Marcos Bonturi

Marcos Bonturi: “A inovação é vista como uma coisa de jovens, mas não é”

Marcos Bonturi

Marcos Bonturi participa na 3ª sessão do ciclo de conferências do INA e falou com o Dinheiro Vivo sobre inovação na administração pública.

A “Inovação na gestão da administração pública” é o tema central da conferência “Construir hoje a administração pública do futuro” promovida pela Direção Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas que tem lugar esta quarta-feira, dia 27 de junho. Este encontro, o terceiro daquele ciclo de conferências, terá o primeiro-ministro e o ministro das Finanças na sessão de abertura, conta com a participação de vários especialistas internacionais que vão falar sobre os desafios que se colocam à administração pública num mundo cada vez mais dominado por tecnologias. Entre esses oradores está Marcos Bonturi, diretor de governação pública da OCDE que, em entrevista ao Dinheiro Vivo, fala sobre a forma como as administrações públicas estão a preparar-se.

O sector privado está focado inovação. Do lado do sector público, também se pode dizer que o foco está canalizado para a inovação ou a administração pública corre riscos de se deixar ficar para trás?
Todos, independentemente do sector, enfrentam esta necessidade de inovar e há muitas administrações a fazer esse caminho. Nos últimos dois anos, temos colaborado na análise de tendências emergentes na inovação no sector público, e no relatório Abraçando a Inovação damos vários exemplos de novos métodos e técnicas que estão a ser aplicadas, como a criação da primeira ‘embaixada de dados’ do mundo na Estónia ou a utilização de um modelo de coinvestimento nos serviços sociais na Noruega. Percebemos que há uma aposta na inovação. Será suficiente? A resposta depende do contexto de cada administração pública, mas acho que é justo dizer que há muito a ser feito. Mas a inovação requer atenção e foco permanentes, não vemos que isso esteja a acontecer de forma tão acentuada quanto o que seria necessário.

Há serviços públicos mais sensíveis a esta necessidade de inovação e onde essa falta de foco se sinta mais?
Vivemos tempos de mudança constante e seria preciso ter muita confiança para prever as áreas em que a inovação é mais necessária – ou dizer onde ela pode não ser necessária. As novas tecnologias, práticas e expectativas podem afetar qualquer área do sector público, seja saúde, educação, impostos segurança social. Cada área tem de ir vendo as oportunidades que a inovação lhe pode trazer, as situações que exigem novas abordagens e que prioridades apenas conseguirão alcançar se as coisas forem feitas de maneira diferente. No nosso trabalho na OCDE temos visto a necessidade de inovação impor-se em todas as áreas e em todos os domínios. Isso diz-me que não há nenhuma área em que não se possa inovar e que temos de estar permanentemente a ver o que podemos fazer diferente.

  1. Em Portugal, o número de trabalhadores da função pública com licenciatura é muito superior ao da média do sector privado. Mas a idade média destes trabalhadores (cerca de 46,7 anos) também é mais elevada. O facto de se tratar de pessoas mais velhas, em termos médios, pode ser um entrave à mudança, à inovação?
    Muitas vezes, a inovação é vista como uma coisa de jovens, mas isso simplesmente não é verdade. No início deste ano, Departamento Nacional de Economia dos EUA divulgou um estudo que mostra que a média de idade dos fundadores dos 1000 projetos com crescimento mais rápido era 45 anos. Assim, a idade dos funcionários públicos de Portugal é quase perfeita! A inovação requer disposição para questionar o estado atual das coisas, ter energia e paixão para procurar por coisas que não são uma certeza ainda e estar aberto a novas experiências e métodos. Estas são valências frequentemente associadas aos jovens, mas que qualquer um pode ter, independentemente da sua idade. A idade também pode trazer vantagens para a inovação: ter experiência e conhecimento sobre o que funciona (e o que não funciona), unir conceitos e experiências de diferentes campos e ter uma compreensão mais aprofundada dos temas, políticas ou serviços específicos. Enquanto as pessoas estiverem abertas para perguntar “o que poderíamos e deveríamos fazer de forma diferente?”, a idade não é importante.
  1. Em Portugal, temos um programa, o Simplex +, que promove a concretização de ideias que visam simplificar e inovar a forma como a administração pública se relacionada com os cidadãos. Na última edição, foi anunciado que, proximamente, haverá um robô num serviço público a indicar às pessoas o local onde devem dirigir-se. Há quem veja aqui uma ameaça à substituição de pessoas por robôs. É de esperar que a robotização reduza muitos empregos na administração pública?
    Os robôs e automação são definitivamente grandes tendências a ter em conta, mas num futuro próximo a oportunidade de automatizar serviços é algo que se deve apreciar em vez de se recear. Uma das maiores barreiras à inovação no sector público é os governos tomarem medidas que travem este processo. A automação e os robôs dão-nos a oportunidade de libertar recursos para que coisas novas sejam consideradas e testadas.
  1. Que tarefas ou que tipo de serviços serão mais facilmente alvo desta automação?
    A automação foca-se sobretudo em tarefas repetitivas e que não exigem envolvimento ou criatividade. Mas à medida que a robotização se tornar mais sofisticada, poderá ser mais fácil automatizar uma gama mais alargada de procedimentos e tarefas. Mesmo assim, e embora haja necessidades razoavelmente padronizadas que podem ser respondidas por serviços automatizados, haverá sempre situações únicas a necessitar de uma atenção individual.

Em Portugal, é obrigatório que os funcionários se aposentem aos 70 anos. Como a atual esperança média de vida continua a aumentar esta limitação ainda faz sentido?
Esta é uma questão que não se limita à administração pública. É necessário pensar de que forma é que as pessoas mais velhas podem continuar a contribuir e a serem ativas. Aumentar apenas a idade de saída para a reforma não me parece que seja uma resposta inovadora. A solução pode passar simplesmente por encontrar formas novas de aproveitar as experiências e o conhecimento das pessoas mais velhas, seja na administração pública, seja no sector privado.

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