Associações pedem mais apoios públicos à mobilidade sustentável

ACAP e UVE congratulam o Governo pelo aumento do incentivo à aquisição de veículos de baixas emissões, que subiu para 4 mil euros, mas garantem ser insuficiente para que o país cumpra as metas ambientais para 2030. No programa Barómetro Automóvel, os responsáveis avisam que criação de apoio ao abate é fundamental.

A progressiva deterioração da saúde do planeta, aliada aos compromissos ambientais que Portugal assumiu perante a Comissão Europeia, exige que o país tome medidas para reduzir os níveis de poluição e aumente o número de veículos de baixas emissões que circulam nas estradas nacionais. Para isso, porém, será importante que o Governo reforce os apoios à aquisição de viaturas elétricas, mas sobretudo que recupere o incentivo ao abate automóvel. "O Orçamento do Estado 2022 (OE) foi uma oportunidade perdida, porque consideramos que deveria haver um apoio à renovação do parque automóvel", lamentou Hélder Pedro, presidente da ACAP (Associação Automóvel de Portugal), durante o último episódio do programa Barómetro Automóvel, uma iniciativa TSF/Dinheiro Vivo com apoio do Standvirtual.

Henrique Sanches, presidente da UVE (Associação dos Utilizadores de Veículos Elétricos), concorda que o OE para 2022 "deveria ter sido mais ambicioso", mas faz questão de assinalar o aumento do montante destinado, através do Fundo Ambiental, a apoiar a compra de automóveis elétricos. Até ao início do ano, os consumidores particulares tinham direito a um incentivo de 3 mil euros, que sobe agora para 4 mil euros - em simultâneo, a dotação orçamental mais do que duplicou de 4,5 milhões para 10 milhões de euros em 2022. Já os valores para a aquisição de um ligeiro elétrico de mercadorias está agora nos 6 mil euros. "É evidente que é pouco, precisamos de mais", aponta. Ainda assim, o responsável celebra a continuação de apoios à compra de outros veículos de mobilidade suave e sustentável, como as bicicletas convencionais e elétricas, assim como o alargamento do programa à instalação de carregadores elétricos domésticos.

"O programa de abate é uma necessidade para uma substituição mais acelerada do parque circulante", afirma Nuno Castel-Branco, diretor-geral do Standvirtual. Ao contrário de outros países, como Espanha ou Itália, Portugal não dispõe de um incentivo ao abate de automóveis mais antigos e, por consequência, mais poluidores. "Os veículos que vão para abate têm uma idade cada vez mais avançada. Tinham 16 anos de idade média há cinco anos e agora 23 anos", diz Hélder Pedro, que aponta para a existência de 1,5 milhões de veículos com mais de 20 anos nas estradas. Henrique Sanches recorda que a UVE propôs ao anterior governo um incentivo que fosse "majorado em função do número de anos do veículo", mas que não foi aceite.

Já a ACAP revela que manteve conversações com o anterior executivo no mesmo sentido e que chegou a participar na elaboração de um plano para a renovação de veículos. "Estivemos muito próximos de conseguir. Tinha uma designação, que era o programa Apoiar Mais Verde", confirma Hélder Pedro. O programa não avançou por "falta de verba do Fundo Ambiental". Recorde-se que, no âmbito europeu, a meta para a redução das emissões de CO2 acordada para 2030 é de 55%.

Desmistificar para acelerar

Entre os principais obstáculos considerados pelos consumidores para a compra de um elétrico está a autonomia. Nuno Castel-Branco afirma, contudo, que este é um sinal de que o mercado deve continuar a apostar na formação e informação sobre o funcionamento dos veículos elétricos, para desmistificar esta ideia. "A lógica de utilização de um carro elétrico é muito parecida com a do telemóvel, é uma lógica de always on (sempre ligado, em português)", defende. Isto implica que os condutores aproveitem todos os momentos - como uma ida às compras, ao cinema ou o tempo em que estão no trabalho - para carregar o automóvel.

"Já fui com o meu carro elétrico à Noruega, à Escócia, a Marrocos... Tenho associados na UVE que já fizeram viagens de 16 mil quilómetros seguidos", diz Henrique Sanches, que é utilizador desde 2011. O responsável vê na rede pública de carregamento um dos maiores obstáculos à aceleração da transição para a mobilidade sustentável, embora Portugal esteja "em quarto lugar na União Europeia" no número de carregadores disponíveis. Neste campo, ambas as associações consideram que o Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) devia ter ido mais longe no apoio à mobilidade sustentável, que, contudo, prevê investimentos em transportes públicos e em estações de carregamento com multicarregadores a instalar pela Mobi.e. Por outro lado, acrescenta Hélder Pedro, o reforço da utilização de energias renováveis em Portugal é essencial para garantir "uma total eficácia" e maior "rentabilização da mobilidade elétrica". Aliás, o presidente da ACAP adianta que a associação que representa tem na sua sede, há cerca de três anos, um sistema de painéis fotovoltaicos e de baterias de automóveis usadas para a acumulação da energia elétrica gerada e não utilizada. "Reduzimos a fatura do escritório, além de termos um ponto de carregamento", exemplifica.

Medir o pulso ao setor

Apesar de se verificar "alguma normalização na vertente [das vendas] de novos", Nuno Castel-Branco revela que a tendência crescente para a compra dos elétricos mantém-se "de forma muito significativa". Porém, a ACAP alerta que as vendas ainda não recuperaram totalmente face à queda registada em 2020 e 2021, como consequência da pandemia. "Não podemos ignorar que estamos ainda 39% abaixo do período homólogo de 2019", aponta, acrescentando que a crise dos semicondutores e, mais recentemente, a guerra estão a condicionar a retoma.

Outro dado que merece destaque é o aumento do número de veículos importados no mercado nacional, que atinge agora os 60%. O problema, consideram os participantes no quarto episódio do Barómetro Automóvel, é que "nem sempre os carros importados são elétricos". "Dado que nesta vertente dos elétricos há muito poucos carros disponíveis no mercado nacional, sentimos que uma das principais tendências de procura é ir buscar veículos elétricos lá fora", conclui o diretor-geral do Standvirtual.

Todos os meses, a TSF, o Dinheiro Vivo e o Standvirtual juntam-se para um novo episódio do Barómetro Automóvel, um espaço que privilegia a análise do setor, o esclarecimento de dúvidas e o debate sobre o futuro da indústria.

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