Nuno Fernandes. “Esta crise não é oportunidade nenhuma. Vai pôr-nos mais pobres”

Economista considera que país enfrenta a maior crise dos últimos cem anos e que a taxa de desemprego pode ultrapassar os 25%.

O professor do IESE em Espanha, Nuno Fernandes, foi dos primeiros a apresentar previsões económicas incorporando os impactos da pandemia de covid-19. Os dados foram atualizados nas últimas semanas e, no pior dos cenários, o Produto Interno Bruto (PIB) nacional pode encolher 14% no conjunto do ano.

Há cerca de um mês apresentou projeções para a economia portuguesa com uma queda do produto superior a 4%. Ainda as mantém?

Refiz o estudo e temos 30 países na amostra neste momento, e já incorpora mais dados industriais e internacionais. As previsões foram revistas em baixa. Para um cenário de um mês e meio de confinamento temos um impacto no PIB em Portugal de 5,9%, o que significa que Portugal vai cair cerca de 4,3%. Este é o cenário mais otimista. Neste momento mais realistas será o cenário dois ou o cenário três. No primeiro estamos a apontar para uma queda no produto de cerca de 9% e no cenário três já estamos a falar de uma queda de cerca de 13% ou 14%.

E que fragilidades aponta à economia portuguesa?

É uma economia bastante vulnerável e este choque veio expor essas vulnerabilidades. Se, por um lado, foi bastante positiva a retoma que tivemos nos últimos anos, em grande parte devido ao turismo, por outro, temos uma economia que é pouco diversificada a vários níveis: quer no peso do imobiliário quer no do turismo que são setores muito afetados por esta crise. Em termos de abertura ao exterior temos novamente pouca diversificação. As nossas exportações continuam muito concentradas em termos de destino.

Apontaria o grande peso destes dois setores como as principais vulnerabilidades. Serão também os mais lentos na recuperação?

O turismo pesa mais de 15% no nosso PIB (direto e indireto). Em particular a hotelaria e a restauração têm mão-de-obra intensiva e, se por um lado, foi bom para reduzir o desemprego, por outro lado, os salários são baixos e com muitos jovens. Essa é uma outra dimensão que tem a ver com a nossa exposição ao setor do turismo que vai afetar uma camada da população que é jovem e, em média, ligeiramente menos qualificada do que a média da população. A desigualdade vai aumentar e acho que neste caso vamos ter um problema bastante grande com o facto de afetar os jovens.

O FMI aponta para uma taxa de desemprego de 14%.

Parecem-me francamente muito otimistas. Podemos olhar para a economia norte-americana que é mais diversificada e não está tão exposta ao turismo. Neste momento já vamos com uma taxa de desemprego de 20%. Em Portugal, com a nossa estrutura produtiva e sabendo que já temos mais de 1,1 milhões de pessoas em lay-off, mais os desempregados no início da crise, vejo como possível atingir um número acima dos 25% de taxa de desemprego.

E poderemos ter alguma alteração na estrutura do emprego?

É muito difícil prever o que vai ser o mundo depois desta crise, mas vai ser diferente. Acho que vão ser muito mais normais formas de trabalho que antes eram consideradas pouco standards, como o part-time ou trabalhos mais temporários com horários mais irregulares. Esses tipos de trabalhos eram vistos como de menor valor acrescentado.

E identifica setores mais abrigados desta crise?

O farmacêutico, as telecomunicações, a gestão de resíduos e setor alimentar. Ou sectores ligados à tecnologia e setores da extração estão relativamente imunes. Tudo o que está relacionado com serviços, experiências imobiliário, escritórios e logística é muito afetado.

Há quem identifique oportunidades com esta crise.

Esta crise não é oportunidade nenhuma. Esta crise vai pôr-nos mais pobres, ponto final. E agora podemos repensar como podemos viver a seguir. Acho que em várias indústrias, foram longe de mais na extensão da sua cadeia de valor e na terciarização da atividade e na gestão dos stocks. Há várias fábricas a nível europeu que estão paradas por falta de matéria-prima. Houve ganhos de eficiência comprando fora do seu país, mas também se chega à conclusão que empresas mais resilientes produzem mais perto se calhar a um custo ligeiramente mais elevado. Este trade-off entre resiliência e eficiência vai ficar mais patente na mente de vários gestores e empresas.

Outra questão é a dívida pública. As previsões do FMI apontam para 135% do PIB. A redução conseguida vai ser eliminada.

Mas não vai para o caixote do lixo, porque estes anos foram muito importantes em prevenir a escalada da nossa dívida. A dívida é um problema mundial e europeu, não é apenas de Portugal. Desde 2007 que a dívida, em termos mundiais, duplicou na sequência da crise financeira de 2008/09. Em Portugal também. Estávamos perto dos critérios de Maastricht e chegámos a mais de 120% do PIB. Temos, de facto, uma dívida muito elevada em percentagem do PIB e em valor absoluto. Cada português deve, em geral, cerca de 25 mil euros com juros a pagar.

E desta vez será diferente? Estamos mais bem preparados?

Estamos muito melhor do que em 2010/2011. Nessa altura tivemos uma subida enorme da nossa dívida, muito mais do que os outros países e tivemos necessidade de nos endividar mais e tivemos um ataque que deu origem às crises soberanas e que durou até 2014. Estivemos a pagar taxas de juro acima dos 10%. Atualmente, ainda que com volatilidade, temos taxas de juro muito abaixo. O papel da política monetária tem beneficiado a descida das taxas de juro.

E como avalia a resposta europeia a esta crise? Andámos dez anos a preparar-nos para fazer frente a crises.

Tem sido muito mal gerida. Por um lado, não tem havido nenhuma coordenação a nível médico, de recolha e tratamento de dados e de políticas económicas. Para além disso não temos uma política externa. E isso verifica-se em coisas tão simples como a compra de ventiladores. E depois deveríamos ter uma resposta económica a nível europeu e estamos a ter uma resposta a nível doméstico de cada país a fazer aquilo que consegue e muito pouco está a ser coordenado. A União Europeia (UE) falhou. Se não tivermos uma resposta conjunta e não sairmos de facto com uma resposta única, o Reino Unido terá sido apenas o primeiro país a sair da UE e na próxima década vamos ter vários países a saírem. Julgo que este é o último teste que a União Europeia tem.

E como avalia a governação de Mário Centeno. O capital que acumulou ainda resiste?

Esse capital ainda tem seguramente. Tem provas dadas. Se recuarmos cinco anos, não havia ninguém, nenhum analista económico que fosse capaz de dizer que iríamos ter o sucesso económico que tivemos. Falo com muitos investidores e gestores internacionais e a primeira coisa que alguém diz é “como é que vocês em Portugal conseguiram aquele milagre?” Estamos todos perante uma crise, a maior dos últimos 100 ou talvez 200 anos. Se alguém está bem preparado, Mário Centeno é uma dessas pessoas.

E a resposta que Portugal tem dado a esta crise? Tem estado muito em linha com os parceiros europeus.

Sim e mais uma vez mostra a descoordenação a nível europeu. E somos vítimas dessa descoordenação. Todas as respostas deveriam ser concertadas. Por exemplo, tudo o que fizermos no setor da aviação tem de ser concertado a nível europeu. Não vale a pena abrirmos o nosso espaço aéreo se o espaço aéreo espanhol e francês estiverem fechados. Temos um problema que é o endividamento. Os recursos são escassos e temos uma conta muito grande que vai ter de ser paga, de mais de 10 mil milhões de euros. Isto tem de ser pago de uma forma distribuída, porque se vamos concentrar em apenas determinados setores da sociedade, vão ficar completamente descapitalizados e desmoralizados e até com bastante falta de ética.

E no final de tudo teremos novamente austeridade? O primeiro-ministro tem garantido que não.

Não gosto da palavra austeridade, atribuímos uma conotação muito negativa. O Estado está a atuar como último garante e a dar uma almofada de segurança à sociedade e parece-me que é o papel adequado face a uma pandemia destas. A conta vai ter de ser paga. Podemos dizer que deve ser paga apenas por quem está no ativo, através do aumento do IRS. Espero que não seja essa a escolha, porque se assim for, estamos a dizer que apenas quatro milhões de portugueses vão pagar a conta e não os dez milhões. Podemos fazer outra escolha e dizer que não vamos afetar nem reformados, nem a população ativa e que vamos emitir dívida perpétua a 150 anos. Aí estamos a deixar esta dívida para a geração que está agora a estudar, para 15% a 20% da população o encargo que estamos a gastar hoje. Também não me parece justo. Acho que a conta deve ser dividida por todos.

E como poderíamos fazer isso? O que seria mais "justo"?

Por exemplo, temos neste momento várias empresas do setor privado a cortar os salários. É uma medida de proteção da solvabilidade da empresa e que protege os trabalhadores no médio e longo prazo. Há um milhão e 100 mil portugueses em lay-off e ainda todos os que estão no desemprego. Neste contexto, não me parece adequado que subamos ou até que mantenhamos os salários no setor público, porque são gastos do Estado. Numa perspetiva de redistribuir a conta não é uma medida positiva, não é uma medida que seja popular, mas parece-me adequado que, se grande parte da população portuguesa está a ver uma diminuição dos seus rendimentos, que também aqueles que mantêm o seu rendimento garantido pelo erário público vejam alguma redução. Uma das formas possíveis de o fazer era reverter a decisão das 35 horas semanais para as 40 horas.

E poderia ser temporário?

Não estou a dizer que seja para sempre. O que estou a dizer é que temos uma conta muito grande e estamos a passar por um choque de riqueza muito grande e quanto mais distribuída ela for, mais fácil vai ser todos passarmos por esta crise.

Nuno Fernandes é professor Catedrático de Finanças no IESE Business School, em Espanha, presidente do Conselho de Auditoria do Banco de Portugal e administrador não-executivo do Banco Europeu de Investimentos (BEI).

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