Prazos de entrega para veículos novos continuam a sofrer com falta de componentes

Fábricas não conseguem dar resposta ao nível de encomendas e, por vezes, podem não entregar automóveis com a configuração pedida pelos clientes. Mercado dá sinais de eventual melhoria até ao final do ano, segundo o Barómetro Automóvel deste mês.

Muitos compradores em espera e poucos veículos novos disponíveis. Estes são os dois principais ingredientes de uma receita que resulta no aumento de preços de automóveis usados, que, em alguns casos, podem valer quase tanto como um novo. "Já acontece no mercado nacional. Às vezes, um seminovo vale mais do que o carro novo porque este [usado] tenho-o agora e pelo outro [novo] tenho de esperar", diz Nuno Castel-Branco. O diretor-geral do Standvirtual acredita, porém, que os dados do mercado em agosto podem indiciar uma melhoria até ao final do ano. "Acho que é expectável haver uma normalização do mercado".

Na mais recente edição do Barómetro Automóvel - uma iniciativa TSF/Dinheiro Vivo com apoio do Standvirtual -, Nuno Castel-Branco aponta que "estamos a falar de mais 42% de carros vendidos" em agosto, aproximando os números de vendas de 2022 daqueles registados no último ano. Ainda assim, o diretor-geral da Kia Portugal, João Seabra, recorda que a comparação deve ser feita com 2019 e não com 2020 ou 2021, já que "foram anos completamente atípicos". "O que é que aconteceu em agosto [para justificar o aumento das vendas]? Chegaram 12 mil carros, venderam-se 12 mil", justifica.

As perturbações na cadeia de abastecimento iniciadas com a pandemia e agravadas, desde o início do ano, com a guerra na Ucrânia continuam a dificultar a vida aos fabricantes. A escassez de componentes, como chips que são essenciais para qualquer veículo moderno, tem provocado atrasos e interrupções no fabrico que, por sua vez, aumentam o tempo de espera para quem quer comprar um carro novo. E mesmo quando é possível produzir um veículo, nem sempre a fábrica consegue garantir que este seja entregue com as características pedidas pelo comprador na encomenda.

"A verdade é que há limitações de produção que, por vezes, nos impedem de entregar o carro na definição em que foi pedido", reconhece Jorge Tomé. O diretor-geral da Peugeot Portugal diz que esta nova realidade do setor automóvel obriga "a um permanente exercício de antecipar cenários com o risco de poderem não vir a concretizar-se". João Seabra refere mesmo que, neste momento, "não há" sinais de recuperação na produção e alerta para um cenário de inversão que pode surgir nos próximos meses ou ao longo do próximo ano. "Acredito que, neste momento, se houvesse capacidade de as fábricas produzirem a 100%, já estaríamos a sentir mais oferta do que procura", afirma.

A razão prende-se, sobretudo, com a subida em flecha da inflação e do custo de vida, que pode ter efeitos negativos na procura por veículos novos, nos particulares e nas empresas.

Mobilidade mais eletrificada

Uma tendência que continua a verificar-se desde o início do ano é o aumento do peso dos elétricos e híbridos nas vendas, que representaram, em agosto, cerca de 40% do total de veículos comercializados. João Seabra acredita que Portugal é cada vez mais um país amigo da mobilidade elétrica, que oferece "carregadores rápidos" nas autoestradas e que "já é uma boa opção comprar um carro elétrico". Foi precisamente para o demonstrar que a Kia organizou recentemente uma viagem entre Oslo, na Noruega, e Lisboa com um novo modelo elétrico. "Isto prova que hoje em dia já se consegue ir rapidamente do Norte ao Sul da Europa sem grandes constrangimentos", reforça.

Além da evolução positiva da infraestrutura, o responsável sublinha que os "preços estão a aproximar-se" entre veículos elétricos e de combustão, o que favorece a transição. "Acredito que nos próximos cinco anos vamos assistir a uma inversão completa do mix de vendas. Nós, Kia, pensamos que em 2027 cerca de 90% das nossas vendas na Europa sejam de carros eletrificados", assegura. Ambição semelhante tem a Peugeot, que definiu 2030 como prazo para se tornar uma marca com "100% das vendas eletrificadas", confirma Jorge Tomé.

Questionados sobre a transformação do modelo de venda de automóveis, impulsionado por fabricantes como a Tesla, os representantes da Peugeot e da Kia defendem que a compra online ganhará espaço, mas que pouco mudará nos concessionários físicos. "As pessoas entram na loja para que se lhe explique aquele artigo que está na montra. Muitas pessoas hoje ainda preferem que seja um humano a explicar-lhes como funciona", afiança João Seabra. Nuno Castel-Branco, no entanto, defende que "vai haver transformações" que não serão iguais em todas as marcas, mas não tem dúvidas sobre a importância crescente do processo de compra, que é já essencialmente feito no digital.

Em período de incerteza relativamente à evolução do mercado e a uma eventual crise económica, a única certeza é a de que o Barómetro Automóvel continuará a analisar, todos os meses, o caminho que o setor automóvel está a tomar e que consequências terá para os consumidores.

Todos os meses, a TSF, o Dinheiro Vivo e o Standvirtual juntam-se para um novo episódio do Barómetro Automóvel, um espaço que privilegia a análise do setor, o esclarecimento de dúvidas e o debate sobre o futuro da indústria.

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