a vida do dinheiro

Matos Fernandes: “Até ao verão haverá estudo prévio para nova barragem”

A carregar player...

Com a pasta do Ambiente desde 2015, o ministro João Pedro Matos Fernandes ganhou nesta legislatura o dossiê da Ação Climática. Ao Dinheiro Vivo e TSF, explica os desafios que tem pela frente.

O governo antecipou o fecho das centrais do Pego (2021) e de Sines (2023). Confirma que a intenção é converter o Pego numa central de biomassa?
É uma vontade que nos foi transmitida pelos donos da central. Temos o objetivo de chegar a 2030 com a eletricidade consumida em Portugal a ter origem em fontes renováveis. Estava inscrito e assumimos o compromisso internacional de fechar as centrais a carvão até 2030 – e há condições para ser bastante antes. O Pego neste momento até já tem um papel marginal na injeção de eletricidade no sistema – Sines não é bem assim. Com o sucesso do leilão do solar, estamos em condições de descarbonizar a produção e reduzir a fatura paga pelos consumidores, domésticos e industriais, porque a produção de eletricidade a partir de renováveis é muito mais barata do que a de fontes fósseis – que Portugal tem de importar. Há projetos para o Pego se transformar numa central de biomassa e um dos leilões que vamos lançar no próximo ano é para centrais despacháveis – que, produzindo eletricidade também a partir de renováveis, estão a todo o momento prontas para entrar no sistema caso haja necessidade. Este é um exemplo, há outros e vão aparecer cada vez mais projetos de produção a partir do solar que associem armazenagem – o que é fundamental para dar sustentabilidade ao sistema.

A ideia de converter o Pego numa central de biomassa está ainda no plano das intenções ou vai de facto acontecer?
Vamos lançar este leilão para as centrais despacháveis, em que vamos pagar por megawatt, garantindo que temos centrais prontas para entrar no sistema a todo o momento. A nossa expectativa é que os responsáveis pela central do Pego concorram e tenham uma tarifa competitiva – se aparecerem outras mais competitivas, não vai ser a central do Pego. O leilão é tão público e transparente que quase que me admito ter uma preferência. De facto, já existindo aquele investimento feito e amortizado e havendo um conjunto de trabalhadores, era muito interessante que esta central pudesse ficar bem posicionada neste leilão.

Essa conversão poderá ter custos para as contas públicas?
Não, de todo. Isto são investimentos privados. Muita gente perguntou quanto é que se vai pagar à EDP e à Endesa? Coisíssima nenhuma. A central de Sines está já no mercado, do ponto de vista do negócio pode fechar a todo o momento, a do Pego tem um subsídio até ao final de 2021 e assim sendo estão no mercado e não pesam nada às contas públicas, nem do lado do investimento nem do lado daquilo que cada um de nós paga pela eletricidade que consome.

Vídeo: Conversão da Central do Pego para biomassa sem impacto no preço da eletricidade

A carregar player...

As necessidades do país podem ser satisfeitas com estas duas centrais e sem subir preços?
É mesmo sem aumento de preço. Neste momento o preço da energia no mercado ibérico anda à volta dos 45 euros/Mw/H. A média que conseguimos com a produção da eletricidade a partir do solar foi de 21. Há aqui um sobreganho porque a diferença entra diretamente nas contas do sistema elétrico nacional e tem o objetivo de aliviar a fatura dos consumidores. Do ponto de vista da produção, já são mais os dias em que estas centrais não estão a funcionar do que os que funcionam, mas são precisas como backup quando o sistema das renováveis não tem capacidade para produzir essa eletricidade.

E com que backup ficamos?
Esses backups podem ser conseguidos com o alargar da armazenagem de todas as fontes renováveis. Um belíssimo exemplo dessa mesma armazenagem será a central do Pego poder funcionar como uma central de biomassa. O problema que mais constrange o encerramento das centrais nem é um problema de capacidade de produção, é mesmo um problema de transporte. E aqui o Algarve aparece como ponto mais frágil. Só temos duas ligações para o Algarve, uma delas vem de Espanha, e para podermos encerrar com toda a serenidade a central de Sines temos de ter, por um lado, uma central despachável que são a cascata de barragens do Alto Tâmega, e temos de ter uma outra linha de alta tensão que, passando por Ferreira do Alentejo, chegue ao Algarve. Não é um problema de capacidade de produção. Temos até uma capacidade ociosa nas centrais de gás que existem, é óbvio que é um combustível fóssil e não é por aí que queremos ir, ainda que muito menos poluente que o carvão, mas é um problema de segurança absoluta do sistema, porque dizem os especialistas que têm de haver sempre 3 entradas para ter a certeza de que não haverá colapso.

Já disse que pedir a revisão da Convenção de Albufeira é como ir à lã e sair tosquiado. Disse que o país precisa de uma barragem nova para compensar as flutuações de caudal. Esta intenção também está no plano das ideias ou há uma decisão concreta?
Há uma decisão concreta para estudar esta barragem e essa indicação já foi dada à Agência Portuguesa do Ambiente e chegaremos ao verão com um estudo prévio para essa barragem que tenha várias alternativas, que nos diga quanto custa mediante as alternativas, que nos diga como é que ela pode ser paga, o que não quer dizer que possa ser completamente paga, mas há uma parte que deve poder ser rentável para rega, para produção de eletricidade colocando painéis fotovoltaicos na superfície da barragem, e que nos indique quais são os principais impactos ambientais.

A nossa relação com Espanha, por muito bem que ela corra, temos de perceber que o Tejo tem menos 25% do caudal que tinha quando foi assinada a Convenção de Albufeira, já lá vão mais de 20 anos. Por muito bem que essa relação corra, é fundamental termos do nosso lado alguma capacidade de armazenamento de água para poder regularizar o Tejo português. E onde é que se deve localizar esta barragem? Numa sub-bacia hidrográfica com alguma capacidade de água – o rio Ocreza é o que parece ser mais indicado, o mais próximo da fronteira com Espanha, mas numa bacia hidrográfica do território português. É isso que estamos a avaliar. Uma barragem deste tipo tem de ter um estudo de impacto ambiental, um projeto e um modelo de financiamento mas não vejo maneira de não podermos dormir descansados se essa barragem não vier a ser feita, avaliados obviamente os custos ambientais que resultam da sua construção, sejam os impactos ambientais locais no sítio onde vai existir, seja o ganho ambiental para os ecossistemas e até para as atividades que vivem do Tejo ao longo de todo o curso.

Existe uma data para ser construída essa barragem?
Se tivermos o estudo em junho, vamos ter o discutir publicamente mas quero acreditar que no outro OE já vai poder haver uma verba para o projeto da barragem.

Os portugueses estão preocupados com a falta de água no Tejo, mas estão também preocupados com a gestão da água no Alentejo, e não só, porque cada vez há menos água no país. Vou tocar num tema polémico, o olival intensivo, que tem sido muito contestado. Como é que se consegue equilibrar as necessidades agrícolas do país, o seu desenvolvimento e crescimento, com uma cada vez menos quantidade de água?
Em primeiro lugar, uma frase que é quase um axioma, que é Portugal está na bacia mediterrânica, uma das regiões do mundo em que a água da chuva é em menor quantidade do que aquela que consumimos. Por isso a única solução de fundo para o equilíbrio hídrico é nós consumirmos menos água. Três quartos da água em Portugal são consumidos pela agricultura e é aqui que temos de ter os maiores ganhos, ou seja, temos de adaptar as culturas ao território e não o contrário.

Poderá ser preciso desistir de algumas culturas?
Pelo menos é fundamental que a PAC não tenha aqui um papel perverso de financiar culturas agrícolas que são altamente consumidoras de águas. Direi que culturas permanentes como o olival intensivo são passíveis de ser regadas com sistemas eficientes com telemetria e a partir de águas residuais. Já temos um exemplo em Beja, a partir da ETAR da Magra, que entrou em funcionamento há muito pouco tempo, que está já a fornecer água para rega de culturas permanentes – e começou até com alguma desconfiança dos agricultores, não foi fácil encontrar um para o projeto-piloto, mas agora são muitos em fila para aderir a este projeto porque é uma belíssima solução. Temos um programa que iremos cumprir para que 20% do esgoto tratado nas 52 maiores ETAR do país venham a ser reutilizados. 20% é a meta mínima, se conseguirmos mais, excelente. Isso é mesmo importante porque não se fabrica água e é a única forma de termos mais água para introduzir no sistema e que pode ser usada para lavar ruas, para a rega de jardins e de culturas permanentes.

Se bem entendi, espera que no OE para 2021 já haja uma verba destinada a esta barragem. Daqui decorre, e corrija-me, que espera ter o estudo feito e o concurso lançado até lá?
Não. Queremos ter o estudo prévio lá para junho, discuti-lo em setembro, lançar o projeto de engenharia e de avaliação económico-financeira e ambiental mais ou menos daqui a um ano. O processo completo de uma barragem destas vai demorar, no mínimo, quatro anos.

A contribuição extraordinária sobre produtores de energia vai ser reduzida no próximo OE?
Não vou falar sobre o próximo OE. Já começou a ser elaborado mas não vou falar por pudor. A CESE foi paga no ano passado com um conjunto de compromissos assumidos e que serão cumpridos.

Faz sentido substituir o ISP por uma taxa de carbono mais abrangente, como sugerem alguns estudos, e que não incida apenas sobre os combustíveis mas também sobre várias formas de emissões?
Em primeiro lugar faz sentido não reduzir o ISP. Ainda temos um conjunto com expressão de benefícios fiscais que são perversos do ponto de vista ambiental e que totalizam cerca de 400 milhões de euros/ano, que já começamos a reduzir com a isenção de ISP para a produção de eletricidade a partir do carvão, que nem sei quando começou, e isso é sem dúvida responsável também pelo equilibrar dos preços da produção de eletricidade e também por Portugal se poder orgulhar de, no último ano, ter reduzido as emissões em 9%, quando no resto da Europa a redução foi só de 3%.

O governo anunciou em 2017 uma tarifa solidária para o gás engarrafado, do qual ainda dependem dois terços das famílias em Portugal, mas que esta medida ainda não saiu do papel. O que é que correu mal neste campo?
Está a correr bem e em breve será concretizado. Temos dez municípios que quiseram fazer parte deste projeto-piloto. O projeto que encontrámos quando tomei conta desta pasta foi um em que não me revi porque o fornecedor de gás era uma só empresa. Não concordamos com esse princípio e achámos que devíamos abrir a outras empresas a oportunidade de participar neste projeto. Isso obrigou a um atraso para ir ao encontro da nossa vontade política de concretizar este projeto.

O “em breve” é o quê?
No início do próximo ano [arranca o projeto-piloto, que poderá durar cerca de um ano].

A Transtejo vai comprar dez novos barcos, dois deles pagos pela ANA aeroportos. Não faria sentido que estes novos ferries fossem totalmente elétricos ou abastecidos por combustíveis mais limpos?
Eles hoje são a diesel e vão ser a gás natural.

O que é que se pode fazer para terem menos emissões?
Com o orçamento que tínhamos não havia forma de ter estes navios elétricos. Não só seria muito mais caro como teriam todos de ter em cada sítio (e são oito locais) postos de carregamento de eletricidade e tínhamos de ter necessariamente mais navios porque outros teriam de estar várias horas a carregar. Há aqui um grande ganho ambiental que resulta de estes navios serem a gás natural. Se me perguntar assim: passados três anos a compra poderia ter sido diferente? Se calhar podia. Dou sempre o exemplo dos autocarros: nos 710 autocarros que estão a ser comprados no país, dos quais 250 já estão a circular, fizemos dois avisos: no primeiro aviso só 15% dos autocarros eram elétricos, os outros eram a gás natural. E passado pouco mais de um ano, 41% dos autocarros eram elétricos. A nível dos autocarros a tecnologia tem evoluído de forma mais rápida. Nos navios isso não tem acontecido, é muito um aqui, outro ali. Teríamos de fazer uma renovação completa da frota e não era racional comprar navios elétricos no tempo recente, reconhecendo ainda assim que a evolução é muito rápida.

Era mais quanto em termos de orçamento?
Por navio à volta dos 25%, mais as estruturas de carregamento desses navios.

O sucesso da transição para a mobilidade elétrica implica a existência de uma rede de carregamento que seja densa e de grande cobertura. Que rede prevê ter no final da legislatura e a praticar que preços – sendo que a rede Mobi.e é bastante mais cara do que carregar em casa.
Mais barato do que andar a gasóleo ou gasolina mas muito mais caro do que carregar em casa. Os veículos elétricos são pensados para serem carregados em casa. Temos uma rede de carregamento rápidos crescente, temos muitos players privados – nos centros comerciais é a coisa mais normal termos carregadores -, há imensos hotéis que têm carregadores e essa rede vai crescendo a par da Mobi.e. Faltava completar o projeto-piloto, que será terminado este ano, de instalar carregadores em todos os concelhos do país. Ainda este ano lançaremos um concurso para a concessão desses entre 600 a 700 carregadores que existem e que são pertença da rede Mobi.e. A ideia é construir dez lotes que não são limitados geograficamente para não deixar nenhum lote de fora e para permitir condições de paridade entre os diversos concorrentes, e depois são eles que vão desenvolver e expandir essa mesma rede. Já hoje temos uma rede suficientemente robusta para o número de veículos que temos, é verdade que herdamos carregadores velhos para os quais não existem peças, mas esses serão substituídos até ao final do ano – deem-me o mês de janeiro de tolerância – e a partir de fevereiro, março vão estar nas mãos de alguém que vai cobrar pelo serviço e tratar da manutenção.

Em termos de evolução dos preços, o que prevê na rede Mobi.e?
Hoje paga-se zero na rede e vai passar a haver um pagamento. No que diz respeito ao carregamento rápido, as empresas têm preços diferentes. Vai passar a haver um preço de mercado. Quem carrega em casa consegue fazer as suas viagens a um preço que oscila entre os 15% e os 20% quando comparado com o preço do diesel. Há os que vão continuar em casa, e faz parte do programa do governo que os regulamentos municipais de construção passem a integrar a obrigatoriedade nos espaços condominiais de terem carregadores elétricos, ou seja vai haver uma muito maior oferta. E há empresas que estão a vender carregadores para carregar em casa. Mas há um preço associado ao consumo de eletricidade, é um facto.

Na conferência Portugal Mobi Summit, admitiu que seria necessário alargar o programa para apoiar a compra de carros elétricos. O que é que deve mudar: o montante dado a apoios? O número de carros apoiados?
É o número de carros. Estamos a falar de questões orçamentais e não me vou alongar. Foram 3 milhões de euros que estiveram alocados ao apoio aos veículos elétricos, seja para empresas ou particulares. O que queremos é fazer crescer esse montante para podermos apoiar um maior número de carros. Se calhar faz sentido, confesso que não pensei nisso ainda de maneira fechada, até a reduzir o valor do incentivo para podermos conseguir ter mais veículos apoiados.

Incluir os híbridos está no horizonte?
Não está no horizonte. O incentivo do estado é para veículos com emissão zero.

O setor automóvel tem-se questionado sobre o possível regresso do apoio ao abate de veículos. Está nos planos?
Não está de facto. Não me parece que seja uma pretensão insensata, mas enfim, temos o dinheiro que temos e neste momento queremos apoiar a introdução de veículos elétricos.

Vídeo: Metro de Lisboa: adiamento do prazo para entrega de propostas não altera data de conclusão da obra

A carregar player...

A expansão do metro de Lisboa: o concurso foi adiado, inicialmente apontou-se para a conclusão da obra em finais de 2022 ou 2023. Estes adiamentos levarão também a um adiamento do prazo previsto para a conclusão da obra?
A entrega das propostas foi adiada um mês porque há sempre protestos e esclarecimentos. Não conheço nenhum concurso desta dimensão que não tenha tido pelo menos um adiamento, é absolutamente normal. A nossa expectativa é que no final de 2023 a linha circular que resulta da junção das linhas verde e amarela esteja em pleno funcionamento. Um ano e meio antes disso estarão disponíveis as 14 composições triplas que o metro está a adquirir.

Este adiamento pode representar uma derrapagem de custos?
De todo. Ainda não recebemos as propostas mas o valor base é o mesmo. Não há inflação num mês de atraso que justifique um mês diferente.

Nesta legislatura, o governo vai continuar a precisar de apoios parlamentares. Nas questões do ambiente, o PAN, que cresceu para quatro deputados, pode ser visto como um parceiro privilegiado para as questões climáticas?
Não tenho dúvida de que o PAN , o BE e o Livre são partidos que têm – na ação climática, na adaptação do território e no reforço das medidas de redução de emissões – princípios que são muito próximos do que nós temos. Duas bandeiras eleitorais do PAN e do BE eram a constituição das comunidades energéticas – já as constituímos. É verdade que não ouvimos nenhuma palavra de apoio de nenhum desses partidos mas ouvimos o que os outros nos dizem e essas comunidades já estão constituídas e são muito relevantes para termos energia e eletricidade a muito baixo custo, exclusivamente a partir de fontes renováveis, e permitindo baixar muito a fatura de eletricidade de todos quantos vierem a pertencer a essas comunidades energéticas. Isto é muito pensado para os prédios mas, para ser franco, a minha maior expectativa é mais da zona industrial onde, combinando uma pequena central de biomassa, uma torre eólica e painéis solares, vamos mesmo poder ter eletricidade a partir de fontes renováveis, muito mais barata.

Ainda sobre este tema, há um partido com o qual o primeiro-ministro já disse que não fala, o Chega, mas para questões de ambiente a Iniciativa Liberal (IL) seria um parceiro para apoio parlamentar?
Eu nunca ouvi a IL falar de questões ambientais em momento algum, mas se é verdade que em Portugal a tradição das questões ambientais tem sido património da esquerda, seria injusto se estendesse a geografia. O governo holandês, que foi liberal durante muitos anos, foi um governo muito progressista em termos ambientais.

A questão ambiental ultrapassa espetros políticos?
Em Portugal parece que não, na Europa sim.

O programa do governo propõe um mecanismo de financiamento do programa de apoio à redução do tarifário dos transportes públicos, assente numa nova receita própria das áreas metropolitanas e das comunidades intermunicipais, e que no fundo tem em vista assegurar a estabilidade desta política. Qual vai ser a comparticipação do Estado para apoiar esta medida em 2020?
Isso já está no OE do ano passado: foram 104 milhões que vinham do OE. Isto aconteceu para três quartos do ano. Como agora é para o ano inteiro, o valor estimado que temos ronda 140 milhões de euros, o que significa 125 vindo do OE e 13 a 14 das autarquias, porque está escrito no OE do ano passado que as autarquias vão, a cada ano, assumindo um papel maior no financiamento.

Depois de 2020 a tendência será a comparticipação do Estado ser cada vez menor?
Sim, até porque este é o valor máximo para o ano todo e a partir deste ano, ainda que o valor global se mantenha, a comparticipação do Estado, sendo maior que a das autarquias, vai decrescendo a cada ano.

Vídeo: Carros elétricos: aumento do apoio à compra, possível redução do valor individual

A carregar player...

Vamos falar da mobilidade suave, importante sobretudo na mobilidade urbana. Não fazem falta mais incentivos? Dou o exemplo do Reino Unido, o programa cycle to work, em que o Estado financia poupanças para os utilizadores que vão de 25% a 40% na compra de bicicletas e acessórios. O Estado não devia ter um incentivo mais ativo à mobilidade suave?
Este último ano, até por proposta d’Os Verdes, também as bicicletas passaram a ser comparticipadas no mesmo programa em que são comparticipados os carros elétricos. Houve uma corrida grande no início do ano e depois caiu. Vai sobrar dinheiro. Está neste momento aberto no fundo ambiental, um aviso de 3 milhões de euros para que se possa cumprir o projeto Portugal Ciclável, que é o de construir mais de 900 km de ciclovia no país. E nós não iremos comparticipar nem com um tostão as ciclovias turísticas, mas antes ciclovias de ligação casa-trabalho, casa-escola.

Esta semana no Público houve um artigo da Galp a criticar o plano de transição energética do governo porque assenta demasiado na eletrificação da economia e porque poderia afetar a viabilidade da indústria da refinação, a maior exportadora do país. Que futuro é que governo antevê para o petróleo em Portugal e para empresas como a Galp, estruturante do ponto de vista do PIB, do emprego…
Das exportações depois das importações, porque nós não produzimos petróleo. Temos um firme objetivo de ser neutros em carbono em 2050. A maneira mais simples de explicar a diferença entre o que temos hoje e ser neutro pode ser em barris de petróleo. Hoje compramos cerca de 70 milhões de barris/ano. Para sermos neutros em 20250 não podemos estar a importar mais de 10 milhões de barris de petróleo. A nossa grande aposta não tem nada que ver com a refinação, tem que ver com a redução objetiva do consumo de petróleo e seus derivados. A limitação de missões que resulta também deste objetivo limita a expansão de possibilidade de refinação em Portugal, é um facto.

A Galp é uma grande empresa da energia e cada vez mais uma empresa que percebe que tem de fazer uma transição, como muitas da energia. A Total é uma das grandes ganhadoras em alguns lotes que foram lançados no leilão do solar. A Galp também tem esta aposta. Está presente nos carregamentos rápidos, nas autoestradas e nos parques de estacionamento. Olho para a Galp como uma grande empresa portuguesa, uma empresa da energia, que vai continuar a ser um player muito importante em Portugal, sendo cada vez menos uma empresa de oil & gas.

Só haverá futuro para a Galp se se reconverter?
Portugal precisa de empresas com a capacidade financeira, técnica e de inovação que a Galp tem para ser neutra em carbono em 2050. Queremos acarinhar os projetos que a Galp tem e certamente virá a ter que não sejam do oil & gas.

O parlamento aprovou a lei que penaliza o hábito de deitar beatas para o chão. É uma lei que se prevê de muito difícil ou impossível fiscalização. De que vale fazer uma lei que não pode ser fiscalizada?
Eu começo por dizer que acho inacreditável que se deite beatas para o chão. Eu sou fumador, ando com um cinzeiro no bolso já há muitos anos. É proibido deitar lixo para o chão e há multas que se passam. Já não é um hábito comum deitar lixo para o chão, eu sou do tempo em que era comum. Há uma evolução. As pessoas têm de perceber que todo o resíduo da sua atividade, seja a beta do cigarro seja a embalagem que levam para casa é da sua responsabilidade. Eu não posso estar à espera que a Câmara tenha um sistema próprio para recolher essa embalagem. Não posso levar essa embalagem para casa…

Ninguém duvida da questão da educação, a questão é a fiscalização da lei…
Está acometida de quem tem a responsabilidade de fiscalizar este tipo de atitudes, tal como atirar lixo para o chão. Há aqui um outro olhar sobre estas matérias, que resulta de se saber que é proibido. Eu uso um cinzeiro há muitos anos no bolso e tenho muitos amigos que me começam a perguntar onde é que arranjei este cinzeiro.

Quais considera que serão os seus principais desafios para esta legislatura?
A ação climática pode escrever-se em três verbos: mitigar, ou seja reduzir emissões; adaptar, ou seja preparar o território para aquilo que é um problema das gerações presentes, que são as consequências que já sentimos; e um que entra agora na esfera deste governo, que é sequestrar. Ser neutro em carbono não quer dizer emissões zero, quer dizer reduzir muito mas a capacidade que temos de sequestro de carbono e que em Portugal é quase exclusivamente de base florestal, tem a mesma dimensão do que as emissões que produzimos. Os grandes desafios são o estatuto de ministro coordenador, o que significa a total legitimidade de poder participar em discussões de outros ministérios que têm consequências sobre estes três domínios de que falei. Há uma nova dimensão territorial. O anterior ministério agiu muito bem nas redes que estão no território, de transporte e energia, mas é fundamental agir agora no território propriamente dito na dimensão do capital natural e biodiversidade. É esta nova dimensão que junta as redes e o território num só ministério.

Como está o processo em tribunal relativo à barragem de Fridão. É mesmo para avançar?
Não está ainda em tribunal, está em fase de pré-arbitragem num tribunal arbitral. Mesmo, mesmo no início.

Muitas das empresas com quem falamos consideram que as metas da descarbonização para Portugal são muito ambiciosas e que os seus planos são muito difíceis de atingir, até mais do que as metas europeias. Como é que antevê que se alcancem essas metas?
O atual Papa é mais papista do que eu nas matérias ambientais e é uma coisa que me orgulha bastante. Este não é o tempo só de usar a palavra responsabilidade, é mesmo o tempo de usar a palavra ambição. O que nos é pedido não se compadece com “vamos fazer o nosso melhor”. Este projeto de descarbonização da sociedade tem uma enorme dimensão económica. Temos de investir para cumprir as nossas metas: mais 2 mil milhões de euros em cada ano, e neste valor há uma parcela de investimento público, cerca de 15%, ou seja o grande esforço de investimento é das famílias e das empresas e por isso é tão importante termos um projeto de financiamento sustentável para estas matérias, termos um banco verde que apoie esta transição, que a banca perceba que o risco climático é um risco para o seu negócio como instituição financeira. Acham os mais jovens que se manifestam que estamos a ser pouco ambiciosos, e são esses jovens que vão ser os futuros clientes dessas empresas, os clientes desses bancos.

Julga que as empresas poderão estar preocupadas com a competitividade?
O custo da inação será brutalmente maior que o custo da ação. Neste projeto de financiamento sustentável, no documento que assinámos com 20 instituições financeiras, em julho, juntávamos companhias de seguros e banca, e deixe-me que diga que às companhias de seguros eu já não tenho nada para ensinar porque sentem na pele o custo que estão a ter por não terem considerado no início das suas apólices o impacto que podem ter nos seguros as consequências das alterações climáticas. Este projeto é de uma enorme ambição para a criação de emprego mais qualificado, mais bem-estar e mais bem distribuído no futuro próximo.

Os banqueiros já estarão sensíveis a este tema?
Cada vez mais. Em Inglaterra, já vai haver para o ano stress test ambiental aos bancos. Isto é, os portefólios dos empréstimos têm de ser cada vez mais verdes e menos castanhos e cinzentos. Temos de ter uma economia que não pode ultrapassar a dimensão dos sistemas naturais. Os sistemas naturais nunca se enganam. E é esta realidade da suficiência que a sociedade tem de ter.

Neste governo a gestão da floresta passa do Ministério da Agricultura para o do Ambiente. Que planos tem nessa matéria?
Temos de perceber que a floresta, acima de tudo, e independentemente de ser privada ou pública, é um sequestrador de carbono. É esse o bem público maior que tem de ter. E é óbvio que o cumprirá cada vez melhor quanto mais rentável for a sua utilização. Sim, a floresta é um problema de escolhermos melhor as espécies e de termos espécies mais resilientes ao fogo, mais adaptadas ao território, que durem mais tempo, que se cortem com troncos mais grossos… O problema da floresta é sobretudo da estrutura fundiária que temos e dos inúmeros proprietários que são donos dessas parcelas.

Vai declarar guerra ao eucalipto?
Não vou declarar guerra nenhuma, sendo que não tenho a mais pequena dúvida que quanto mais grosso for o tronco e quanto mais tarde for cortada a árvore, maior é a sua capacidade de ser sequestradora de carbono. Objetivamente a espécie florestal que dá mais dinheiro em Portugal é o eucalipto e sendo-o é fundamental remunerar serviços de ecossistema. Já fizemos isso com o governo anterior para a serra do Açor, isto é, pagarmos o bem público e a diferença que há entre plantar eucaliptos ou sobreiros ou carvalhos.

Haverá novos incentivos?
Esses incentivos já estão aí.

Antevê outros para esta legislatura?
O incentivo é mesmo este. Através das verbas do fundo ambiental sermos capazes de remunerar os desvios de ecossistema e ir desenhando novos planos de paisagem, que é o que estamos a fazer em Monchique e Silves.

Já mencionou o problema da natureza dispersa da propriedade privada florestal. O cadastro florestal que temos está em condições?
Com o processo que foi aprovado no anterior governo do cadastro simplificado está a avançar muito depressa. Esse problema do cadastro foi sobretudo a norte do Tejo – a sul do Tejo as propriedades são grandes e conhecidas e não há tanto esse problema. Mas não temos a mais pequena dúvida que quando digo que o problema é de estrutura fundiária, o primeiro momento é mesmo conhecermos o cadastro da nossa floresta.

Comentários
Outras Notícias que lhe podem interessar
Hoje
Foto: Paulo Spranger (Global/Imagens)

Fisco deteta erro em 10.000 declarações de IRS e exige devolução de 3,5 milhões

Foto: Paulo Spranger (Global/Imagens)

Fisco deteta erro em 10.000 declarações de IRS e exige devolução de 3,5 milhões

João Cadete de Matos, presidente da Anacom

Fotografia: Vítor Gordo/D.R.

Anacom “considera essencial” redução de preços no acesso à Internet

Outros conteúdos GMG
Matos Fernandes: “Até ao verão haverá estudo prévio para nova barragem”