Ricardo Penarroias: "A TAP, pela importância que tem, não pode ficar apenas nas mãos do privado"

Na próxima semana os tripulantes de cabine votam, pela quarta vez, a proposta da TAP para um novo acordo de empresa. A companhia está a tentar travar a segunda leva de greves que poderá afetar 2100 voos.

O crescente número de casos polémicos que envolvem a TAP é proporcional ao descontentamento dos trabalhadores, garante o presidente do Sindicato do Pessoal de Voo da Aviação Civil (SNPVAC). Os tripulantes de cabine querem repor condições salariais e laborais e já entregaram o pré-aviso para mais sete dias de greve, entre 25 e 31 de janeiro, que deverão afetar 2100 voos.

Cabe à administração e ao governo colocar travão a esta paralisação, assegura Ricardo ​​​​​​​Penarroias que diz manter a porta aberta ao diálogo. A conversa decorreu ainda antes do SNPVAC ter agendado uma assembleia-geral de emergência, na próxima semana, que ditará o veredicto final sobre a greve no fim do mês.

Sobre o futuro da companhia, o chefe de cabine defende "um modelo misto", garantindo ser fundamental não tirar a TAP das mãos do Estado, assegurando o compromisso social com o país, mas assume que é o privado que fará crescer a empresa.

A última greve de tripulantes custou à TAP oito milhões de euros e levou ao cancelamento de perto de 400 voos. Qual poderá ser o impacto de mais sete dias de paralisação?
Uma medida como a greve não é leviana e sabemos do seu impacto e responsabilidade. Neste momento, estes sete dias igualam a insatisfação que os tripulantes de cabine têm com a administração. No total, poderão ser cerca de 2100 voos afetados.

Qual será o impacto económico?
Tem de ser questionado à administração. O impacto operacional não é aquilo que neste momento me preocupa. Claro que tem o seu impacto e é por isso que se faz uma greve. Não se faz uma greve de ânimo leve; é para chamar a atenção, para as pessoas perceberem. Sabemos o incómodo que vai causar e lamento o transtorno, caso se venha a realizar.

A TAP disse estar otimista relativamente ao rumo das negociações. O diálogo continua a existir ou a porta já foi fechada?
O diálogo sempre irá ocorrer. O sindicato, desde o primeiro momento, sempre defendeu o diálogo. Estas reivindicações são muito por culpa da administração e não são problemas de há dois meses, vêm de há sete meses. A empresa, por uma razão que desconheço, preferiu atrasar a solução destes problemas e causar o transtorno que causou a todos os passageiros.

O que está a bloquear a negociação, nesta altura?
Duas situações. A primeira, é a realidade dos tripulantes de cabine. Apresentámos um conjunto de 14 reivindicações à empresa e existem pontos que estavam em incumprimento. Alguns de cariz especial, outros da própria lei, como o desrespeito do acordo de empresa (AE) e do acordo de emergência - que a TAP defende como sendo algo inabalável. E a proposta que a empresa na altura apresentou, em meados de outubro, era um desrespeito à profissão no seu todo. Paralelamente, existe a insatisfação. Todos sabemos o que se passa na administração e isso tem consequências nos tripulantes que cada vez mais olham com desconfiança para uma administração que está sempre envolta em polémicas.

Quais são os pontos que levam o sindicato a acusar a empresa de incumprimento do acordo?
O que queremos é o regresso das nossas condições de trabalho, da nossa realidade operacional e familiar. E não sejamos hipócritas, o regresso da condição financeira, que é complicada face à inflação e aos cortes que enfrentamos. Há situações de colegas que tiveram de recorrer ao banco alimentar e que vão recorrendo ao sindicato para pedir ajuda financeira. Mais do que margem económica, é preciso que haja bom senso por parte da administração e do governo.

A TAP tem reiterado não estar disponível para ir além do plano de reestruturação, no que respeita aos vencimentos. Sendo esta uma das principais exigências, de que forma é que será possível resolver este impasse?
As reivindicações dos tripulantes não se focam apenas no dinheiro. A proposta apresentada a 29 de dezembro já apresentava melhorias e valores económicos para satisfazer a insatisfação dos tripulantes.

Que valores são esses?
São valores que a companhia nos foi tirando por decisões contrárias ao AE e de emergência. Tínhamos duas soluções: ou ir para tribunal ou fazer greve. A greve tem um efeito imediato e a companhia assumiu que a partir deste momento irá pagar como é devido e como deveria ter feito desde o início. O que nos é restringido no acordo de emergência, provavelmente, vale muito mais do que os 25%.

Tanto o governo como a TAP têm vindo a defender que só será possível aliviar os cortes salariais quando a empresa não der prejuízo. Ao que tudo indica, os resultados de 2022 serão já positivos. Há esperança para mexer nos salários antes do fim do plano de reestruturação?
Espero que haja bom senso, sobretudo isso. Isto foi uma coisa que o anterior ministro, Pedro Nuno Santos, afirmou. A partir do momento em que a empresa desse lucro e houvesse uma melhoria, as condições dos trabalhadores teriam de acompanhar.


Acaba de ser aprovada uma comissão de inquérito à TAP. O que espera desta audição parlamentar?
Transparência e seriedade, que é o que sempre defendemos desde o primeiro momento. Tem de haver uma investigação para apurar os responsáveis. Até agora foram só dois apurados [no caso de Alexandra Reis]. O ministro Pedro Nuno Santos assumiu a sua responsabilidade porque deveria ter tido conhecimento, é inegável. Alguém pagou e esse alguém ainda não assumiu responsabilidade.

A TAP tem vindo a defender que os AE são "antigos" e é preciso "ajustá-los aos tempos modernos" tornando-os "flexíveis" e "competitivos". O que significa isto?
Tenho de concordar com a administração: os acordos de empresa são antigos e temos de modernizá-los. Mas temos de começar com a tabela salarial que é de 2004 e de 2006. A realidade do país dessa altura para agora é abismal. Ao que a empresa chama de flexibilidade eu prefiro chamar de modernizar o AE. Temos de preparar a TAP para o futuro, para ser cada vez mais competitiva e o sindicato está sempre disposto a dialogar. Flexibilidade sim, mas que mantenha também a vida familiar para os trabalhadores. A companhia tem de se adaptar à lei face às especificidades da própria operação. Veremos quem ganha nesse frente a frente. As duas partes terão de ceder um bocadinho, e só assim será possível ter um novo AE.

O SNPVAC está disposto a ceder nalgum aspeto?
A nossa cedência foi ao longo destes meses. Fomos sempre privilegiando o diálogo e permitimos à empresa fazer o verão IATA, viabilizámos a operação. O corte médio de um chefe de cabine é de 450 euros. Quando tenho este corte e alguém está a dar 450 euros a um diretor em Uber, apenas porque não fez uma mudança de frota, qual é o sentimento?

As negociações com os pilotos têm decorrido com maior tranquilidade. A TAP está a apresentar melhores propostas a uns trabalhadores do que a outros?
Não quero abordar este tema, até porque respeito as negociações que os colegas do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil (SPAC) estão a fazer. Nunca tive conversa direta com presidente, o Tiago Faria Lopes, se estão a correr bem, ainda bem para eles. Mas a verdade é que também vejo o Tiago a ser um crítico da administração, não sei se estarão a correr assim tão bem. Outros sindicatos que já receberam a proposta da TAP estão muito insatisfeitos e o próprio Sitava já afirmou que a proposta é totalmente inaceitável.

Considera que há diferenças insustentáveis entre salários de administradores e trabalhadores? Que leitura faz do caso Alexandra Reis?
Infelizmente, [as polémicas] são quotidianas, já começamos a estar habituados. Não dignifica a empresa, nem os trabalhadores, cria grande instabilidade e insatisfação. A empresa está como está não só por causa da covid. A situação financeira da TAP estava calamitosa e, ao contrário do meu congénere do SPAC, não sou propriamente um fã do privado - que cometeu erros e que também é responsável por termos chegado a esta situação. E o que se comprova é que os vícios do passado se mantiveram. Este episódio da Alexandra Reis remete-nos para a década de 80 ou 90 e não estávamos à espera que isto acontecesse hoje.

Os tripulantes irão continuar a fazer greves até que a TAP ceda? Depois de janeiro, há mais protestos planeados?
Algumas das nossas reivindicações já vêm de trás e continuam por resolver. Acredito que o ónus da responsabilidade é da empresa. A TAP tem essa capacidade de poder solucionar esta situação. Não estamos a pedir mais do que temos direito, não estamos a pedir aumentos mas sim o que é nosso. A paz social é incalculável e poderá permitir à empresa vir a negociar connosco um futuro AE, mas com estabilidade social.


Que avaliação faz da liderança de Christine Ourmières-Widener? Tem condições para continuar a liderar a TAP?
A Christine não consegue passar a mensagem e há uma desconfiança [dos trabalhadores]. A atual CEO tem condições cada vez mais diminutas para continuar. Não apontamos o dedo a ninguém, queremos sim que os responsáveis assumam a responsabilidade.

O que espera da nova tutela?
Ainda não tenho uma opinião formada do novo ministro. Acredito que irei reunir-me muito em breve com ele. A postura do antigo ministro, em relação ao SNPVAC, foi de diálogo. Devo realçar que nas negociações que aconteceram em dezembro teve um papel importante politicamente, interna e externamente para a sobrevivência da própria TAP. E assumiu responsabilidade política, algo que não se vê muito em Portugal. Em relação ao novo ministro, espero que haja diálogo, abertura para nos ouvir e perceber as nossas reivindicações. Se estaremos sempre de acordo? Provavelmente nunca. Também nunca estive de acordo com o Pedro Nuno Santos. Mas que possamos construir algo e que haja confiança. Os tripulantes de cabine não têm confiança na atual administração.


Referiu não ser fã do privado. Acredita, ainda assim, que a venda da empresa possa ser uma boia de salvação para a companhia?
Entendo que a gestão privada tem as suas virtudes mas também os seus defeitos. Muito do que se vive neste momento advém de uma gestão privada errada. Espero que não se cometam os mesmos erros do passado, quando se fez uma privatização à pressa, em cima do joelho e muito pouco transparente que criou graves problemas. O episódio dos prémios, por exemplo, toda a gente se lembra. Isto faz com que não seja fã do privado. Sou a favor de uma semi-privatização de forma séria, um modelo misto. A TAP, pela importância que tem no país, não pode estar apenas nas mãos do privado. Tem obrigações sociais que têm de ser colmatadas. Alguns autarcas criticam a ausência cada vez maior da TAP no Porto. Podem dizer que economicamente não é viável, mas a TAP tem essa obrigação, caso contrário acusam a TAP de ser apenas para Lisboa e de abandonar o resto do país, não pode ser. Mas tem de haver uma gestão privada, porque sabemos que é o que nos faz crescer. Se pudermos juntar as duas de forma séria e transparente era aí que gostava de encontrar o equilíbrio.

Tem uma carreira longa na TAP, são já 16 anos. Esta está a ser a fase mais conturbada a que assistiu na empresa?
Já passámos por alturas muito complicadas. A troika também não foi propriamente fácil de gerir, a possível privatização na altura criou muita instabilidade emocional e psicológica nos trabalhadores. Poderíamos ter feito um reset e ter começado de forma séria. Hoje poderíamos estar a falar dos lucros se todos pudessem usufruir das melhorias da companhia. Acredito que os contribuintes não aceitaram colocar 3,2 mil milhões de euros na TAP para diminuir as condições dos seus trabalhadores.

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