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Gonçalo Rebelo de Almeida: “Sou favorável ao alojamento local”

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Gonçalo Rebelo de Almeida: “Sou favorável ao alojamento local”

Administrador do Vila do Galé admite que crescimento do Turismo abrande, sem estagnar e que o alojamento local vai "estabilizar"

No ano em que celebra o 30.o aniversário, o grupo Vila Galé (VG) vai atingir as 30 unidades. A segunda maior cadeia hoteleira portuguesa, que emprega 2500 pessoas, vai investir mais de 80 milhões de euros até 2019 abrindo, em Portugal e no Brasil, três hotéis neste ano e outros dois no próximo, conta o administrador do Vila Galé, Gonçalo Rebelo de Almeida.

Neste fim de semana decorre a BTL. Qual a expectativa?

A BTL continua a ser o principal evento turístico em Portugal, que tem tido a capacidade de atrair alguns investidores, players e agentes de viagens e para nós é sempre um momento importante do ano por duas razões: conseguimos no espaço de três dias contactar com os nossos parceiros nacionais e internacionais, conseguimos já ter uma ideia de antevisão do ano e tem uma componente muito importante de público.

No ano passado o grupo teve receitas de mais de cem milhões de euros, acima das expectativas, e já informou que isso teve mais que ver com a subida do preço médio do que com o aumento da taxa de ocupação. Portugal está a tornar-se um destino mais caro?

Não diria isso, na prática estaremos perto de atingir o posicionamento natural de Portugal. Durante a crise houve um desfasamento muito grande, estamos a falar de reduções no pós-2009 de 20% a 25%. Nos últimos dois anos acabou por haver uma reposição dos preços pré-crise e, agora sim, um ligeiro aumento.

Além da reposição, a que aumento se refere?

Estamos a falar de 5%, 6%, mas depende muito das zonas. Obviamente que Lisboa, e durante a época de abril a outubro, teve condições para crescer mais, outras regiões do interior não tiveram tanto essas condições. O Porto também teve um bom posicionamento. Recordo que não há muitos anos os hotéis de 4 estrelas no Porto eram 50 a 60 euros, um preço absolutamente ridículo. Hoje em dia estarão mais perto dos cem euros, o que se compararmos com hotéis de 4 estrelas na Europa continua a ser um preço bastante competitivo. É essa também uma preocupação, Portugal não pode perder a competitividade embora ela não deva assentar só no preço.

Neste ano o grupo vai chegar às 30 unidades, incluindo no Brasil. A margem de crescimento do VG em Portugal está a esgotar-se?

Acho que não. Estamos sempre à procura de novas oportunidades e temos vindo a encontrá-las mais no interior do país em zonas com património histórico e cultural. Somos dos grupos que têm apostado mais no desenvolvimento do interior: temos duas unidades no Alentejo, já tínhamos ido para Coimbra, temos esta nova aposta em Braga, que está a crescer e a tornar-se uma cidade muito interessante, e fomos ainda encontrar espaço em Elvas e em Manteigas. Em Lisboa temos andado à procura, mas não foi possível concretizar, e no Algarve também estamos atentos, portanto ainda há margem de crescimento em Portugal.

Tem unidades no Brasil. É um destino a explorar mais?

É. Continuamos a procurar oportunidades lá. Portugal e Brasil têm andado em contraciclo. A nossa experiência e o peso da marca no Brasil (onde estamos desde 2001), as sinergias que já criámos e o conhecimento do mercado é um capital que não queremos desaproveitar.

E que oportunidades estudam noutros mercados?

Estamos com 21 hotéis em Portugal, sete no Brasil e vamos passar para o oitavo. Já olhámos para Cuba, Cabo Verde e… Espanha.

Anunciou um projeto para famílias a lançar neste fim de semana. Que projeto é esse?

Pode parecer brincadeira mas que tem uma sustentação grande. Vamos abrir neste fim de semana na Kidzania, portanto vamos passar a ter um hotel na Kidzania, espaço de entretenimento para crianças em que exerçam profissões de adultos. Para nós fazia todo o sentido, num país de turismo, haver a oportunidade de exercer algumas oportunidades ligadas ao turismo e à hotelaria que não existiam na Kidzania. Isto é uma forma de dignificar as profissões da hotelaria e do turismo, que muitas vezes não teriam relevância e num país de turismo há que dignificar estas profissões e provocar que haja mais gente interessada em entrar nesta atividade e esse é um dos objetivos. Outro, obviamente, é comunicar com o nosso público.

Em Portugal, o turismo tem batido recordes todos os anos. Estamos perante uma bolha? Será de esperar um movimento inverso?

Acho que já não há caminho de volta. Não acho que seja uma bolha, é fruto do trabalho de vários anos, o que acho é que houve uma feliz coincidência dos astros de várias coisas a acontecerem ao mesmo tempo. Portugal já está no mapa de destino turístico há muitos anos, portanto já teve vários ciclos positivos e já está no top 20, top 30 de destinos turísticos a nível mundial há muito tempo. Há algum trabalho também feito e, por exemplo, agora estamos a ter mais notoriedade nos EUA, que era um país para o qual Portugal era relativamente desconhecido. Terem aberto mais rotas da TAP ou a Madonna decidir vir para Portugal… é um conjunto de fatores que se conjugam para ajudar.

O ritmo não pode durar para sempre… haverá um momento em que abrandará, estagnará ou recuará. Não acredita que isso aconteça?

Tem de se aproveitar este momento e há uma coisa que me leva a crer que não estagnará, que é o nível de satisfação de quem nos visita. Se tivesse a ser um fenómeno de moda e depois as pessoas não saíssem daqui satisfeitas e não falassem bem acredito que poderia ter tendência a estagnar ou a cair. Mas aquilo que os estudos mostram é que as pessoas saem de cá muito satisfeitas e muito surpreendidas com aquilo que encontram, desde infraestruturas, gastronomia, simpatia, monumentos, uma série de fatores,… e portanto isto vai potenciar o boca-a-boca. Ninguém consegue prever o futuro… mas também não acredito que vamos continuar a crescer ao ritmo dos últimos dois anos. Agora entramos numa fase em que vai ser mais calmo este ritmo de crescimento, mas acho que é sustentável porque o produto está cá, a qualidade está cá e não é fictícia.

“Acho que já não há caminho de volta. Não acho que seja uma bolha [para o turismo]em Portugal], é fruto do trabalho de vários anos”

Que subsetores do turismo é que Portugal e o grupo podem explorar melhor? Turismo da saúde?

Temos estado a acompanhar esse tema e vamos passar das palavras à ação, o projeto que temos para Sintra vai dedicar-se a turismo de saúde e médico. É um hotel que vai promover um estilo de vida saudável. Vem complementar a oferta turística e acreditamos que pode funcionar. Vamos fazer a primeira experiência deste hotel em Sintra, que vai abrir em Abril.

Em que outras áreas apostam?

Temos vindo a apostar na gastronomia e na restauração e em desenvolver o conceito das pizarias. Olhamos para os hotéis com espaços e portas virados para rua e fizemos uma pizaria na praia da Galé, no Algarve, e outra no Estoril. Vamos abrir mais duas no Algarve. Já levámos o conceito para o Brasil e está a funcionar relativamente bem, o que nos dá confiança de levar o conceito de pizaria de Massa Fina a outros espaços que não estejam diretamente relacionados com o hotel. Vamos fazer uma outra experiência, que vai ser o Vila Galé Café, em Vilamoura, no Ampalius, também com pizaria.

O alojamento local [AL] tem tido impacto ou é outro tipo de cliente?

Contrariamente à maioria dos hoteleiros, eu sou absolutamente favorável ao AL e a formas alternativas de AL e acho que elas contribuíram até para este crescimento do turismo em Portugal, até porque a taxa de ocupação dos hotéis na zona de Lisboa, entre abril e outubro, é bastante elevada, portanto se não fosse alguma oferta adicional do AL não seria possível ter recebido tantos turistas. Depois veio identificar e trazer para dentro do sistema uma oferta que nem sequer estava identificada. O aluguer para fins turísticos não é um fenómeno novo,… o Algarve estava cheio disso, a forma de captação é que ficou mais sofisticada com plataformas como o Airbnb. Quanto ao perfil de clientes pode haver alguma coincidência mas não acho que canibalize. Os hotéis têm de saber diferenciar-se pelo serviço, oferecer mais relacionamento e acolhimento com os hóspedes. No alojamento local vai haver uma estabilização porque o valor do imobiliário em Lisboa está perfeitamente absurdo e já não traz rentabilidade nenhuma. Já analisámos a entrada neste mercado, e acho que a rentabilidade para quem faça o investimento agora vai ser insignificante e até com algum risco.

A angariação de clientes via digital pesa quanto no grupo? E plataformas como Trivago ou Booking são hoje um mal necessário?

Começam a ter um peso significativo, algumas destacam-se mais, como a Booking. Tornou-se um player mundial de relevo. Foi um bem necessário quando apareceu, como modelo de negócio interessante até para os próprios hotéis, em que nos dava total liberdade para fixar o preço de venda e este modelo sempre foi e continua a ser interessante. Temos mais peso na venda do nosso canal direto online, embora o telefone tenha vindo a crescer, o que é um fenómeno engraçado. Hoje o peso das vendas diretas no grupo, em Portugal, representa 25%. Se excluir a componente de eventos e de grupos, que passam por intermediários e meios tradicionais, o negócio online hoje em dia já pesa 55% a 60% das nossas reservas, contando com a nossa e outras plataformas. E muitas feitas por mobile, já, que é outra nuance… quanto à consulta do produto, os estudos indicam que ela começa toda online. Mesmo quem depois não compra online faz todo o trabalho de pesquisa e prospeção online.

“Este fim de semana abrimos um hotel Vila Galé na Kidzania. É uma forma de dignificar as profissões da hotelaria e do turismo”

A taxa turística do Porto começa a ser cobrada nesta semana. Dois euros é um valor razoável?

Dois euros é um valor! Não vou adjetivar esse valor…, para já sou contra a própria nomenclatura e a cobrar-se uma taxa turística, num país que se quer afirmar como turístico.

Mesmo que seja metade disso? Lisboa cobra um euro.

Não consigo perceber o racional que está por trás. Se Lisboa tem funcionado com um euro porque é que o Porto avançou com dois euros? Por outro lado, mesmo só relativamente à nomenclatura, ainda que seja só uma questão de nome, a questão de city tax, que é uma taxa da cidade, não é uma taxa turística e no caso do Porto vai ser efetivamente usada para a reabilitação e um conjunto de obras em que nem todas serão necessariamente turísticas. Em Lisboa é turística porque os fins a que se destina têm de ter sempre uma componente turística.

Essa taxa pode ser um tiro no pé do setor hoteleiro?

Acho que não tem causado grande impacto, desde que esse encargo não caia sobre os players do setor, nem essa taxa vir a ser retirada do preço ou da rentabilidade dos players instalados.

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