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Jovens “mais depressa pedem um empréstimo ao Google do que a um banco”

Duarte Líbano Monteiro, diretor-geral da Ebury para Portugal e Espanha. Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens
Duarte Líbano Monteiro, diretor-geral da Ebury para Portugal e Espanha. Fotografia: Reinaldo Rodrigues/Global Imagens

Diretor-geral da Ebury em Portugal e Espanha diz que a estrutura dos bancos está obsoleta e que o sector não se habitua às fintech

A Ebury é uma empresa especializada em pagamentos internacionais que conquistou cem clientes em Portugal em menos de um ano. As operações na Península Ibérica são lideradas por Duarte Líbano Monteiro, que, em entrevista ao Dinheiro Vivo, compara a evolução da digitalização da banca em Portugal e Espanha e antecipa o futuro deste sector.

Quais são as grandes diferenças entre as fintech de Portugal e de Espanha?
Em Espanha, o mercado é muito mais maduro. Portugal ainda não começou a arrancar à velocidade de Espanha, que teve uma consolidação muito grande da banca durante a crise. Portugal não teve isso. Isto abriu mercado em Espanha. Por exemplo, se tiver um crédito com o Santander, o BBVA ou uma das “caixas”, na consolidação, o banco que comprou só estava disposto a assumir até um certo limite de risco. Começaram a reduzir as linhas de crédito, o que levou as PME a ir buscar alternativas de mercado. Em Espanha, começámos em 2011. Em Portugal, só entrámos no verão de 2015.

Em Portugal também tivemos problemas desde 2011.
Mas não houve consolidação. Por exemplo, se houver uma fusão entre BCP e Novo Banco, de repente, muitas empresas têm uma exposição muito maior do que aquela que o banco está disposto a dar. Isso faz que haja redução das linhas de crédito, e o cliente precisa de uma alternativa.

As fusões em Portugal podem ser a grande oportunidade para as fintech?
Para haver mais fintech, sem dúvida. Quando a troika chegou, o crédito ao consumo foi o que cresceu mais. A banca teve de subir os spreads enquanto as empresas de crédito reduziram-nos e cresceram brutalmente. A banca tem coisas muito boas, mas a tecnologia avançou a uma velocidade que a banca não consegue acompanhar. São estruturas muito rígidas. A banca investiu muito bem nos anos 90, com plataformas como o home banking. Houve uma evolução tão grande que o consumidor final já está habituado. As estruturas dos bancos já estão obsoletas. Para passar para o mundo fintech precisam de um investimento gigantesco. Não dá.

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Os bancos devem colaborar ou rivalizar com as fintech?
A banca tem quatro opções. Ou compram – e tentam integrar as fintech – ou investem em tecnologia ou colaboram ou não fazem nada.

Qual das opções é a melhor?
Não há uma opção melhor. Em Espanha há muita colaboração.

E em Portugal?
A banca ainda não está muito habitada a este fenómeno das fintech.

Mas há alguns bancos que têm aplicações, por exemplo.
No futuro – posso estar enganado – a banca vai ser uma plataforma de venda de vários serviços, não só os seus, mas de várias empresas. Há em Portugal alguns exemplos de colaboração, como o Banco Popular, que vende crédito ao consumo da Cofidis. Estas empresas aprovam crédito muito mais depressa do que um banco. Esta flexibilidade, esta agilidade…

… é o que falta aos bancos ou que ainda podem conseguir?
Os bancos têm uma estrutura de custos muito grande. Estão metidos num tsunami e não é por culpa deles. Têm muitas agências bancárias para as necessidades, por exemplo. As fintech são uma ameaça, mas se a Google, a Amazon, o Facebook e a Apple (GAFA) começarem a fazer crédito ao consumo é uma chatice. As gerações mais novas mais depressa pedem um empréstimo ao Google do que a um banco.

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Quais são as vossas metas para o primeiro ano?
Já cumprimos os objetivos ainda antes de fazer um ano. Estamos com um crescimento muito grande. Nos últimos 3/4 anos, gerimos dez mil milhões de euros em transações a nível europeu, sobretudo em Inglaterra, Espanha e Holanda. Temos mais de dez mil clientes. É um crescimento bastante acentuado para uma fintech. Ganhámos vários prémios e fomos reconhecidos pela Deloitte e pela KPMG.

Como avaliam o papel em Portugal dos reguladores. Podem fazer muito pelas fintech?
Portugal está muito na moda a nível tecnológico. Acho que entidades como a AICEP podem atrair investimento; o governo não deve colocar barreiras para pedir licenças. As empresas podem aproveitar a flexibilidade do passaporte europeu. E o governo pode fazer algo como o regime de impostos para os estrangeiros, que ajuda o país.

Como poderão ser as agências do futuro?
Hoje em dia é mais barato o gestor ir ter com o cliente do que o cliente ir ter ao banco. A maioria das pessoas faz tudo online, mas também gosta de saber que há uma agência por perto. Não precisamos é de ter três agências no mesmo cruzamento. Tem tudo a ver com estrutura de custos. As pessoas já estão habituadas a outros canais de vendas, como a internet. Também há um problema social: os bancos não podem despedir metade das pessoas.

E como a banca vai lidar com isso?
Voltamos ao tsunami. Há problemas de capital, de dimensão e a nível social na banca.

É possível reconverter os trabalhadores dos bancos?
Depende, se estamos a falar de pessoas tecnologicamente avançadas ou não. Será que querem entrar neste mundo no final da carreira? Há muita gente que não gosta de tecnologia. Há muitas agências que estão a fechar em Espanha, por exemplo.

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E o cenário vai piorar?
Não quero ser pessimista, mas a economia não vai crescer muito nos próximos dez anos. Houve uma grande “bancarização” nos últimos 20 anos. Não há crescimento orgânico. Ou ganham quota ao vizinho ou fazem fusões. As pessoas mais novas não vão aos bancos.

O que podemos esperar da banca portuguesa nos próximos dez anos?
A decisão mais rápida é colaborar com as fintech. Não há condições para comprar estas startups. Não fazer nada também não é solução, a tecnologia já demonstrou isso. A banca vai ter de perceber que as fintech têm um ritmo muito acelerado, em que o foco é o cliente.

A Ebury conquistou cem clientes em Portugal em apenas um ano. São sobretudo as pequenas e médias empresas (PME) que recorrem a esta entidade. “Damos um serviço às PME que só as grandes empresas é que costumam ter”, justifica Duarte Líbano Monteiro.

A plataforma em uma estrutura de cerca de dez pessoas e permite fazer operações de câmbio local, o que “dá desconto às empresas junto de fornecedores locais, poupando o custo de uma operação”.

A Ebury, como fintech, apresenta uma estrutura de custos “muito mais reduzida”, o que permite aplicar preços mais baixos do que as entidades tradicionais”.

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