"Não há capacidade para dar trabalho a todos os trabalhadores da TAP"

O ministro das infraestruturas diz que a reestruturação da TAP será feita com respeito pelos trabalhadores.

Em entrevista ao Dinheiro Vivo e à TSF, Pedro Nuno Santos fala sobre a reestruturação da TAP e a relação com os trabalhadores.

António Costa e Silva que é o consultor do governo, escolhido por António Costa vai ser ouvido também para esse plano estratégico da TAP?

Eu acho que todas as pessoas que puderem dar contributos e o Engenheiro Costa e Silva é uma pessoa muito válida… Quer dizer, não está pensado assim não é, mas não faz mal nenhum ser ouvido antes pelo contrário. Até seria mais um contributo. De qualquer forma o processo vai ser feito dentro da TAP com os órgãos sociais da TAP, assessorada por uma consultora e por um banco de investimento. Quer dizer, é um processo muito complexo, muito delicado, feito num contexto de elevada incerteza e portanto nós vamos ter profissionais a trabalhar com as equipas da TAP.

Esse repensar da TAP não está limitado a baias que são definidas por Bruxelas para processos de reestruturação e companhias de aviação. Ou seja, a margem de manobra do governo não é limitada?

A margem de manobra do governo só está limitada pela realidade da própria TAP e pela realidade do mercado de aviação que nós temos que enfrentar. O trabalho com a Comissão Europeia é um trabalho de interação que existe em vários dossiers que aconteceu quando foi a capitalização da Caixa Geral de Depósitos e acontecerá também naturalmente com a TAP. Para nós o que é importante é conseguirmos encontrar o melhor equilíbrio entre um redimensionamento da empresa que a mantenha viável, que garanta viabilidade futura, mas ao mesmo tempo uma dimensão que permite a TAP servir a economia nacional como hoje serve. Obviamente que nós teremos efetivamente uma redução, isso é inevitável num processo de reestruturação. Aliás, é o que está a acontecer com todas as companhias aéreas do mundo, e isso acontecerá inevitavelmente com a TAP, sendo que o Governo português está consciente de que há um patamar para baixo a partir do qual nós não queremos passar porque aí estaremos a prejudicar a capacidade da companhia aérea TAP dar resposta às nossas necessidades. Mais do que isso, servir a economia nacional.

E é mesmo Bruxelas que está a impor esta reestruturação ou é o governo que está a impor esta reestruturação à companhia?

Tenho ouvido muito debate sobre isso mas se nós olharmos com atenção para o que está em causa, é a realidade que impõe essa reestruturação. Não são sequer as diferentes opções que estavam ao abrigo dos diferentes… Ou as diferentes modalidades de auxílio. Qualquer companhia aérea, mesmo aquelas que não estando em dificuldades em 2019 e que puderam recorrer ao quadro temporário covid estão a passar por reestruturações. Todas as companhias aéreas estão a devolver aviões, estão a despedir ou a reduzir o seu quadro pessoal… A reestruturação é uma imposição de uma realidade absolutamente inesperada que no caso da TAP acresce ao facto de a empresa estar em dificuldades já em dezembro de 2019.

A justificação de o Governo não ter pedido de nada a Bruxelas até 15 de Maio, e que havia mecanismos para ação imediata, quer à questão da covid, quer à questão do fecho das fronteiras… Isso é verdade? Foi mesmo assim?

Nestas coisas a TAP tem muitos sindicatos e eu diria que o Paulo está a dar expressão…

É um sindicato que não tem expressão?

A dar expressão a um sindicato que não só não tem expressão, como não tenho acompanhamento nem no apoio, nem na sintonia…

Mas depois esses sindicatos juntaram-se, não foi, senhor Ministro?

Eu não quero ser desagradável para a pessoa que fala em nome desses sindicatos que na realidade... Eu reúno com todos os sindicatos menos com esse senhor, mas reuní com os restantes sindicatos com quem nós estamos em absoluta sintonia porque a agenda de todos os outros sindicatos é de facto a defesa dos trabalhadores da TAP e eu não faço o mesmo entendimento de que seja esse o interesse desse sindicato. Que não é representativo mas que se faz ouvir muito.

Mas para lá da representatividade do sindicato estamos a falar de matéria. Isto de facto aconteceu ou não? O Governo pediu ajuda antes de 15 de Maio, só a pediu nessa altura?

Em primeiro lugar as coisas não funcionam assim. A TAP oficializou o seu pedido de ajuda a 1 de junho e a partir do apoio oficial da TAP que nós encetamos o processo junto de Bruxelas.

E não teria sido uma data demasiado tardia face ao que os outros governos na Europa fizeram pedindo ajuda para as companhias?

Nós temos estado todos a elaborar num conjunto de afirmações que foram feitas e são quase dadas como garantidas. Há uma série larga de companhias aéreas que estão ainda a negociar o auxílio do Estado.

Portanto acha que não fomos tarde demais?

Não, nós não fomos tarde demais. Nós fomos quando tivemos que ir. E obviamente que houve aqui um processo de tentativa de acordo que foi difícil atingir.

Mas percebe a angústia de quem trabalha na TAP. De 15 de março a 1 de junho parece muito tempo sem uma atuação junto de Bruxelas.

Os trabalhadores da TAP, daquilo que foi da nossa parte, foram tendo a certeza de que nós não íamos deixar a TAP cair e que nós iríamos intervencionar a empresa e que eles estavam descansados. Tiveram os seus salários pagos, outros - a esmagadora maioria- em lay-off, como é evidente. Mas desse ponto de vista não houve... Obviamente que a ansiedade e angústia dos trabalhadores da TAP... Sentem-se muito mais seguros hoje por saber que o Estado vai ser o sócio maioritário da empresa, não tenho a menor dúvida disso.

Há pouco disse também que há um patamar abaixo do qual não se negoceia a reestruturação. Perguntar-lhe quais são essas linhas vermelhas para o governo em termos de emprego, derrotas, se as há.

Não faria sentido um plano de reestruturação que é tão complexo e que vai ser feito daquela forma que vos disse, estar a falar dum número de derrotas. Mas há uma coisa que é para nós evidente. A TAP não é uma companhia que valha apenas por ligar o Continente às regiões autónomas ou para fazer Lisboa-Porto. Aquilo que diferencia a TAP e a torna de facto procurada até por outras companhias aéreas é nós sermos uma companhia aérea com uma grande força no Atlântico e uma grande presença no Atlântico, nomeadamente na ligação de Portugal-Brasil. Mas também a África Ocidental e mais recentemente aos Estados Unidos da América. E são estas ligações transatlânticas que permitem que o nosso hub em Lisboa seja um hub muito interessante a partir do qual se conseguem também alimentar voos dentro da própria Europa. A TAP só tem interesse se continuar a fazer estas ligações e a utilizar Lisboa como hub. Ligações do outro lado do Atlântico para o hub de Lisboa. Do hub de Lisboa para o resto da Europa. Do resto da Europa para o hub em Lisboa e do hub em Lisboa para o outro lado do Atlântico ou para África Ocidental. Nós queremos que a TAP mantenha esta mais-valia. Nos últimos anos os cidadãos norte-americanos descobriram Lisboa, descobriram Portugal, e uma das principais razões é não só porque a TAP começou a voar para lá e porque usou Lisboa como hub e nós começamos a ter turistas norte-americanos que viajavam para a Europa e já agora começaram a sair em Lisboa. E por isso a grande mais-valia da TAP é de facto o hub que nós temos em Lisboa, que nos permite distribuir passageiros por uma grande parte do globo.

Nós temos assistido nos últimos anos uma estratégia da União Europeia na aviação muito semelhante àquela que se passou na banca com concentração. O cenário idealizado em Bruxelas será o de ter três grandes companhias europeias? A TAP vai conseguir encaixar nesses planos de Bruxelas mantendo esse hub em Lisboa e mantendo essas ligações sobretudo Atlântico Sul? É que Madrid é já aqui ao lado…

Ainda bem que me lembrou isso porque para os que acham que a TAP pode bem cair é uma boa forma de lembrar que o hub passaria a ser Madrid. E com grande perda de ponto de vista económico e de importância política económica de Lisboa, e já agora de Portugal. Nós já tivemos esses receios relativamente à banca e eu lembro-me que ninguém acreditava que fosse possível nós fazermos uma capitalização a 100% da Caixa Geral de Depósitos. Porque havia um grande objetivo de promover a consolidação bancária no espaço europeu. E a verdade é que o governo português, António Costa e Mário Centeno, são eles os dois principais responsáveis, conseguiram manter a Caixa Geral de Depósitos 100% pública. E por isso há aqui também uma dimensão que é política. Portugal é um país que só tem fronteira terrestre com um outro país, neste caso Espanha, que está na periferia europeia, para quem o transporte aéreo é crítico, e tem uma tradição e uma ligação histórica a países que são muito importantes também para a própria Europa. Não esquecer que a TAP é a principal companhia europeia a viajar para o Brasil. E no momento certo das negociações o governo português, e com certeza ao mais alto nível, para o primeiro-ministro se tiver que se envolver, envolver-se-há para defender a TAP tal como ela importa e interessa a Portugal.

Falemos agora também um pouco dos trabalhadores que há pouco já foram esse tema. Em relação aos trabalhadores, que são cerca de 9 mil os que estão em layoff, o que é que lhes vai acontecer em agosto?

A situação não é boa. Nós temos o negócio da aviação com uma travagem brusca, nós temos a maioria esmagadora dos nossos aviões parados e por isso nós não temos neste momento a capacidade, no imediato, de dar trabalho a todos os trabalhadores da TAP. E depois há um processo de reestruturação que nós vamos ter de fazer e nós não queremos antecipar.

Mas eles estão preocupados com o mês que vem até porque este sistema de lay-off acabará agora no final de junho.

Correto. Mas os trabalhadores não vão ser despedidos. A sua situação estará salvaguardada. Temos um plano de reestruturação para fazer, este plano terá de ser também negociado e trabalhado com envolvimento dos sindicatos, com o máximo respeito por quem faz o sucesso daquela empresa que são os trabalhadores. Mas este é um processo que interessa. Este plano de reestruturação interessa a todos nós mas em primeiro lugar interessa aos trabalhadores da TAP que obviamente o acompanharão. Não queremos deixar mal os trabalhadores da TAP, como é evidentemente. A TAP só faz sentido com aquelas pessoas. Agora, que nós vamos ter que reduzir aviões, que nós vamos ter que reduzir rotas, que nós vamos ter que reduzir e isto... Custos com pessoal... Eu não estou a fugir a nenhuma palavra porque redução dos custos com pessoal podem obviamente assumir as mais diversas formas, este é um trabalho que vai ser feito nos próximos meses e que será feito também com envolvimento dos trabalhadores da TAP.

Quando acabar este regime de lay-off tal como o conhecemos até final de julho poderá começar a sair uma parte dos trabalhadores?

Não, não, não. Eu disse que isso estava fora de questão. Também não disse que o lay-off não se prolongaria, vamos esperar.

Vamos esperar um prolongamento do regime de lay-off que temos atualmente?

Pode ter de acontecer.

Dá essa esperança a quem nos está a ouvir?

A esperança de que não vão ser despedidos, sim. Teremos que ver em concreto mas eu julgo que no caso da aviação, no caso da TAP, talvez seja possível a estendê-lo. Porque a verdade é esta, esta TAP não tem neste momento negócio para pagar todos os custos que tem e daí a necessidade de fazermos uma injeção de tesouraria daquela dimensão.

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