Yo-Yo Ma: "Vão para o fuso horário mais próximo e levem o que vos faz falta"

The Music of Strangers”, um documentário sobre o Silk Road Ensemble, o grupo que formou em 2000, será lançado este mês.

Yo-Yo Ma era, aos 30 anos, considerado um dos melhores violoncelistas clássicos do mundo, tanto em palco como em estúdio. Depois expandiu-se — bluegrass, tango, jazz e outros géneros, além de projetos com realizadores de cinema, artistas e designers. “The Music of Strangers”, um documentário sobre o Silk Road Ensemble, o grupo que formou em 2000 para apresentar compositores e intérpretes de todo o mundo, será lançado este mês.

Qual é o aspeto fundamental para uma colaboração proveitosa, especialmente entre culturas ou disciplinas?

Muito simples: gestão do ego. É muito fácil ficar fechado “no meu mundo”, ou no “é assim que eu vejo as coisas”, pelo que é preciso mudar o nosso cérebro para um tempo ou estrutura diferentes. Se uma pessoa tiver nove anos e for subitamente colocada num ambiente diferente, sim, a pessoa faz comparações, mas a sua mente ainda está numa espécie de estádio de “esponja”, não de crítica. É a absorção, em vez do pensamento crítico. Eu aprendi a dizer, “Talvez haja duas opiniões. Se pensas de uma maneira diferente da minha, vou colocar-me na tua posição e ver o que, de acordo contigo, pode resultar bem, e em seguida tu fazes o mesmo comigo. Depois de fazermos isso, as nossas mentes estão mais abertas. Já conhecemos duas soluções e muitas vezes encontramos uma terceira, em que as duas verdades podem viver juntas.

Como escolhe os colaboradores?

Em primeiro lugar, procuro generosidade; em segundo, respeito mútuo e admiração. Podes fazer uma coisa incrivelmente bem mas, se fores um idiota, se eu achar que não vamos gostar de jantar juntos, a decisão não é difícil. O que me agrada muito no Silk Road é que nunca tivemos uma audição. A primeira vez que nos juntámos, desafiámos músicos para tocarem entre uma semana e dez dias no Tanglewood Music Festival. Não tínhamos dinheiro, por isso as pessoas que vieram foram generosas com o seu tempo e aventureiras — estavam dispostas a correr um risco. A maioria delas continuam a ser membros. Foi uma pré-seleção de pessoas com certas qualidades.

Porque corre tantos riscos?

Não tenho a certeza se aquilo que faço é anormal para um músico. Bobby McFerrin, o homem orquestra e improvisador, perguntou-me uma vez, “Que andas a fazer de interessante?” O que está implícito nessa pergunta é que podemos fazer muitas coisas que não são interessantes. Toda a grande música é resultado de invenções bem-sucedidas. Vamos na direção de algo que consideramos valioso. Há riscos envolvidos, mas aceitamo-los bem. Parte de ser músico é reportarmos as nossas experiências. Se limitarmos essas experiências deliberadamente, o que criamos fica limitado.

Yo-Yo Ma, em 2001. Fotografia: (AP Photo/Anat Givon Yo-Yo Ma, em 2001. Fotografia: AP Photo/Anat Givon

Decidiu estudar em Harvard e não num Conservatório. Porquê?

De certa forma, fiz ambas as coisas, porque acabei a escola secundária cedo e estive em Julliard e em Columbia por algum tempo. Mas precisava de crescer em algum sítio. Sabia que era demasiado jovem para sair para o mundo. Sabia que sabia muito pouco. E esses quatro anos em Harvard foram dos mais influentes em termos de me expor a muitos campos do conhecimento e a pessoas da minha idade que eram, pelo menos, tão apaixonadas pelo que estavam a fazer como eu pelo que fazia. Arqueologia e Antropologia eram as minhas cadeiras favoritas. Ajudaram-me a examinar todas as culturas que eu vivenciava através das viagens e a dar-lhes algum contexto. Além disso, aprendi a disciplina académica. A intuição pode conduzir-nos a conclusões muito rápidas enquanto músicos, mas depois temos de as testar. Estamos sempre a tentar usar ambos os lados do cérebro. Saí da universidade a pensar: “Sei um bocadinho acerca de tocar um instrumento”. E tinha fome e curiosidade, e ainda me sinto assim.

Estava na televisão nacional com cinco anos. Como lidou com a fama enquanto criança?

É fantástico ter atenção, mas não de toda a gente nem o tempo todo. Quando falo com jovens extremamente talentosos, digo-lhes, “Quando és excelente numa coisa, queres continuar a fazê-la, mas ao fim de algum tempo, simplesmente, deixa de funcionar. O que é especial quando tens sete anos já não é especial aos trinta. Quando eu era pequeno, as pessoas diziam-me coisas que eu desejava que não tivessem dito: “Oh, tu tens um talento, tu és um génio”. É perigoso, porque isso pode dominar as decisões que tomas em relação a ti mesmo. Eu queria determinar quem eu era. A melhor abordagem é ter uma confiança saudável mas também autoconhecimento para perguntar, “O que é que faço bem e o que é que não faço?”, para que possamos ser os arquitetos das nossas próprias vidas.

Foi necessária muita prática além do seu talento natural?

O que me permitiu praticar muito pouco foi uma excelente formação muito cedo. O meu pai deu-me uma base incrível. Eu conseguia ler partituras sem ir para o piano. Sabia como dividir problemas em incrementos cada vez menores, de modo a conseguir resolver a maior parte dos que eram técnicos e preocupar-me com outras coisas. Sabe, há muitas maneiras de praticar. Uma é apenas a música a fluir na nossa cabeça. Outra é resolver problemas sem o instrumento. Uma terceira é estar taticamente envolvido em engendrar uma solução, traduzi-la para som físico no espaço físico da maneira mais eficiente, movendo os dedos, braços e corpo para extrair o que está na nossa cabeça. Esse género de prática é muito compensadora. Não é prática de emergência. É mais como: informação que se torna conhecimento que se torna amor. A concretização final é dizer “Amo isto verdadeiramente e tenho mestria suficiente para poder partilhar este amor com outras pessoas”.

Como se prepara para entrar em palco?

Com a idade, de muitas maneiras diferentes. Quando somos jovens, se encontrarmos uma forma de fazer alguma coisa, tentamos repeti-la. Mas todos sabemos, especialmente se formos viajantes, que as coisas nem sempre correm como queremos. Então, para ser bem-sucedido, é preciso aceitar o inesperado. Podemos ter uma rotina e dizer, “Preciso de silêncio”, mas depois acontecem dez coisas e não temos silêncio. Entramos em pânico, ficamos ressentidos e fazemos uma má atuação? Ou dizemos, “Bem, não esperava isto, mas vou gostar de experimentar de uma maneira diferente?”

Em que pensa quando atua?

Temos uma responsabilidade, primeiro, de saber qual é a narrativa e garantir que estamos a contar a história e que as pessoas estão a recebê-la; segundo, se alguma coisa impedir a narrativa, temos de resolver o problema. É o mais importante e o nano momento, e ambos têm de estar sempre na nossa cabeça. O principal objetivo é ser memorável. Se no dia seguinte as pessoas da audiência perguntarem umas às outras, “Que fizemos ontem à noite?” é o fracasso completo.

Ao longo de décadas de digressão e de 90 álbuns, como é que as suas atuações são, consistentemente, de tão alto nível? Como é que evitou o “burnout”?

Reformulando os objetivos. Quando tinha 20 anos, ir a cidades, países, culturas pela primeira vez, era excitante e inesquecível. A Úmbria, as Cotswolds, a Lapónia — era tudo muito emocionante. Aos 30, eu já tinha família, filhos. Se tivesse de sair de casa, não podia ser só para os sustentar. Há outras maneiras de o fazer sem estar ausente 67% do tempo. Então, temos de encontrar sentido nas coisas. Comecei a ensinar em Tanglewood e isso foi uma verdadeira renovação. Aos 40, depois de o Bobby

me perguntar, “O que andas a fazer de interessante?”, eu quis perceber isso. Sendo imigrante, comecei a pensar, “O que é a alma dos Estados Unidos?” Então pedi a dezenas de compositores que escrevessem peças e fiz muitas gravações. Também fui para o deserto do Calaári e fiz um documentário sobre os Bosquímanos. E depois voltei ao básico: as suítes de Bach. Passei vários anos com seis realizadores e seis artistas trabalhando cada uma, aprofundando nesse processo a minha relação com o compositor e aprendendo sobre diversas formas de arte. Depois, surgiu o Silk Road. Começámos como residentes na Rhode Island School of Design e em Harvard, e agora crescemos e sabemos melhor quais são os nossos valores. Agora, aos 60 anos, com a Harvard, e a Ford Foundation, estou centrado no empreendedorismo cultural. A grande vantagem de ter 60 anos é que sempre que dizemos algo sem sentido, as pessoas dizem, “OK, não faz mal”, mas quando dizemos algo que faz um pouco de sentido, dizem, “Caramba, isto é incrível!” Assim, temos uma grande audácia. Posso dizer que acho que todas as instituições culturais deviam pensar no impacto social e ninguém leva a mal.

Vê-se como um líder — seja ao nível micro, com os Silk Road Ensemble, ou a um nível mais macro, em termos da indústria musical?

Apenas me vejo como um ser humano a tentar fazer a sua parte. Gosto de partilhar o que sei, de trabalhar com pessoas e de fazer parte de um movimento nas artes e nas ciências, nas humanidades e na tecnologia, que usa as grandes ideias e invenções para resolver problemas sociais muito complicados. Mas não me vejo tanto como um líder. Não gosto de estabelecer ditames.

É conhecido pela sua atitude alegre e otimista. Isso é inato, ou foi algo que desenvolveu?

Pode ser um bocadinho inato, mas o otimismo é, definitivamente, uma escolha, porque é muito fácil ser pessimista e cínico — é só ler os jornais. Ao princípio de cada viagem, deixar a mulher e os filhos pequenos em casa, era angustiante. Mas, ou ficamos assim o tempo todo ou começamos a procurar o lado bom das coisas. A tendência é sentirmo-nos incrivelmente culpados, mas tento que isso não me aconteça. Em vez disso, reconheço e aprecio o que toda a gente fez para tornar as coisas possíveis.

Tendo passado décadas em digressão pelo mundo, tem algumas sugestões de viagem para os nossos leitores?

Não se preocupem com as coisas que não podem controlar. Quando ocorrem os inevitáveis atrasos, quando algo de horrível acontece, não cedam às emoções e façam o que é correto. Vão sempre para o fuso horário mais próximo e levem tudo o que vos faz falta.

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