Hintt 2018

“Temos de investir tanto na confiança e nas relações humanas como na tecnologia”

Gerd Leonhard

(Filipe Amorim / Global Imagens)
Gerd Leonhard (Filipe Amorim / Global Imagens)

Fundou uma empresa virada para o futuro e vem falar sobre o futuro da saúde. De Portugal, diz que ainda está atrasado na adoção dos serviços digitais. O que até pode ser positivo.

Gerd Leonhard, futurista e fundador da The Future Agency, empresa com sede em Zurique, na Suíça, será o orador convidado do Hintt 2018, Health Intelligent Talks & Trends, evento sobre o futuro da saúde promovido pela empresa de desenvolvimento de tecnologia Glintt. Neste ano, o encontro está marcado para dia 3 de outubro, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, e coloca no centro a problemática Digital Health – Are We Ready.

O futurista alemão que nasceu em Bona, na Alemanha, onde estudou Filosofia e Teologia, vem falar sobre “Os sete princípios do futuro” e o que significam para o setor da saúde na próxima década. Abordará também o paradigma “Humanidade – tecnologia: o que farão as máquinas e que papel terá o homem?”. A ideia é explorar o confronto entre a máquina e a humanidade, o que, nas palavras de Leonhard, fará todas as outras revoluções industriais parecerem algo como um jardim-de-infância.

O tema central do Hintt 2018 é: “Digital Health – Are We Ready?” A minha pergunta é: na saúde digital, estará Portugal preparado?

Não estamos preparados para a saúde digital. Os problemas e as preocupações com a privacidade, a falta de controlo sobre os dados, a falta de qualidade dos dados, a lentidão das redes cloud, os preconceitos em relação à inteligência artificial (AI), etc. Tudo isto tem de ser trabalhado. Nas culturas mais tradicionais, como a da Suíça, onde vivo, e de Portugal, a digitalização da saúde vai demorar mais tempo. Mas quando começar vai explodir rapidamente – as poupanças que se podem conseguir são enormes, o papel do Estado é essencial, e aquilo a que chamo de ética digital será um ponto-chave.

Em que estágio está Portugal no caminho para a saúde digital? Face a que tipo de desafios, o nosso país deverá saber preparar-se para retirar o máximo partido da era digital?

Portugal parece estar à frente em certas áreas (ligação à internet, Internet das Coisas, etc.), mas está atrasado culturalmente na adoção dos serviços digitais. De certa forma, não é uma coisa má, uma vez que, como gosto de dizer, a cultura come tecnologia ao pequeno-almoço. Para avançarem depressa, os fornecedores do digital precisam de prestar contas, serem 100% transparentes, de confiança e honestos – o oposto do Facebook. Os modelos de negócio que abusam dos seus utilizadores e clientes levarão ao medo e à ansiedade. Temos de investir tanto na confiança e nas relações humanas como investimos na tecnologia.

Quais são “os sete princípios do futuro” que definiu e o que representam para o setor da saúde na próxima década? Qual é o seu “princípio do futuro” preferido e porquê?

Os princípios do futuro são várias assunções e “verdades” que compilei ao longo dos últimos anos. Partilho aqui um desses princípios antes do evento [Hintt 2018]: O futuro já não é uma extensão do presente. Isto significa que o que fazemos hoje é muito improvável que seja o mesmo que faremos amanhã, porque o contexto de tudo está a mudar exponencialmente. Devemos, literalmente, criar o futuro enquanto vivemos no presente. No futuro, será muito improvável tomarmos medicamentos como estatinas [medicamentos para baixar os níveis de colesterol] ou os fármacos betabloqueadores. Iremos usar, em vez disso, a tecnologia para fazer prevenção ou encontrar uma solução, indo à origem do problema. Biologia e tecnologia estão a convergir.

Portugal estará mais aberto a trabalhar na direção de um dos sete princípios do que noutro? Qual deles, na sua opinião, poderia ser mais facilmente implementado no nosso país?

Não é possível responder. Terão de ser os portugueses a fazer esse julgamento.

O seu último livro chama-se Technology vs. Humanity e foi editado em Portugal pela Gradiva. Hoje, em que ponto estamos no debate sobre a relação da tecnologia com os homens aplicado ao caso da saúde para os próximos dez anos? Até que ponto os humanos devem convergir com a tecnologia, se é que devem?

Na minha opinião, precisamos de adotar e acolher a tecnologia, mas não devemos passar a ser tecnologia. Os seres humanos não são máquinas. A felicidade não é código de programação informática, a vida não é binária. Devemos estar focados em usar a tecnologia como uma ferramenta e não como um objetivo em si mesmo. As nossas vidas estão, basicamente, sobre o que chamo de androrritmos ou coisas dos humanos: emoções, confiança, relacionamentos, histórias. Precisamos de proteger isso.

Partilhe com os nossos leitores exemplos de projetos que conheça e que venham colocar o utente no centro dos cuidados médicos, em vez de focar os processos como temos feito até aqui.

É demasiado cedo para responder. Esse tema fará parte da minha intervenção no Hintt 2018.

Como é que os pacientes seniores podem adaptar-se ao mundo digital quando sabemos que muitos nem têm um smartphone? Esta nova revolução industrial não é para os mais velhos?
O oposto é verdadeiro: dentro de dois ou três anos conseguiremos controlar os computadores na sua totalidade ao falarmos com eles. Não vamos precisar de apps, de fazer downloads nem de digitar – até as pessoas cegas poderão usar os computadores. Imagine o significado desse avanço para os cidadãos seniores. É ao mesmo tempo muito entusiasmante e culturalmente desafiante. Já pensou em ter um robô como melhor amigo?

Nos seus artigos diz: “Os dados são o novo petróleo e a inteligência artificial (AI) é a nova eletricidade. Estamos a entrar na era da computação cognitiva, das máquinas que pensam e da AI, da realidade aumentada e virtual, da Internet das Coisas, dos bots e dos assistentes digitais inteligentes.” Na Europa, quais são as oportunidades e desafios que antecipa para a saúde digital nestes tempos?

Antecipo grandes oportunidades: uma redução drástica dos custos da saúde ao tornar os serviços de saúde inteligentes, conectados e transparentes. O problema é a perda de privacidade, de vigilância e a desautorização geral dos seres humanos. Até mesmo um certo tipo de desumanização. O governo, assim como os líderes, precisam de gastar tantos recursos nos aspetos humanos e nas consequências deste rápido progresso como os que gastam na ciência e na tecnologia. A resposta não é nem sim nem não – trata-se de equilíbrio.

Enquanto especialista no estudo das tendências de futuro, escreveu que tem uma certeza: “Os próximos 20 anos trarão mais mudanças do que trouxeram os últimos 300.” Qual é a sua perspetiva da singularidade tecnológica (o ponto no tempo em que as máquinas serão tão ou mais inteligentes do que o homem). A singularidade virá nos próximos 20 anos?

Penso que precisamos de separar claramente os humanos das máquinas. Fazer de nós super-humanos ao adicionarmos tecnologia ao nosso cérebro, dentro de nós, é uma péssima ideia. Muito provavelmente ganharíamos superpoderes, mas deixaríamos de ser humanos – um acordo tão mau quanto irreversível.

Em Portugal, que projetos conhece que sejam bons exemplos na área da saúde digital? Tem estado envolvido em alguns deles? Senão está, gostaria de participar nessa mudança?

Mais uma vez, responderei a essa questão quando estiver em Portugal. Estou verdadeiramente entusiasmado com o potencial do país neste tema e contente por poder estar envolvido.

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