Pilotos da TAP vão insistir na compensação pelo acordo de 1999

David Paes agarrou o Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil no rescaldo de um dos períodos de maior agitação dentro da classe. Depois de quatro meses no SPAC deu uma entrevista ao Dinheiro Vivo

Como é que o SPAC está a encarar esta nova fase da TAP enquanto empresa gerida por privados?

Com interesse e expectativa. Estes passos que têm sido dados na TAP abrem perspetivas para que a companhia possa seguir um rumo diferente. Achamos que a TAP podia ter  esse rumo diferente através de outras opções estratégias, mas foi esta a opção escolhida e por isso acompanhamos com expectativa e proximidade.

A existência de gestores privados poderá facilitar de alguma forma o diálogo?

Eu admito que sim. Do ponto de vista formal, a administração acabou agora de assentar arraiais, como se diz, e portanto ainda não houve diálogos relacionados com aspetos concretos. Mas admito que sim. Agiliza o objetivo de se chegar ao resultado e a um entendimento sobre os assuntos.

A manutenção de Fernando Pinto é importante neste processo?

Acho que há uma transição que sai beneficiada se for acompanhada por alguém que já conhece aquela realidade há muito tempo. Tenho recebido sinais de que esse entrosamento existe e que se tirará um bom partido desta opção de continuidade. Acredito que faz sentido e não é uma surpresa.

A nova TAP pode ser diferente se o Estado se mantiver acionista maioritário - num cenário de alteração da privatização?

Haverá diferenças, mas as diferenças não são de base - decorrem das opões que se querem tomar. Sinto é que já foram definidos vários aspetos para se poder chegar até aqui.

Há alguma matéria que o SPAC queira ver resolvida com urgência?

Há aspetos que vão justificar que conversemos com os novos acionistas, mas nada que consideremos premente. Do ponto de vista do que é o papel dos pilotos das companhias do Grupo TAP - TAP e Portugália - já existe um patamar em que a operação é eficiente e a utilização dos recursos é eficiente. Com tempo, estou certo de que haverá os canais e o espaço para falar sobre o que fará sentido alterar ou adotar.

Os constrangimentos financeiros da TAP têm interferido com o trabalho dos pilotos?

Os constrangimentos financeiros são mais abrangentes do que a realidade dos pilotos. Há constrangimentos que são estruturais e sendo resolvidos também os pilotos beneficiarão. Há aspetos que a administração poderá querer ver resolvidos, mas não antevejo mudanças rápidas. No seu devido tempo vamos afinando as coisas. Tudo de forma faseada.

Ainda tem muitos pilotos ressentidos por ter sido feita a venda sem que se atendesse à vossa reivindicação de virem a deter entre 10% e 20% das ações?

Existiu de facto um acordo que previa que os pilotos, num determinado momento, abdicavam de um conjunto de regalias, inclusivamente pecuniárias, em troca de um cenário em que lhes seria atribuído pela TAP, a título indicativo, entre 10% e 20% das ações. Esse acordo existiu. Pode ter fragilidades formais, mas não quer dizer que não tenha existido. Vamos ter de tratar desse assunto com serenidade.

De que forma pode ser resolvido numa altura em que a companhia já foi vendida?

Será meio caminho andado para resolver este problema que ninguém tente fingir que o acordo não existiu. Com serenidade e com calma teremos todo o gosto em falar sobre esse assunto e os pilotos fá-lo-ão certamente. Não é preciso atropelar etapas. Havemos de trazer esse assunto à discussão, mas sem fazer disso um ponto de clivagem. Acredito, por isso, que há todas as condições para que seja encontrado um acordo nessa matéria.

Mesmo com a privatização já concluída?

Mesmo assim. Aquilo que o acordo previa em 1999 é que perante uma contrapartida que era uma cedência de um conjunto de regalias havia uma permuta que podia passar por aquele regime de detenção de parte do capital da TAP. No entanto, os pilotos nunca fizeram questão de que o acordo se materializasse daquela exata maneira.

Isso significa que podem tentar negociar outra contrapartida?

Pode ser feito de outra forma, sim. No fundo, algo que transmita aos pilotos uma noção de justiça, de que houve uma compensação por cedências, pelo ato de prescindirem de algumas coisas. Um ato que foi voluntário. Este acordo não foi uma ideia dos pilotos, foi a entidade governativa da altura, com o acordo da administração, que teve a ideia de dizer aos pilotos: “não temos condições para vos dar o que seria oportuno, mas para aliviar esta situação temos uma alternativa a propor.”

Os pilotos, em boa fé, disseram: “Se é isso que têm para sugerir, porque não aceitar?” E foi aceite. Hoje, passaram quase 16 anos, as coisas são diferentes e por isso estão reunidas todas as condições para que o acordo de 1999 seja materializado. Mesmo que de outra forma, mesmo depois da privatização. Mas volto a dizer: meio caminho andado para resolver o problema é não rejeitar a sua existência, porque existiu um acordo e porque os pilotos têm de facto interesse neste assunto. Mas com serenidade.

Falou muitas vezes em serenidade. Foi com esse propósito de apaziguar que concorreu ao sindicato?

Foi também com esse propósito. Isto tem que ver com a forma como esta equipa vê estes assuntos e até com a  forma de estar na vida - porque uma está sempre ligada à outra. Eu entendo que deve existir determinação nos nossos propósitos, mas isso não nos deve impedir de ter um certo bom senso e uma certa elegância na forma de prosseguir. E às vezes isso até consegue ser mais consequente, gerar mais resultados do que de outra forma.

Não estou aqui a fazer nenhuma crítica, porque todas as pessoas, quando dão o seu contributo, não tenho dúvidas de que acreditam estar a dar o seu melhor. Nós agora estamos aqui a fazer exatamente o mesmo: a dar o nosso melhor e a trabalhar no sentido de servir melhor o interesse dos pilotos. Acreditamos é que  isso pode ser feito com serenidade.

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