António Mexia

“Vamos dedicar 800 milhões da Naturgas à redução da dívida”

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A Vida do Dinheiro viajou até Nova Iorque para falar de energia e entrevistar o gestor que está há 11 anos à frente da EDP

Energia sustentável e para todos. Este foi o mote do fórum que se realizou nesta semana em Nova Iorque com líderes mundiais e o alto patrocínio das Nações Unidas e do Banco Mundial. A Vida do Dinheiro entrevistou o gestor que está há 11 anos à frente da EDP. Já foi ministro, mas foi sobretudo a gerir grandes empresas que fez carreira. António Mexia, recém-nomeado chairman do SE For All, organização cujo objetivo é levar energia sustentável e acessível a todos, revela as tendências e a estratégia que vão marcar o futuro da energia e da EDP e responde às críticas do PS, do BE e de Mira Amaral.

Levar energia acessível a todos numa altura em que mil milhões de pessoas continuam sem ela parece um objetivo ambicioso para 2030. Concorda? É de facto um número chocante. Há mais de mil milhões de pessoas, ou seja, uma em cada sete, sem acesso à energia, afetando toda a sua vida, dos seus descendentes, e gerações, se esse problema não for remediado. Também é chocante porque há soluções. A tecnologia, como em tudo, vai à frente daquilo que são as próprias empresas, instituições políticas, organizações internacionais. E vai à frente da vontade, infelizmente. O discurso existe, mas não se materializa em coisas concretas que permitam resolver os problemas.
E há falta de vontade política?
É um puzzle com muitas peças que é preciso juntar. Tem que ver com vontade política, enquadramento legal e regulatório. No fundo, a capacidade de atrair capital e investimento para qualquer coisa onde a tecnologia já dá hoje soluções muito competitivas. O acesso à energia, à energia renovável e à eficiência energética, costumo dizer a brincar, que são as três faces da mesma moeda. Hoje, discutir eficiência energética é essencialmente discutir utilizações inteligentes, a digitalização e a descentralização da geração ajudam particularmente nessa questão, e em último vem então a discussão deste acesso a 1,1 mil milhões de pessoas. Para termos uma ideia, por cada dólar, ou euro, investido na África Subsariana, o impacto seria de 15 dólares. Ou seja, é dos investimentos mais rentáveis. Se se der às pessoas acesso à energia e se completar isso com um telemóvel, está-se a ter um papel ativo na sociedade e está-se a conseguir dar às suas famílias condições de vida que lhes permitam depois acesso à cadeia de saúde, educação, etc. Esta é uma questão absolutamente indispensável. E o SE for All, que agora presido, em substituição do presidente da Shell – a pedido dele e do resto do conselho -, tem sido consistente nesta narrativa. O grosso destes 1,1 mil milhões de pessoas está em África e o resto na Ásia e na América Latina – e a EDP tem sido verdadeiramente consistente nesta adoção de eficiência energética, a prioridade número um, renováveis e acesso à energia.
Estamos nos EUA, que acabou de eleger um presidente que vai no sentido oposto, de desincentivar as renováveis e apostar nos combustíveis fósseis. Tem medo de Trump e da sua estratégia?
Sobre a questão da energia não tenho dúvidas – aliás, ficou claro, com o discurso de Michael Bloomberg aqui em Nova Iorque – de que a realidade não é alterável de uma forma artificial. Quando ouvimos dizer “vamos proteger minas de carvão”, isso não é verdade, ou seja, a situação do carvão e da ausência de competitividade estrutural a prazo não se deve à intervenção do anterior presidente nem ao enquadramento sobre o setor elétrico nos EUA. Aliás, o atual enquadramento foi aprovado pelo presidente Obama, mas com o Senado e a Câmara dos Representantes já com maioria republicana. Havia já o reconhecimento de várias coisas: a existência muito forte de recursos naturais, vento e sol, nos EUA, e em dois terços do território as renováveis são já a fonte mais competitiva de energia; em segundo, há um conjunto crescente de Estados – hoje são já 30 – que têm regulação própria que obriga a ter uma percentagem de energia limpa, independentemente da política federal, e o esquema de reconhecimento de custos e incentivo à introdução de energias mais limpas já estava estruturado precisamente pelas anteriores câmaras. Por isso, praticamente dois terços do investimento da EDP em renováveis estão nos EUA, que tem sido, é e será no curto prazo o principal motor de crescimento da companhia nas renováveis.
A aposta nos EUA, especialmente na Horizon, continua a ser uma boa aposta? E a nova política americana não fará a EDP recuar?
Não, e até costumo dizer que se não tivéssemos feito a aposta nas renováveis, hoje a EDP seria uma empresa irrelevante, com um problema enorme, que aconteceu, aliás, à maior parte das grandes companhias europeias. Algumas delas tinham quatro ou cinco vezes o tamanho da EDP, e uma década depois, algumas são mais pequenas do que a EDP hoje. Isto porque perderam a noção daquilo que tinha sido a mudança do setor: renováveis, importância da eficiência energética. E falharam na noção de que o cliente tem de estar no centro e de que a descentralização da geração seria uma realidade – e quase desapareceram. Houve companhias que no passado tentaram comprar a EDP porque eram quatro ou cinco vezes maiores e hoje são mais pequenas. Por isso seríamos uma empresa irrelevante. Se ao contrário tivéssemos feito aposta noutras áreas como o nuclear, hoje seríamos, provavelmente, uma empresa falida. Isto mostra claramente a escolha de ir, no ponto de vista da geração, para energias limpas, mas que tivessem visibilidade sobre aquilo que são a regulação e a legislação, e ao mesmo tempo perceber que a cadeia de valor está cada vez mais centrada no cliente. Esse aspeto é crucial e permitiu à EDP crescer, valer hoje mais do que valia há dez anos e incomparavelmente mais do que algumas que a quiseram comprar. Nos últimos dez anos fomos a segunda melhor utility de energias integradas quer em criação de valor quer em remuneração para os acionistas.
Sabemos que, por obrigações legais, não poderá falar da OPA que a EDP anunciou na semana passada sobre a EDP Renováveis, mas a OPA faz parte de uma estratégia global e disse que é muito importante para o futuro da empresa e para antecipar as metas de 2020. Que metas são essas?
Não posso falar muito sobre a OPA, devido às regras do jogo, mas acho que esta oferta faz sentido para os acionistas da EDP e para os acionistas da EDP Renováveis. A EDP Renováveis tinha um claro problema de liquidez, tinha um problema de mercado e tinha um problema de estrutura de capital, que era subótima. Vivemos num mundo em que cada vez mais a geração não é uma coisa separada, tem de ser integrada com o resto da cadeia de valor, e isso, obviamente, criando sinergias, em particular no que diz respeito ao cliente final, e por isso faz sentido para toda a gente. Tem-se falado muito de condições de há dez anos, mas eu comparo é com o passado recente e estamos a dar um prémio, o que permite que a EDP, que tem nas renováveis a sua principal aposta, tenha ainda um foco adicional numa área que é aquela onde pomos o grosso do nosso investimento e onde iremos continuar a pôr nos próximos dez anos. A qualidade das redes de distribuição em Portugal – para ter uma ideia, na última década, o tempo de interrupção desceu mais de 90%- só se faz com investimento racional, equilibrado e, claramente, bem feito. As renováveis são a estratégia da EDP, e nós fizemos isso antes de a maior parte das companhias assumirem que isso era a sua estratégia. As companhias que conseguiram consolidar-se, crescer e estar na linha da frente seguiram exatamente a mesma estratégia que escolhemos há dez anos. Outras estão a tentar agora, provavelmente tarde de mais.

Um dos riscos apontados à EDP tem que ver com o nível de dívida. A empresa tem vindo a reduzi-la e anunciou que a venda da espanhola Naturgas vai, em parte, servir para amortizá-la. Que percentagem dos 2500 milhões de euros vão servir para isso? É uma preocupação para si?
Quando em 2012 o mercado estava fechado para toda a gente em Portugal, a EDP conseguiu – por força da sua estratégia de estar financiada com dois anos de avanço e da sua credibilidade na relação com o mercado da dívida – nunca ter problema algum. Obviamente, a vida era mais difícil do que é hoje. Agora, vê-se pelas últimas emissões, temos sido sempre um símbolo de Portugal no acesso aos mercados, reconhecidos por duas das três agências principais, o que mostra que temos feito o que é necessário para lá estar. Houve mais uma vez a reafirmação dessas qualidades na sequência dessas operações, portanto temos tido sempre aquilo que chamo de equilíbrio entre crescimento e desalavancagem. Conseguimos muito recentemente, há uns meses, fazer uma emissão de dívida em obrigações a oito anos abaixo dos 2%. Isto mostra aquilo que é a credibilidade da EDP no mercado e também aquilo que é a credibilidade hoje da política do Banco Central Europeu (BCE) – em Portugal só há três companhias cuja dívida pode ser comprada pelo BCE, e uma delas é a EDP. Portanto, temos um enquadramento que beneficiou a companhia, não tenho dúvidas, mas que soubemos aproveitar. Por isso, não me preocupa a dívida. Se não me preocupava em 2012, ainda me preocupa menos hoje. Soubemos fazer aquilo que era necessário no momento certo, ajustámos o nível de investimento, soubemos fazer vendas de ativos, às vezes minoritários, outras vezes na totalidade. Foi o que fizemos agora com a Naturgas, numa operação que é considerada talvez a mais interessante de toda a Europa neste momento, ou seja, em termos de múltiplos – de quantas vezes conseguimos vender os resultados anuais – e vamos dedicar 800 milhões à redução da dívida. Temos sido sempre consistentes: investimento, desinvestimento, abordagem aos mercados, isso tem sido uma nota clara que é reconhecida por todos.

E a venda da Naturgas pode ser lida como um desinvestimento da EDP no mercado espanhol?
Tudo na vida consiste em fazer escolhas. Neste momento impunha-se, mais uma vez, termos a noção daquilo que é mais core, aquilo que vai determinar mais o nosso destino e aquilo que eventualmente é menos core. E estamos num momento absolutamente extraordinário de valorização deste tipo de ativo por entidades que não são elétricas, como a nossa. Quem neste momento valoriza estes ativos são companhias que não têm que ver com o setor, como fundos de pensões, fundos de infraestruturas para remunerar, num mundo de taxas baixas, os seus pensionistas e outros, com estruturas de capital mais eficientes do que a nossa. Portanto, foi uma questão de eficiência, de criação de valor para os acionistas. E a reação do mercado foi clara, de todos os analistas, mas também do mercado no reconhecimento de que a valorização da EDP, quando anunciou estas duas operações, foi clara, foi consistente e foi reconhecida porque capturou valor. Por isso, não estamos a desinvestir em Espanha, o que fizemos foi ir a uma atividade menos core, a do gás, e focarmo-nos cada vez mais naquilo que é a nossa atividade principal na área da geração, que são as renováveis, mantendo aquilo que é o nosso negócio tradicional na distribuição de eletricidade.
Em Espanha, a venda deixa de fora a comercialização do gás. Porquê esta opção?
Deixa. Eu vendo basicamente os tubos, que têm uma remuneração fixa, mantendo a capacidade de esses clientes continuarem a ser fornecidos de gás por mim. Já não passarão nos nossos tubos, passarão nos tubos de alguém que é remunerado por um ativo regulado. Em Espanha vamos continuar. Somos a empresa que mais tem crescido na oferta conjunta de gás e eletricidade aos clientes finais. E essa estratégia não se vai alterar.
E há novos mercados onde a EDP esteja a pensar investir?
Neste momento, a principal fonte de crescimento são os Estados Unidos. O mercado brasileiro é um mercado onde apostamos de uma forma estrutural, independentemente dos problemas de curto prazo. Estamos também no Canadá, no México. Fizemos investimentos importantes no vento. E estamos a investir em Itália, em França, na Roménia, na Polónia. Ou seja, nos países onde existem recursos renováveis, onde existe estabilidade regulatória, estabilidade legal, e por isso temos privilegiado estes mercados onde o passado é o passado e o futuro é o futuro. Cada vez que tomamos uma decisão temos de ter visibilidade sobre aquilo que é o enquadramento. E quando falávamos nas eventuais alterações ou não de vontades políticas, os EUA têm uma vantagem muito grande, é que o passado fica no passado e quando há mudanças, estas só se aplicam ao futuro. E isso é uma coisa muito importante na atração de investimento.

Voltando a portugal, Mira Amaral acusou a EDP de ter “rentabilidades escandalosas” com os CMEC – Custos para a Manutenção do Equilíbrio Contratual, com taxas de retorno de 15% ao ano. Os CMEC fazem sentido?
Em primeiro lugar, os CMEC acabam este ano. Herdei os CMEC e estes são apenas a transformação dos antigos CAE (contratos de aquisição de energia) que foram criados pelo engenheiro Mira maral. Portanto, é o criador a falar da sua criação. Não tenho falado do assunto pois não quero esta polémica. Mas o Estado, quando começou a privatizar a companhia, privatizou-a com uma estrutura contratual e valorizou-a com esses contratos. Esses contratos funcionaram nos últimos anos de uma forma, mas podiam ter funcionado de uma forma oposta e ninguém iria questionar fosse o que fosse. Para já, os 15% são ridículos, e os números são errados, isso já foi dito. O Estado – e não tem nada a ver com os últimos 10 anos em que estou na EDP, mas muito antes da privatização, uma década antes – vendeu estes contratos e foi buscar o dinheiro por causa destes contratos.

As várias fases de privatização deram ao Estado vários mil milhões de euros de receitas. O que foi feito a esse dinheiro e como depois foi utilizado?
O PS pediu ao regulador que compare as tarifas de energia do mercado regulado com o liberalizado. Se, em função das conclusões, voltássemos a um mercado regulado, seria um grande retrocesso?
A liberalização foi positiva para todos os clientes e muito particularmente para os industriais, mas também para os residenciais. Sabe que às vezes é preciso contar a história outra vez quando ela é boa, e portanto não tenho dúvidas que a liberalização correu bem em Portugal e foi mais rápida do que em outros países da Europa. Todos os países da Europa que liberalizaram reconheceram os méritos dessa liberalização. Isto porque traz concorrência. Neste momento há dezenas de operadores em Portugal a oferecer energia e os seus serviços quer aos industriais quer às pessoas em casa. A EDP gosta de concorrência.
Pode chegar-se à conclusão que as tarifas eram mais baixas no mercado regulado?
Quando temos concorrência, obriga a quem está no mercado, e que já não está sozinho, a descer as suas margens. Não se pode é confundir com tempos em que o preço da energia era controlado, quando foi criado o défice tarifário. Hoje as pessoas gastam mais ou menos metade em energia do que gastam em telecomunicações, e muito menos do que gastam em transportes. E eu gostaria que se discutisse também a habitação. Hoje em dia, o que Portugal gasta em habitação é 10 vezes menos do que gasta a média da Europa. O problema do aquecimento não tem a ver com o preço da eletricidade, que aliás, em Portugal está alinhado com a Europa. O problema é que as pessoas vivem em casas que algumas delas são inaceitáveis. Que não se use este sector como bode expiatório.

A Deco acusou a EDP Comercial e outros três operadores de cobrarem indevidamente a taxa de ocupação do subsolo, 10 milhões de euros a mais desde janeiro. Concorda?
Isso não é verdade. Quando se dá uma concessão, seja à EDP seja a quer for, dá em determinadas condições. Não chega a meio do jogo e se diz “agora furo a bola ou a tua baliza agora passa a ter mais um metro do que a outra”. O Estado deu concessões, e fê-lo do ponto de vista concorrencial. Há outros países onde elas são eternas, mas em Portugal não são.

O que diz a Deco é que o custo passaria para as empresas em janeiro, não para os particulares…
A questão essencial é a seguinte: quando altera a regra do jogo, as companhias teriam de ter um custo que altera completamente o equilíbrio financeiro do concessionário, que foi estabelecido pelo próprio Estado. Isto é a mesma coisa que alguém que começa um jogo, faz as regras, e depois diz que “afinal a bola entrou aí mas era para passar por cima da trave”. Isto tem a ver com regras que foram fixadas no momento em que o jogo foi definido. Não me quero alongar sobre isso, mas as companhias cumprirão sempre a lei, veremos depois o que isso implica do ponto de vista do equilíbrio das concessionárias. As companhias todas, não só da EDP, cumprem a lei.
Esta lei não entrava em vigor a 1 de janeiro?
Tem a ver com interpretações. As leis são claras, mas aparentemente podem ser interpretadas. A única coisa que estou a dizer é que a lei é suficientemente clara sobre aquilo que são as regras sobre as quais as concessões foram feitas. Iremos sempre cumprir a lei. Tenho o maior respeito pela Deco, mas a Deco não é o sítio certo para avaliar leis.
O Governo deu dois meses à EDP e à REN para entregarem ao Estado dados sobre os consumidores de energia. Porque é que a EDP tem resistido a isto?
Não, isso não é verdade, a EDP não resistiu. A liberalização em Portugal não poderia ter sido tão rápida se essa disponibilização dos dados não fosse feita. A estatística joga claramente a favor daquilo que é a total transparência. Gostava que todas as liberalizações corressem tão bem como correu a eletricidade. Acho que a eletricidade é um exemplo do ponto de vista da disponibilização de dados para a liberalização. A criação do operador logístico: tranquilo; os consumidores têm mais escolhas: fantástico.

Na economia portuguesa, falta sobretudo investimento?
Temos sido o maior investidor em Portugal. O país só consegue crescer se houver mais investimento. O principal problema que Portugal teve nos últimos tempos foi o sistema financeiro. Havia primeiro que resolver coisas que não permitem sequer que os investidores olhassem para Portugal.
E está a ser bem resolvido?
A questão essencial é resolver. A capitalização do BCP foi importante, aliás o Fundo de Pensões da EDP esteve envolvido como principal acionista português. A resolução do Novo Banco é importante, tal como a do Banif. Logo, é preciso que não haja nenhum problema por aí.

O que interessa é ter solução?
Nos roadshows, durante o ano de 2012, passava 70% a 80% do tempo a falar dos problemas de Portugal. Esse tempo caiu a pique. O primeiro tópico era o sistema financeiro, associado à disciplina orçamental e controlo do défice.
O tema da geringonça não surgia nessas conversas?
Obviamente houve sempre interesse em saber como funcionava.

E tem funcionado bem?
Estando aqui em Nova Iorque, a falar de soluções para o mundo, não me apetece falar de eficiência política. Já fiz um ano de vida política, gostei imenso e aprendi com essa experiência. Acho que as pessoas criticam com demasiada facilidade os políticos, era bom que lá estivessem para perceber aquilo que é a dificuldade do exercício dessa função. É claro que este governo tem conseguido encontrar soluções para aquilo que são algumas das restrições, nomeadamente no equilíbrio do défice governamental. Não concordo com todas as escolhas, faria outras diferentes, com certeza.
Quando vê caírem nomes como Bava, Salgado, Granadeiro, o que lhe provocam estas notícias?
São casos que, claramente, não deviam ter acontecido. Nenhum destes casos polémicos deveriam ter acontecido, e, com certeza, que seríamos um país melhor se não estivéssemos a lidar com eles. Isso é absolutamente óbvio.
Está desiludido com esses gestores? E com Salgado?
Sabe que felizmente guardo os meus estados de alma para aquilo que é essencial. Não me verá falar daquilo que é a vida dos outros. Gostaria que toda a gente fizesse um bocadinho mais isso, assumir a sua responsabilidade e dar contributos pela positiva, que é mais uma vez o que estamos a discutir aqui em Nova Iorque, e a falar de realidades das pessoas que têm efetivamente de mudar, de melhorar condições de vida. E não é só depois dizer: “Ah, aquele ganha não sei quanto!”
Ainda bem que puxou o assunto: desde que iniciámos a entrevista terá ganho o equivalente a um salário mínimo. Já está imune às críticas que fazem ao seu salário?
Acontecem sobretudo quando conjugo o salário com prémio anual, quando se atingem os objetivos, que poderiam estar ou não estar lá. Têm estado lá, porque a companhia tem ultrapassado os objetivos. Isso diz respeito exclusivamente aos acionistas. A EDP é uma empresa privada, não tem que ver com mais nada a não ser com os acionistas.

O Bloco de Esquerda quer interferir nos salários do privado.… No momento em que se quiser controlar aquilo que é a capacidade da iniciativa privada em Portugal, e interferir nisso, só tem um destino: é a pobreza.
Está há 11 anos na EDP. Tem algum prazo na cabeça para sair?
Sou escolhido pelos acionistas e estas questões dizem só respeito aos acionistas. Dificilmente estaria aqui a aceitar este cargo no SE For All se não tivesse uma previsibilidade mínima de ficar pelo menos mais três anos. Sou também presidente das elétricas europeias onde Portugal está pela primeira vez, e pela primeira vez está uma empresa mais pequena do que as outras europeias. A EDP foi o projeto de que mais gostei na minha vida, até hoje. Também disse isso de todos os que ia fazendo na vida, mas esta é a verdade. Tenho uma equipa fantástica e estar em 14 países, a trabalhar com 41 nacionalidades, permite-nos ter esta visibilidade, chegar a esta reputação mantém-nos o entusiasmo. Mas os acionistas é que decidem e estou sempre disponível.
Como é que tem sido a sua relação com os acionistas chineses?
Aprendemos todos mutuamente e é isso que quero na vida. Acho que é uma relação muito positiva.
O que gostaria de fazer a seguir?
Entre a área da saúde e a da cultura, seriam duas coisas que gostaria de fazer, mas quando já tiver muito mais anos.

Então e a política? Jamais? Gostei imenso, mas chega.

Mas é daqueles que nunca diz nunca?
Chega.

 

– A jornalista viajou a convite da EDP

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