Coronavírus

Ricardo Reis. Com muita poupança “austeridade seria a pior política”

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Economista teme que excesso de poupança no próximo ano cause mais danos e, nesse caso, a austeridade seria uma má política.

O economista da London School of Economics diz que será inevitável alguma contenção orçamental, mas o desafio do próximo ano será com o comportamento das famílias face a uma quebra de rendimento abrupta e caso se verifique o chamado paradoxo da poupança, a austeridade seria a resposta errada. Ricardo Reis acredita que a proposta franco-alemão para um fundo europeu de recuperação de 500 mil milhões de euros aponta sinais positivos. Sobre o Novo Banco, admite que o acordo para a venda ao fundo norte-americano Lone Star pode ter sido “um mau negócio”.

Como classifica esta crise, comparando com a anterior?
Na anterior tínhamos os países avançados em crise e o resto do mundo em grande crescimento. Desta vez não, estão todos em grande recessão e é verdadeiramente global. Todas as recessões são difíceis de prever, normalmente há uma desaceleração que se vai tornando mais acentuada e esta foi repentina, ocorreu nas duas últimas semanas de março e em abril. Outra questão é a dimensão deste precipício: o congelamento da economia levou a um declínio como nunca vimos; foi todo o país e todos os setores a parar repentinamente. Há boas hipóteses da economia não voltar a ser a mesma.

E até onde pode a economia afundar?
Acho que não vai afundar mais do que já afundou no último mês. Parece-me que já bateu no fundo. Mesmo que voltemos a um lockdown numa segunda vaga, não fecharemos de forma tão extrema. Já teremos uma noção do custo do confinamento completo e já aprendemos a trabalhar a partir de casa de uma forma muito mais produtiva do que quando fomos apanhados de surpresa. A questão é saber quando é o ressalto, como vai ser a recuperação e a dimensão dessa recuperação. Este foi um choque muito grande e não vejo como a economia e o bem-estar das pessoas sobreviva a um novo encerramento em setembro ou outubro.

Teremos uma reestruturação da própria economia?
Podemos falar de cenários. Há um cenário em que o vírus é derrotado em meses e a economia volta um pouco à sua estrutura habitual, e nesse caso Portugal tem uma oportunidade, no sentido em que mostrou que é um país muito seguro para visitar, que tem boas instalações de saúde, que parece corresponder às necessidades sobretudo das camadas mais idosas da população; aquela vantagem de sermos vistos como um porto seguro sai reforçada. Podemos imaginar que o turismo dispara e ainda se torna mais importante do que antes. Outro cenário, em que vivemos com o vírus durante mais tempo, permite a retoma de diferentes indústrias com reajustamento sobretudo a nível das cadeias de produção e de valor. Nesse caso há uma oportunidade para todas as indústrias reganharem quota de mercado aos chineses e uma relocalização de produção de empresas alemãs, italianas e outras pode permitir algum abastecimento por parte das indústrias portuguesas. Num terceiro cenário, a estrutura da economia muda de uma forma mais extensa e levanta imensas oportunidades. O grande pecado da economia é ossificar-se e criar grupos de interesse que protegem rendas. Quando isso acontece os choques externos são a melhor forma de a economia se reajustar, como com a entrada na Comunidade Europeia ou no euro.

Como avalia a resposta do Governo português?
É sempre difícil avaliar e ainda vamos ver como a economia vai reabrir e quanto é que caiu. Portugal está em linha com o que outros países fizeram, as medidas foram implementadas de uma forma rápida e razoável, sensata e, no geral, o governo merece muito boa nota pelo que fez nos últimos dois meses, sobretudo por ter controlado as infeções e as mortes.

Mas há um custo. Faz sentido falar agora do défice da dívida?
Com certeza que faz. Temos de pensar na recuperação imediata da economia, mas sobretudo no pós-crise. A dívida que herdarmos – e no caso de Portugal já vínhamos com uma dívida muito grande – vai limitar o uso de estímulos orçamentais em 2021, 2022 ou 2023. Esse espaço de manobra é pequeno, mas se o Governo tivesse feito muito mais, teria sido um erro porque deixava zero espaço para mais tarde.

E de austeridade?
A palavra austeridade é muito feia e politizada. Mesmo com taxas de juro baixas, parece-me incontornável que vai ter de haver alguma contenção orçamental ou mesmo austeridade para conseguir pagar este fardo da dívida pública. Por outro lado, parece-me que em 2021 vai surgir um grande desafio: as pessoas tenderão a poupar mais depois de dois meses sem rendimento, em termos individuais é uma resposta racional. Mas, lembrando John Maynard Keynes, se todos pouparmos ao mesmo tempo, isso conduz a menos procura pelos bens das empresas, menos produção, menos riqueza e, paradoxalmente, acabamos com menos poupanças, porque temos menos dinheiro para poupar à partida. Parece-me provável que tenhamos um novo paradoxo de poupança keynesiana em 2021, mergulhando e estendendo esta recessão para além deste ano ao ponto de a transformar numa depressão. O que aprendemos dos anos 30 é que a forma de responder a este paradoxo de poupança é com “despoupança” (défice) do setor público para compensar e reequilibrar a economia. Voltando à questão da austeridade, se em 2021 o meu receio se confirmar, a austeridade seria a pior política económica possível. Foi adotada em 1930 nos Estados Unidos e conduziu à Grande Depressão. Acho que vai ser o grande dilema para 2021.

E há também à resposta da Europa. Tanto do BCE como da Comissão Europeia.
Desta vez, o Banco Central Europeu agiu tão ou mais depressa que a Reserva Federal. Para além disso o BCE, nesta primeira fase, tem conseguido manter a estabilidade financeira e contribuído para as necessidades de liquidez. Mas também temos o grande desafio que é a sentença do Tribunal Constitucional alemão. Em relação à Comissão Europeia temos de ter em conta que a UE não é uma união orçamental. O uso do Banco Europeu de Investimento, a criação do fundo SURE, de auxílio ao emprego, parece-me um passo importante e, por fim, a proposta franco-alemã de reforçar o orçamento europeu.

Fazia sentido discutir agora as eurobonds?
A discussão das eurobonds está contaminada por uma confusão de termos e conceitos. Por um lado, numa versão mais minimalista, temos os chamados SBBS (Sovereign Bond-Backed Securities) com a criação de um instrumento de dívida europeia que replica a dívida nacional comprando-a e diversificando-a, juntando tudo numa carteira. Neste caso não há partilha de risco, não há mutualização, mas cria-se um instrumento financeiro que permite uma união monetária e resolva muitos problemas bancários e financeiros. A segunda opção seriam as eurobonds. A dívida é assumida por todos os europeus e transforma, em parte, dívidas passadas em dívida garantida por todos. Descritas assim, as eurobonds são impossíveis. Economicamente não são uma boa opção e acho que politicamente seriam o fim da UE, porque muitos cidadãos não querem pagar dívidas que outros acumularam no passado. Mesmo que fosse aprovado – e seria um milagre – o Constitucional alemão já rejeitou, porque tiraria soberania orçamental ao parlamento nacional. Terceira opção, a do compromisso franco-alemão, são as chamas obrigações UE. Neste caso, os impostos podem continuar a ser cobrados pelos Estados, mas Portugal compromete-se a transferir uma percentagem do PIB ou da receita fiscal. A UE decide onde gastar e é Bruxelas que assume a dívida. Não há mutualização de dívida antiga.

Regressando a Portugal, esta crise “destapou” problemas que já existiam, como o caso da TAP…
É uma empresa invulgar pelo setor onde está, que é dos mais afetados. Em três meses tudo mudou, há uma grande exceção e a Lufthansa e a KML, por exemplo, devem receber enormes ajudas dos Estados. Portugal não tem dinheiro para ajudar a TAP assim e voltaremos a ter concorrência desleal. A confusão da privatização e renacionalização levou a que seja uma empresa com gestores privados que têm a minoria do capital, mas que têm o controlo da empresa. O ministro Pedro Nuno Santos tem razão ao defender que não se pode dar uma “pipa de massa” como a outra empresa pública; e concordo quando diz que deve estar tudo em cima da mesa, incluindo a insolvência.

Isso leva-nos ao Novo Banco. Esta discussão sobre a injeção do dinheiro faz sentido? Como avalia a situação?
A questão é saber se a resolução do BES custou muito ou pouco. Na altura o banco iria à falência e teríamos de reembolsar os depositantes com um custo de milhares de milhões de euros. Depois até que ponto a venda à Lone Star em 2017 foi feita em boas condições ou foi um mau negócio para o Estado? Parece claro que se o Estado diz que cobre os prejuízos nos próximos três anos, o banco tem todos os incentivos para adiar lucros para o quarto ano, antecipando prejuízos e limpando a carteira. Isto não implica que o Novo Banco e a sua gestão estejam a causar prejuízos ‘à doida’ propositadamente de forma ineficiente. É possível que tenha sido um muito mau negócio, o acordo assinado por António Costa e Mário Centeno em 2017? É. Parece-me que, de facto, é. Em 2014, o custo de não intervir poderia ter sido maior e essa parece-me que foi a decisão mais acertada.

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