André Jordan

“O mundo está a mudar e mesmo o barato é caro”

Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens
Fotografia: Filipe Amorim/Global Imagens

O mercado imobiliário está a melhorar, diz André Jordan. Mas nada como esperar para ver se os portugueses conseguem acompanhar

O seu projeto mais reconhecido é a Quinta do Lago. É especial?

A Quinta do Lago começou de forma desconhecida, num sítio desconhecido. Quando eu quis levantar investimento para a Quinta do Lago fiz um belíssimo dossier que tinha acesso a contactos do meu pai e andei a visitar grandes empresários. E as pessoas olhavam para mim e pensavam ‘coitado deste rapaz’. Algarve? O que é o Algarve? Ninguém sabia o que era o Algarve.

Tornou-se num dos mais importantes da Europa.

A pessoa que comprou por 50 mil dólares um lote naquela altura, obviamente que fazendo o ajuste, se ficou com a casa até hoje, consegue vendê-la por quatro, cinco, seis milhões. E quem compra derruba a casa. Eu já tive pessoas a virem ter comigo a chorar para me dizerem que me devem tudo porque podem morrer e deixar uma fortuna para os filhos.

Não só conseguimos fazer a Quinta do Lago como fizemos passar de um empreendimento normal para número um da Europa. Espontaneamente. Pela qualidade do seu urbanismo, pela dimensão humana das coisas, e aqui também vai acontecer muito isso. As ruas sempre muito naturais, seguem sempre o contorno do terreno.

Eu aprendi a fazer urbanismo com um arquitecto que a família tinha muitas herdades e que ele, quando loteava, sentava-se no trator e abria os caminhos. Ele fez o projeto a partir das ruas e não as ruas a partir do projeto. Eu ia no trator com ele, ele tinha 25 anos, eu tinha 15 ou 16. E fui aprendendo.

E passou isso para a Quinta do Lago.

Sim. Era um areal e um pinhal. Quando entrei na propriedade, a gente se perdia ali dentro. Então pintávamos as árvores para desenhar os caminhos.

Hoje em dia é mais difícil inovar do que era naquela época?

Eu sempre procurei adaptar o produto ao mercado. E trabalhar com mercados que conheço. Adaptar-me ao meu mercado. E quem é o meu mercado? É a pessoa com boa capacidade financeira, mas nunca pensei em tornar a Quinta do Lago no que é hoje. Hoje a Quinta do Lago só tem multimilionários. Não foi esse o intuito. Ela evoluiu dessa maneira, pela carência de outros projetos.

As pessoas têm paixão pela Quinta do Lago mas de certa maneira é porque há carência de outros projetos comparáveis. Eu faço projetos ao alcance de camadas de mercado, mas não é dos excepcionais, é da burguesia, em última análise. Do empresário, do profissional liberal, do executivo. Depois da Quinta do Lago eu fiz outra quinta, chalés mais pequenos, e em Vilamoura o Residence Victoria Golf Club, e loteamento grande em Vilamoura nessa época que foi o Pinhal Velho, e foram 50 lotes. Esses produtos eram já para um mercado diferente.

Mas hoje o mundo está a mudar e mesmo o barato é caro. Você está a falar de uma moradia aqui de 600/700 mil euros. É muito dinheiro para quem não tem, mas é acessível para quem tem. É essa fórmula, esse equilíbrio, que nós procuramos encontrar.

Fora do mercado de reabilitação de casas, muito por força do Alojamento Local, praticamente não há construção em Portugal. Como é que o mercado imobiliário está neste momento?

Este lançamento da segunda fase do Belas Clube de Campo é o teste. Vamos ver. Este mercado sempre será muito mais internacional do que foi no passado, e a captação é já de 50% de mercado estrangeiro. Mas o teste do novo começa agora.

E nesta nova ordem do imobiliário há espaço para os portugueses?

Pensamos que sim. Mas não temos confirmação. Como dizem os ingleses: the proof of the pudding is in the eating [nada como esperar para ver]. Agora vamos ver como reage o mercado. Temos indicações muito positivas. Na apresentação o ambiente era de euforia. A maioria eram vendedores e estavam em grande animação porque acham que temos um produto de que precisam.

A relação entre as zonas próximas das grandes cidades, mas longe o suficiente para haver alguma tranquilidade está novamente a ganhar importância?

Temos aquelas pessoas que querem morar com o café na esquina, com a farmácia ao lado, e esse não vêm para cá. Mas há espaço para a pessoa que sabe que entra no carro e em 5 minutos está no Dolce Vitta. É logo ali.

Tem dito por diversas vezes que reforma é coisa em que não pensa. Depois do anúncio da extensão do Belas Clube de Campo, ainda tem coragem para mais um grande projeto?

Tenho um investimento já construído e muito interessante que é um jazigo no Cemitério de São Lourenço. E já está feito. Eu tenho 84 anos e o bom senso de pensar que se os meus filhos resolverem seguir a tradição e a marca têm todo o meu apoio. Mas eu não posso estar pensando em mais porque estes empreendimentos são de uma geração. Todos eles. A Quinta do Lago vai fazer 50 anos, Vilamoura também, eu não comecei mas só eu já sai de Vilamoura há 20 anos. Aqui estamos há 20 anos. Não posso estar a pensar em mais décadas.

Havia um embaixador de Israel aqui e ele contou a história de que pediu ao médico para o olhar por dentro. Eu estou em boa forma, mas como todas as pessoas, o material vai-se desgastando.

Olhando para trás e pensando em todos os grandes investimentos que fez, qual é o mais emblemático e o que lhe enche mais o orgulho?

Isso é o mesmo que perguntar de qual filho se gosta mais. Cada um é diferente do outro e gostamos igual. Podemos ter mais afinidade ou menos afinidade, um gosta de futebol e outro de teatro…não é por aí. Tenho um enorme orgulho de todos os projetos que orientei e comecei. E tenho um grande afecto e gratidão à multidão de pessoas que trabalharam comigo.

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