Investimento

Paulo Andrez. “A Toys ‘R’ Us Ibérica será a mais inovadora do mundo”

Paulo Andrez é o representante da Green Swan. O business angel é agora dono da Toys "R" Us em Portugal e Espanha (Gustavo Bom / Global Imagens )
Paulo Andrez é o representante da Green Swan. O business angel é agora dono da Toys "R" Us em Portugal e Espanha (Gustavo Bom / Global Imagens )

O investidor português que salvou a Toys ‘R’ Us Ibérica diz que a aquisição pode ser encarada como uma porta de entrada para o mundo.

O anúncio foi feito nesta semana. Depois de seis meses de intensas negociações, o negócio de brinquedos mais famoso do mundo foi comprado na Península Ibérica. O investimento de 80 milhões foi feito pela Green Swan, uma sociedade portuguesa de business angels. Paulo Andrez promete uma Toys ‘R’ Us mais inovadora, mais “verde” e mais próxima dos consumidores.

O que motivou a Green Swan a dar o passo nesta aquisição?
Nós somos um grupo de investidores e estamos habituados a investir em empresas que têm potencial de crescimento e inovação. A Toys ‘R’ Us é uma empresa que tem um historial enorme. É uma marca conhecida por todas as pessoas que compram brinquedos e que já compraram brinquedos. E nós achamos que é possível introduzir uma série de inovações na marca. Até agora a empresa estava proibida, entre aspas, de fazer essas inovações porque estava dependente da casa-mãe nos Estados Unidos. E a casa-mãe olhava para o mercado ibérico como um mercado pequeno e por isso não nos ligava muito. A partir de agora, está nas nossas mãos, conseguirmos mostrar aos clientes que conseguimos inovar e trazer-lhes uma nova experiência de compra.

O encerramento das lojas nos EUA foi, assim, uma motivação para darem este passo?
Sim, nós olhámos para esta possibilidade e, juntamente com a equipa de gestão atual que mantivemos reforçada com o Paulo Sousa Marques como CEO, achámos uma boa oportunidade para fazer um conjunto de inovações que vão ser apresentadas em breve. E achamos que há aqui um bom negócio para ser feito.

Manter a equipa de gestão foi uma decisão de início?
O Paulo Sousa Marques é um dos pais desta aquisição. Está na Toys ‘R’ Us há 25 anos e conhece as pessoas. Portanto, nós já tínhamos alguma informação muito boa sobre a equipa de gestão. Por isso, foi fácil chegar à decisão de que teríamos de manter a equipa de gestão e identificar as falhas. Trazemos competências essencialmente nas áreas de marketing e de tecnologias de informação. São as duas componentes que nós achámos que a empresa estava mais necessitada. Não foi um grande problema resolver isso. Se a equipa de gestão não fosse boa, ou nós mudaríamos ou então nem sequer faríamos a aquisição.

Um investimento de 80 milhões de euros a implementar a quatro anos. O que vai mudar?
Nós queremos que a Toys ‘R’ Us Ibérica seja a mais inovadora a nível mundial. Para isso também contamos muito com um espírito de apoiar empreendedores que tenham projetos viáveis e que nós possamos colocar esses produtos nas nossas prateleiras. E, por isso, eu deixo o desafio aos empreendedores. Nesta fase só conseguimos apoiar empreendedores que já tenham produtos produzidos, ainda não conseguimos investir nesses empreendedores. Estamos já a trabalhar nesse processo e acreditamos que em breve podemos ter um programa para que possamos investir nesses projetos. Neste momento queremos ter muita inovação e achamos que o tecido empresarial português apresenta muitas oportunidades para quem quer ser fornecedor da Toys ‘R’ Us a nível ibérico e não só, porque nós passamos a estar dentro de uma rede mundial e desde que haja um produto interessante nós podemos colocá-lo em todas as lojas. A Toys ‘R’ Us pode ser vista pelos empresários portugueses como uma porta de entrada para o mundo inteiro.

A proximidade com o consumidor é também uma estratégia desta nova era do mundo dos brinquedos?
Nós fizemos um estudo junto de pais e crianças, do ponto de vista de notoriedade da marca e é imbatível. Na Península Ibérica, a Toy ‘R’ Us é o primeiro nome que aparece na cabeça das pessoas quando o tema são brinquedos. E cabe-nos a nós agora dar um novo impulso à marca e ao projeto e reinventar e adaptá-la aos novos tempos. Vamos estar muito mais próximos das pessoas, mais adaptados aos interesses que têm hoje em dia. As novas lojas que nós queremos vão ser lojas de proximidade nos centros das cidades, por exemplo, em Lisboa. E também noutras cidades mais pequenas que não permitem ter uma superfície de três a cinco mil metros quadrados. O e-commerce é, também, uma grande aposta que vamos ter. Vamos fazer uma série de inovações ao nível do site e vamos ter um conjunto de políticas muito interessantes para o consumidor, com preços altamente competitivos. Mas nem tudo muda, a girafa vai viver em Portugal e em Espanha até pelo menos 2040.

A Green Swan, como o próprio nome indica, tem um registo mais “verde”. Vamos assistir à transformação da Toys ‘R’ Us num negócio mais amigo do ambiente?
Nós vamos ter uma grande preocupação ambiental com a pegada ecológica, não só com a questão das próprias lojas em si, mas também com a questão dos produtos que vendemos. Vamos ser muito exigentes com os nossos fornecedores para ter produtos não tóxicos, tintas por exemplo, para ter produtos biodegradáveis quando é possível e que sejam recicláveis. Vamos ter essa preocupação, reforçar muito essa preocupação porque achamos que, na vida, o dinheiro é importante, os negócios são importantes, mas nós temos uma responsabilidade também social e ambiental para com o nosso planeta e para as gerações que vêm a seguir. O nosso mercado principal são as crianças e nós também temos de ter cuidado com o seu futuro.

Em Portugal, vive-se um momento de crescimento económico. Como são os empreendedores no nosso país?
Eu acho que temos muitos empreendedores em Portugal. O problema é que muitas vezes as pessoas acham que ter uma boa ideia ou uma aparente boa ideia é suficiente. E, muitas vezes, ouvimos o discurso de muitos governantes, em geral, não só em Portugal mas na Europa, que dizem ‘se tens uma boa ideia, o dinheiro há de aparecer’. E, por isso, os empreendedores focam-se em gerar boas ideias para que depois haja uns investidores com bolsos fundos que ponham o dinheiro. A realidade é que os investidores não vão investir só com base numa boa ideia. A melhor ideia do mundo com zero implementação vale zero.

Não têm medo do risco?
Muitos empreendedores são avessos ao risco. Focam-se em fazer excelentes propostas de candidaturas a fundo perdido mas esquecem-se do mercado. E, por isso, quando o dinheiro do fundo perdido acaba, depois têm de enfrentar o mercado. Quando chegam ao mercado, percebem que o mercado não quer aquele produto. Depois a empresa fecha. Temos de mudar essa mentalidade e ajudar os empreendedores a reduzir o risco do negócio.

Eventos como a Web Summit são importantes para ajudar a mudar esta mentalidade?
Nós temos de perceber que a Web Summit é um evento que vem a Portugal com investidores internacionais mas que cabe às empresas portuguesas, aos empreendedores portugueses e aos investidores portugueses estabelecerem as relações e aproveitarem ao máximo o evento. Temos de estar preparados para uma eventual saída da Web Summit e que isso não seja considerado como Portugal deixando de estar na moda. O meu conselho para os empreendedores é que avancem com o mínimo risco possível, mas pondo algum risco deles também.

Neste momento integra grupos em alguns governos internacionais focados na implementação de políticas de apoio aos business angels
Só países muito ricos é que têm capacidade para não ter business angels porque conseguem dar tudo a fundo perdido ou investirem por eles próprios todo o dinheiro. Em caso contrário, os governos têm a tendência a pensar que os investidores são ricos e que por isso não têm de os apoiar. Tenho apoiado a Eslováquia, a Roménia, a Coreia do Sul, a Macedónia, a Finlândia e o Brasil e o que faço é ajudar os governos a perceber esta questão dos investidores. Era bom que o problema dos empreendedores fosse apenas o dinheiro, porque, nesse caso, o governo punha dinheiro nas empresas e resolvia o problema. A maior parte do problema dos empreendedores é o acesso a mercados, know-how do ponto de vista de gestão e networking. E isso os governos não dão. Além de que não têm capacidade em geral de selecionar bons projetos. Os investidores privados têm uma melhor capacidade de selecionar esses projetos. Por isso, o governo tem todas as vantagens de fazer parcerias de coinvestimento com os investidores.

E em Portugal?
Trouxemos o fundo de coinvestimento para Portugal através da FNABA (Federação Nacional de Associações de Business Angels). É um sucesso. Nós somos o terceiro país a nível europeu do ponto de vista do rácio de investimento de business angel por PIB. Portugal está muito bem do ponto de vista dos business angels.

PERFIL | O business angel que dará um novo rumo à Toys

Paulo Andrez é o novo dono da Toys ‘R’ Us Ibérica. Esta não é a primeira vez que o investidor “ataca” no mercado dos mais pequenos. Paulo Andrez tem um investimento na Findster, uma empresa que desenvolveu um dispositivo para fazer o seguimento de crianças, para que, quando estas se perdem, os pais consigam na hora saber o local onde se encontram. Especialista em empreendedorismo, inovação e redução de risco, o business angel recebeu o galardão de Best European Angel Investment em 2012, depois de ter investido na United Resins, uma empresa da Figueira da Foz que se dedica à produção de resinas para tintas de impressão. A empresa faturou 24,5 milhões de euros no primeiro ano de faturação. O investidor é administrador não executivo da DNA Cascais, uma agência que já apoiou mais de 300 startups na última década. Paulo Andrez foi presidente da Associação Europeia
de Business Angels (EBAN) entre 2012 e 2014 e atualmente dá apoio a vários governos internacionais em matéria de investimentos. É constantemente convidado para falar em conferências por todo o mundo e partilhar os seus conhecimentos. Desde 2012, promove também um workshop – Zero Risk Startup, para ensinar a empreendedores a reduzir o risco nos seus negócios.

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