entrevista

“Se fosse primeiro ministro trazia os holandeses para nos ajudarem”

WeDo Technologies
Rui Paiva, CEO da WeDo Technologies. Foto: D.R.

CEO da WeDo está preocupado com o uso dos fundos da UE. E explica porque a tecnológica que lidera está em contra-ciclo e a crescer 30%

Em contraciclo, a WeDo cresce em faturação em áreas cruciais na era digital. CEO da tecnológica está otimista com o negócio mas pessimista quanto ao país e receia pelo mau uso dos fundos da UE.

Um ano após a compra pela americana Mobileum, o que mudou na WeDo, quais as grandes transformações?
Vai fazer um ano no dia 13 deste mês e acabou de ser comprada mais uma empresa. É alemã, com base em Nuremberga, a SIGOS, tem 250 pessoas e um volume de receitas à volta dos 50 milhões de euros. A ideia é fazer mais uma ou duas compras até ao final do ano. A Mobileum foi a primeira empresa que o fundo Audax adquiriu e acaba por ser a plataforma do fundo para vários investimentos no mercado das telecomunicações, uma vez que era já uma empresa referência mundial de software para a área de roaming. Há cerca de dois anos, a Mobileum comprou também uma empresa em Inglaterra, a Evolved Intelligence, que faz firewalls de sinalização de invasão, para proteger as redes dos operadores. Depois viemos nós, que somos a maior empresa do mundo em antifraude. Agora a SIGOS… Este movimento está a ser criado neste momento, somos 1800 pessoas, um volume consolidado de vendas acima de 200 milhões e o objetivo é continuar nos próximos anos.

Essas aquisições podem eleger alguma empresa portuguesa?
Não, neste momento não há nenhuma que tenha a dimensão suficiente para ser comprada, em software para telecomunicações.

Para que mercado estão a olhar?
Europa e Estados Unidos.

E o que mudou para a WeDo?
Isto é quase uma startup, uma empresa em construção. A WeDo tinha 600 pessoas, faturava mais ou menos 60 milhões e agora estamos a juntar estas coisas todas. O relevante é saber criar uma cultura comum, uma cultura de empresa, sistemas e processos comuns e uma metodologia que nos leve a ter linguagem própria. Estamos em modo acelerado de uma startup se tornar numa multinacional.

Qual a data para finalizar esse processo?
Em agosto acaba a primeira fase.

E como é que é fazer isto tudo ainda em regime de teletrabalho?
A parte de cultura, o touch é importante – e faz falta. Mas sendo empresas de tecnologia, sem a fábrica, para nós não é um novo normal, isto é o normal acelerado.

Com estas integrações prevê redução de equipas?
Não, porque estamos a crescer.

A Wedo está em contraciclo, a crescer 30%. Como se explicam estes números em pandemia?
O senhor das máscaras também não estava a vender e agora está, com a pandemia, não é? O que nós fazemos tem que ver com gestão de fraude, procura de falhas nas empresas e transformar essas falhas em receita. É o que neste momento toda a gente está a procurar como resposta ao não crescimento. Nós somos a máscara do momento. Temos tido uma solicitação muito grande. A grande diferença das empresas americanas para as europeias é a pressão da venda. O fecho do ano é mensal. É uma loucura. Ainda que não estejamos listados em bolsa, o comportamento é como se estivéssemos. Estamos neste unidade de negócio que é a WeDo a 30% em vendas e a nossa expectativa é fechar o ano entre 20% e 25%.

Com tantas tecnológicas a querer instalar-se cá fica preocupado com a falta de talento?
Quando dizemos “trazer para cá”, não temos talento para isso. Não temos pessoas, não há. Imagine-se a Google e a Microsoft a criar cá uns centros: teriam de ir roubar a outros, que ficariam sem ninguém. Não temos pessoas. Onde está o nosso tech green card, que nos permita ir buscar pessoas para complementar a necessidade que temos no mercado? Se a Google abrisse aqui um hipermegacentro com 10 mil pessoas, levaria 10 mil pessoas das empresas existentes… não se formam 10 mil pessoas em Portugal num ano. Se fôssemos buscar essas 10 mil pessoas, com este green card, viriam dos melhores que há no mundo para aqui. Criaríamos uma comunidade tecnológica do tipo Silicon Valley.

No Plano Recuperação apresentado por Costa Silva falta esse tech green card?
Não sei se falta, porque é tão abrangente… O que posso dizer é que pensamos na reindustrialização em Portugal, mas acho que perdemos o comboio da reindustrialização de coisas físicas, porque isso tem de ser para países que tenham muita dimensão e mão-de-obra. A nós, resta-nos a inteligência, que é um fator distintivo.

Para a recuperação da economia o país vai receber fundos da UE. Tem receios quanto ao bom uso desses fundos e seu escrutínio?
Eu não estou com receio, tenho a certeza que vai acontecer. Já fomos três vezes à falência; agora vamos pela quarta. Por uma razão diferente, mas obviamente que vamos. Não temos forma de aguentar um impacto destes que não seja ajudarem-nos. Tivemos três hipóteses e falhámos as três hipóteses. Nesta quarta, como é lógico, a disrupção é fazer diferente. Fazer totalmente transparente e, mais importante, trazer a isto os stakeholders. Vou dizer uma coisa que parece ridícula a toda a gente: os holandeses criticam-nos porque nos emprestam dinheiro e nós o estouramos; então vamos trazer os holandeses para fazerem parte desse escrutínio. O que nós tínhamos de fazer era trazer quem critica para nos ajudar. Era o que eu faria se fosse primeiro-ministro. Diria ao holandês: nomeia a equipa, põe-na cá; ajudem-me a fazer isto e escrutinem connosco.

E há essa humildade política?
Acho que não. Os ingleses têm o Horta Osório no Banco de Inglaterra, um português. Nós não conseguimos fazer isso porque não queremos que nos ponham em causa ou que descubram coisas.

Falando de escrutínio, concorda com a alteração dos debates parlamentares de quinzenais para de dois em dois meses?
Acho é que deviam mudar o conceito. Tinha de ser pelo tema a abordar, numa cadência que podia ser diária mas com interlocutores diferentes. Também não acho bem esta coisa muito latina que é chegar lá o primeiro-ministro e parece que tem de saber dos temas todos – e se não responder parece que é um incompetente. Há muito mais a fazer. Poderia fazer-se a elencagem dos temas e a pessoa que tem a pasta iria falar. Se calhar às segundas ia o ministro da Economia, às terças o da Saúde, etc. e o primeiro-ministro iria uma vez por mês. Não era preciso mais que isso. E que se fechasse com uma conclusão e um plano de ação.

Há pouco mais de um ano, o 5G e a IoT eram vistos pela WeDo como uma grande oportunidade. Falta muito para lá chegar?
A IoT está a acelerar cada vez mais. Passa por dotar de inteligência todos os sistemas.

E no 5G, com os atrasos que há e as polémicas com o regulador, há oportunidades perdidas?
O 5G é empurrado pelos vendedores da tecnologia. Para a IoT não é imperativo porque o 4G já faz muito. Em Portugal temos uma rede entre todos os operadores com excelente cobertura. Aliás, as pessoas ficaram todas em casa, de repente e tudo ficou a funcionar.

O 5G tem sido um tema político com esta guerra entre regulador, governo e operadoras?
Claro! Com isto os reguladores também vão pôr licenças no mercado e fazer cashing para os governos. Lá vêm mais umas licenças de 5G e isto vai fazer não sei quantos milhões. Na verdade é um bocadinho ridículo. Porque é que na evolução de tecnologia tem de se pagar licenças? Não tem lógica. Imagine que cada vez que faz upgrade do Windows porque há uma nova versão, tinha de pagar.

Critica a ideia de comprar o que é nacional, que ressurgiu na pandemia. Porquê?
Isso parece de quem nunca viajou pelo mundo. Se toda a gente pensar nesse mesmo formato, vai ser tudo nacional, ninguém vai vender a ninguém. Salazar tinha esse princípio de que tínhamos de ser autossuficientes e na verdade éramos, mas um país muito pobre. Ao dizer isso, a lógica é fecharmo-nos outra vez, mas vamos perder tudo o resto, que é o acesso à globalidade. Pergunto-me como é que uma pessoa inteligente pode dizer uma coisa dessas? O que é que interessa ter marcas fortes se toda a gente só compra nacional? Então as nossas marcas nunca vão vender nada. Nós temos é de ser os melhores. E se formos, duas coisas acontecem: os portugueses querem comprar coisas nossas porque são as melhores e os estrangeiros também pela mesma razão. Se só se olha para a árvore nunca se vê a floresta.

Continua a acreditar que mesmo depois da pandemia a globalização continuará a ser o paradigma de negócios e de vida?
Acho que é incontornável. O exemplo principal disso é que esta epidemia é global porque o mundo já é global. Se não, isto não existia, tinha ficado lá na China. As pessoas hoje são cidadãs do mundo. Se isso é bom ou mau, já não sei. Não sei se estamos no fim de um ciclo de uma civilização, como aconteceu com a egípcia ou a romana, e que vai ter de ser reinventada. Parece-me que estamos nesse caminho.

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