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“Sem fundos nacionais, não há estrangeiros que nos salvem”

Stephan

Stephan Morais, gestor da Indico Capital Partners, revela que falta em Portugal uma indústria profissional de capital de risco, essencial para construir um ecossistema empreendedor nacional equilibrado.

Inovação é um tema que está cada vez mais na ordem do dia. Qual o balanço que faz da evolução sentida nesta área em Portugal nos últimos anos?

O facto de se falar bastante no tema, de estar de certa forma na moda, tem um efeito muito positivo na sociedade. Há um consenso raro e alargado de que a inovação, a todos os níveis, é uma base importante de passagem da nossa economia para um estágio mais avançado de produção de conhecimento e riqueza, ou seja um país de maior valor acrescentado. Efetivamente, nos últimos anos, Portugal feito um grande progresso nesta área.

Segundo um estudo da Comissão Europeia, Portugal ainda está abaixo da média europeia (14º posição) no que à inovação diz respeito… Onde se está a falhar?

Sinceramente, se estivermos perto da média Europeia não estamos mal. Costumamos estar na cauda em quase todas as estatísticas. Mas, evidentemente, temos que ambicionar estar perto do topo e para isso falta realmente muito, porque outros países têm décadas de trabalho público e privado em inovação. Não é realista recuperar este atraso em pouco tempo porque a base são as universidades, as grandes empresas e indústrias e a sua relação com pequenas empresas inovadoras. São transformações económicas de décadas e, além disso, os outros países não estão parados, eles próprios continuam a inovar a uma velocidade cada vez maior. Não são as startups oriundas de Portugal que vão mudar a nossa economia, até porque as nossas startups com sucesso são globais, e raramente trabalham para o mercado português por razões óbvias de falta de mercado e barreiras a vários níveis.

O que está a faltar neste grande ecossistema que liga inovação, empreendedores e grandes empresas?

Salvo raras exceções, o tecido empresarial português não é particularmente inovador – as nossas exportações tem vindo a aumentar o valor acrescentado, mas as grandes empresas portuguesas não são líderes mundiais nas suas indústrias nem a indústria portuguesa é conhecida mundialmente por ser líder em inovação. As empresas exportadoras, por estarem expostas a concorrência global, vão-se tornando mais fortes – as que sobrevivem, claro. Mas a sua vida é dura porque a concorrência é grande a não há mercado nacional que dê um bom suporte. Daí ser difícil, concorrendo a nível global sem capital e sem um mercado local forte, ter uma alta velocidade de inovação. Já as grandes empresas, em particular as que detém grandes quotas de mercado a nível nacional, não são grandes a nível mundial, ao contrário das congéneres espanholas, por exemplo. Há casos e casos, mas, em geral não existem marcas portuguesas globalmente reconhecidas. E a razão para que isso aconteça é porque não são particularmente inovadoras, ao ponto de serem grandes marcas mundiais.

E como poderá essa situação ser revertida?

Esta situação não vai mudar se as empresas industriais e grandes empresas não apostarem massivamente em Investigação e Desenvolvimento – através, por exemplo, de parcerias com universidades e com pequenas empresas mais inovadoras -, em marketing, em design ou em branding. Para isso, têm de ter pessoas mais qualificadas a todos os níveis, em particular nos níveis elevados técnicos e de gestão. Algumas empresas têm feito este esforço, mas não as suficientes, nem na intensidade necessária para darmos o salto como país. Há uma certa acomodação, falta de ambição. Certas posições de mercado, mais ou menos confortáveis, retraem a necessidade de inovação. Aquilo a que assistimos nos últimos anos, aliás, com a implosão de grandes grupos, foi o resultado da negação da necessidade de mudar. Um dia tudo acaba e, os Governos e os contribuintes acabam por pagar a fatura.

Como avalia o mercado de investimento em startups nacionais? Muito embrionário ainda, em fase de arranque? O que se perspetiva?

Houve uma fase importante nos últimos seis anos de grande arranque. Assiste-se hoje a uma realidade diferente daquela que existia há uma década, em que alguns empreendedores nacionais têm ambição global, o que é muito positivo. Mas, efetivamente, um ecossistema não se faz só de empreendedores, alguém tem que os financiar e há, claramente, falta de smart capital no mercado. Estamos numa trajetória ascendente, mas falta-nos volume e profundidade para nos continuarmos a aproximar dos países com ecossistemas mais maduros.

Falta realmente capital em Portugal para que os temas ligados à inovação, ao empreendedorismo, tenham uma maior alavancagem? Há falta de fundos de capital de risco em Portugal?

Sim, há falta de uma indústria profissional nesta área como existe em imobiliário, em ações, ou mesmo em private equity. Tal como noutras indústrias, não podemos apenas importar, neste caso capital estrangeiro, temos que ter capital de risco nacional como fazem todos os países, porque só assim se constrói um ecossistema local equilibrado. E, não é que não haja capital em Portugal, apenas não se investe nesta classe de ativos. Se os investidores investissem nestes ativos como fazem em outras áreas, o capital existente seria mais do que suficiente. Nem que fosse apenas numa percentagem mais pequena. Este problema é, aliás, europeu, não apenas português, mas acontece que temos níveis de investimento dos mais baixos em toda a Europa. Sem fundos nacionais, não há fundos estrangeiros que nos salvem, porque os bons, a nível internacional, não fazem investimentos pequenos, que são a base de um ecossistema como o nosso. A base da pirâmide precisa de ser constantemente alimentada, senão não surgem empresas que cheguem ao topo como a Feedzai ou a Talkdesk.

O que é, para si, o smart capital, de que fala? Como se consegue chegar a este nível de capital?

O melhor paralelismo costuma ser com o futebol. As startups podem ser treinadas na Academia do Barcelona – para não ferir sensibilidades locais – ou podem ser desenvolvidas num campo pelado, numa pequena aldeia longe de tudo, sem condições nem treinadores com conhecimentos táticos profundos. Ou seja, não basta atirar com dinheiro para cima de um campo pelado, se os treinadores não tiverem uma base técnica. Aliás, é contraproducente e ineficiente investir capital em estruturas que não o sabem utilizar. A Indico Capital Partners prepara as jovens startups para a Champions League, com tudo o que isso implica a nível de exigência. Chega-se a smart capital com muito conhecimento técnico – que quem não tem não reconhece que não tem –, com muitos anos de experiência e com uma rede de contactos mundiais muito forte.

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