Crise da dívida

Omar Toulan. “Pusemos um penso rápido na crise europeia das dívidas”

Foto: D.R.
Foto: D.R.

Economista norte-americano acredita que a crise da dívida pública na Europa não ficou resolvida e que o problema continua a ser a baixa produtividade.

Omar Toulan é professor de Gestão e Estratégia Internacional no instituto suíço IMD. Em entrevista ao Dinheiro Vivo, afirma estar convicto de que a crise da dívida pública na Europa não ficou resolvida e que o problema continua a ser a baixa produtividade. O economista norte-americano receia os efeitos a longo prazo da administração Trump e acredita que o atual presidente não vai conseguir a reeleição em 2020.

Apresenta uma lista de riscos atuais para o mundo. São os riscos conhecidos, os reais?
São o que que chamo de hotsposts macro com potencial de concretização em todo o planeta. Alguns estão a acontecer, outros podem acontecer este ano ou no próximo, mas não queria restringir-me àquela lista, porque são riscos muito macro e tento transmitir a ideia de que estes riscos macro não se traduzem em riscos específicos. Precisamos de fazer a análise individual para cada organização mesmo que seja apanhada no meio de uma guerra comercial. Existem sempre oportunidades para ganhar dinheiro numa guerra comercial. Imagine que é um produtor local nos EUA. Com uma guerra comercial pode ter uma oportunidade às expensas de uma empresa que importa da China.

Um dos maiores riscos e que pode prejudicar todos é a guerra comercial EUA/China ou as tensões com o Irão. Qual destes pode potencialmente causar mais danos?
Em termos gerais, a guerra comercial entre os EUA e a China pode causar uma recessão global. Se estas tarifas impostas pelos EUA se mantiverem ou forem agravadas, podemos ter uma recessão no país já no final deste ano. E se os Estados Unidos entram em recessão todo o mundo vai ser afetado. A crise com o Irão, que além de uma crise económica tem também um carácter militar, apresenta uma série de riscos. Um é que fragmenta as alianças tradicionais entre os países, tendo em conta as posições da Europa e dos EUA. Esta crise teria um impacto nos preços do petróleo, que afetaria o resto da economia.

E em relação à Europa, há algum risco específico para as empresas que querem investir?

Julgo que temos de ter consciência de algumas questões. Primeiro, a ascensão do populismo em determinados países europeus. E existem diferentes tipos de populismo: da direita e da esquerda. Mas em qualquer um dos casos, está associado a uma política económica mais restritiva em termos de investimento estrangeiro, fechamento da economia. Mesmo no Reino Unido, neste momento, temos uma forma de populismo e a implementação do brexit vai ter um impacto económico negativo. Diria que no caso do Reino Unido, temos visto uma queda no investimento, em parte por causa das trocas comerciais com a Europa – ninguém sabe como vão acontecer. De um ponto de vista económico, a Itália continua a ter um problema com a dívida pública. É um caso evidente em que temos populismo da direita que encoraja políticas restritivas, mas ao mesmo tempo depende da UE para a estabilidade económica. Se há um país – dos grandes – com o qual estaria um pouco preocupado neste momento seria Itália.

E em relação ao brexit?
Não sabemos o que vai acontecer. Vai ser interessante perceber quem vai assumir a liderança dos conservadores (Boris Johnson ou Jeremy Hunt). Mas independentemente do resultado, o desafio do brexit é que não existe uma solução viável para a fronteira com a Irlanda. Não vejo que seja fácil chegar a um acordo nesse ponto e avançam para um hard brexit, que Johnson já disse que será a solução a 31 de outubro não havendo acordo. Mas deu às empresas mais tempo para reagirem e algumas fizeram-no, mas o impacto será muito maior no Reino Unido do que na Europa.

E podemos assistir a uma saída em massa das empresas do Reino Unido para outros países?
No setor financeiro temos assistido a esse movimento. Tenho um antigo colega que é responsável pelo recrutamento numa empresa na Irlanda e já está a ver isso a acontecer, com procura pela colocação de executivos no país. Ao mesmo tempo está a acontecer em Amesterdão, Frankfurt, Paris, … Em muitos casos diria que para os bancos Europeus com grandes operações no Reino Unido vão acabar por regressar a casa. Por exemplo, alguns bancos espanhóis ou alemães, reduzindo a importância de Londres como um hub financeiro. Na minha opinião, Londres vai manter-se como a maior capital financeira da Europa, mas com uma posição menos proeminente.

Referiu a questão da elevada dívida pública italiana. No período da crise, tivemos países, incluindo Portugal, em que o risco soberano disparou. Julga que já passou?
Digamos que pusemos uma espécie de penso rápido em toda a questão do grexit, e da crise grega que também foi uma crise italiana e por aí adiante. Julgo que ainda não passou. As dívidas ainda estão lá. A questão é perceber se estes países fizeram uma reestruturação suficiente? Sinceramente, acho que não. Muito passou pelo refinanciamento e reestruturação da dívida. Mas o problema de base continua lá e em muitos casos o problema é a produtividade e isso, na realidade, não se alterou. Portanto, seja a Grécia ou Itália, há um problema com a produtividade e questões estruturais que ainda não se alteraram. Pelo menos com o atual governo italiano, não vejo que tal possa acontecer. Julgo que houve um grande esforço para manter todos os países no euro, em parte porque se houvesse um colapso, ou se a Grécia saísse da moeda única, teria uma implicação muito maior nos bancos franceses e alemães que detinham dívida grega. Parte desse problema já ficou resolvido. Se analisarmos os balanços desses bancos, já existe pouca dívida grega. A questão central é saber se da próxima vez a vontade de manter a Grécia será tão forte. Se os interesses económicos dos grandes países não estiverem tão ligados como no passado. No caso da Itália é um pouco diferente dada a dimensão da economia. Do ponto de vista da estabilidade económica, a UE tem todo o interesse em manter a unidade. Pessoalmente, não vejo qualquer problema em que um país abandone o euro que basicamente “algema” a política monetária, deixando apenas a política orçamental como instrumento de gestão económica.

Defende que existem sempre oportunidades nas crises, mesmo nas piores?
Não existem oportunidades para todas as empresas, mas há sempre oportunidades.

E como avalia o risco de um país?
Para se perceber um país tem de ir lá, fisicamente. Podemos fazer uma avaliação com base em dados secundários, mas precisa de ir lá, de falar com os responsáveis políticos, com os clientes, com as pessoas que estão a trabalhar no terreno. Se não o fizer podemos acabar com uma imagem muito distorcida de como as coisas funcionam na economia. Por exemplo, no caso da Argentina, no anterior governo existia uma pessoa que não era o ministro da Economia, mas era quem na realidade geria a economia. E não vamos encontrar essa informação no Google. E depois é preciso perceber o risco específico a que uma empresa está exposta. Acredito profundamente que esta avaliação dos riscos de um país pode ser útil como ponto de partida, mas é só isso. Um país pode ser muito arriscado, mas o potencial para ganhar muito é grande e o contrário também se aplica. Tudo vai depender da tolerância ao risco e a capacidade de ser ágil e de deslocalizar. No caso da Argentina, quando há uns anos o país era mais instável, conheci muitas pessoas que ganhavam muito dinheiro e hoje que está mais estável – mais institucional – essas pessoas estão a perder dinheiro. Em determinados casos, a estabilidade é positiva no longo prazo, mas a volatilidade (se houver boa gestão) pode-se ganhar muito dinheiro.

Obriga a reagir mais depressa e a pensar mais depressa?
O contexto faz isso, mas pode também introduzir distorções. É como pensar num mercado competitivo e um mercado imperfeito. No primeiro caso não existe diferenciação: todos fazem a mesma coisa. Nos mercados imperfeitos, há vantagens e desvantagens e as empresas lucram com isso. Há sempre vencedores e vencidos, como no caso de uma guerra comercial: os importadores têm de pagar um preço, mas as exportadoras conseguem grandes lucros, porque conseguem alavancar esta distorção.

Mas é preciso ter uma espécie de “caixa de ferramentas” para mitigar os riscos?
Parte está relacionada com a estratégia de financiamento, a estratégia de parcerias com empresas locais, a estratégia operacional (integração total no país), a estratégia de contratação. Há diferentes variáveis que conseguimos controlar para tentar mitigar os potenciais riscos.

Que avaliação faz da política da administração Trump?
Por um lado, é uma situação muito interessante porque introduziu algum grau de volatilidade. Os EUA são, tradicionalmente, um mercado muito seguro. Julgo que a maior preocupação está relacionada com o impacto de longo prazo nas instituições. Em geral tem um efeito pernicioso na reputação do país e na cooperação com os aliados. Mas a preocupação maior tem a ver com o impacto nas instituições que regulam o país: o poder judicial, a separação de poderes, etc. Julgo que há dois anos as pessoas estavam convencidas de que, apesar da retórica, as instituições acabariam por proteger o sistema. O problema é que, na minha opinião, as instituições e em muitos casos os pesos e contrapesos não estão a funcionar como era suposto. E corremos o risco de o impacto ir para além destes quatro anos ou, potencialmente, oito anos, em termos de erosão das instituições, bem como estabelecendo um precedente sobre os poderes do presidente. Os Estados Unidos não são um país hiper presidencialista, como no caso de alguns países da América Latina, mas há sinais de que isso está a acontecer.

E acredita na reeleição de Donald Trump?
Vai depender da escolha doscandidatos, mas a minha previsão é de que não vai ganhar.

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