Miguel Frasquilho: "Espero que Bruxelas aprove o plano de reestruturação em maio"

O chairman da TAP diz que o plano de reestruturação da empresa deve ser aprovado por Bruxelas neste mês e que um despedimento coletivo ainda não pode ser descartado. "Esse seria o nosso objetivo, que não houvesse despedimento coletivo. Não posso dar aqui nenhuma garantia que isso não venha a ocorrer", afirma, em entrevista. Defende ainda que "a decisão de salvar a TAP" trará retorno à economia e quanto à Groundforce, avança que o único cenário que está excluído é a nacionalização.

A pandemia provocou uma catástrofe no setor da aviação em todo o mundo. Em Portugal, a TAP teve no ano passado um prejuízo recorde de 1200 milhões de euros. Com os aviões parados, a transportadora foi obrigada a uma reestruturação que implica a saída de milhares de trabalhadores. Nas próximas semanas, a transportadora vai passar por três marcos importantes: a aprovação do plano de reestruturação em Bruxelas, a estabilização do quadro de pessoal e a nomeação de uma nova administração. E, entretanto, tem de resolver um problema chamado Groundforce.

Começamos pela Groundforce que quer anular o acordo com a TAP. Como encara esta situação?
Foi possível chegar a um entendimento em que a TAP comprava os equipamentos à Groundforce, fazia o contrato chamado de "sale & leaseback", e depois alugava-os à Groundforce e isso permitiu, com um pagamento de cerca de sete milhões de euros, que a Groundforce pudesse pagar os salários em atraso de fevereiro, de março e pagar também os salários de abril. Portanto, é disto que estamos a falar. Foi um contrato que foi assinado em meados de março, e este dinheiro, este montante que entrou na Groundforce, é um montante que foi disponibilizado pelos contribuintes portugueses.

Esta semana, a Groundforce decide anular esse contrato.
Entretanto, tínhamos tido conhecimento de que havia alguns interessados, alguns players do setor, em comprar a Groundforce. Isso implicava um entendimento com o acionista maioritário - porque a posição da TAP é minoritária e não tem o interesse para investidores que teria a posição maioritária -, e estávamos a trabalhar nesse cenário. Sabíamos que havia entendimentos entre o acionista maioritário e alguns desses interessados, nomeadamente com um, e começámos a trabalhar nesse cenário. Qual não é o nosso espanto quando, na terça-feira, somos informados que essas negociações tinham rompido. E vou deixar aqui muito claro que elas não se romperam por causa da TAP nem de qualquer proposta que a TAP tivesse feito.

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Foi uma negociação direta entre o acionista maioritário da Groundforce e um potencial interessado na compra dessa posição?
Exactamente, e a TAP já tinha chegado à fala com esse potencial interessado, porque se as coisas corressem bem, temos um contrato de handling que tem determinados parâmetros que precisam de ser acordados entre as partes. E ficámos muito surpreendidos com a decisão do conselho de administração da Groundforce de declarar a nulidade do contrato que tinha sido assinado há um mês, o contrato que permitiu o pagamento dos salários de fevereiro, março e abril dos trabalhadores da Groundforce, montante disponibilizado pelos contribuintes portugueses. E o conselho de administração da Groundforce, segundo comunicado assinado pelo seu presidente, faz tábua rasa daquilo que foi assinado há um mês. Portanto, para nós isto é completamente inadmissível, até porque nós sabemos que quer o conselho fiscal quer o auditor da Groundforce não emitiram qualquer opinião sobre qualquer nulidade dos contratos.

Mas o conselho de administração da Groundforce diz que sim, que emitiu.
Mas não, não emitiu. Nós também temos administradores na administração da Groundforce e acreditando na palavra deles, obviamente, e no conselho fiscal, que também tem representante. Portanto, os contratos, para nós, encontram-se em vigor, e hoje [sexta-feira, 30 de abril] vence-se a primeira prestação. Aguardamos que essa prestação possa ser paga porque nem sequer compreendemos como é que um mês depois de ter entrado na Groundforce um montante que permitiu que os salários fossem pagos, esse contrato é declarado nulo. E é evidente que neste contexto não há condições para que haja um entendimento entre o acionista minoritário e maioritário. Não há um clima de confiança nesta altura entre os dois acionistas.

Parece evidente que o clima não é de confiança entre as duas partes.

Infelizmente, porque, de facto, nós estivemos sempre presentes e a nossa prioridade, quando iniciámos o auxílio, a prestação de apoio à Groundforce, em agosto, tivemos sempre os trabalhadores da Grounfdforce no nosso horizonte. Essa foi a nossa prioridade, esperávamos que da parte do acionista maioritário tivesse havido a mesma disponibilidade para apoiar a empresa.

A Groundforce acusa a TAP de chantagem e queixa-se que este acordo é muito lesivo para a empresa. Qual é o retorno que a TAP tem deste investimento de sete milhões de euros?
Este investimento, como lhe chamou, visou essencialmente poder resolver, embora a curto prazo, uma situação que, em termos sociais era muito complicada, com salários em atraso. Portanto, quando se diz que houve chantagem, não houve chantagem nenhuma. Ninguém obrigou ninguém a assinar qualquer contrato. Nós enviámos uma proposta de contrato depois de várias interações, um contrato já assinado por nós e se ele foi assinado pelos órgãos sociais da Groundforce, não foi certamente porque... não houve quem apontasse uma pistola à cabeça dos administradores para eles assinarem. Foi, portanto, de livre vontade. Eu refuto essa acusação.

Mas qual é o retorno para a TAP? Do ponto de vista financeiro, há retorno ou não?
Não, não foi com esse objetivo que este investimento, como lhe chamou - eu prefiro chamar-lhe apoio - foi feito. Tinha que haver uma garantia. Não poderíamos continuar a apoiar financeiramente sem haver as garantias. Tinha havido uma decisão do conselho de administração da TAP. No fundo, o que se tentou preservar foi uma normalidade dentro da vida da empresa. Fomos confrontados esta semana com uma inversão total do cenário em que estávamos a trabalhar. Isto foi feito na terça-feira. No dia em que estamos a falar, passaram dois dias e meio. Temos vindo a trabalhar, não na mesma direção em que tínhamos vindo anteriormente. A única coisa que lhe posso dizer, nesta altura, é que há um cenário que está completamente excluído por decisão do governo português, que é a nacionalização. De resto, não podemos excluir qualquer cenário, além desse, para a Groundforce.

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É possível resolver este problema da Groundforce com este acionista maioritário?
Eu diria que me parece difícil.

Desde o início 2020 já saíram da TAP mais de 2000 pessoas e ainda terão de sair mais 400 ou 500. Este objetivo vai ser atingido só com medidas voluntárias ou o despedimento coletivo continua em cima da mesa?

É um tema extremamente sensível, por vários motivos, porque cada pessoa é uma pessoa. As pessoas não são números. Estamos aqui a falar de um processo em relação ao qual nenhum dos administradores ou nenhum dos gestores, diria eu, gostaria de estar envolvido. Isto implica mexer com a vida das pessoas, implica medidas muito duras, gravosas, gostaríamos muito de não estar a passar por isto na TAP. Dito isto, vamos contextualizar para saber do que estamos a falar. No primeiro draft, chamemos-lhe assim, do plano de reestruturação, dadas todas as variáveis em cima da mesa e a ausência de procura e uma perda estimada superior a cerca de sete mil milhões de euros para os próximos anos - é disto que estamos a falar -, tínhamos chegado à conclusão que haveria um excesso de postos de trabalho de cerda de três mil. Isto foi uma versão interna, porque tentámos minorar os efeitos sociais que daqui poderiam decorrer. Esses três mil passaram, numa segunda fase, a cerca de dois mil, nomeadamente, 1950. Como é que isto foi feito? Para não haver tanto excesso no corte dos postos de trabalho teria de haver uma diminuição dos rendimentos. Foi aí que, depois de várias interações, se chegou a uma redução de 25%, em média, dos salários - 30% para a administração, para dar o exemplo, como sempre tem dado ao longo deste período e como teria que acontecer sempre - e foi deste número dos 2000 que partimos, no final do não passado. Depois, decorreram as negociações com os sindicatos nos primeiros meses deste ano. Essas negociações não foram fáceis. Queria deixar aqui uma palavra de muito apreço para postura muito construtiva que tivemos por parte de todos os sindicatos do grupo TAP. Não é fácil para um sindicato, não é fácil para a administração, para mim, para o CEO, mas também não é fácil para os sindicatos chegar a um entendimento num acordo que prevê uma redução de postos de trabalho e prevê reduções salariais, para só falar em algumas vertentes, aquelas que são as principais. Esses acordos permitiram salvar cerca de 750 postos de trabalho. Depois, tivemos a primeira vaga de medidas voluntárias onde aderiram um pouco mais de 600 trabalhadores. Tivemos também. - isto foi durante os meses de fevereiro e março, foram seis ou sete semanas -, depois, as candidaturas à Portugália Airlines, porque esta redução de efetivos é na TAP,SA, na Portugália não. Poderão ir até 50. E tivemos a segunda vaga de medidas voluntárias onde os resultados estão a ser ultimados, mas há à volta de cem candidaturas.

Tudo somado?
Isto deixa-nos, no total, com entre 400 a 500 postos de trabalho em excesso que é a situação a que chegámos, e agora estamos numa fase em que esses trabalhadores que foram identificados estão a ter entrevistas individualizadas com o departamento de recursos humanos. Esperamos que isto possa decorrer da forma o mais tranquila possível. Eu não vou dizer que é um processo que esteja a correr bem porque, sinceramente, não acho que um processo destes possa correr bem. Estamos a tratar da vida das pessoas, do seu trabalho, portanto eu não emprego esses qualificativos.

Mas vai ser possível evitar um despedimento coletivo?
Esse seria o nosso objetivo. Não lhe consigo responder ainda, porque ainda estamos a meio do processo. Vamos ter mais umas semanas em que estas reuniões individuais vão decorrer, mas, esse seria o nosso objetivo, que não houvesse nenhum caso de despedimento coletivo. Não posso dar aqui nenhuma garantia que isso não venha a ocorrer.

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O plano de reestruturação previa que o quadro de pessoal diminuísse para cerca de 6600 trabalhadores, mas isto foi um plano entregue em dezembro. Este número mantém-se?

Este número mantém-se, porque o plano que fizemos era um plano bastante cuidadoso, cauteloso, resiliente. Isto são qualificativos que eu ouvi, foi a minha percepção das reuniões que tivemos com a Comissão Eiuropeia. Nós tínhamos que entregar um plano credível em Bruxelas, não podiamos chegar lá com um plano optimista. Não, o plano tinha que ser conservador e foi isso que nós fizemos. Mesmo assim, o primeiro trimestre decorreu pior do que aquilo que nós tínhamos antecipado, mas, neste momento, também lhe posso dizer - enfim, tentar dar aqui alguma boa notícia, ou menos má - que estamos a assistir já a um aumento das reservas, com o plano de vacinação que está em marcha na Europa e um pouco por todo o mundo. Para contextualizar, nós em fevereiro tínhamos mais de 90% da nossa operação parada. Estávamos com 7 ou 8% dos voos. Março foi muito parecido. Em abril já vamos para um patamar algures entre os 10 e os 20% de voos. Esperamos chegar ao verão, por comparação ao último ano normal, com uma operação a rondar os 60% do que tínhamos em 2019. Já seria positivo.

Desse aumento de reservas que a TAP vai notando, e em relação ao caso particular do Reino Unido, como tem evoluído?

É um mercado muito importante, não é o mais importante, esse é o Brasil, mas é muito importante. Assistimos, também, a um aumento das reservas e da vontade de viajar quando voltaram as autorizações para que pudéssemos voar para o Reino Unido e para o Brasil, portanto, esperamos - até porque no Reino Unido estará bastante avançado em termos de vacinação, salvo erro é o país mais avançado da Europa - e Portugal está também com resultados que são muito positivos. Toda a gente sabe que em janeiro e até ao princípio de fevereiro chegámos a ser o pior país da União Europeia e agora somos o melhor, com larga vantagem. Em termos de credibilidade internacional e de vontade que as pessoas têm de viajar para o nosso país, isso também é muito bom. Nós esperamos que isso tudo contribua conjuntamente com o plano de vacinação, que oxalá corra como previsto ou até melhor do que o previsto. Que isso tudo contribua para tenhamos um verão que se possa de alguma forma aproximar de uma normalidade que todos desejamos.

A TAP usa um algoritmo para selecionar os trabalhadores para as rescisões?
Os critérios têm de ser critérios objetivos. E, portanto, fizemos, com a consultora que está a trabalhar connosco, que é a BCG, fizemos um acordo para o processamento de dados, o algoritmo foi construído com base em critérios que são objetivos, têm a ver com a experiência, com o absentismo, com o custo, com o salário, portanto, todos esses critérios foram devidamente ponderados. Se o algoritmo fosse aplicado cegamente, isso poderia ser alvo de críticas, mas como disse há pouco, cada caso é um caso. E, portanto, é evidente que as pessoas, no momento em que será tomada a decisão sobre a sua saída ou não saída, garanto-lhe que o algoritmo não atua por si só.

Mas a denúncia é que haverá casos em que o algoritmo é cego quanto aos motivos que levaram ao absentismo. Há mesmo notícias de alguém que perdeu a família em Pedrógão, e terá sido chamado.
Mas é exatamente por isso que depois há um temperamento da decisão por parte do departamento de recursos humanos e por parte dos responsáveis da gestão da empresa. E todas as regras do regime geral de proteção de dados foram cumpridas pela TAP.

Vídeo: "Espero que Bruxelas aprove o plano em maio e não penso que exija mais medidas gravosas para os trabalhadores"

Nas próximas semanas a Comissão Europeia deverá aprovar o plano de reestruturação. O histórico mostra que Bruxelas raramente aprova seja o que for sem pedir novas condições. Antevê que venham a ser pedidas muitas alterações?

Eu já o referi aqui há pouco, acho que o plano - é a minha perceção - foi recebido de forma construtiva e positiva em Bruxelas. As reuniões, os contactos que temos tido com a Comissão Europeia, não temos estado em todas, elas são lideradas pelo governo português, em representação do Estado que é o acionista muito maioritário da TAP -, mas a perceção com que tenho ficado é uma perceção de que de facto o plano terá sido avaliado de forma positiva e construtiva em Bruxelas. Eu diria mais: os acordos a que chegámos com as estruturas sindicais, portanto, com os trabalhadores, também foram muito apreciados em Bruxelas, já se sabe que nestes acordos há ligeiros desvios ao plano original - é isso que significa negociar, negociar é para nos entendermos e portanto há cedências de ambas as partes envolvidas - sabe-se que isso aconteceu, isso não foi visto como um problema pela Comissão Europeia. Portanto, se me pergunta se estou otimista, estou, estou otimista, acho que dentro de um realismo que temos que ter, eu espero, esperamos na TAP, que o plano possa ser aprovado durante o mês de maio pela Comissão Europeia. É natural que haja medidas que devem ser propostas, elas têm vindo a ser discutidas, mas medidas mais gravosas para os trabalhadores não penso, sinceramente, que elas vão ocorrer.

Não antevê que do ponto de vista da reestruturação, das medidas mais duras para o quadro de pessoal, que não haja novas exigências, ou exigências mais duras?

Não, nós temos previsto um quadro de pessoal que foi dimensionado para o próximo ano, já, porque pensamos que a retoma virá e ela acontecerá durante este ano e será confirmada no próximo, pelo menos assim esperamos. O nosso quadro de pessoal andará á volta de 7500 pessoas, 6600 na TAP SA, mais na Portugália, na Caterinpor, que são as unidades mais pequenas do grupo, e também na UCS, e portanto é disto que estamos a falar, e estes números não foram colocados em causa.

No médio e longo prazo faz sentido ponderar a privatização da TAP, ou é melhor para o país que o Estado continue a controlar a companhia?

O próprio Estado através do governo já o disse. Logo que haja condições no mercado e seja razoável que isso aconteça, porque é intenção do Estado português encontrar um parceiro privado, como aconteceu no passado e como, segundo se sabe, existiram conversações antes da pandemia para que isso pudesse ter acontecido. Não aconteceu, portanto não vale a pena voltarmos ao passado, mas essa é a intenção de facto. Agora, estamos num contexto em que hoje, mesmo potenciais parceiros estratégicos para a TAP que pudessem vir a ser acionistas estão impedidos de o fazer devido aos auxílios que têm recebido dos respetivos estados e que impedem que esses investimentos possam ser hoje efetuados. Portanto, temos que aguardar que o mercado se normalize, para que essa questão possa voltar a ser colocada em cima da mesa. Estamos a falar do setor que foi mais atingido pela pandemia, que esteve, desde o início, na linha da frente. Era impensável ouvir, ou ver, o estado americano a intervir diretamente nas companhias aéreas americanas e foi o que aconteceu. Na pátria do capitalismo acontecer uma coisa destas? Mas foi exatamente o que aconteceu. Porquê? Porque as empresas não iam sobreviver. E isto aconteceu um pouco por todo o mundo, aconteceu também na Europa, aconteceu em Portugal, a TAP não fugiu à regra, e os resultados, em todas as suas vertentes, estão bastante em linha com as nossas congéneres. Devo dizer-lhe que se não fossem algumas rubricas meramente contabilísticas e cautelares, que precisam de ser confirmadas em assembleia geral, que se realizará também algures durante as próximas semanas, o resultado até teria sido ligeiramente melhor do que o previsto no plano de reestruturação.

Esta semana, num artigo publicado na comunicação social assinado por si e pelo presidente executivo da companhia, apresentou dados para provar que o país tem a ganhar com o resgate da TAP. Mas esses dados são trabalhados pela própria TAP. Não seria mais convincente, não faria mais sentido, apresentar um estudo independente?

Esses dados foram trabalhados pela própria TAP e diz e bem e ainda bem que toca nesse ponto, porque é importante. Mas também foram validados do ponto de vista científico. E, portanto, estou muito seguro quanto a esse estudo que foi apresentado e que mostra claramente - é evidente que sendo eu presidente do conselho de administração da TAP, poder-me-á dizer 'não esperávamos que tivesse uma opinião diferente dessa', certo, mas nós tentámos trazer uma contribuição quantitativa para o debate, que pudesse de facto medir o retorno que a TAP dará á economia portuguesa até 2030. Porquê até 2030? Por dois motivos: primeiro porque os próximos anos serão completamente atípicos, os próximos três a quatro anos são aqueles em que se espera que a recuperação aconteça, mas não serão anos ditos normais, e depois porque até 2031 a TAP tem de caminhar sozinha, depois deste plano a TAP não pode voltar a pedir ajuda a Bruxelas, nem ao estado português e, portanto, a TAP tem que ter as condições para ser sustentável e rentável. Mas se isto for assim e é para isto que trabalhamos, nós e todos os trabalhadores da TAP, queria dizer que este trabalho vale muito a pena, e vale muito a pena não só para a TAP, para o país. Porque o retorno será mais de três vezes superior ao investimento, que é um investimento avultado, que está a ser feito agora pelo Estado português com os recursos dos contribuintes. Isto em termos de criação de emprego, de vinda de turistas, de viajantes, em termos de valor acrescentado para a economia, de criação de valor, em termos de receitas para as finanças públicas também. Portanto, estamos a falar de um montante superior a dez mil milhões de euros, segundo as nossas estimativas, que a economia portuguesa poderá beneficiar deste retorno, por contraponto a um cenário em que, hipoteticamente, a TAP fosse deixada cair. E nós estudamos o que aconteceu noutros casos que são conhecidos, na Suíça, na Bélgica e em Itália - em situações diferentes e num contexto diferente, porque não havia pandemia -, e chegámos à conclusão que de facto há um retorno muito importante para os portugueses resultante da decisão de salvar a TAP.

Há dias, o ministro das Infraestruturas disse que, no médio-longo prazo, a tendência será para o desaparecimento dos voos internos. Qual é o impacto que isso pode ter na operação da TAP?

Subscrevo inteiramente. Só para termos a noção do que é que isso implica, sabe que o auxílio de Estado que foi concedido à Air France, por exemplo, tem uma condição, é que abaixo de xis quilómetros entre cidades francesas não haja voos. Isto é uma tendência que é global, não é só em Portugal. Agora, isto não é uma coisa que vá acontecer amanhã, como se compreende. Há investimentos que têm que ser feitos noutros meios de transporte, também. É uma coisa que estamos a falar, talvez na segunda metade desta década que estamos a viver, e estamos a falar das ligações essencialmente entre Lisboa-Porto e Lisboa-Faro. Porque para a Madeira e para os Açores obviamente que a continuidade territorial tem que ser sempre assegurada e a TAP está cá para isso. Portanto, encaramos com perfeita normalidade essa opção que, aliás, vai ao encontro das tendências globais.

A ponte aérea Lisboa-Porto foi alguma vez rentável?

Vista por si só, não. Mas como abastecedora de outros voos intercontinentais sim, era uma operação que fazia muito sentido para a TAP.

A operação de manutenção e de engenharia do Brasil está à venda. Já há interessados?

Isso é um tema em relação ao qual não tenho novidades para dar. É uma das vertentes do plano que está em análise com a Comissão Europeia, só vou dizer que não temos prevista, a partir de outubro, qualquer atividade da TAP Manutenção e Engenharia no Brasil. Já foi assumido publicamente que é um dos ativos de que a TAP se pretende desfazer, sim.

Voltando ao tema do plano, os pilotos acusam a administração da TAP de fazer uma pressão que qualificam de intolerável por causa das rescisões. Isto não cria aqui uma solução potencialmente perigosa com os pilotos a voarem sob grande stress psicológico?

Nenhuma decisão da administração é tomada sem ouvir a empresa. Toda a empresa é ouvida e em particular a área dos recursos humanos, de operações e de segurança. E, portanto, toda a empresa está ao corrente e todas as decisões são tomadas com o intuito de garantir a segurança. A segurança é o bem mais essencial para qualquer companhia de aviação e eu penso que a história da TAP fala por si, sempre foi um parãmetro que nunca foi descurado e agora, apesar das circunstâncias muito difíceis que estamos a atravessar - esta não é a maior crise da história da TAP, só é a maior crise da história da aviação mundial - esse parâmetro está sempre presente nas nossas decisões. Sabemos sim que são decisões difíceis, mas são tomadas ouvindo as estruturas mais próximas dessa vertente que para nós é absolutamente fundamental e é inegociável.

A Comissão Europeia tem obrigado outras companhias que estão a passar por processos semelhantes ao da TAP a reduzirem slots nos respetivos hubs - a reduzirem o número de voos nos respetivos aeroportos principais. Quantos slots pode a TAP perder?

Essa é uma das matérias que continua em discussão com a Comissão Europeia, não me poderei pronunciar sobre ela. É natural que possa existir também alguma redução; não antevemos que seja dramático, mas é natural que possa acontecer. Isso não implica que determinados destinos sejam abandonados. Pode implicar, por exemplo, uma redução de frequências, mas não de destinos.

Já falamos aqui da vacinação, que tem corrido bem em Portugal. Que perspetivas de retoma é que isto traz à TAP?
Traz perspetivas de retoma positivas, que, aliás, já estão a ser sentidas nas reservas que finalmente em abril começaram a descolar. Preocupa-nos obviamente a situação que se vive no Brasil, que é o principal mercado, em termos de receita, para a TAP. Esperamos que a situação também possa melhorar, porque, de facto, a TAP com Brasil é uma coisa, a TAP sem Brasil ou com Brasil fragilizado é outra. Repare, e a única companhia que voa a partir da Europa para 11 destinos diretamente no Brasil, e portanto isto faz toda a diferença. Foi importantíssimo que os voos para o Brasil e Reino Unido tivessem sido autorizados de novo agora em abril.

Por outro lado, nos últimos anos, outros destino muito importante para a TAP tem sido os EUA onde a vacinação está a correr particularmente bem, que perspetivas é que isso traz para a companhia?

As perspetivas também são boas. De acordo com essa perspetiva de que a vacinação possa estar a correr bem e de que no verão, ou ainda antes, possa ser atingida a imunidade de grupo nos EUA é a própria Comissão Europeia que já veio dizer que os visitantes americanos seriam muito bem vindos. Ora, Portugal tem tido uma presença cada vez maior no mercado norte-americano - é verdade que partimos de uma base muito pequenina, mas a TAP tem contribuído para isso ao alargar as suas rotas para os EUA. Eu recordo que em 2019, o último ano normal, nós abrimos rotas para Chicago, Washington DC e São Francisco. Isto mostra como o mercado norte-americano é também importante para nós, esperamos que, de facto, possam, daí advir boas notícias e nós bem precisamos delas.

Nas próximas semanas será anunciada a nova equipa de gestão da TAP. Vai estar nessa equipa?
Esse é um tema que me diz respeito a mim e ao acionista Estado e portanto ainda não chegou o momento de podermos falar sobre esse tema. Não estará para muito longe no tempo, mas no que eu lhe posso dizer é que continuo totalmente empenhado, dedicado e com a mesma motivação com que assumi estas funções na TAP no dia 30 de junho de 2017. Portanto, vamos aguardar.

Se for convidado, presumo que esse empenho permaneça.

O meu empenho é total e será sempre o mesmo e a dedicação será sempre a mesma até ao último dia em que eu me encontre a desempenhar estas funções, seja lá quando isso acontecer.

Arrisca ficar para a história da TAP como o gestor que fez a parte dura e que depois eventualmente não ficará para os tempos mais fáceis. Isso causa-lhe algum tipo de angústia ou sentimento particular?

Nós temos que tomar as decisões que se impõem para minimizar os contextos menos fáceis, ou se quiser, os contextos mais difíceis, que atravessamos. A este conselho de administração, ao CEO, a mim como chairman, calhou-nos lidarmos com a pandemia, estamos a dar todos os dias o nosso melhor para garantir que a TAP sobreviva, para garantir a sua sustentabilidade e rentabilidade e para minimizar também o impacto social sobre os nossos trabalhadores. É isso que nos motiva todos os dias.

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