CEO do Santander Portugal espera que a 42 Lisboa traga mais emprego aos jovens na área digital

Na inauguração da escola "n.º1 do mundo" em programação esteve também o secretário de Estado para a Transição Digital

Já é oficial: a 42 Lisboa, uma escola de programação considerada disruptiva pelo seu método de ensino sem propinas, sem horários e sem professores - e que chegou a ser classificada pela plataforma de programadores CodinGame como a N.º1 do Mundo na sua área -, foi inaugurada esta segunda-feira, 26 de outubro, na capital portuguesa. Na cerimónia estiveram presentes, além de André de Aragão Azevedo, secretário de Estado para a Transição Digital, os responsáveis das várias entidades cofundadoras deste projeto de ensino, como o CEO do Santander Portugal, uma dos primeiras e principais entidades a associar-se à iniciativa, no âmbito do seu mecenato.

Em Portugal, há "um gap enorme relativamente ao que é a procura de novas skills, nomeadamente mais na área do digital, e a oferta que existe". Esta é apenas uma das razões que Pedro Castro e Almeida refere como motivação para o Santander Portugal integrar a 42 Lisboa no seu programa de mecenato na área da educação. É que, afirma o CEO do banco, há uma grande diferença entre a tipologia dos cursos do ensino superior em Portugal face ao que existe na Europa e à procura do mercado nas áreas de tecnologias e digital. "E dada essa grande diferença e o grande atraso que Portugal tem, decidimos associar-nos a este projeto", concluiu.

Referindo que esta é uma escola de comprovado sucesso, que "já está espalhada por muitos países do mundo e tem 100% de empregabilidade". Pedro Castro e Almeida admite que o interesse do seu banco na 42 Lisboa tem duas vertentes: por um lado o apoio a um projeto do ensino superior que vai ao encontro da política do Santander de investimento nas universidades; por outro, o engrossar das suas fileiras de colaboradores com competências digitais.

"2020 foi o ano em que mais contratámos pessoas nos últimos 12 anos para a área digital. E temos ido buscar a todas as universidades", disse Pedro Castro e Almeida, deixando nas entrelinhas que recrutar alunos da 42 Lisboa é uma forte possibilidade. Mas um recrutamento sem favoritismos, sublinhou: "Não preferencialmente à escola 42, não temos aqui nenhum cartão de entrada para podermos escolher".

Referindo que, em Portugal, só 50% das pessoas entre os 25 e os 64 anos terminaram o ensino secundário - um número que está muito longe dos 80% da União Europeia e 90% noutros países -, o CEO do Santander afirmou: "Um dos dramas que há em Portugal é que temos muitas pessoas com canudo e que não conseguem arranjar emprego. Portanto, é interessante, triste e desafiante ver como é que um país que tem uma percentagem de pessoas com um curso superior muito baixa, simultaneamente tem uma taxa de desemprego de jovens altíssima. . E eu espero, realmente, que a escola 42 venha também dar resposta ao que é esta situação que nós vivemos em Portugal".

Para Pedro Santa-Clara, diretor da 42 Lisboa, trazer esta escola para Portugal foi um imperativo logo desde que soube da sua existência. "Quando fomos a São Francisco e conhecemos a 42 Silicon Valley, apaixonámo-nos pelo modelo de educação e pela área, a programação, de que este país tanto precisa", disse.

"Esta é uma das melhores escolas de programação do mundo, que está já em 20 e tal países e mais de 30 cidades, e que tem tido um sucesso extraordinário", sublinho o diretor. "É uma escola gratuita, porque temos um conjunto de sponsors que a apoiam, e onde é muito inovador aprender. Aqui o tema é liberdade e responsabilidade: os alunos fazem o trabalho ao ritmo que querem, às horas que querem e depois, eventualmente, escolhem as áreas de especialização que querem", explicou.

Também o secretário de Estado para Transição Digital, André de Aragão Azevedo, elogiou a vinda para Portugal da 42 Lisboa. "É particularmente importante, desde logo porque o nosso maior défice de transição digital é ao nível das competências, portanto, tudo o que sejam contributos, como o que a escola 42 está a trazer, para o elevar das competências em áreas particularmente especializadas tem, de facto, uma enorme procura por parte do mercado de trabalho", disse.

O modelo de ensino da 42 Lisboa também mereceu reparos do responsável governativo. "Acresce que este projeto é ainda mais relevante porque ele é disruptivo, do ponto de vista da abordagem, do ponto de vista do modelo de aprendizagem e do ensino", afirmou. Aragão Azevedo considera que, sendo a área digital necessariamente mais dinâmica, vale a pena apostar em tudo o que possa contribuir para testar novos modelos.

Fazendo jus à sua pasta governativa, o secretário de Estado aproveitou para dizer que o Executivo está a fazer uma aposta muito forte na transição digital da escola, em Portugal, e que "isso passa por um investimento muito significativo, superior a 400 milhões de euros, neste primeiro ano, para transformar o paradigma de aprendizagem e de ensino na escola".

Aragão de Azevedo disse acreditar que "a transformação digital tem de ser feita em todas as disciplinas e não só numa disciplina autónoma de TIC ou de programação". Por isso, o governante defende um reforço do currículo escolar do ponto de vista de competências de programação, logo a partir das mais tenras idades.

Alunos 42 estão "a adorar"

Foi num ambiente de festa e música, com DJ convidado e muitas máscaras e distanciamento social à mistura, que decorreu esta segunda-feira a inauguração oficial da 42 Lisboa, na Penha de França. Enquanto isso, no andar de cima, a Piscina continha já os seus primeiros 150 estudantes, arduamente a trabalhar da resolução dos seus primeiros desafios de programação - que ao longo de 28 dias conferem pontos, cuja soma final ditará a sua entrada ou não no curso, em fevereiro próximo. Volvidas apenas algumas semanas na nova escola, as avaliações dos aspirantes a programadores não podiam ser mais positivas.

"A experiência, no geral, está a ser espetacular, estou a adorar", disse José Gonçalves, estudante de 20 anos, recém-admitido à 42 Lisboa. "Eu sempre gostei muito deste modelo de self-learning - quase tudo o que eu sei, em montes de áreas, foi aprendido sozinho e eu gostava que mais faculdades e mais escolas fossem assim", acrescentou.

Também Anastasiia Petrova, estudante de 17 anos, de naturalidade russa, mas a residir em Portugal "há muitos anos", classificou a experiência da 42 Lisboa como muito boa. "Estou a gostar imenso das pessoas que estão aqui, são muito simpáticas. Estou muito contente por ter vindo para cá", afirmou.

Anastasiia contou que seguiu ciências na escola, mas sempre tinha gostado de computadores e de programação. A 42 já estava no seu radar, de tal modo que Anastasii já estava decidia a ir para estudar para a escola-mãe, em Paris. "Mas este ano descobri, acho que em junho, que ia haver já cá e inscrevi-me", explicou, acrescentando que a 42 Lisboa corresponde "100%" às suas expectativas.

De tal maneira que nem se importa de estudar 10 e 12 horas por dia. "Esta semana passei cá, em média, 11 horas, portanto, estou aqui muito tempo, sim. Venho para aqui por volta das 9h e saio à meia-noite", contou Anastasiia Petrova.

Também José Gonçalves sublinha o quão intenso tem sido o trabalho na Piscina. "Passamos aqui 12 ou 13 horas por dia, mais ou menos uma média de 12 horas, portanto, não dá tempo para muito mais coisas do que isto", disse.

José Gonçalves está a estudar na área de design e é web designer freelancer, pelo que o tempo que "rouba" à 42 é "para fazer algumas coisas da faculdade ou para estar com colegas" da outra faculdade.

Tendo experiência de dois modelos diferentes de ensino superior, José está bem posicionado para comparar os dois. "A partilha de experiências aqui, para mim, é a parte que é melhor, porque eu vim para aqui a não saber nada e, ao não saber nada, tenho de perguntar muita coisa", disse o jovem estudante. É por perguntar que José vai aprendendo, coisas que depois ele ensina aos outros. "É sempre uma espécie de cadeia que se vai formando de informação e é sempre muito bom estar a interagir com toda a gente ao mesmo tempo", concluiu.

Este é, aliás, exatamente o modelo de ensino da 42 Lisboa, em que não há professores, há uma avaliação feita pelos pares de acordo com critérios pré-estabelecidos.

A dispensa de background académico ou de experiência profissional em computação, que tanto acentua a vertente inclusiva da 42 Lisboa, é outra das suas mais-valias. Para José Gonçalves, isto é "espetacular". "Aqui não interessa a área de que se é, interessa mais a pessoa que se é e a vontade que se tem de aprender", disse.

"Estou habituado a estar numa faculdade de design, em que é toda a gente mais ou menos da mesma área, o mesmo background, tudo muito parecido. Neste momento, das pessoas com quem estou a trabalhar mais, ou dos colegas que estão mais ao pé de mim, um é mesmo da área de programação, o outro tirou pastelaria, o outro Relações Internacionais... No fundo toda a gente vem de áreas diferentes e acabam por dar inputs bons à sua maneira", concluiu José Gonçalves.

O diretor da 42 Lisboa mostrou-se satisfeito com as reações que foi recebendo dos alunos. "O feedback que temos, dos alunos que estão cá há uma semana é, de facto de nos encher o coração, porque encontramos gente que diz que nunca tinha gostado da escola até ter estado aqui, que isto é como um jogo, um puzzle - estão aqui, às vezes, até às cinco da manhã, porque querem resolver o desafio do dia - e tem uma energia muito especial por isso", contou.

Mas o mais importante, como sublinhou Pedro Santa-Clara à guisa de conclusão, é que o ensino da 42 Lisboa bai bem para lá da programação. "Em última análise, o que esta escola tem, para além das competências de programação que desenvolve, é que nos ensina a aprender, a ser autónomos, a ser capazes de resolver problemas complicados, a trabalhar uns com os outros e essas, sim, são as competências mais importantes para o futuro", disse.

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