entrevista

Paddy Cosgrave: “Web Summit é um caldeirão de boas ideias” e “FIL serve bem”

Paddy Cosgrave
(Filipe Amorim / Global Imagens)
Paddy Cosgrave (Filipe Amorim / Global Imagens)

Cosgrave admite ter dois escritórios em Lisboa. O seu líder de engenharia é português. Conferência secreta será em Cascais.

No seu estilo descontraído de sempre, envergando uma t-shirt da Web Summit já gasta, Paddy Cosgrave voltou a Lisboa depois de três semanas de férias – uma delas totalmente desligado do mundo, sem acesso ao telemóvel – para uma visita relâmpago que contou com uma reunião com o ministro de Inovação japonês no Altice Arena.

Aproveitámos para falar com ele sobre algumas das novidades do evento que promete voltar a juntar alguns dos nomes mais entusiasmantes da tecnologia “que está a mudar o nosso mundo”. Nesta conversa o CEO e fundador da Web Summit, além de fugir a polémicas relacionadas com o alargamento da FIL, mostrou algumas das suas intenções para a conferência que tem garantida presença no país até 2028, inclusive a criação de uma espécie de clube que irá oferecer livros selecionados pelos oradores aos participantes.

Cosgrave explicou, inclusive, algumas particularidades da forma como criou, sem investimento, o evento que vai reunir de novo 70 mil pessoas em Lisboa de 4 a 7 de novembro e também a forma como aborda os convites de oradores para o evento – ficamos a perceber porque, por esta altura, não tem interesse em convidar Mark Zuckerberg ou Sheryl Sandberg, do Facebook.

E o que é a Web Summit? “Desde o início, é um caldeirão [melting pot] de boas ideias em busca de clientes, parceiros e talento.”

Como está a correr a preparação da Web Summit?
Está tudo a correr bem na organização. Todos os anos fica mais fácil, mas gostamos de incluir ideias novas. Por exemplo, vamos mudar muitas coisas no catering, com novidades entusiasmantes inspiradas no que vi no Estoril Open. Eles são fantásticos na forma como organizam a experiência de refeições. Noutras ideias, quero incluir em breve uma espécie de clube de livros no evento em que os oradores escolhem os seus favoritos e depois vamos oferecê-los aos visitantes (usando tokens) numa espécie de biblioteca.

E a nível de oradores, que novidades podemos esperar além do CEO da Huawei, do presidente da Microsoft e dos líderes do Tinder e da Boston Dynamics?
Vamos continuar a diversificar e a trazer outras vozes além da tecnologia. Apesar de sermos uma conferência de tecnologia, é importante termos pessoas com visões diferentes, mesmo de empresas mais antigas e estabelecidas como o CEO e chairman da Huawei. Em princípio virá um ator de Hollywood conhecido, mas que ainda não podemos revelar por não haver confirmação oficial. Só essa possibilidade já entusiasmou a equipa. Temos um canal de Slack sobre oradores e podemos ver [mostra no telemóvel] que o nome dele já tem 43 “palmas” e dez “corações”. Vemos a popularidade dos oradores junto da equipa. E o chefe de cibersegurança da Siemens não teve “corações” nem “palmas”. Já há grandes nomes no site, mas em setembro e outubro é que tentamos anunciar mais nomes relevantes.

Foi anunciado que iria existir um evento secreto associado à Web Summit. Em que consiste?
É uma das novidades. Será um evento privado que vai reunir, antes da Web Summit, em Cascais, os fundadores das startups mais interessantes a nível mundial em fase inicial. O que inclui várias startups portuguesas (cerca de 20, num total de 500). E essa é uma oportunidade para empreendedores jovens e emergentes (não são todos novos) passarem tempo num local calmo, com alguns dos melhores investidores no mundo e alguns dos melhores jornalistas, embora não seja aberto à imprensa. Não posso dar o nome do evento – há um nome de código interno -, mas será interessante ver o que sai de lá, são pessoas interessantes.

Há novidades no interesse de países fora da Europa?
Teremos uma grande participação japonesa. Acabámos de nos encontrar com o ministro da Inovação, o senhor Takuya Hirai, no Altice Arena – é o governante mais importante após o primeiro-ministro. Eles levam muito a sério a inovação e dominaram o mundo em eletrónica e robótica durante muito tempo, mas, no que respeita a startups de software, estão agora a investir forte com várias medidas do novo primeiro-ministro, que esteve reunido com o comissário europeu Carlos Moedas. De alguma forma, a Europa e o Japão têm algo em comum, agora que tentam crescer em startups ao nível de China e EUA. Esse cenário, das startups, tem certamente mudado em Portugal. Quando viemos para cá, em 2016, havia coisas a acontecer, mas agora estamos numa altura incrível, com muitos motivos de interesse para os investidores.

O país continua a crescer…
Acho que é uma tendência interessante ver que Portugal começa a ganhar asas na área tecnológica. O caso da Cloudflare é fascinante, nomeadamente que o CTO deles vá estar baseado em Portugal e provavelmente o seu hub de engenharia mais importante do mundo passe a ser no país. Claro que é ótimo quando um call center ou um centro de apoio abre cá. Qualquer emprego é importante, mas um de alto valor, como os de engenharia, criado por startups locais ou tecnológicas de fora, torna o ecossistema mais vibrante. Em Silicon Valley não são os tipos das vendas que dão força às startups ou às empresas de tecnologia, são os engenheiros – Steve Jobs é exceção. E a qualidade de vida é muito importante na decisão: Portugal é um belo país para se viver, é como estar de férias todos os dias, a comida é ótima, a qualidade de vida é boa, é muito seguro e tem sol…

Já há é procura a mais para a oferta nestas áreas…
Acredito, mas a oportunidade que isso cria para outras zonas do país além de Lisboa, mesmo eventualmente trazendo talento de fora, é interessante. Porto, Coimbra, Viseu, Faro ou Madeira podem crescer a partir daí. Não há razões para ser só Lisboa.

Quanto à procura de bilhetes, mudou alguma coisa?
Voltam a ser 70 mil e estamos a ter mais procura. É o primeiro ano em que a Web Summit deve esgotar mais de uma semana antes do evento, o que vai ser interessante.

Em termos do espaço, a FIL, para já, continua igual, as obras vão demorar. A AIP disse que a Web Summit quer o crescimento mais cedo, em 2022, e isso significa investimento…
Não sei nada desses detalhes além do contrato assinado com a Câmara de Lisboa. No ano passado, no exterior da FIL havia cartazes enormes com todos os detalhes dos planos de construção para a ampliação e já estavam lá os dados. Não vi nada diferente desde essa altura. Embora não cresça já, vamos ter alterações no espaço – que ainda não posso revelar.

No planeamento que fazem, onde querem ir em termos de crescimento da Web Summit?
Adorávamos poder trazer mais pessoas do mundo a Portugal e crescer em espaço irá permiti-lo. Queremos aumentar todos os anos. Este será o primeiro em que mantemos o número de visitantes e se calhar até é uma coisa boa. Pode esgotar mais cedo. O problema é que muitos portugueses compram bilhetes na última semana – e desta vez duvido que haja. Tenho a certeza de que vamos ter de lidar com telefonemas de entidades oficiais e de CEO a perguntar: “Onde estão os meus bilhetes” [risos].

Mas, então, sobre o espaço não houve exigências?
Esse não é o meu foco, sinceramente. Nem penso muito nisso, foco-me mais em quem são os oradores interessantes, quais são as startups interessantes, como podemos melhorar o software dos nossos serviços. A maioria das pessoas nessa altura passa mais de uma hora por dia no nosso software e temos agora mais engenheiros do que nunca. Estamos a construir uma equipa de engenharia mais centrada em Lisboa – na verdade está em muitos locais e será distribuída. E já temos o nosso vice-presidente de engenharia a trabalhar em Portugal.

Como se chama ele? Quantas pessoas têm na engenharia?
Chama-se João Soares. Nessa área, com vários papéis por toda a empresa, há cerca de 50 e vários são portugueses nessa equipa que estamos a aumentar. Esse vice-presidente não está a trabalhar no escritório em Lisboa, curiosamente, trabalha de forma remota a partir da sua casa, o que é incrível. E acho que para o vice-presidente de engenharia ser português é importante. Depois, temos outro português, outro dos nossos engenheiros principais, que deverá vir da Irlanda para Lisboa. Nos últimos dois ou três anos, alguns dos nossos principais engenheiros são portugueses. E agora, que já absorveram a cultura de como construímos coisas [estiveram na Irlanda], vão começar a vir para cá.

Esteve com um responsável de uma empresa que gere centros de congressos em busca de um local ideal. Houve conclusões?
É importante explicar que eu estive nessas visitas, incluído numa comitiva com membros do governo e da câmara e não seria nada para mim. Terão de ser a cidade e os políticos a decidir se faz ou não sentido ter um centro de congressos maior e criar outros negócios a partir daí – embora ache que o potencial está lá e há cidades que têm centros enormes, inclusive mais do que um, e capitalizam isso bem. Os turistas de negócios gastam cinco vezes mais dinheiro. O meu papel nessas visitas foi só como ponto de referência para a delegação. De resto, neste momento estamos felizes, tudo está bem e a caminhar.

A Web Summit está numa fase de crescimento, mesmo em Portugal. Vão ter um segundo escritório ou passar tudo para o hub do Beato?
É bem possível ter dois. Não quero já indicar isso, porque há negociações a fazer. Achamos o Beato muito interessante e devemos entrar no novo Hub Criativo. O outro espaço, na Baixa, é simplesmente fabuloso. Gostamos dele, e por isso é provável que o mantenhamos. Em Portugal, devemos ter neste ano 20 pessoas a trabalhar.

E têm tido também uma relação com as universidades.
Fizemos parcerias com universidades portuguesas e vamos fazer algo neste ano com uma mesmo antes da Web Summit (não posso revelar mais). Tivemos um programa, o Inspire, para dar bilhetes, mas as escolas de zonas mais longe de Lisboa não estavam a ter tanto acesso. Começámos agora a trabalhar com o governo para nos ajudar a diversificar. Temos um programa de embaixadores em que alguns dos nossos melhores voluntários do ano anterior são de certa forma promovidos e ganham mais responsabilidades, podendo cuidar de oradores mais relevantes – e isso dá-lhes uma experiência e um nível de exposição aos 20 ou 21 anos que não teriam normalmente.

Convites CR7, Mourinho e… Musk

“Ainda não conseguimos o Cristiano Ronaldo, mas também queria que José Mourinho viesse”. Paddy Cosgrave não esconde um fascínio pelo treinador português. “É um tipo incrível, diria até um génio e adoro ouvi-lo”. O CEO da Web Summit admite que o encontrou num hotel, há 18 meses, mas não viu interesse do técnico “em vir a uma conferência de tecnologia”, mas vai insistir: “Se ele falasse no palco principal ia encher”. Muitos dos convites são golpes de sorte, tal como aconteceu com Elon Musk (Tesla) e Reed Hastings (Netflix) em 2013 – “confirmados na véspera”.

Paddy admite que há convites que não faz, por não estar interessado “em ouvir discursos feitos”, como seria nesta altura “com Mark Zuckerberg ou Sheryl Sandberg” (Facebook), mas quer voltar a contar com Elon Musk, embora seja difícil porque a apresentação de resultados da Tesla “costume coincidir com a Web Summit”.

Perfil | Devora artigos científicos e quer “ligar” o mundo

O CEO da Web Summit devora diariamente artigos científicos, todas as manhãs, nasceu há 36 anos em Dublin, é fanático pela Apple e há muito que adora a ideia de reunir pessoas interessantes que partilhem ideias. A ideia a Web Summit começou numa visita a Silicon Valley para ver amigos, onde eles se reuniam constantemente e quis replicar o mesmo em Dublin. “É isso que a Web Summit é, um caldeirão (melting pot) de boas ideias, em busca de clientes, parceiros e talento”. Mas tudo foi uma construção.

Na Trinity College – universidade de Dublin onde estudou – dirigiu uma sociedade de debate com 330 anos, onde aprendeu a reduzir o tempo de debate para pouco minutos, “muitos eram uma seca”. Tentou fazer software com colegas, inclusive uma rede social “de porcaria que ninguém usou” e, na primeira vez que tentou fazer uma conferência com um colega, sentiu-se enganado por investidores. Daí que avançasse para a Web Summit com zero de investimento. “Não o voltaria a fazer”, admite, até porque “é preciso ter lucro para pagar contas todos os meses e é muito difícil, já não tenho essa energia”.

(artigo alterado a 17 de agosto a pedido da equipa da Web Summit por falta de confirmação oficial de um orador no evento)

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