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Paula Panarra: “Já me foi reportado um caso de assédio sexual”

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Paula Panarra: “Já me foi reportado um caso de assédio sexual”

Em entrevista ao Dinheiro Vivo e TSF, Paula Panarra, CEO da Microsoft Portugal, fala sobre o papel das mulheres no mundo empresarial.

É Diretora da Microsoft Portugal, num setor dominado por homens. Como há uns anos também foi a Cláudia Goya. Traz-lhe mais dificuldades? Ou é indiferente ser mulher a liderar uma empresa desta dimensão, num setor dominado por homens?

Não me traz nenhuma dificuldade. Eu acho que também tenho o privilégio e a vantagem de estar numa empresa para quem a diversidade e a inclusão são valores que fazem parte daquilo que é o DNA da Microsoft. Eu posso dizer-vos que a Microsoft em Portugal tem 30% de mulheres, naquilo que é a minha organização, e na minha direção executiva tenho inclusive 50% de mulheres, neste momento. Faz parte de equipas que criam melhores soluções, equipas diversas, diversas no background, diversas no género. E essa é uma aposta que nós temos, mesmo do ponto de vista cultural. Desde que estou na Microsoft, isso não tem sido para mim nenhum entrave. Pelo contrário, tenho-me cruzado com excelentes profissionais, de um e de outro género.

Falando das quotas de género nas empresas, a lei mudou para as empresas do PSI 20. Desde o inicio do ano, a apresentação feminina nos órgãos de gestão tem que ser superior a 20%. Caso contrario, ao que parece haverá multas pesadas. Concorda com esta lei das quotas?

Como digo, tenho o privilégio de ter trabalhado sempre em empresas que têm já diversidade e inclusão como um valor.

Sem imposição, portanto?

Sem essa imposição, faz parte da cultura organizacional. Mas também percebo que sem que a autorregulação funcione, muitas vezes é necessário regular, para a autorregulação chegar. Temos vários exemplos ao longo da história, desse facto, em Portugal. Portanto acredito que esse é o que está por trás do regulador, quando põem uma diretiva como essa. É de facto de preparar caminho e de acreditar que o futuro é um futuro autorregulado.

Em relação aos salários, a Islândia tornou-se no primeiro país do mundo a tornar obrigatória a igualdade salarial entre homens e mulheres, pelo exercício das mesmas funções entenda-se. Ora, esta semana, o Governo português prometeu acompanhar estes desenvolvimentos na Islândia e, se for possível, adaptar a medida à realidade portuguesa. O que é que lhe parece esta ideia?

Eu penso que é obviamente uma prática a salutar, que a funções equivalentes, para competências e mérito equivalente, devem ter remuneração equivalente. Uma vez mais, essa é a nossa prática na Microsoft. Claramente é a entrega e a competência na entrega de uma função de determinado âmbito, é aquilo que determina o desempenho salarial.

Muitas vezes a maternidade é apontada como uma das razões pelas quais as mulheres, ou poucas mulheres, estarão a liderar as empresas. Mas a Paula é um bom exemplo neste campo. É mulher, tem filhos, lidera uma empresa, é mão de três filhas. É difícil fazer esta conciliação entre a vida pessoal e a profissional de uma executiva? Não é só a profissional, é a profissional de uma Diretora Geral.

Requer alguma disciplina, é um facto. Mas para mim, e eu penso que isto também é bastante pessoal, este é um equilíbrio que para mim é necessário. Portanto, eu sou uma mulher profissional executiva melhor, se estiver bem na minha vida pessoal e enquanto mãe. Como eu preciso das duas variáveis, isso ajuda-me a ter uma logística que me permite gerir e equilibrar uma e a outra. Porque, de facto, eu sou mais feliz quando sou feliz nas duas vertentes da minha vida.

Algum conselho que queira deixar a outras mulheres, que queiram seguir o seu caminho?

Eu tenho alguma disciplina. Inclusive a minha equipa sabe como há horas e fins de semana em que eu não sou reativa a email ou telefone, a não ser que de facto seja uma emergência, e nesse momento estarei sempre contactável. Mas isso é uma exceção e não é a regra. Isso requer alguma disciplina, mas eu penso que me ajuda a mim, mas ajuda também a organização. Acho que isto tudo só é possível, se nós de facto tivermos muito claro o que é que são as fronteiras de que não abdicamos. Portanto, quais são as regras que gostamos de ver cumpridas, de um lado e do outro. Portanto sim, tenho alguma disciplina nessa logística.

O ano passado foi marcado por um movimento nos Estados Unidos, o me too. Que promete mudar a forma como algumas mulheres são tratadas pelos homens, hoje em dia. Foram denunciados nomeadamente vários casos graves de assédio sexual. Acha que de facto nada será igual a partir de agora?

Eu penso que os últimos tempos já mostraram que as coisas estão a mudar. Que mais não seja na voz que foi dada, na forma como se tornou talvez mais fácil para alguns falar sobre algo que até aqui era tabu. Uma vez mais, estando numa organização, eu penso que faz parte da cultura das organizações saudáveis criar um ambiente, em que pelo menos dentro daquilo que são as organizações, asseguremos que os empregados se sentem totalmente à vontade, para colocar todas as questões que possam surgir nesse âmbito também. Essa é uma das práticas que nós também temos na Microsoft e que eu acho que é muito salutar.

Esta questão foi levantada precisamente nos Estados Unidos, e aliás com maior incidência no mundo do espetáculo. Mas certamente o problema não estará limitado apenas a Hollywood. Este é um problema grave em Portugal. E aproveitar também para lhe perguntar se ao longo da sua carreira teve conhecimento de casos de assédio sexual, que lhe tivessem sido reportados, em que tivesse estado em contacto com essas situações.

Tive numa empresa, no passado. Não foi na Microsoft. Onde efetivamente, foi reportado um caso, uma vez mais, era uma empresa americana. E foi tratado de acordo com aquilo que são as práticas de confidencialidade e de respeito para com o empregado e, enfim, o caso foi devidamente investigado e concluído como deve acontecer, em todas estas situações.

Mas sente que é um problema grave em Portugal? Ainda?

Iniciou-se nos Estados Unidos e depois teve repercussões pelo mundo inteiro. É talvez um tema que está a aflorar e que tem, de facto, a sua existência, em todas as partes do mundo. Acredito que no nosso país também. Mas também acho que as coisas vão ser diferentes e que essa voz vai ajudar a que tudo isso seja um tema abordado de outra forma daqui para a frente.

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