Vítor Neto. “2020 é o pior ano turístico a nível mundial e nacional desde 1950”

Não podemos ter batalhões de desempregados, temos de dar perspetivas às pessoas, defende o antigo secretário de Estado do Turismo.

Na semana em que a imprensa admitia que Portugal poderia voltar a ficar fora do corredor aéreo para o Reino Unido, algo que não se confirmou, Vítor Neto, quando essa perspetiva ainda pairava admitia que Londres pudesse estar a fazer uma “gestão política”.

O verão de 2020 aproxima-se do fim. Ao contrário de outros anos, o número de turistas a visitar Portugal deverá ficar abaixo dos últimos anos, tendo reflexos na situação das empresas, no emprego e no PIB.

Como é que define 2020 para o turismo?

O ano de 2020 é o pior ano turístico a nível mundial e nacional desde 1950, quando a Organização Mundial de Turismo começou a publicar estatísticas sobre turismo.

Para o turismo em Portugal, qual é o principal problema?

Para perspetivarmos uma estratégia de resposta à atual situação temos de, em primeiro lugar, ter consciência da natureza desta crise. Se não o fizermos podemos estar a alimentar ilusões, a caminhar na ilusão do dia-a-dia. A última crise, e que atingiu o turismo, foi a de 2008-2010, tinha uma causa muito específica; era uma causa financeira e não foi tão global . Qual foi a quebra do turismo nesse período?! Foi uma quebra na ordem dos 4%, o que não tem nada que ver com esta, que é de 10 vezes mais; uma quebra de 40 milhões de turistas a nível mundial. Essa é a primeira questão: esta crise tem uma natureza diferente e provocou uma resposta muito incerta. É uma pandemia.

Além disso, isto começou de uma forma em que houve a ilusão de que se poderia passar para o País do lado; em cada País o problema não foi resolvido e foi se ampliando. Depois tivemos um problema mais próximo de nós: a União Europeia que, há poucas semanas, fez um comunicado a aconselhar os países-membros a meterem-se de acordo sobre as medidas de quarentena que diziam respeito de um País para o outro; para uma questão destas não consegue, não tem força política, para conseguir criar um consenso entre os vários países para medidas de conjunto de resposta à pandemia; o que é que seria?! Seriam medidas globais e medidas pontuais. Temos um outro país, o Reino Unido, que está para sair daqui a uns meses que, não só tomou uma posição anti-UE, como autónoma e controversa. Tudo isto dificulta a resposta à crise.

A crise teve consequências em todos os setores da economia e sobretudo, e de uma forma mais violenta e dura, no turismo porque estamos a falar de 1500 milhões de turistas internacionais que, de repente, se viram impedidos de se movimentar. Além disso, temos a crise que isto provocou no transporte aéreo. Sem oferta não há turismo, mas sem transporte aéreo também não. Não há respostas individuais. Portugal tem uma boa posição no turismo internacional. É o 17º destino em termos de receção de turistas estrangeiros e o 20º em termos de receitas externas do turismo. É muito bom para um país com a dimensão de Portugal. Não vejo uma solução só para Portugal.

Portugal pode fazer a melhor promoção que quiser, pode publicar em todos os sites que tem prémios de turismo, pode dar os dados da pandemia, pode tentar diversificar mercados. Podemos fazer isso tudo mas, ao mesmo tempo, não conseguimos sozinhos alterar esta dinâmica negativa que o turismo tem neste momento. O turismo irá recuperar no seu conjunto; Portugal irá recuperar juntamente, com uma velocidade que não podemos ainda determinar porque não sabemos onde termina esta fase da pandemia e, portanto, temos de estar preparados para tudo. E esse é que é a estratégia.

As empresas de turismo estão preparadas?

Não estão preparadas. Quando se fala de turismo fala-se muito de hotéis e restaurantes. Mas não é só isso. Recebemos 22 milhões de turistas estrangeiros, além do turismo nacional. Mas os 22 milhões de turistas estrangeiros não estão fechados nos hotéis. Consomem nos hotéis, mas também fora bens e serviços, que são fornecidos pela economia portuguesa. O que é que aconteceu este ano?! Segundo o INE, mais de 30% das unidades de alojamento não abriram, nem vão reabrir na época baixa. Uma parte das que reabriram, mesmo no Algarve, não vão dar continuidade na época baixa. Temos vários níveis de empresas.

A problemática dos grupos mais importantes é extremamente complexa porque tinham investimentos preparados para fazer mais hotéis, e evidentemente com encargos financeiros, pelo que muitos deles já anunciaram que iam suspender esses investimentos. Os ativos não estão a funcionar, portanto não têm rentabilidade para fazer frente às responsabilidades financeiras e de pessoal que têm. Ao nível das médias empresas, o número é muito pequeno nesta área da hotelaria mas já tem uma problemática do tipo de qualquer empresa de qualquer setor do País. E as microempresas também. Aí é que é importante que o governo possa criar mecanismos de apoio tendo em conta estes diferentes níveis de situação. Não pode criar medidas genéricas que possam servir para uma microempresa e uma média.

As linhas de crédito do Turismo de Portugal não servem uma parte dessas necessidades?

Essas linhas de crédito que foram criadas para as microempresas servem, foram importantes, e têm um papel ativo. Têm de ser continuadas. Depois, nas médias empresas, já há digamos problemáticas diferentes porque as empresas têm maiores responsabilidades financeiras. Têm viabilidade mas têm responsabilidades financeiras. Aí também tem de haver uma ajuda, um apoio que lhes permita ter continuidade. Seria muito mau para o nosso País que empresas que tenham viabilidade por uma dificuldade momentânea não possam sobreviver porque isso gera riqueza e emprego. Depois temos um conjunto de empresas em todos os setores que já estavam doentes, com grandes dificuldades, e que têm dificuldade em manter-se e mesmo as ajudas poderão servir só como uma aspirina.

Com o verão a acabar, o que é que vai acontecer aos trabalhadores?

É um problema gravíssimo porque a economia existe para produzir riqueza, bem-estar e capacidade de consumo e poder de compra para as pessoas. Não há uma economia sem trabalhadores, seja em que setor for. Este é um setor que cresceu muito nos últimos anos e que tem diferentes níveis de emprego. Tem um emprego altamente qualificado em certos setores, como na gestão da hotelaria. Temos também na restauração - as Escolas do Turismo geraram milhares de quadros altamente qualificados; E depois temos setores que são diferentes e que dependem muito da sazonalidade. Temos preocupações de diferentes níveis.

Quando estive no governo, há muitos anos, criei um programa que se chamava Mais Algarve. Qual era o objetivo? Em vez de o Estado estar a pagar o fundo de desemprego aos trabalhadores que iriam ser despedidos, o Estado contribui com esse mesmo valor para que os trabalhadores continuassem na empresa e, ao mesmo tempo, a fazer formação profissional. Pode haver soluções destas. Em outros setores, os mecanismos normais do desemprego.

Consegue perceber quantas pessoas podem deixar de trabalhar no turismo?

Não consigo. Não quero dar esse palpite. Mas milhares. Algumas empresas vão fechar, não vão sobreviver. Isto vai ter consequências no emprego e aí tem de haver várias respostas. Há as respostas tradicionais do Estado, mas pode haver outras articuladas, em que o Estado em vez de gastar para a pessoa não trabalhar, com os mesmos recursos possa contribuir para uma melhoria profissional que valoriza o trabalhador. Apostava muito nessa ideia. Não podemos ter batalhões de desempregados, temos de dar perspetivas às pessoas, aos que estão a trabalhar e sobretudo aos jovens, que ainda por cima agora têm uma dificuldade: imigrar não significa que nos países haja emprego.

Se Portugal vier a ser excluído do corredor aéreo, o que é que isso vai significar para o turismo?

O maior mercado emissor para Portugal é o Reino Unido. Representa 40% da procura, no caso do Algarve é 65% das dormidas.

Houve um forte crescimento das reservas quando Portugal entrou para o corredor aéreo.

Mas um forte crescimento comparado com o quê?!

Com o período em cadeia.

Primeiro gostaria que isto não acontecesse. Há uma coisa que nos esquecemos. Há uma gestão política por parte do governo do Reino Unido. O Reino Unido é um dos países da Europa que tem o saldo negativo na sua balança de turismo. O que é que isto quer dizer? Os britânicos gastam mais no estrangeiro do que o que os turistas estrangeiros no Reino Unido; a diferença é desfavorável às contas e balanços financeiros do Reino Unido. O valor é de 20 mil milhões de euros. O Reino Unido sabe que era bom que estes 20 mil milhões de euros não existissem e isso só acontece se os cidadãos britânicos não forem ao estrangeiro. O 'vá para fora, cá dentro', pensamos que fomos nós que inventámos, mas não. Isto está em todos os países. Muita da ação do governo britânico tem em conta isto, que os britânicos não saiam do país. Sabe qual é o outro país que tem também um saldo negativo? A Alemanha. São 45 mil milhões de saldo negativo. Não há aqui inocência. O Reino Unido ao obrigar a fazer quarentena alguns países, tem de colocar outros para mostrar que é isento e que toma posição em relação a todos.

Entende a posição do MNE quando dizia que não entendia os critérios que excluíam Portugal?

É uma matéria que gostaria de discutir daqui a uns meses. Penso que a ação política neste caso é muito importante. Não basta as estatísticas.

Significa que o governo não fez tudo o que podia?

Não sei, mas acho que deve ter feito. Não ponho em causa isso. Já fui membro de um governo. E não tenho dados que me permitam dizer isso, mas a minha opinião é que a ação política nestes casos conta mais do que parece. Não é só os números e os testes.

O que é que está a tentar dizer o quê?

Pode não ter havido uma perceção rápida das situações. Não faço esse juízo, mas tenho a convicção que a ação política é muito importante nesta matéria, independentemente dos testes, estatísticas. Digo isto para quê? Para que façamos isso no futuro.

Há um crescimento nas reservas por parte de alemães para o Algarve, também graças a uma campanha que a Região de Turismo está a fazer. Este tipo de campanha pode ser uma ajuda e deve ser uma aposta?

Há uma coisa que temos de ter presente: não podemos desaparecer. Temos de fazer um grande esforço de presença e de afirmação da nossa oferta, da nossa qualidade e da nossa capacidade competitiva. E temos de selecionar prioridades, quais são? A Alemanha, sem dúvida . Estas ações são positivas, mas têm de ser bem selecionadas. Esse é um dos caminhos. Mostrar que o Algarve está vivo, mantém a sua qualidade dos serviços, sanitária, e que tudo a funcionar a 100%. Outra questão é que vai alterar-se estruturalmente o funcionamento do turismo.

O turismo não vai continuar a ser como era. Já passei por várias fases e temos agora uma nova situação que foi criada pela pandemia e já estamos a ver as low cost em crise, temos as grandes companhias a precisarem de ajudas de Estado. Portanto, vai haver alteração no transporte aéreo, como houve na década anterior, mas não sei se esta alteração será positiva em relação ao turismo, isto é, mais oferta e preços competitivos. Vai haver uma nova abordagem em relação ao alojamento.

O turismo nacional concorre com alguns mercados como Espanha, Grécia e Itália. Quando houver uma retoma, quem vai ser o principal concorrente e o que é que se pode fazer para se destacar?

O turismo português não cresceu em relação aos outros mercados concorrentes pelo preço. Cresceu pela afirmação de uma imagem e de qualidade. Já não grande diferença de preço em relação a alguns mercados concorrentes.

O que vai acontecer é que para a reconquista da retoma, os nossos concorrentes vão ser muito agressivos porque têm uma oferta monstruosa digamos, uma oferta de alojamento e destinos grande e isso é muito atrativo também para as companhias aéreas. Aí podemos ter uma dificuldade porque não podemos competir. Por isso, temos de reafirmar a nossa diferença, a nossa qualidade e a nossa capacidade de dizer: ‘Portugal é interessante, e apesar de poder ser mais caro aqui ou ali, vale a pena’. Essa é que é a nossa posição. E temos de estar muito atentos a isso porque a tentação de ir atrás do preço é grande mas é perigosíssima.

Não podemos concorrer com base no preço mas na qualidade.

Sim, e na diferença. A Espanha recebe mais de 80 milhões de turistas, nós mais de 20 milhões. Como é que vamos concorrer?! A Espanha recebe 20 milhões de ingleses. Portugal recebe mais de 3 milhões. E isso vai determinar a oferta, os hotéis têm o dobro dos quartos, os custos diminuem. Quando falamos de Portugal e de Espanha temos sempre de pensar na dimensão.

Mas a Grécia tem uma parte do território espalhado.

A Grécia é mais parecida connosco. Até temos dados muito similares em termos de receitas e números de turistas. Mas todas estas diferenças existem e penso que o melhor é apostarmos na qualidade da nossa oferta, na sua diversidade, na sua atualização em relação à procura e em relação ao que a procura quer. Temos algumas vantagens como o facto de termos instituições de turismo fortes. O Turismo de Portugal tem um conhecimento histórico do turismo, uma experiência acumulada extraordinária.

Como é que vê a situação da TAP?

A situação da TAP é extremamente complexa. Vejo com preocupação. O transporte aéreo é um setor extremamente complexo. A cultura de transporte aéreo internacional não é fácil. Aliás, só por motivos de turismo são transportados 250 milhões de passageiros a nível mundial e portanto tem de se ter cuidado. As outras grandes companhias europeias de bandeiras estão em crise, e com mais três zeros que nós, têm maior. A TAP é um problema muito delicado e espero que com bom senso e inteligência se consiga ultrapassar estas dificuldades. O País precisa da TAP.

Vê com bons olhos a ajuda à TAP?

Vejo com bons olhos a ajuda de Estado à TAP mas devo, como ressalva, dizer que vejo com preocupação as dificuldades que o Estado possa ter para, neste momento, repor um caminho para a TAP.

Desde o recomeço das operações por parte das grandes companhias aéreas, a TAP desceu algumas posições nos aeroportos nacionais. A TAP vai conseguir retomar a sua posição nos aeroportos nacionais?

A TAP é uma companhia sui generis como todas e tem dois hubs importantes - Lisboa e o Porto - porque conjugam três situações: a relação com as Américas, com a Europa - não só de turismo mas também de imigração - e o Porto tem ainda a questão da Galiza. O Algarve está mais longe disso. Lisboa e o Porto têm mais uma componente de passageiros nacionais forte, o Algarve não. Quando se fala de turistas ingleses fala-se muito do Algarve, do peso que têm, mas quando se fala de turistas brasileiros e americanos é para Lisboa e Porto.

Isso que quer dizer que recuperação da TAP vai depender muito desses turistas?

Vai e não são situações fáceis. Há países que não recebem pessoas do Brasil e dos EUA e isso tem consequências no transporte aéreo. Esperemos que se altere a posição no Brasil e nas Américas porque isso é uma fonte muito importante para a TAP, e é estratégica.

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