o tinto nos Verdes?
Tem de haver. Uma região não pode, estrategicamente, depender só de vinho branco, ainda para mais porque o nosso tinto - com todos os defeitos que se lhe possam apontar - é um vinho com características únicas. Há aí uma oportunidade de colocar no mercado um vinho muito diferenciado, mas que, de facto, precisa também de evoluir.

Em que sentido?
O Vinho Verde tinto é consumido sobretudo na região, ou pelas pessoas da região; é consumido com a gastronomia regional e é consumido com uma hiper-sazonalidade. Ao contrário do branco, que verdadeiramente já se bebe todo o ano, o vinho tinto é consumido até ao verão. O que se exporta não tem grande significado e o que se vende para a Grande Lisboa também não. Isto precisa de mudar. Precisamos de ter um vinho que consiga ser também único no mundo, mas ao mesmo tempo ser mais aceitável pelo palato das pessoas, portanto, indo buscar características que sejam mais fáceis de colocar no mercado. É um equilíbrio difícil, mas que se fará certamente questionando as castas - é preciso ver o que é que os galegos estão a fazer e ver se há alguma casta que se possa ir lá buscar - e questionando os métodos de vinificação.

O que teria feito diferente, se pudesse?
Eu critico muito o meu próprio trabalho, mas não vale a pena olhar para trás e dizer que teria feito coisas diferentes à luz do conhecimento que tenho hoje. Tenho a consciência tranquila de, em cada momento, ter dado o meu melhor, à luz das informações que tinha na altura.

Falou há pouco na concertação de interesses da produção e do comércio, imagino que não seja nada fácil...
É muito difícil, mas é absolutamente essencial. Um presidente de uma região demarcada que não consiga colocar a produção e o comércio a falarem e ser independente perante os dois lados, não conseguirá fazer o mais importante do seu trabalho.

Em 25 anos conheceu muitos ministros da Agricultura. Qual foi o que mais ajudou ao desenvolvimento do setor?
Sobrevalorizamos os ministros em relação aos secretários de Estado. E nós tivemos alguns, como Luís Vieira ou José Diogo Albuquerque, que foram secretários de Estado que dinamizaram muito e apoiaram o setor do vinho

E os que menos ajudaram?
O vinho é um setor organizado e competitivo e não um sugador de subsídios. Por isso, muitas vezes os governos até prestam menos atenção a este setor porque corre sempre bem para os brindes e depois não lhes dá problemas. Quando aconteceu termos menos atenção, fomos por vias alternativas, via Economia ou Turismo, nunca entramos em conflito nem nunca isso foi necessário.

Quem será o próximo presidente da CVRVV?
Espero que seja exatamente quem a produção e o comércio escolherem, sem interferências político-partidárias.

Dizia há pouco que os vinhos não são um sugador de subsídios. Mas é um setor favorecido, a nível fiscal, face a outras bebidas alcoólicas, não?
Isso são os nossos amigos da cerveja a falar. O vinho cria riqueza e postos de trabalho em locais onde não existem alternativas e, nesse sentido, parece-me perfeitamente justo o enquadramento fiscal do vinho. O que me parece injusto é o vinho pagar, nos restaurantes, mais de IVA do que paga a comida. Ou seja, quando alguém pede uma garrafa de vinho e uma lagosta, a lagosta paga um imposto mais baixo do que uma garrafa de vinho e isso é que me parece mal.

E agora, o que se segue?
A minha saída dos Vinhos Verdes é genuína, não tenho definido para onde vou. Certamente ficarei no setor do vinho, que me formou e no qual me sinto bem, mas não tenho compromissos assumidos.

Uma região como o Douro é atrativa?
Não tenho em agenda a candidatura a qualquer entidade porque não estão abertas candidaturas neste momento para quaisquer outras entidades.

A demarcação do Douro levou à criação de um monopólio, proibindo quaisquer outras exportações, designadamente dos vinhos de Monção e outros. Os Verdes ainda se sentem hoje prejudicados em relação ao Douro?
Muita gente acha que o Douro é beneficiado pelo facto de ser uma região que o Estado leva ao colo há muitos anos. Eu acho que o Douro é prejudicado por causa disso. O Douro é menos competitivo como região demarcada pelo facto de se ter habituado, ou até viciado, em ter o Estado sempre ao seu lado. Se o Douro tivesse mais interprofissional e menos Estado seria mais competitivo.

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